Resumo
A pesquisa propôs descrever e analisar o trabalho de uma professora alfabetizadora no primeiro ano do ciclo inicial do ensino fundamental, buscando compreender os desafios em alfabetizar no contexto das recentes determinações da política pública oficial do ensino fundamental de nove anos, além observar mudanças no trabalho docente às perspectivas propostas a partir dos referenciais teóricos que, ao instaurar novos modos de organização do trabalho escolar, afeta diretamente a atuação do professor. Considerando- se que espaços e tempos em sala de aula são organizados, em grande medida, em função das decisões do professor, numa determinada instituição educativa, as questões que focalizo são: como o professor alfabetizador responde às exigências institucionais que regulam de fora seu trabalho e, ao mesmo tempo, às urgências que nascem da interação que estabelece com os alunos no trabalho de ensino? É possível observar mudanças nas práticas de alfabetização? Quais os desafios são enfrentados para a finalidade do trabalho com a alfabetização e que são alternativas estão sendo criadas neste processo?
Do ponto de vista teórico o trabalho docente é uma ação dinâmica, se utiliza de diferentes dispositivos didáticos para alcançar seus objetivos e como fundamento o pressuposto que a ação do professor se materializa em meios que produzem transformações intencionais nos modos de pensar, agir e falar dos alunos (SCHNEUWLY, 2009). Identifica elementos principais para uma teoria da docência na perspectiva interacional, em que o trabalho docente é de um ser humano para outro, como “importante compreender que as pessoas não são um meio ou uma finalidade do trabalho, mas matéria-prima do processo interativo e o desafio primeiro das atividades dos trabalhadores” (TARDIF & LESSARD, 2009).
Da perspectiva histórica o conceito de cultura escolar pesquisado por FRAGO (1994, 1995, 1996 e 1997), encarar o “ensino como uma prática cultural que tem lugar no seio de determinados sistemas educativos” é considerar “uma prática submetida a modelos aprendidos implicitamente por cada professor, não por estudos intencionais, mas mediante a observação e participação”. Para isso é preciso compreender os conceitos empregados nos termos alfabetização e letramento no Brasil desde a década de 80, contribuições que permitem conceituar, conforme MORTATTI (2010) “Alfabetização” como conceito utilizado para designar processo de ensino e aprendizagem que comportou diferentes sentidos, designado por diferentes termos, correspondentes a diferentes conceitos, tais como: “ensino das primeiras letras”; “ensino de leitura”; “ensino simultâneo de leitura e escrita”.
Do ponto de vista metodológico, o corpus desta pesquisa trata-se de um conjunto de transcrições de gravações em áudio e vídeo, realizadas em sala de aula, de situações diversas do trabalho da professora com seus alunos por meio de observação participante. E como materiais secundários, registros em caderno de campo que se propõem a reconstituir eventos não gravados que foram gerados e aos materiais oficiais que orientam o trabalho pedagógico através da equipe de gestão até ao professor. A reflexão sobre um caso particular de trabalho de alfabetização de crianças é relevante para se refletir sobre a elaboração de currículos, programas e livros didáticos que foram e estão sendo pensados para o Ensino Fundamental.
Palavras-chave: Alfabetização; Cultura escolar; Dispositivos didáticos; Letramento; Trabalho docente.
