No que diz respeito aos sujeitos que buscamos encontrar durante o processo de pesquisa nos lugares de imersão mencionados em subseção anterior, apresentaremos brevemente, nesta subseção, cada participante do estudo, entendidos todos eles como atores sociais em interação que vivem a realidade de pesquisa e que contam com atributos que interessam dado o nosso objeto (MINAYO, 2014 [2004]). Nisso, alinhamo-nos a Minayo (2014 [2004], p. 389) segundo a qual,
de um lado, está o ser humano como produto de sua produção, de tal forma que as estruturas da sociedade criam seu ponto de partida; de outro, está a pessoa como um sujeito que constrói a história dentro das condições recebidas, ultrapassando as determinações e inscreve sua
significação por toda parte, em todo tempo e na ordem das coisas.
O primeiro profissional que buscamos encontrar na escola foi a professora de Língua Portuguesa37 IRZ.38. Essa professora é a nossa principal participante de pesquisa, dadas as configurações do nosso estudo e a questão de pesquisa que o orienta. A apresentação que fazemos de IRZ., bem como dos demais participantes do estudo, traz subjacente a concepção de que
A pesquisa social [extensiva à área da linguagem] trabalha com gente e com suas criações, compreendendo-os como atores sociais em relação, grupos específicos ou perspectivas, produtos e exposição de ações, no caso de documentos. Os sujeitos/objetos de investigação, primeiramente, são construídos teoricamente enquanto componentes do objeto de estudo. (MINAYO, 2014 [2004], p. 202, grifos no original)
Nesse sentido, é importante mencionar algumas especificidades acerca de IRZ. que a tornam um sujeito singular que buscamos encontrar durante o processo de pesquisa. A professora de Língua Portuguesa IRZ. tem idade de 38 anos; formou-se em Letras Português no ano de 2013, em uma universidade catarinense e conta com três anos de experiência na docência na área. Em 2015, ano em que realizamos o processo de geração de dados, IRZ. lecionava somente na escola em questão, em Caráter Temporário (ACT), atuando em oito turmas, com, em média, quarenta alunos cada qual, entre Ensino Médio e Anos Finais do Ensino Fundamental, o que culminava em uma carga horária de quarenta horas semanais.
Cabe mencionar, ainda, no que diz respeito à formação inicial de IRZ. e a sua atuação como docente na instituição, que – em resposta a interpelações pontuais nossas (APÊNDICE D) – ela informou planejar suas aulas sozinha, assim como disse não ter cursado nenhuma
37 Na próxima seção deste capítulo, detalhamos como aconteceu a escolha dos participantes de
pesquisa.
38 Por questões de ética de pesquisa, nos referimos aos participantes de pesquisa por letras
aleatórias que compõem seus nomes, contemplando troca de algumas delas. Entendemos que, desse modo, atendemos às questões éticas, mas mantemos as singularidades dos sujeitos que buscamos encontrar no processo de pesquisa. Mantemos tais letras em itálico e com ponto final para que a nomeação não seja confundida com abreviação.
disciplina acadêmica cujo enfoque tenha sido especificamente a educação para o ato de escrever na sala de aula. Registrou, também, comumente não participar de cursos de formação continuada, tendo presente a rarefação, nos últimos anos, desses cursos oferecidos pelo Estado, tanto quanto não contar com assinaturas particulares de jornais ou revistas. No que diz respeito a eventos de curta duração, tais como palestras, seminários e afins, IRZ. afirmou participar esporadicamente, compreendendo que a participação em tais eventos a auxilia em seus planejamentos educacionais. Acerca de suas preferências por leituras de textos nos diferentes gêneros do discurso, a professora mencionou suportes tomados vagamente, como gostar de ler livros e revistas.
Nosso encontro e de IRZ. como participante de pesquisa possibilitou novos encontros nossos e de outros dentre tais participantes. IRZ. era professora da turma do sétimo ano campo desta pesquisa e, a partir desses novos encontros, novos sujeitos passaram a compor o estudo, em convergência com o apontamento de Minayo (2014 [2004]) de que atores sociais importantes podem ser „descobertos‟ durante o processo de realização da pesquisa e que sua integração ao processo deve acontecer progressivamente, com a possibilidade de novas vivências, significâncias e olhares ao objeto.
Desse modo, além de IRZ., buscamos encontrar alunos da classe de sétimo ano com a qual realizamos o estudo. Tal turma continha 38 alunos matriculados, com idades entre treze e dezessete anos, que residiam em várias localidades do município de Florianópolis, bem como nos arredores da instituição. Esses alunos, em geral, provinham de classes sociais desprivilegiadas socioeconomicamente, com algumas exceções e, em sua maioria, estavam em seu primeiro ou segundo ano de matrícula na escola em questão. Conforme explicitaremos na próxima seção, ao observar as aulas desta classe, aproximamo-nos de algumas alunas; em alguns casos, tal aproximação deu-se espontaneamente, em outros deu-se por indicação de IRZ., tendo como propósito a composição do quadro de estudantes participantes deste estudo.
