S. l.Science, recherche et exploitation
3. Une métaphore de la navigation méthodologique
Em todas as manifestações do mundo das artes visuais, a aparência é o fator constante pelo qual uma relação causal se estabelece entre ‘aquilo que motiva’ e ‘aquilo que é
realizado’.181 Nesse mundo, tudo é uma questão de aparência: é pela aparência que um autor ou estilo se destaca de outros; é pela aparência que temas, composições, conteúdos e efeitos se manifestam aos sentidos, se esteticizam, impressionam e emocionam; é pela aparência que as influências, entre sítios, épocas e autores, se exercem, e é pela aparência que se dá possibilidade de imitação… Enfim, é mesmo pela via da aparência que a própria historiografia de arte tem organizado a diversidade de produção de obras de arte e tem até estabelecido relações com eventuais contributos de ordem mais funcional (associáveis a condições técnicas, políticas e sociais) que levaram a tal diversidade ou à consideração de certos sintomas evolutivos na arte.
“O valor da arte é amplamente desvinculado da estética” (como verifica Pinker), onde se conclui que a estética é inerentemente vinculada à aparência. Como é óbvio, tudo aquilo
180 “Os biólogos desde Darwin intrigavam-se com exibições como a cauda do pavão, que impressiona a pavoa mas
consome nutrientes, atrapalha os movimentos e atrai predadores. O biólogo Amotz Zahavi afirmou que as ostentações evoluíram justamente por serem desvantagens. Só os animais mais sadios poderiam dar-se ao luxo de tê-las, e as fêmeas escolhem as aves mais sadias para acasalar-se. Os biólogos teóricos inicialmente se mostraram céticos, mas um deles, Alan Grafen, provou mais tarde que a teoria tinha sentido.
O consumo conspícuo funciona quando apenas os mais ricos podem custear o luxo.” – Ibidem.
181 Esta relevância da aparência é obviamente consistente com o modo ‘eidolongénico’ do cérebro funcionar. É pela aparência que, de forma mais tácita e imediata, adquirimos conhecimento e motivações mais pessoais; como Isabel
Dâmaso lembra: “Até certo ponto, somos aquilo que sabemos. O modo como vemos o mundo e o entendemos depende não apenas das nossas motivações e desejos como também daquilo que vulgarmente se chama ‘conhecimento tácito’. A aquisição destes tipo de conhecimento, inerente a uma actividade prática, permite dilatar o campo que define cada sujeito e, deste modo, interferir na experiência perceptual e cognitiva de cada um de nós.” – Isabel Dâmaso: Op. Cit., p.30.
que é constitutivo do artefacto técnico (ou do organismo vivo, onde se pode incluir a cauda do pavão) vincula uma aparência que lhe é própria. Por seu turno, a ‘estética’, que
eventualmente se poderá vincular, pela aparência, às características de um artefacto técnico e até aos efeitos por este propiciado, também aqui, se encontrará ‘amplamente
desvinculada da função e desempenho do mesmo. Isto significa que nem tudo aquilo que tem a aparência de determinado objeto ou ser vivo possa ser efetivamente esse ser vivo ou objeto; como é óbvio, para que algo possa ser como determinada criatura viva ou como determinado artefacto útil, não basta apresentar-se sob meras e reconhecíveis
características epidérmicas; tanto um pardal como um “iphone” têm de conter ou envolver as complexidades (constitutivas e interativas) que lhes são respetivamente próprias. Ou seja, cada um desses produtos – um da Natureza, outro da técnica – tanto a nível intrínseco como extrínseco, tem de implicar e exercer interações que correspondam a ‘um pardal como tal’, ou a ‘um “iphone” como tal’. Ora, isso é algo que só muito parcialmente
dependerá de critérios de aparência, mas que muito fundamentalmente depende de critérios funcionais para poder ser exercido.
Afirmar que tudo o que existe envolve algum nível de aparência, obviamente não significa que tudo existe para poder ser observado ou, sequer, que tudo possa ser observado ou venha a ser observado algum dia. Há que considerar que a aparência só começa a ser influente ou relevante, quando processada pelo sentido da visão de alguma criatura animal ou humana, dotados de órgãos adaptados para o efeito. Embora esse processamento possa permitir alcançar certa profundidade cognitiva e interpretativa (valendo-se do
conhecimento e de instrumentos, conforme iremos ver no capítulo 2.5.4.), levando ao desenvolvimento da ciência, é, contudo, ao nível de uma certa perceção imediata e ‘a olho nu’182que a aparência se torna um recurso funcional, utilmente significativo no quotidiano da vida, para a generalidade das pessoas e para alguns outros animais (como o pavão, de entre muitos outros…).