A história do trabalho docente
Atualmente ouve-se dizer ou mesmo questionar sobre o que ocorre dentro das escolas, assim pode-se pensar em situações que deveriam ou não ocorrer, mas o que acontece neste espaço? Quais são as relações ali estabelecidas? O que ali acontece é diferente do que ocorre em outros espaços? A relação que se estabelece no trabalho de ensinar é diferente de outros? A partir do conceito posto no materialismo histórico, considerar que o trabalho docente é diferente de outro trabalho é afirmar que este envolve ações que demandam outro tipo de intervenção, pressupõe de diferentes meios e instrumentos para produto desse trabalho, o que significaria ser composto de interações multifacetadas. Considerar esta natureza do trabalho docente é defender que ele é composto de interações humanas compreendendo mudanças no próprio conceito de trabalho ao longo de muitos anos. Tardif (2005, p.19) apresenta quatro constatações para compreender que transformações estão envolvidas nesta defesa, o que possibilita vislumbrar a tese de que o trabalho docente é a condição primária na compreensão das transformações das atuais sociedades:
1) desde os anos 50 há uma queda das categorias de trabalhadores produtores de bens materiais, em contrapartida um aumento dos trabalhadores nas aréas de prestadores de serviços;
2) o crescente controle por parte de grupos de profissionais, cientistas e técnicos que criam e controlam o conhecimento teórico, prático e técnico necessário às decisões, às inovações, ao planejamento das mudanças sociais e à gestão do crescimento cognitivo e tecnológico;
3) Os frequentes debates atuais sobre a profissionalização do ensino devem estar relacionados às orientações gerais na evolução das profissoes e das atividades burocráticas “racionais”, ocasionadas por novas atividades trabalhistas e uma integração de conhecimentos formais na esfera da gestão social, como exemplos a utilização da estatística e dos vários instrumentos de medidas, teorias dos comportamentos, das organizações, das análises e pesquisas;
4) Essas ocupações se referem ao trabalho interativo, cuja caracteristica essencial é colocar em relação um trabalhador com um ser humano que se utiliza de seus serviços. (TARDIF, 2005, p.19-20)
Entendendo assim, o trabalho docente se diferenciou em cada momento histórico, a depender do objetivo a que esteve atendendo, os objetos de ensino que foram selecionados e seres humanos envolvidos neste trabalho de natureza sociológica, porém sempre de maneira interativa. Ferreira e Santos-Gomes (2011, p.3) argumentam que
...o desafio é interpretar como esta espessura sociológica mais ampla se reconstitui no projeto de trabalho do professor e naquilo em que se funda o estatuto deste trabalho – a finalidade de ensinar, sua natureza didática. A linguagem é dispositivo central na abordagem deste desafio, já que é por ela e nela que se materializa a intencionalidade didática do trabalho de ensino. (FERREIRA E SANTOS-GOMES, 2011, p.3)
Este desafio tem encontrado contribuições nas pesquisas de Schneuwly (2009) sobre o trabalho docente, descrevendo e analisando como se configuram as transformações envolvidas na materialização didática, cujo dispositivo central é a linguagem. Destas pesquisas Schneuwly (2009, p.29-43) aponta que o trabalho docente passa por transformações e que articular duas dimensões como a textual e a didática, a partir de dispositivos analíticos: os gestos profissionais e os objetos do discurso possibilitam compreender como a linguagem interfere nos modos de agir, pensar e falar dos alunos, sendo este produto do trabalho docente, o que evidencia a complexidade de uma situação de ensino mediada pelo professor, em que é afetada pela tradição escolar e pela cultura.
A partir dessa formulação com base em Schneuwly (2009), ao descrever e analisar as situações de ensino podem-se depreender os objetos de ensino/ensinado, considerando duplos processos de semiotização: i) a presentificação, pelo qual o objeto de ensino/ensinado ganha realidade e materialidade, em que o objetivo é torná-lo visível; ii) elementarização/topicalização, pelo qual são organizados pontos, a partir das dimensões dos objetos de ensino/ensinado, sendo efetivado por meio de instrumentos didáticos, assumindo na organização desse trabalho, relações com o ambiente escolar (carteiras, cadeiras, lousa, giz,etc) e à disciplina escolar, configurados em duas naturezas: uma de ordem material, na qual encontra-se os livros didáticos, as atividades em folha, os dicionários, entre outros. E segunda de ordem discursiva, dentro desta pode-se observar a exposição oral/escrita, a simulação, a exemplificação, discussão, exercitação, debates, etc.
A escolha dos objetos de ensino/ensinado pode passar por algumas defesas e considerações: a importância que eles têm na sociedade; o quanto é importante e defendido ele é na escola; e se na cultura em que está inserido, é atribuído grau de significado e sentido. Assim para entender que seleção é esta e não outra dos objetos de ensino/ensinados, na alfabetização, se pode recorrer à história da educação. Segundo Frago (1993) até meados do século XIX era bastante usual saber ler e não saber escrever, em especial as mulheres, ainda que as duas aprendizagens não fossem consideradas simultâneas, mas sucessivas. Também se pode pensar qual função o objeto de ensino/ensinado terá em seus usos na vida cotidiana das pessoas. Portanto, os objetos de ensino/ensinado, relacionados à alfabetização, trazem elementos que estão imersos na sociedade e nas culturas escolares. Ao considerar que a escrita modificou a vida humana, com ela observa-se que foram
"organizadas novas estratégias cognitivas, novos modos de pensamento e expressão, novo sentido ou percepção do tempo, novos modos de ver e mostrar a realidade e, dentro dela, o próprio ser humano. Sua existência tornou possível, em conjunto com outros fatores o nascimento da filosofia e da ciência, assim como do registro e do arquivo, isto é da história" (FRAGO, 1993, p.23).
