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As discussões sobre concepção de linguagem travadas entre pesquisadores de diversas áreas do conhecimento (Lingüística, Psicolingüística, Filosofia da Linguagem, Pedagogia) fizeram convergir várias abordagens teóricas a uma compreensão ampla da linguagem enquanto ação, o que evidencia o caráter interativo desse fenômeno humano.

Tais abordagens se contrapuseram aos modelos mais tradicionais nos quais os textos eram vistos como objetos concretos com coerência neles mesmos. Concebia-se que as formas eram uniformes, estáveis e abstratas, logo, independiam do contexto de comunicação. Exemplos desses modelos teóricos podem ser encontrados nos conceitos de texto afirmados por Harweg (1968), segundo o qual o texto era visto como uma "sucessão de unidades lingüísticas constituídas mediante uma concatenação pronominal ininterrupta" (Citado em Fávero & Koch, 1994; p. 13) ou por Isenberg (1970), segundo o qual o texto era tido como uma "seqüência coerente de enunciados" (Citado em Fávero & Koch, 1994; p. 13).

Bruner (1997, p. 59), a esse respeito, salienta que:

(...) sentenças descontextualizadas, na tradição da lógica formal, são como que pronunciadas em nenhum lugar, para ninguém; – são textos ‘sem patrocinador’, que se sustentam por sua própria conta. Estabelecer o significado de tais textos envolve um conjunto altamente abstrato de operações formais.

Por tal razão, os teóricos da Pragmática dedicaram-se a recuperar o interesse pela produção da linguagem em uso, ou seja, buscaram inserir nas discussões os componentes do contexto comunicativo. Nessa perspectiva, os teóricos de “Atos do Discurso” buscaram compreender o processo de reconhecimento de intenções comunicativas por interlocutores, garantindo a consideração da relação entre enunciado e contexto de produção.

Austin (1962) frisou a necessidade de tratar as elocuções como formas de expressão das intenções comunicativas de um locutor, assim como a necessidade de buscar analisar como se dá o processo de resgate do sentido pelo ouvinte. Foi fundamental a elucidação de que tais produções de significado dependem do domínio de um conjunto de conhecimentos partilhados. Assim, os sentidos dos enunciados não estariam contidos neles mesmos e sim nesses conhecimentos prévios reconhecidos pelos interlocutores.

Nessa concepção, Grice (1975) descreveu o que ele chamou de “Princípio da Cooperação”, ou seja, um conjunto de máximas que regem as relações entre os usuários da língua, garantindo o engajamento em buscar um sentido compartilhado a partir das intenções do locutor: (1) Máxima da quantidade (diga apenas o importante para a intenção, seja tão informativo quanto o necessário para o propósito da comunicação), (2) Máxima da relação (diga apenas o que for importante para a situação), (3) Máxima da qualidade (diga a verdade, diga apenas aquilo que pode ser evidenciado), (4) Máxima de modo (diga de uma forma que o outro possa compreender). Nessa perspectiva, os interlocutores engajam-se na comunicação enquanto parceiros e, no caso de haver conflitos entre as máximas, uma pode predominar. Por outro lado, a infração intencional de uma das máximas levaria o interlocutor a investigar o motivo da infração, ocorrendo, assim, uma implicatura conversacional, o que ocorreria, por exemplo, nos casos de ironias, subentendidos e metáforas.

Assim, Grice (1975), Austin (1962), dentre outros autores, como Searle (1969, 1975), enfatizaram análises acerca dos atos de fala, buscando entender como as intenções comunicativas podem ser lingüisticamente codificadas no contexto.

Desde então, muitos teóricos tentam mostrar como as violações dessas máximas também geram significados e podem ser compreendidas pelos interlocutores como indicativos das intenções do locutor. Por outro lado, outros autores, como Bentes (2001; p. 260), mostram que "a atitude do leitor ou destinatário ante uma determinada produção textual pode ser mais ou menos cooperativa; isso dependerá de uma série de fatores, entre eles, o próprio papel social do leitor ou do destinatário...".

