A declaração de Djalma Afonso, repetida pelo pai com entusiasmo, leva-nos a concordar com Hall (2007), quando diz que as relações identitárias globais traduzem experiências comuns, constituindo uma cultura compartilhada. Transferindo essa ideia para o universo do Samba Chula Filhos da Pitangueira, observa-se que as experiências vividas e compartilhadas pelos sambadores, dentro do grupo, permitem com que eles sejam identificados através de aspectos comuns, que se refletem no seu modo de ser e de se comportar. Nesse sentido, quando se fala na tradição do samba chula, os sambadores do grupo comungam de ideias e comportamentos muito parecidas.
Djalma Afonso, por exemplo, compartilha da ideia do pai de que o grupo deve dar continuidade à tradição do samba chula como sempre fez, ainda que encontrem dificuldades para fazê-lo. De acordo com Djalma Afonso:
A ideia da gente é a de manter viva essa tradição da chula, tá entendendo? Manter fielmente, porque quando a gente começou esse trabalho do samba chula, há mais de 40 anos aqui, o pessoal não queria participar porque achava que era coisa de velho, certo? Os mais novos não queriam fazer parte, mas a gente continuou fazendo o nosso samba chula, a não perder nossas tradições, e hoje o que a gente tem em mente é levar adiante essa cultura do samba chula, não pode se acabar, é herança de família e eu também faço parte dessa família e eu não vou deixar isso se acabar enquanto eu vida tiver63.
De maneira semelhante, Dona Lindaura, Jane Reis e Milton Primo são sambadores que se identificam e reforçam a ideia disseminada pela maioria, eles apoiam a proposta de “preservar” os valores considerados tradicionais da chula. Deni, filho de Djalma, apesar de ser um dos sambadores mais novos, já demonstra entender que faz parte do ideal do grupo, trabalhar pela manutenção da tradição:
Assim, como foi no passado, né? O avô de Zeca que tocava faleceu, ele pediu pra ele (Zeca) manter a tradição. A tradição. Vai acontecer a mesma coisa. Quando Zeca não puder mais estar presente nas apresentações, tal, ele vai pedir pra Djalma seguir a tradição e assim por diante64.
63Entrevista concedida por AFONSO, Djalma. Entrevista I [maio, 07/05/2014]. Entrevistador: Fredison
Aylandro M. Silva. São Francisco do Conde, 2014.
64Entrevista concedida por GOMES, Deni. Entrevista I [maio. 09/05/2014]. Entrevistador: Fredison
Sobre o futuro do grupo, o jovem sambador mostra-se preocupado sobre o que precisa ser feito para mantê-lo: “É necessário tá incentivando os jovens que estão no grupo a querer continuar, e os jovens que não estão podendo, chamar, chamar para que eles possam participar do grupo, entendeu? É tá ensinando a cultura do samba chula”65.
Ao ser questionado se se sente responsável pela manutenção da tradição do grupo, Deni afirma: “Com certeza, porque assim, quando os mais velhos vim a não poder mais tá tocando, dançando, vai restar a gente que é mais novo para poder suprir. Se não tiver a gente, não tem samba.”
Observa-se que a preocupação com a manutenção da tradição passa pela maioria dos sambadores. Para garanti-la, afirmam executar o samba chula sempre da mesma maneira, desde que nasceram como grupo. Nessa perspectiva, a tradição no grupo é mantida através da memória e do sentimento de pertença dos sambadores, que esforçam- se visivelmente para protegê-la de interferências externas, não permitindo, por exemplo, que instrumentos que não fazem parte do naipe tocado no samba chula sejam utilizados.
Ao contrário do que se poderia pensar sobre interferências externas, o processo de institucionalização do samba de roda - que pode ser pensado como uma dessas interferências, por ter provocado transformações diversas no universo do samba de roda do Recôncavo nos últimos anos - não apareceu como um elemento ameaçador para o grupo. No caso deles, a institucionalização corroborou para a manutenção de alguns traços identitários do grupo. Hoje, mais do que nunca, o grupo investe na valorização e reprodução da viola machete; na apresentação do samba-dança representado exclusivamente pelas mulheres, no uso de indumentárias diversas, ou seja, em diferentes aspectos que o identifica entre os demais grupos.
Como traço identitário endógeno ao grupo, também está o que caracteriza a continuidade e renovação dos componentes entre parentes e amigos próximos. Dona Lindaura66 afirma que o grupo tem sido renovado: “a gente chama primos, colegas que tão entrando agora, menininhas, pra passar pra eles, porque isso é uma coisa nata, não pode perder a raiz, porque se perder a raiz acabou”. Apensar de passar por transformações, de acordo com Djalma,
65Entrevista concedida por GOMES, Deni. Entrevista I [maio. 09/05/2014]. Entrevistador: Fredison
Aylandro M. Silva. São Francisco do Conde, 2014.
