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Passamos então ao objetivo específico dessa pesquisa: ler a obra Amor de Clarice, do português Rui Torres. Assim, conjugaremos um objetivo geral – mapear mecanismos e estratégias de interatividade no poema digital – e um objetivo específico – ler o Amor de

Clarice – com o intuito de poder entender melhor ambos através de um constante diálogo

entre esses objetos, no como se cruzam, e buscar compreender os processos de interatividade através dessa obra digital.

Falamos anteriormente a respeito de uma interatividade material, de obras em que a matéria física e o modo de dispor esta materialidade à leitura são partes integrais da constituição de um texto. São obras em que a maneira como a materialidade se dá a construir na leitura é proposta como um significante na obra. O Amor de Clarice é uma obra digital que comporta tais características, cuja construção material é uma parte atuante e geradora de sentido no todo da obra. Com isso, não podemos nos esquivar de voltar nossos olhos para a sua materialidade, sua composição e seu modo de operar. O Amor de Clarice, como toda obra literária digital, é uma composição técnica – um aparato, uma máquina, um engenho – que expõe uma visibilidade, ao mesmo tempo em que guarda uma camada de sua escrita, permanecendo por detrás da visibilidade da obra, que fica por detrás do que o leitor pode acessar, mas que é necessária para que haja tal visibilidade. Logo, por se tratar de uma criação técnica –

lembrando que a técnica aqui é uma técnica submetida a esquemas estéticos, como em toda arte – não podemos entender a obra somente pelo domínio da literatura; ela se vale de um programa (efetivamente escrito em código) numa máquina, outro corpo que não o de um livro padrão.

Proponho-me a ler Amor de Clarice, tentando perceber as movimentações dos elementos e seus jogos uns com os outros dentro do poema – nomenclatura que será justificada logo mais adiante –, pensando aqui que cada elemento, de alguma forma, altera e é alterado pelos outros movimentos. Quero tentar entender as possibilidades da materialidade da obra, entender o que pode ser feito e como é possível ao leitor interagir com ela. Porém, acima de tudo, ler a obra enquanto uma totalidade, pois, como nos diz Merleau-Ponty (2006), a unidade precede a si mesma. Nossa percepção de uma unidade nos permite posteriormente analisar uma contiguidade das coisas. A unidade entre as coisas na percepção é a condição para a associação entre as coisas no mundo. A percepção da totalidade, segundo Merleau-Ponty, precede sempre a reflexão intelectual, a análise não encontra nada que ela não tenha já colocado em seu objeto. Ao ver o poema Amor de Clarice, percebo-o como uma totalidade (seu horizonte, seus periféricos e seus meios tecnológicos de manipulação em que ele “vive” ou se dá). O que pretendo nesse momento é explicitar as contiguidades, ou seja, os movimentos e relações entre as partes da obra, olhando a totalidade desta. E, se seguirmos Merleau-Ponty, entenderemos que até esse ato analítico não pode quebrar a totalidade do poema porque é justamente essa totalidade primordial que permite que possamos fragmentá-lo e ainda encontrar nele pontos de movimento, fricções entre as partes e não em cada parte um mundo distinto e indissociável.

Tendo dito isso, adentremos a obra.

Amor de Clarice é uma obra programada em flash (linguagem de programação actionscript),

contendo texto, voz, som e vídeo; criado por Rui Torres e com a participação de Carlos Morgado (som), Luis Aly (som), Ana Carvalho (vídeo) e Nuno M. Cardoso (voz)50.

50Normalmente o leitor terá acesso à obra online <http://telepoesis.net/amorclarice/index.html>, que consiste

apenas no poema Amor de Clarice; também existe uma versão em CD, que vem acompanhada de outro disco com as trilhas de áudio do poema e um livreto que dá informações técnicas e contém o poema impresso de Rui Torres baseado no conto Amor, de Clarice Lispector (1974).

Ao iniciar a leitura, há uma tela que dá os devidos créditos aos outros participantes da obra e as instruções básicas para a navegação e, depois, uma página com uma espécie de índice contendo uma série de linhas de texto flutuando uma em cima da outra sobre um fundo de várias palavras sobrepostas e quase ilegíveis. Ao ser clicada a área em volta de cada linha, uma tela se abre. À direita os linques levam a uma série de telas do poema; à esquerda, os linques levam à outra (então qualquer lugar que o leitor clique irá levá-lo para uma tela nova). São duas séries do poema (iguais em termos dos elementos verbais escritos – palavras –, mas com várias outras diferenças, incluindo disposição do texto, layout de página etc.). Cada série tem 26 telas que podem ser trilhadas numa ordem ou aleatoriamente, através dos botões no canto superior direito da tela (no caso, há um botão seguir, voltar e o de tela aleatória que leva o leitor para qualquer tela de uma das séries). A série que se vê quando se clica na esquerda da frase é uma em que o fundo consiste num emaranhado de palavras, composto por excertos do conto de Clarice Lispector (algumas pulsam em cores, outras se mexem e ainda algumas apenas ficam estáticas), e com uma trilha sonora musical constituindo outro fundo; a série que se vê quando se clica na metade direita da tela é uma em que o fundo é um filme em

loop51(26 diferentes filmes de Ana Carvalho), tendo a leitura do conto de Amor (com um som um pouco abafado) por fundo. Ao entrar em cada tela, frases ou palavras vão-se formando/aparecendo/movimentando de maneira diferente para cada tela e, no momento do seu surgimento, uma voz as declama, enquanto uma ou mais trilha sonoras tocam concomitantemente. O leitor tem a possibilidade de fazer com que essas frases e palavras sejam declamadas, a qualquer instante, até mesmo antes de elas terminarem seu movimento, clicando nelas. Também há total liberdade de clicar e arrastar os versos para onde se quiser na tela, moldando as linhas de texto ao gosto do leitor. A cada tela, tem-se a escolha de posicionar as palavras em outras localidades, em outros locais daquele espaço; há a possibilidade de decidir a ordem em que os versos serão lidos (clicando neles na ordem desejada). Além disso, há a possibilidade de ver as outras posições possíveis (a tela é aberta, o leitor pode posicionar as frases e palavras onde bem desejar e constantemente alterar a sua posição) – nunca se termina de testá-las. Pode-se adiar constantemente uma versão final da tela (pois uma versão final nunca foi o propósito). A cada escolha (espacial e sonora), sei que tenho inúmeros movimentos e ações, inúmeras combinações daqueles elementos que foram dispostos diante de mim.