É por esse motivo que Mey (1987) questiona o papel atribuído ao conceito de cooperação comunicativa na compreensão da interação lingüística. Segundo Mey (1987), não se pode reduzir as atividades lingüísticas a eventos de parceria social, pois os conflitos existentes na sociedade seriam, também, constituintes da linguagem, ou seja, as tensões presentes nas relações entre homens e mulheres, patrões e empregados, dentre outros, estão presentes na ação lingüística.

Outras abordagens teóricas, ampliando a compreensão acerca dos aspectos envolvidos na construção do significado, buscam estudar a extensão das dimensões contextuais - co- textuais, situacionais, socioculturais - necessárias à interpretação do significado pragmático indireto no contexto e a forma pela qual os interlocutores chegam às interpretações.

Beaugrande (1997) propõe, a partir desse reconhecimento da necessidade de reconectar a teoria à prática, alguns princípios básicos para a lingüística pós-clássica, tais

como: a) a língua é um fenômeno integrado com a sociedade e com o conhecimento de mundo das pessoas; b) deve ser descrita a partir das condições sob as quais os falantes a usam; c) se constitui num sistema dinâmico e comunicativo que se submete a uma constante evolução.

Tais reflexões auxiliaram a realização das análises sobre "textualidade". Teóricos afiliados à perspectiva da Lingüística Textual têm investido esforços para conceituar "texto" e melhor definir seus elementos constituintes. Bronckart (1999, p. 71) salienta que:

(...) a noção de texto designa toda unidade de produção da linguagem que veicula uma mensagem lingüisticamente organizada e que tende a produzir um efeito de coerência sobre o destinatário. Conseqüentemente, essa unidade de produção da linguagem pode ser considerada como a unidade comunicativa de nível superior.

No Brasil, é já bem conhecida a conceituação proposta por Koch e Travaglia (1995, p. 9), na qual o texto seria uma:

(...) unidade lingüística concreta (perceptível pela visão ou audição), que é tomada pelos usuários da língua (falante, escritor / ouvinte, leitor), em uma situação de interação comunicativa específica, como uma unidade de sentido e como preenchendo uma função comunicativa reconhecível e reconhecida, independentemente da sua extensão.

A partir de tal conceito, pode-se perceber, como subjacente, a idéia de linguagem como ação. Para que uma seqüência de palavras ou frases constitua-se como um texto é necessário que seja percebida uma unidade de sentido, que permeia uma determinada situação de interlocução. Essa unidade de sentido é alcançada através do estabelecimento da coerência textual. No entanto, a coerência não está cristalizada no texto, devendo, pois, ser percebida como um "princípio de interpretabilidade" (Koch e Travaglia, 1995; p. 11), estando, logo, estreitamente vinculada aos interlocutores e à própria situação de interação.

É por essa razão que Adam (1990) critica a distinção feita por Slatka (1975) entre texto e discurso. A conceituação formulada por Slatka é de que o discurso equivaleria ao somatório entre texto e condições de produção. No entanto, a proposição de Adam (1990) é de que "um texto não ganha sentido senão através da atividade de seus leitores, a qual reconstrói

sentido a partir dos índices disponíveis na materialidade textual" (Bronckart, 1999; pp.145- 146). Assim, os parâmetros contextuais são constitutivos do texto. Outros autores, como Coseriu (1977) e Guimarães (2000) também tomam os dois termos como sinônimos.

A coerência textual está, então, vinculada tanto ao produtor do texto, que utilizou os recursos disponíveis para externalizar suas intenções, como ao ouvinte / leitor, que utiliza as pistas disponíveis para calcular o sentido pretendido. Dessa forma, pode-se conceber a coerência como uma “continuidade de sentidos perceptível no texto, resultando numa conexão conceitual cognitiva entre elementos do texto” (Koch & Travaglia, 1995; p. 12). Tal conexão, nessa concepção,

não é apenas de tipo lógico e depende de fatores socioculturais diversos, devendo ser vista não só como o resultado de processos cognitivos, operantes entre os usuários, mas também de fatores interpessoais como as formas de influência do falante na situação de fala, as intenções comunicativas dos interlocutores, enfim, tudo o que se possa ligar a uma dimensão pragmática da coerência.