Neste sentido, pode-se observar grande impacto para a organização das sociedades e ao mesmo tempo na organização dos saberes, redimensionando os objetos de ensino da instituição escolar, e este é um dos elementos que nutre determinados argumentos para os conceitos de alfabetização e letramento, ser alfabetizado ou não. Nesta perspectiva, ser alfabetizado significa fazer uso dos elementos da leitura e da escrita, para isso é necessária à definição dos objetos de ensino, ou conjunto de objetos de ensino, como serão ensinados. Seria possível delimitar que este ou aquele objeto de ensino, no campo da alfabetização, é mais ou menos importante? O que o professor alfabetizador faz para responder às exigências institucionais que regulam de fora seu trabalho e, ao mesmo tempo, às urgências que nascem da interação
que estabelece com os alunos no trabalho de ensino? Quais desafios são enfrentados no trabalho de alfabetização na escola pública brasileira da atualidade? Parece-me que está em jogo à importância que se está atribuindo às formas de comunicação orais e por escrito, e quais objetos de ensino estão sendo selecionados pelo professor alfabetizador.
Os gestos profissionais fundamentais do trabalho docente
Anteriormente foi enunciado que um dispositivo analítico necessário seriam os gestos profissionais. Então, para compreender o processo do trabalho docente, é importante aprofundar o conceito de gestos profissionais fundamentais que são tratados do ponto de vista didático, como sendo um conjunto de gestos, de jogos, de fisionomias, de declarações feitas pelo professor dirigidas a um ou vários alunos com o fim de realizar o trabalho com o objeto de ensino/ensinado, considerados gestos didáticos.
Em sua pesquisa Schneuwly (2009, p. 36-43) descreve quatro gestos didáticos fundamentais no trabalho docente. Na formulação de Gomes-Santos (2012), trata-se de:
Implementar dispositivos didáticos: implica mobilização de uma série de meios e de recursos para a
instanciação do contexto (milieu) de ensino e para a criação das condições de ingresso do aluno na atividade escolar proposta;
Regular: implica tomada de informações e interpretação dos efeitos da implementação dos
dispositivos didáticos, com base na avaliação dos obstáculos e dos aportes (saberes já apropriados) dos alunos no processo de construção do objeto. O gesto de regulação pode-se configurar como
regulação interna – situada no início, durante ou ao final de um dispositivo didático, permitindo
ajustes na sequência de ensino com base em movimentos de retorno aos dispositivos implementados – e como regulação local – situada durante a realização de uma atividade escolar, permitindo trocas interacionais do professor com um aluno em particular ou com o grupo e criando modos de se referir ao objeto de ensino comum à turma (uma metalinguagem comum);
Institucionalizar: implica a fixação de maneira explícita e convencional do estatuto cognitivo de um
saber para construir a aprendizagem, permitindo ao aluno utilizar este saber em circunstâncias novas e garantindo ao professor a possibilidade de exigi-lo como saber oficial, comum à turma; daí que a institucionalização “se dirige ao coletivo” e é legitimada pela “autoridade do professor ou de uma fonte externa reconhecida” (p. 40).
Criar a memória didática: implica a reconstituição, em uma matriz integral, dos diferentes elementos
em que o objeto de ensino foi decomposto. Trata-se, assim, de um gesto transversal aos demais gestos e à sequência de ensino, uma vez que busca restabelecer a totalidade do objeto, fragmentada pelo trabalho de ensino. Funciona, portanto, conforme uma lógica retrospectiva (“Como vimos na aula passada...”), guardando, ao mesmo tempo, um caráter provisório e prospectivo (antecipação didática) – já que pressupõe que a totalidade do objeto ainda não foi construída, que o objeto continua em construção (“Na próxima aula vamos estudar...”). (GOMES- SANTOS, 2012, p. 12).