A aparência formal de qualquer ser vivo, ou de qualquer “objeto designoide”183 por eles produzido, encontra-se sempre coincidente com uma forma adaptada ditada pela função,
182 Ver a olho nu significa ver por meios naturais, com luz natural ou, então, ver sob alguma coadjuvação artificial capaz
de conferir minimamente essas condições naturais, caso elas estejam naturalmente em falta. Isto pode contornar a dificuldade de que “especificar o que quer dizer «a olho nu» está longe de ser fácil” – Nelson Goodman, Op. Cit., p.124.
183 Richard Dawkins, em A Escalada do Monte Improvável, utiliza o termo designoid para se referir à forma de “criaturas
vivas que parecem ter sido projetadas, mas que, na verdade, foram estruturadas por um processo completamente diferente” (p.23). A nomeação objetos designoid é atribuída àquilo que ele designa de “artefactos animais” (p.29) e que são resultantes de certos ‘automatismos instintivos’ de um animal em que “os seus músculos apenas se movem de maneira ditada pelos nervos e o resultado disso é um pote. Por esta razão, classificamos firmemente – mesmo que
ou seja, ditada pelo ‘aproveitamento’ e condicionamento de fenómenos naturais (tendencialmente químicos a nível interno e físicos a nível externo), para selecionar ou criar uma certa “morfogénese autónoma”, mantendo-a dentro de uma natural “invariância” “teleonómica”.184
Por sua vez, a função, referindo-se à condição de integrar, de participar, de condicionar ou determinar processos de aproveitamento de certos efeitos fenoménicos naturais – sejam eles físicos, químicos, biológicos ou neurais (mentais no caso humano) –, é, nestes termos, tudo aquilo capaz de conduzir a determinado resultado ‘teleonomicamente encontrado’ pela seleção natural ou ‘intensionalmente concebido’ por seleção projetual. Nestes termos, esta ideia de função referir-se-á sempre a alguma propriedade, interação ou configuração que se encontra subjacente ou inerente a qualquer ordenamento do qual se faça depender a geração e manutenção de entidades ou de sistemas do mundo vivo.185
Procurando abordar devidamente a correlação, ou eventual mera relação, entre aparência e
função – função que envolva ou suporte formas acidentais, orgânicas, técnicas ou artísticas
– talvez possamos aqui considerar três níveis ou graus de relevância da aparência: Num nível básico, teremos uma ‘aparência de 1º grau’ em que esta, simplesmente, é a ‘parte visível’ decorrente das propriedades de quaisquer estruturas observáveis – onde se podem encontrar as formas vivas, naturalmente selecionadas (como o são as plantas e os animais); as formas ‘não vivas’, formadas e dispostas acidentalmente (como é o caso de
surpreendidos – as tocas da vespa e da abelha como objectos designoid: objectos que não foram configurados pela vontade criativa própria do animal.” (p.27).
184 Jacques Monod, em O Acaso e a Necessidade, considera a invariância, a teleonomia e a morfogénese autónoma como
“as propriedades mais gerais que caracterizam os seres vivos e os distinguem de resto do universo”. Resumidamente, Monod diz-nos que a invariância tem a ver com o “poder de produzir e de transmitir ne varietur a informação correspondente à sua [de um ser vivo] própria estrutura. Informação muito rica, pois descreve uma organização
excessivamente complexa, mas integralmente conservada, de uma geração seguinte.” (p.18); a teleonomia tem a ver com uma ‘finalidade não projectada’: “todas as estruturas, todas as funções, todas as actividades que contribuem para o sucesso do projecto essencial, serão portanto designadas por «teleonómicas.» (p.20), e morfogénese autónoma em que “pelo carácter espontâneo dos processo morfogenéticos que determinam a estrutura macroscópica dos seres vivos, estes distinguem-se absolutamente dos artefactos, tão perfeitamente, aliás, como da maioria dos objectos naturais, cuja morfologia macroscópica resulta em grande parte da acção dos agentes externos.” (p.17).
185 Esta definição contradiz a ideia de Rudolf Arnheim quando ele refere que “a forma natural não é determinada, nem
totalmente, nem sequer essencialmente pela função.” Justificando que “se se pode ser árvore, peixe ou ave, de centenas de maneiras diferentes, e ainda quando, como é lógico, cada organismo se formou em virtude de um conjunto de condições determinantes, não há meio de explicar a diferença entre um carvalho e um ácer com base nas suas necessidades ou funções reais” – Para uma Psicologia da Arte, p.195.