Concebe-se, então, que os processos cognitivos são constitutivos da coerência, pois o texto ganha sentido a partir do momento em que o interlocutor receptor cria um mundo textual, ativando os conhecimentos prévios registrados na memória para atribuir os sentidos necessários à análise das intenções do autor.

Se o texto for tomado na perspectiva apresentada acima, pode-se, de imediato, perceber a dimensão pragmática de qualquer análise textual, pois os seres sociais constroem textos, no dia - a - dia, com objetivos precisos e para interlocutores definidos. Logo, nesse modelo de pensamento:

não existe o texto incoerente em si, mas o texto pode ser incoerente em/para determinada situação comunicativa. Assim, será bom o texto quando o produtor souber adequá-lo à situação, levando em conta intenção comunicativa, objetivos, destinatários, outros elementos da situação de comunicação em que é produzido, uso dos recursos lingüísticos, etc. Por tudo isso, ao dizer que um texto é incoerente, temos de especificar as condições de incoerência, porque sempre alguém poderá projetar um uso em que ele não seja incoerente” (Koch & Travaglia, 1995; p. 37).

Assim, pode-se conceber que a linguagem é uma ação social, o texto é uma unidade lingüística mediadora de situações de interação e os usuários, seres ativos que constroem sentidos no processo de interlocução. Dessa forma, rejeita-se a idéia de que o texto é coerente em si, pois tal concepção estaria arraigada a uma postura assumida dentro das teorias da linguagem como código, na qual "o texto seria o produto de uma competência lingüística social e idealizada” (Koch & Travaglia, 1995; p. 39).

Apesar da defesa do ponto de vista de que os usuários sempre buscam sentidos nos enunciados, sabe-se que nem sempre os textos produzidos são eficientes para os objetivos que se propõem, mesmo que os interlocutores tentem cooperar entre si. Muitos textos são destinados a leitores que precisam realizar um esforço de cooperação em alto grau para apreender o sentido do texto e outros leitores não conseguem extrair tais sentidos. O que poderia fazer, então, um texto parecer incoerente?

Segundo Koch e Travaglia (1995; p. 37),

o mau uso dos elementos lingüísticos e estruturais pode criar incoerência, normalmente em nível local. Se o produtor de um texto violar em alto grau o uso desses elementos, seu receptor não conseguirá estabelecer o seu sentido e o texto seria teoricamente incoerente em si por uma questão de extremo mau uso do código lingüístico.

Além do mau uso do código lingüístico, a incoerência pode se dar também pela inadequação das representações que o produtor ou interlocutor constroem da situação de interação. Esses casos, conforme discutiremos posteriormente, podem ocorrer quando o redator vê-se diante de uma situação em que não tem familiaridade com as práticas culturais nas quais tal gênero textual ocorre ou em situações artificiais em que não se sabe quais são as expectativas do destinatário quanto ao que deve ser produzido. Esse último tipo de situação pode ser exemplificado por propostas escolares em que o professor propõe a escrita de textos sem delimitar o gênero ou a finalidade para a produção. Tal questão será discutida adiante.

É dentro dessa perspectiva que se pode assumir a idéia de que produzir textos é uma atividade social exercida por todo indivíduo desde os primeiros anos de vida, devendo, pois, a escola, ampliar tal capacidade, introduzindo, de forma mais sistematizada, os textos escritos na vida das crianças. No entanto, para dar conta de tal tarefa, é necessário planejar ações em que os diversos gêneros de textos estejam presentes na sala de aula para que se possa, de fato,

possibilitar um maior contato com os usos sociais da escrita na sociedade, conforme discutiremos a seguir.

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