Os gestos didáticos aqui apresentados recupera em grande medida o trabalho docente, sua análise e descrição ganha relevância na sala de aula, configurando-se nos instrumentos didáticos utilizados, seja ele
de natureza discursiva ou natureza material. Para exemplificação do gesto de regular observou-se o uso de uma tarefa de escrita de lista de palavras, buscando avaliar como os alunos estão escrevendo, mais comumente conhecida como “sondagem”. Outra exemplificação, para o gesto didático em criar memória didática, observou-se situações em que a professora retoma o que já foi feito, a partir da tarefa de escrita dos nomes de brincadeiras, pergunta quais já brincaram na escola, quais brincadeiras foram pintadas pelo artista Ivan Cruz, pois já haviam “estudado” sobre ele; outra tarefa observada foi a reconstrução de um texto memorizado pelos alunos, entre outras, reconstitui o objeto de ensino discutido e implementado com os alunos.
Os gestos didáticos fundamentais do trabalho docente efetivam-se na sala de aula, com a professora e alunos, utilizando de instrumentos didáticos definidos pela professora para o trabalho com os objetos de ensino. Os gestos didáticos, portanto, é base do trabalho docente, estão imbricados e implementados por instrumentos e dispositivos didáticos considerando os objetos de ensino, sendo reconfigurados em objetos ensinados, podendo ser de ordem material e/ou de ordem discursiva.
A escolha de um aspecto a ser analisado
Assim, conhecer como os professores estão selecionando seus objetos de ensino nos permite inferir os sentidos que estão sendo dados ao conceito de alfabetização. Para isso selecionei alguns trechos, a partir da transcrição das aulas gravadas em áudio-vídeo, em uma sala de aula, do primeiro ano do ensino fundamental de uma escola no munícipio de São Bernardo do Campo em 2011, para observar que elementos a professora em questão utilizou e nos dá indícios das transformações que estão ocorrendo com os objetos de ensino e com formas de ensinar. Esta organização pode ser observada na tabela abaixo, com os dados gerais, em que são descritos os objetos ensinados durante o período da observação participante, o sistema de escrita alfabética, a produção textual e o trabalho com leitura, ainda há outros objetos de ensino que permearam o trabalho da professora que envolveu outras disciplinas, tais como a matemática:
Pesquisa: O trabalho docente no Ensino Fundamental de nove anos Pesquisadora: Valdiana do Bomfim Alves
Professora Pesquisada: 1º ano ciclo Inicial - Fundamental de nove anos Ambiente: Escola Municipal em São Bernardo do Campo
Formato de mídia: Áudio-vídeo/registro manuscrito
Total de gravação: 13h15m08s Total a ser transcrito: 05h15m27s
Data Duração Objetos ensinados
29/03/2011 00.25.31 Sistema de Escrita
05/05/2011
00.38.20
Produção e recepção de texto 00.03.40
00.18.10
12/05/2011 00.25.00
Leitura e ordenação de textos 00.00:22
Tabela 1 – Organização geral dos dados gerados
Observa-se que a professora utilizou diferentes dispositivos didáticos definindo as tarefas que foram propostas aos alunos, a partir dos objetos de ensino em que o trabalho foi organizado. Com a intenção em descrever esses dispositivos didáticos e tarefas, optei por numerá-los na tabela abaixo para seleção e análise16:
Descrição dos dispositivos didáticos e tarefas
Tarefas Dispositivos didáticos
Ordem material Ordem discursiva
Organização das letras escolhidas para escrever o nome dos desenhos.
Placa de madeira com desenhos; letras móveis em madeira;
Organização dos alunos em duplas; Par Pergunta e resposta (P-R)
Escrita dos nomes das brincadeiras pintadas por Ivan Cruz
Folha com desenhos das obras de Ivan Cruz; folha para leitura das palavras escritas;
Par Pergunta e resposta (P-R); leitura em voz alta a partir de imagens;
Escrita em folha os nomes das brincadeiras pintadas por Ivan Cruz; Escrita na lousa cinco de brincadeiras.
Folha individual com os nomes das brincadeiras; lousa; giz;
Par Pergunta e resposta (P-R)
Escrita coletiva da parlenda “O cravo e a rosa”; Cópia no caderno da parlenda ditada.
