DEUXIÈME PARTIE. LA TERRE-ESPACE
1. Multifocalisation et profondeur stratigraphique : décentrer le regard, multiplier les voix
Para os humanos o bem-estar ultrapassa a mera homeostase biológica, passando a orientar- se para progressivos incrementos e diversificadas alternativas, facultados pelo
aproveitamento de todo o género de oportunidades sejam estas encontradas ou provocadas por eles. Na verdade, nenhum outro ser vivo revelou possuir tamanha vocação para gerar, explorar e aproveitar oportunidades; devido ao seu cérebro (não tanto devido à sua força ou agilidade), o ser humano tornou-se no mais exímio especialista em melhoramentos de condição de vida e em adaptabilidade às condições do meio. De tal forma assim é que isso tem vindo a refletir-se no aumento do efetivo humano, decorrente da diminuição do número de mortes face ao número de nascimentos.
Se durante cerca de 30 000 a.C. os êxitos adaptativos da espécie Sapiens conseguiu fazer aumentar discretamente a população mundial de ca. 500 000 para uns 5 a 8 milhões indivíduos (com altos e baixos ou acelerações e desacelerações no processo), nas eras seguintes esse crescimento foi acentuando-se cada vez mais, atingindo uns 250 milhões ao chegar ao ano 0. Mas bastaram uns meros 123 anos para o primeiro bilião de pessoas, já alcançado no dealbar do século XIX, ter sido duplicado por volta de 1930. Entretanto, bastou terem decorrido apenas 33 anos para a população humana ganhar (pela terceira vez, ca.1960) mais um bilião de indivíduos. Mas, mais tarde, em menos de metade desse tempo (13 anos), o planeta viria a acolher pela quarta vez mais outro milhão de milhões (ca.1975). Desde então, mais 3 biliões de pessoas haviam ainda de se juntar à população mundial até 2012 (perfazendo cerca de 7 biliões de habitantes atuais).218
A proliferação do ser humano, como consequência do seu poder adaptativo e do ímpeto acelerativo deste, assume hoje proporções preocupantes219 ao causar variados teores de desequilíbrios em diversos âmbitos e por muitas e diversificadas causas. Desde logo, um
reforçar certas desconfianças científicas relativas a esta ideia, pelo facto de esta parecer querer afirmar a existência de um certo propósito divino para a vida e a para evolução. Talvez a designação de hipótese biogeoquímica, pela qual também é conhecida tal ideia, possa suscitar algum sentido mais científico na sua consideração…
Também Paulo Parra nos faz lembrar que “O sistema em que vivemos é uno e mais do que isso é um sistema vivo (…)” vem reafirmar esta ideia de que a ação humana, sendo a única capaz de dirigir a “cooperação entre os sistemas biológicos e os sistemas tecnológicos, produzindo uma evolução sustentada e integrada, livre das falsas oposições entre natural e artificial”, é igualmente a que mais produz interferências e impactos nos contextos onde opera.
Op. cit, p.19 a 20.
218 Segundo dados de Population Reference Bureau and United Nations: World population growth
(http://www.un.org/esa/population/publications/longrange2/WorldPop2300final.pdf).
219 “ (…) uma das angustias que atormentam o homem neste final de século XX é a sua proliferação acelerada. Ameaças
pelas armas A (atómicas), B (biológicas) ou Q (químicas), que podem fazê-la desaparecer definitivamente do planeta, a nossa espécie é-o simetricamente pela arma P (população), que tende a sufocá-lo sob o próprio número.” – Albert Jacquard: Inventar o Homem, p.108.
facto que nos parece óbvio é que o planeta, por causa do seu próprio carácter anisotrópico e heterogéneo, não pode acolher da mesma maneira cada uma das pessoas que compõem a humanidade. Por mais que concordemos com a altíssima importância do que se encontra consignado no ideal democrático e na Carta das Nações Unidas, a igualdade de direitos e oportunidades parece nunca poder deixar de ser uma utopia220 – uma utopia cujo âmago, ainda assim, nunca deixará de se constituir no marco referencial a partir do qual se torna possível fazer as nossas avaliações acerca do ‘grau de humanidade’ presente na
humanidade –.
Podemos atribuir à versátil adaptabilidade da espécie humana a causa do aumento do número dos seus indivíduos, o qual redundará numa espontânea proximidade espacial entre estes (expressa numa virtual densidade populacional por quilómetro quadrado). Mas aquilo que deverá ser considerado como o mais significativo ‘efeito de proximidade’ decorrente de tal versatilidade, dirá antes respeito aos avanços técnicos para facilitação de trocas de informação e de mercadorias por todo o globo. Este efeito, que dá pelo nome de
globalização, muito terá contribuído para uma ampla distribuição dos recursos necessários à criação e manutenção de ensejáveis níveis de bem-estar por todo o planeta221. Não obstante o uso alargado desse potencial de distribuição, estamos longe de conseguir
garantir uma repartição minimamente equilibrada e acessível de experiências de bem-estar, em termos da sua diversidade, intensidade, amplitude e permanência.
Ao atendermos ao fluxo de trocas e transferências, relativos a todo o género de efeitos adaptativos e transformativos, a ocorrerem por todo o mundo, podemos verificar que a distribuição do bem-estar planetário se fez corresponder, sub-repticiamente e
espontaneamente, não apenas a uma interdependência entre seres humanos mas também a uma acentuada dependência de recursos de todo o género por parte das sociedades
humanas tecnológicas. Estas, ao erigirem-se sobre a necessidade de satisfação imediata e ao acomodarem-se a padrões de qualidade de vida partidarizados no crescimento, no progresso e no desenvolvimento, foram engendrando uma estrutura planetária de
intrincadas dependências, conexões, interações e retroações, a dinamizarem-se à revelia da
220 “De facto, sabemo-lo bem, ninguém acredita que se concretize num prazo previsível a igualdade entre os cidadãos
inscrita nos frontões dos nossos edifícios públicos. Muito pelo contrário, o fosso alargar-se-á. Os países mais ricos, graças à riqueza, têm o poderio que utilizam para defenderem o seu quinhão, conservarem o poder, aumentarem os privilégios.” – Idem, p.119.
221 “Para a maioria dos bens, os lugares de consumo estão cada vez mais afastados dos lugares de produção. Os laços que
unem necessariamente as condições de vida do produtor e do consumidor atravessam agora os oceanos e tecem uma rede de malha tão apertada que poucos homens ainda logram escapar-lhe.” – Idem, p.121.
premeditação, previsão e controlo por parte do ser humano que muitas vezes nem sequer se apercebe dessa dinâmica.222