Se existe no poema digital uma atenuação narrativa pela fragmentação midiática e pela multiplicidade de caminhos possíveis também existe uma vivificação da experiência do que antes era narrado. Os ritmos – sonoros, visuais e verbais – do poema criam outra possibilidade de leitura. Temos o som eletrônico com batidas constantes, temos a movimentação da matéria verbal que pode ser posicionada, lida e recitada na ordem que o leitor quiser, temos a opção sempre presente de ir para uma tela aleatória. Todos esses elementos na obra não permitem que fiquemos restritos a uma leitura linear ou cronológica para tentar seguir o conto reconstituindo a cronologia (perdida) da mesma forma que Ana não tem como reconstituir seu mundo antigo, ou, caso consiga, será como um mero pastiche do que realmente era. Pois até mesmo para Ana não se pode reverter o mundo, ou ainda, não há mundo a ser revertido. O caos que Ana vê no mundo é o estado atual das coisas fora da segurança de seu lar. Qualquer tentativa de recomposição de um suposto “original” só se dá quando conscientemente nos interpomos às propostas da obra e nos colocamos a procurar a obra de Clarice (no seu formato de conto hipotexto) dentro do poema de Rui Torres. Então o que há de ser feito? Entender a obra, entender suas possibilidades de leitura e tentar lê-la de várias formas possíveis. No caso de AdC, a leitura passa sim por um ato de construção, não de uma recriação de algo anterior, mas a construção de algo diferente, dado que a obra de Rui Torres desmancha o conto e cria outra obra que permanece enquanto uma margem de potenciais a serem “lidos” pelo leitor. Todavia, voltando um pouco à hipertextualidade, podemos falar de uma constituição estranha no poema digital AdC que nos faz retomar com frequência o conto de Clarice se por ele já tivermos passado. Porém, se tentarmos reconstruí-lo ou encontrá-lo nos fragmentos individuais do poema digital nos depararemos com peças que não mais se encaixam no quebra-cabeça antigo do conto, mas que, de alguma forma, em sua totalidade de poema, nos farão constantemente reencontrar alguma coisa que relembre a generalidade do conto, ou ainda, nos apontarão para algum traço da história de Ana. Talvez haja algo a ser compreendido a respeito desse jogo de elementos com o que Georges Perec diz ao falar sobre os puzzles de madeira:
l’objet visé – qu’il s’agisse d’un acte perceptif, d’un apprentissage, d’un système physiologique ou, dans le cas qui nous occupe, d’un puzzle de bois – n'est pas une somme d'éléments qu'il faudrait d'abord isoler et analyser,
mais un ensemble, c'est-à-dire une forme, une structure: l'élément ne préexiste pas à l'ensemble, il n'est ni plus immédiat ni plus ancien, ce ne sont pas les éléments qui déterminent l'ensemble, mais l'ensemble qui détermine les éléments: la connaissance du tout et de ses lois, de l'ensemble et de sa structure, ne saurait être déduite de la connaissance séparée des parties qui le composent: cela veut dire qu'on peut regarder une pièce d'un puzzle pendant trois jours et croire tout savoir de sa configuration et de sa couleur sans avoir le moins du monde avancé: seule compte la possibilité de relier cette pièce à d'autres pièces [...]59(PEREC, 1978, p. 17).
Não podemos então considerar apenas a parte verbal do poema como a releitura do conto
Amor. Isso porque é apenas em sua totalidade que a hipertextualidade se mostra, na relação de
elementos heterogêneos que constituem a obra e no jogo dessa totalidade diante do leitor no seu ato de leitura. O que quero dizer é que, enquanto numa obra verbal, a hipertextualidade se encerrava no texto (apesar de já levar em consideração elementos paratextuais), no meio digital ou numa obra com múltiplos meios, é a totalidade de elementos verbais e extraverbais que devem ser considerados para uma hipertextualidade. Isso já nos apontava Genette quando dizia que uma análise da hipertextualidade não poderia ignorar ou se dar sem olhar os outros tipos de transtextualidades. Os elementos não verbais, no caso de AdC, também são uma forma de releitura que irão dar essa característica à totalidade da obra.
A hipertextualidade, como relação textual, não pode ser compreendida como uma essencialidade do hipotexto no hipertexto. A construção se dá por via de um espaço de leitura efetivado pelo leitor. Nossa leitura liga os dois textos associados, percebe a possibilidade de uma hipertextualidade proposta e a efetiva enquanto um campo de relação de leitura. Essa proposta de leitura existe no texto, contudo poderíamos perfeitamente ler AdC sem jamais ter lido uma linha de Clarice Lispector60.
59“o objeto visado — seja um ato perceptivo, seja uma aprendizagem, seja um sistema fisiológico, seja, no caso
presente, um quebra-cabeça de peças de madeira — não é uma soma de elementos que teríamos inicialmente de isolar e analisar, mas um conjunto, ou seja, uma forma, uma estrutura; o elemento não preexiste ao conjunto, não é nem mais imediato nem mais antigo; não são os elementos que determinam o conjunto, mas o conjunto que determina os elementos; o conhecimento do todo e de suas leis, do conjunto e de sua estrutura, não é passível de ser deduzido do conhecimento separado das partes que o compõem; isso quer dizer que se pode observar urna peça de puzzle durante três dias e achar que se sabe tudo sobre sua configuração e cor, sem que com isso se tenha avançado um passo sequer; a única coisa que conta é a possibilidade de relacionar essa peça a outras peças [...]” (2009; tradução de Ivo Barroso).
60Foi o meu caso. Trilhei o caminho inverso. O primeiro contato com Clarice foi por meio do poema de Rui