Caderno, lousa e giz; Par Pergunta e resposta (P-R); Ditado para a professora;
16 É necessário esclarecer essa organização não se refere à ordem utilizada pela professora no trabalho com os alunos e que demonstram a complexidade e diversidade que permeia o trabalho em sala de aula.
00.02.23 00.12.04 00.44.23
Resolução de problemas em matemática 00.17.42
16/05/2011
00.45.45
Uso da tecnologia para desenhar 00.24.41
00.00.23 Apreciação de produções
15/06/2011 00.15.05 Sistema de Escrita
16/06/2011 00.17.48 Sistema de Escrita
Escrita do texto escolhido ou elaborado por eles, copiando no cartão.
Lousa para escrever o texto; cartão para escrever;
Par Pergunta e resposta (P-R); ditado para a professora;
Produção de texto para um cartão do dia das mães.
Lousa para escrever; cartão para escrever;
Ditado para a professora; Par Pergunta e resposta (P-R)
Leitura de diferentes gêneros em livros, gibis, folhetos diversos etc.
Caixa com livros, gibis, folhetos diversos;
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Reprodução de uma das obras de Ivan Cruz usando o programa Paint.
Uso do computador; organização das duplas,
antecipação de atividade; Par Pergunta e resposta (P-R)
Leitura em duplas do poema “A foca”. Tarjetas com as estrofes do poema, tubo de cola, folha de sulfite;
Par Pergunta e resposta (P-R)
Tabela 2 – Descrição dos dispositivos didáticos e tarefas
Veja que a professora utilizou, em quase todas as tarefas, como dispositivo didático o par pergunta e resposta (P-R) entre ela e os alunos, organizando-os em duplas, associando o objeto ensinado aos instrumentos didáticos e às formas de trabalho, em que a atividade era decidir como estava escrito um texto que sabiam de memória e para isso a professora solicitou que ordenassem as tarjetas de um poema:
Continuidade da atividade com o texto recortado em frases. Os alunos em duplas deveriam ler e ordenar o texto. Conforme os alunos ordenavam a professora solicitava que eles lessem e informassem onde estava determinada frase do texto. Geralmente a professora perguntava sobre a frase que não estava certa. Somente após a leitura e ordenação correta os alunos podiam colar as tarjetas em uma folha de sulfite. (Arquivo em Notas de campo 12.05.11)
Os alunos em duplas deveriam ler e ordenar o texto, conforme os alunos ordenavam a professora solicitava que eles lessem e informassem onde estava determinada frase do texto, mencionado nas notas acima, observei que ela própria ordenava as frases antes de fazer a pergunta para os alunos, o que significa isso para ela? Por trás pode estar duas intenções, uma de que os alunos observem a nova organização, portanto precisavam repensar que foi feita, outra informar que a organização feita não estava correta:
Continuidade da atividade de ordenação do texto “A foca”. Ao ler pega uma das frases para ser colada junto a outras. A professora solicita que um dos alunos da dupla leia a ordenação feita por eles. Continua questionando a ordenação da mesma dupla de alunos e se dá por satisfeita com a resposta correta do aluno. Troca de dupla de alunos sempre solicitando que eles leiam como ordenaram o texto (nesta dupla, somente um dos alunos está mais envolvido com a atividade). A professora solicita que ele leia desde o começo do texto que já foi colado, indica que está em ordem trocada, tenta descolar a frase, mas esta se rasga, entrega outra para o aluno. Auxilia na colagem retomando a leitura da frase. (Arquivo em Notas de campo 12.05.11)
Percebe-se que a professora reorganizou a situação, intencionalmente, para propor uma determinada pergunta ao aluno, ou seja, a reorganização tem como intenção propor um desafio para os alunos. Intencionalmente ela circulava por todos os espaços da sala de aula, instaurando em seu trabalho a necessidade em intervir sobre os conhecimentos que os alunos apresentavam sobre o sistema de escrita, ora ela ia até a lousa escrever chamando a atenção sobre como escreve determinada palavra, ora solicitava que os alunos fossem até a lousa, flexibilizando a gestão das interações com os alunos, como na reconstituição abaixo:
A professora coloca os números das brincadeiras na lousa e pede para cinco alunos escreverem o nome da brincadeira e outros cinco para corrigirem como eles escreveram.