Quanto às estudantes participantes deste estudo, foram indicações de IRZ., a partir de solicitação nossa, na busca de compor um grupo de alunos com quem pudéssemos interagir na compreensão dos espaços para o ato de escrever em classe. Nosso propósito, ao selecionar estudantes tendo como critério a indicação docente, foi empreender uma reflexão sobre o mencionado espaço a uma educação para o ato de escrever como encontro, tendo a voz dos estudantes como contraponto para nossas interpretações na imersão no campo de pesquisa; logo, buscávamos o referendum docente em se tratando de alunos envolvidos
nas ações propostas, tidos pela professora como participantes homologados delas. Desse modo, o foco desta tese não se coloca na análise do desenvolvimento microgenético desses estudantes no ato de escrever (VYGOTSKI, 2012 [1931]), mas na sua voz e em seus materiais escolares como elementos de triangulação analítica acerca do mencionado espaço para ato de escrever. Por essa razão, não levamos a termo um traçado mais detalhado de um perfil desse grupo no que respeita a dados constitutivos de sua historicidade subjetiva.
No decorrer do processo de geração de dados, buscamos encontrar outros tantos sujeitos. Um deles foi a „segunda professora‟39 de um aluno da classe de sétimo ano campo de estudo. Assim como os alunos da classe, passamos a interagir com essa professora após o início do processo de geração de dados em razão de seu papel exercido juntamente aos alunos da turma e a convidamos a participar do estudo. A professora, aqui denominada SHL., tem idade de 51 anos; formou-se em Pedagogia no ano de 2005. Atua no magistério há dezoito anos, mas há três anos o faz como „segunda professora‟. No ano de 2015, mantinha-se somente na escola em questão, atendendo a dois alunos cujo laudo médico especificava a necessidade de atendimento personalizado40, portanto exercia suas funções em duas turmas. SHL. trabalhava contratada em Caráter Temporário, com carga horária semanal de quarenta horas. Segundo informado pela professora – também aqui, em resposta a interpelações pontuais nossas (APÊNDICE E) –, ela não tinha por hábito participar de projeto na escola, planejava suas ações em conjunto com outras colegas que trabalhavam na mesma função, não tinha participado nos últimos tempos de cursos de formação continuada ou eventos de curta duração com tais finalidades de aperfeiçoamento profissional.
Também durante o processo de pesquisa, buscamos encontrar a Orientadora Pedagógica que atuava juntamente ao Departamento de Supervisão e Orientação Pedagógica (SOE) apresentado na subseção anterior e atendia à classe de sétimo ano campo deste estudo. A profissional, aqui denominada OPS., tem 51 anos de idade e formou-se em Pedagogia por universidade catarinense, em 1993; atuava há um ano na função em que a conhecemos, com carga horária semanal de quarenta
39 A „segunda professora‟ é uma profissional que acompanha e auxilia alunos com necessidades
especiais, com laudo médico comprovado, em todas as disciplinas que o aluno cursa em seu ano de estudo.
40 A legislação em vigor que prevê tal atendimento é garantida pelo Decreto No 7.611, de 17 de
novembro de 2011, que dispõe sobre a educação especial, o atendimento educacional especializado, dentre outras providências.
horas, atendendo a dez turmas, trezentos alunos em média. Trata-se de profissional efetiva na rede, que – quando interpelada (APÊNDICE F) por nós – informou planejar suas ações, na função, ora sozinha ora com colegas. Quanto a cursos de formação continuada, OPS. participou, no ano de 2015, de um Encontro de Supervisores e do Curso Apoia, ambos promovidos pela Secretaria Estadual de Educação. Em relação a eventos de curta duração, ela informou estar participando deles desde que iniciou o trabalho no SOE, e que, em sua função anterior, não tinha oportunidade de fazê-lo.
Além dos sujeitos aqui mencionados, buscamos encontrar, também, a Coordenadora do Laboratório de Português, que foi quem nos acolheu no espaço em que realizamos muitas etapas de pesquisa. A professora, aqui denominada PLC., tem idade de 44 anos e é formada em Letras Português por uma universidade paulista, com Mestrado em andamento em universidade catarinense. Atua como docente de Língua Portuguesa há vinte anos e exerce a função de Coordenadora do Laboratório de Português há dois anos, mantendo carga horária de quarenta horas semanais. Ela informou atender, em média, a vinte alunos por dia no Laboratório e a quatorze professores, os quais lecionam Língua Portuguesa na instituição, conforme mencionamos anteriormente. Ali, PLC. era contratada em Caráter Temporário (ACT), e, quando interpelada por nós (APÊNDICE G), informou que planejava suas ações sozinha e algumas vezes com colegas, quando eram ações que demandavam sua atuação. Ela informou, ainda, participar de cursos de formação continuada específicos em algumas áreas e de eventos de curta duração, que, segundo ela, contribuem para sua prática profissional.
Tendo, então, apresentado com brevidade os sujeitos que buscamos encontrar no campo de pesquisa no decorrer do processo de geração de dados, passamos, na próxima seção, a apresentar os caminhos empreendidos durante esse processo, ou seja, os momentos em que nos foi possibilitado vivenciar a busca por esses encontros e, entendendo, conforme o faz Minayo (2014 [2004]), que a interação entre o pesquisador e os participantes de pesquisa é parte essencial do processo e que no trabalho de campo, conforme veremos a seguir, é quando o pesquisador se aproxima da realidade sobre a qual formulou sua questão de pesquisa, mas, ainda, é quando estabelece “uma interação com os „atores‟ que conformam a realidade e, assim, constrói um conhecimento empírico importantíssimo para quem faz pesquisa social” (MINAYO, 2013 [1993], p. 61, grifos no original).
2.2 CAMINHOS DE PESQUISA E INSTRUMENTOS DE