Esta contradição deve-se ao facto de aqui considerarmos a função como modo ou efeito de alguma interação, apoiada em determinada constituição material ou cognitiva, que faz com que determinada forma/modo de existência (seja esta aparente ou não, tenha esta a configuração que tiver, pertença ela ao meio que pertencer) sobreviva ou perdure de acordo com determinada regularidade teleonómica ou proposital. A função – correspondendo à consecução de uma finalidade ou propósito através de alguma forma (materializada) ou modo (processual) a ocorrer na esfera biológica ou técnica – será sempre um fator relativizado, pois varia com a finalidade ou propósito que a define e depende de contexto em que se manifesta.
um rio, uma montanha ou um cometa); as formas artificiais, projetadas (como seja um lápis, um automóvel ou uma escultura), ou, ainda, as formas decorrentes de alguma eventual interação entre as anteriores (dando-se azo, neste caso, a alguma eventual ambiguidade de propriedades) –. Para as criaturas dotadas do sentido da visão, o nível de
relevância funcional desta ‘aparência de 1º grau’ dirá respeito a uma genérica ‘visualidade
indicativa’ da presença das coisas no mundo – do aspeto dessas coisas e da relação (estática ou dinâmica) entre elas – que integram uma realidade em que essas criaturas eventualmente se possam encontrar em ação e a lidarem (qualquer que seja a intensidade) com a informação de carácter visual que emana dessa realidade.
Depois, há que considerar a ‘aparência de 2º grau’ como sendo particularmente
determinada e aprimorada por seleção natural, levando a que decorra determinantemente de fatores funcionais adaptativos – aqueles fatores que podem gerar e manter uma estrutura viva. Este facto, apesar de a tornar parte integrante da ‘aparência de 1º grau’, acaba por assumir uma relevância funcional diferente desta. Ou seja, enquanto a ‘aparência de 1º grau’ é genérica e independe da eventualidade de ser observada, a de ‘2º grau’ é específica e, de algum modo, depende de ser visivelmente observada. Por conseguinte, a ‘aparência de 2º grau’ torna-se particularmente relevante em determinadas espécies ao funcionar como meio de afirmação/indicação visual (como é o caso, entre muitos outros exemplos, da ‘híper aparente’ cauda do pavão), ou como meio de dissimulação visual186, útil à prevalência genética ou à sobrevivência do mais apto.
Por último, a ‘aparência de 3º grau’ será aquela que poderá ser interpretada, manipulada ou utilizada segundo necessidades e capacidades exclusivamente humanas. Tal como, de certo modo, ocorre com a ‘aparência de 2º grau’, também, a ‘aparência de 3º grau’ poderá genericamente manifestar-se próxima da ‘aparência de 1º grau’. Só que, neste caso, a conexão a este 1º grau refere-se à aparência de alguma forma estritamente funcional em termos práticos, como seja um componente técnico de uma máquina (as ‘sinceras’ características visuais de uma instrumental roda dentada, por exemplo), ou como o
orgânico e ‘estritamente funcional’ corpo humano (onde as expressões emocionais podem manifestar-se nas suas ‘sinceras’ características aparentes de um rosto). Porém, a
‘aparência de 3º grau’ pode vir a adquirir uma relevância funcional diferente quando, ao
186 Richard Dawkins, na sua obra Escalada do Monte Improvável (p.17 a p.20), discorre acerca das extraordinárias
façanhas da seleção natural que levou a que certos seres vivos viessem a usar a aparência para imitar outros e, assim, tornarem-se mais adaptados pela faculdade de enganar.
emancipar-se das condicionantes de ordem tecnológica ou de ordem biológica
(relacionadas com os graus anteriores), passa a poder representar, simular, dissimular, iludir (…) ou sugerir algo invocativo de qualquer ordem (técnica ou orgânica), revelando a sua potencial e conveniente utilidade pelos efeitos que pode exercer no domínio político, económico, social, tecnológico ou artístico. A ‘aparência de 3º grau’ é, portanto, aquela cuja utilidade depende de poder ser manipulada para esses feitos – é a que mais
propriamente se presta a ser projetada – e passível de se tornar mais uma fonte de complicações. Quantas vezes procurar que algo tenha determinada aparência187, mesmo que isso seja a aparência de simplicidade, leva a que tal implique mais complexidade...
187 Esta procura ou atração por certa aparência das formas pode também ser designada por morfofilia. “(…) esse
fenómeno [morfofilia] é extremamente abundante não só nos reinos naturais como, e cada vez mais, também no reino técnico.” – Paulo Parra, Op. cit., p.61.