66Entrevista concedida por ROCHA, Lindaura Rocha. Entrevista I [maio, 07/05/2014]. Entrevistador:
A maioria são parentes. O principal é o mestre Zeca Afonso, meu pai; minha mãe, meus filhos, minhas tias, por aí você já tira, né, a quantidade de pessoas parentes. Sobrinhas, igual meus filhos também, desde pequenos começaram a participar, tem uma quantidade bem grande de pessoas da família67.
De acordo com Hall (2007), existem dois modos para se entender os processos que ocorrem nas identidades culturais, ambos aplicáveis ao Grupo de Samba Chula Filhos da Pitangueira. O primeiro diz respeito à “cultura compartilhada”, que fornece quadros estáveis, com poucas possibilidades de mutação e contínuos de referência e significação na sociedade. O outro diz respeito aos processos de diferença que possibilitam a constituição de múltiplas identidades ou identificações. Deni Gomes, um dos mais jovens integrantes, pode ser considerado um sambador de múltiplas identificações:
Eu gosto do samba chula, porque eu tô nisso desde pequeno, né? Aí eu gosto. Mas também gosto das coisas atuais, pagode, os outros ritmos (...) toco também outras coisas, mas nunca vou deixar de tocar o samba porque dizem que é coisa de velho, não, eu não acho assim não (...) eu já toquei em vários outros grupos que não os Filhos da Pitangueira, tipo, outros gêneros musicais também, como forró, pagode, axé, afro também, esses.68
Milton Primo, Djalma Afonso, Jane Reis e mestre Zeca Afonso são alguns dos integrantes que se destacam por realizar diferentes atividades ligadas ao grupo. Primo, por exemplo, costuma revezar-se no papel de violeiro do grupo, fotógrafo, produtor cultural, relações públicas ou ainda como instrutor na oficina de viola machete. Para além dessas atividades, o violeiro também assume o papel de palestrante quando convidado a falar do samba chula e da viola machete.
Sim, eu sou músico autodidata e eu tenho um trabalho, digamos, em dois seguimentos, eu faço um trabalho autoral, se a gente for rotular, talvez seja como “nova MPB”. Fiz um trabalho direcionado ao público infantil chamado “Papos Diversos” e fui contemplado na Fundação Cultural, a gente fez uma montagem teatral, fez um livro e um disco. Esse trabalho foi adotado pela prefeitura de Salvador e aplicado na rede municipal de ensino, então a gente também tem um trabalho paralelo ao samba, né? Que é o MPB e esse trabalho infantil. Fui finalista em um
67Entrevista concedida por AFONSO, Djalma. Entrevista I [maio, 07/05/2014]. Entrevistador: Fredison
Aylandro M. Silva. São Francisco do Conde, 2014.
68Entrevista concedida por GOMES, Deni. Entrevista I [maio. 09/05/2014]. Entrevistador: Fredison
festival de música na rádio Educadora também, com um trabalho em MPB e a gente segue paralelo também ao samba com essas atividades69.
Jane Reis, acumula funções como sambadeira, coordenadora da Casa do Samba de São Francisco do Conde e como colaboradora do Grupo de Samba chula Filhos de Zé. Ambos costumam falar com satisfação dos trabalhos que realizam em prol do samba chula:
Aqui em São Francisco do Conde, eu sou agradecida por isso, sabe por quê? A sensação de missão cumprida. (...) Porque aqui, tudo o que tem na associação e envolve o samba de roda,... a prefeitura tem colaborado muito, a Secretaria de Cultura, e eu, enquanto coordenadora da associação, eu tenho um vínculo muito grande com a secretária de cultura e não tenho o que dizer, eu sou abençoada, eu acredito que essa associação é abençoada por tudo e por todos (JANE REIS, 2014).
De modo geral, os sambadores do grupo dedicam-se à execução de diferentes atividades relacionadas ao samba. A maioria delas, como confirmam Milton Primo e Jane Reis, tem relação direta com a repercussão provocada pela institucionalização do samba de roda, que gerou novas demandas de trabalhos.
Quando os sambadores se referem ao trabalho cultural que realizam na cidade, sentem-se orgulhosos pelo que fazem e valorizados artisticamente. Milton Primo (2014) declara:
Olha, Fred, se a gente levar em consideração que a manifestação que a gente tenta preservar é uma arte, eu me considero artista, convém até deixar registrado que, no ano passado, eu fui contemplado pelo Ministério da Cultura, como mestre da Cultura Popular, devido a esse trabalho de relevância sócio cultural, de transmissão de saberes, intercâmbio entre gerações, eu fui contemplado, então, é uma arte o que nós fazemos, né?
Para Dona Lindaura (2014), trabalhar em prol do samba chula é recompensador. Sobre a missão de ser sambadeira, ela afirma com entusiasmo: “Eu me sinto, me sinto artista porque, eu sou tão artista que eu já tirei foto com o presidente Lula, não é? Sou tão artista que eu já tirei com Roberto Bonfim, no avião, eu me sinto uma artista, artista mesmo, eu me sinto.”
69Entrevista concedida por PRIMO, MIlton. Entrevista I [maio. 10/05/2014]. Entrevistador: Fredison