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Une identité professionnelle d’archiviste ?

Dans le document Les archivistes itinérants (Page 28-31)

3. Un métier qui s’adapte

3.2. Archivistes et identité(s) professionnelle(s)

3.2.2. Une identité professionnelle d’archiviste ?

Na época da pesquisa do mestrado, conheci o caso de um casal de anciãos que chegaram a Tranaman em qualidade de caserosnas terras de um agricultor não mapuche residente em Tranaman. Casero é onome usado nos setores rurais do sul do Chile para se referir às pessoas que,em acordo com o dono de uma propriedade, chegam ao lugar onde se localiza a propriedade para cuidarda casa e da roça, recebendo,em troca do cuidado,moradia de graça no lugar. Casos deste tipo não são muito frequentes em Tranaman. Eles correspondem a famílias que adquiriram porções de terras via compras irregulares ou aluguéis a 99 anos permitidos pela Lei de Pinochet no período da ditadura. Todavia, não devem ser mais de cinco famílias em todo o território de Tranaman. Em geral,nesses casos existe um acordo de palavra entre as partes, no qual o dono cede suas terras para uso e residência e, por sua vez, a contraparte se compromete com o cuidado e trabalho daquelas. Não há pagamento de aluguel. O que se se estabelece é que uma parte dos usufrutos obtidos das terras deve ser entregue para seu dono, e uma parte, menor, fica com os cuidadores do terreno ou caseros.

Daniel e Rosa moravam nas terras correspondentes ao Título de Merced Margarita Maica,cujo dono nunca cheguei a conhecer. Devido à falta de um lugar onde viver, eles tinham aceitado o acordo de cuidar das terras. A casa que eles habitavam não estava em boas condições, e naquela época me contaram que haviam feito inúmeras tentativas por conseguir algum tipo de subsídio habitacional, mas a resposta das autoridades locais sempre era a mesma. Eles nãoestavam qualificados por não serem os donos da terra na qual moravam e na qual eventualmente poderiam construir sua vivenda. Sem um documento oficial, uma escritura pública que provasse sua qualidade de proprietários da terra, as opções de um subsídio para a moradia ou qualquer outro tipo de ajudas ou benefícios eram nulas. No decorrer do tempo, o casal de Daniel e Rosa foi estabelecendo amizade com algumas das famílias mapuche do lugar e se envolvendo em várias das atividades sociais organizadas pela comunidad indígena. Eles chegaram a se sentir tão acolhidos pelo grupo que realizaram os esforços para comprar as terras do dono chileno, conseguindo-o depois de vários anos.

Sua participação nas atividades da comunidad legal era sistemática, independentemente de que ele e sua esposa não fossem mapuche e sem lhes importar não ser formalmente sócios da organização. Mesmo assim, eles não perdiam as reuniões, e me parece que, dada essa disposição que eles sempre manifestaram,eram frequentemente convidados para toda série de eventos, atividades, reuniões, encontros, convites,que elessempre recebiam com muito agrado e nunca recusavam. Eles sabiam que seu compromisso com a organização era observado atentamente pelas lideranças e os sócios da comunidad indígena na época, e sabiam também que esse comportamento poderia somar na hora de decidir fazer a solicitação de ingresso nacomunidad indígena. Eles comentaram comigo que, alguns anos antes que eu os conhecesse, seu Daniel tinha feito o pedido de ingresso e inscrição como sócio, solicitação perante a qual a diretoria da época se manifestou contrária, argumentando que eles não eram mapuche. Entretanto, abriram a possibilidade de estudar sua situação sobre baseado em como ele se comportaria em termos de colaboração e compromisso com as atividades da comunidad indígena.

De certa forma, a diretoria da época deixouseu Daniel num estado de prova. Nos termos de um das lideranças, ele e sua esposa deviam ter mérito para serem aceitos como sócios da comunidad indígena, e isso era medido na sua disposição de acompanhar as atividades realizadas pelaorganização jurídica. Lembro que seu Daniel e sua esposa ajudaram durante todo o processo de organização do ngillatun em 2005por

ocasião da recuperação das terras compradas pela Conadi. De fato, foi solicitado a Daniel sua participação especial para cumprir com o papel de carregar a cavalo uma das bandeiras usadas a propósito da realização do ritual naquele momento, responsabilidade que costuma ser entregue a pessoas mapuche originárias da Tranaman pelo significado que aquele ato tem para os fins da cerimônia vinculados à motivação do ritual e ao pedido especial do ngillatun nesse ano. Apesar do frio, da chuva, da avançada idadee uma situação de saúde delicada de ambos, lembro com clareza que eles acompanharam toda a cerimônia.

Fui testemunha também da disposição e colaboração que Daniel e Rosa tinham quando eram requeridos para desenvolver os trabalhos agrícolas nas terras comunitárias da comunidad indígena,que sempre demandam várias jornadas de trabalho para preparar os solos, para semear, para limpar, para a colheita e, no caso de Rosa, para acompanhar todos esses trabalhos contribuindo na preparação da comida para os trabalhadores, muitas vezes sem eles terem certeza se receberiam algo em troca, como era o caso dos sócios da comunidad indígena,que tocavam proporcionalmente uma parte do rendimentoobtido na colheita.

Em várias ocasiões, ouvi comentários de pessoas da Tranaman, sócios e não-sócios, que indicavam que seu Daniel era mais comprometido que os próprios mapuche. Por sua vez, a sua esposa, a sócia Rosa, como as pessoas lhe chamavam, sempre estava disposta a ajudar na organização das atividades como, por exemplo, na preparação da comida, ela participava também de grupos de trabalho das mulheres, era incluída para assistir a visitas técnicas dirigidas aos sócios da comunidad indígena, etc.

Fotografia tirada em 2005 na fase final do trabalho de campo do mestrado. O casal de Daniel e Rosa me convidaram na sua casa e fizeram para mim uma comida de despedida a proposito da fianlização da pesquisa junto a eles. Na foto,em pé, um vizinho e amigo do casal, do lado, a pesquisadora, e embaixo Daniel e Rosa.

Foi assim que, num dado um momento, Daniel Martínez decidiu solicitar, mais uma vez,à diretoria da comunidad indígena sua incorporação formal à organização. A diretoria, em consideração à suaproximidade com as famílias e seu compromisso com as atividades da comunidad indígena,acedeu à petição de seu Daniel, apoiando-o para ele conseguir, perante a Conadi, o certificado que lhe outorgasse sua “qualidade de indígena”35

para, dessa forma, ser um integrante mais da comunidad indígenaWoñotuy Tañi Mapu Lonko Llao Tranaman.

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A qualidade de indígena é uma categoria outorgada a uma pessoa não indígena permitida também pela legislação indígena vigente, que deve ser solicitada à Conadi e deve contar com a aprovação da comunidad legal. Nesse caso, ambas as instâncias reconhecem a uma pessoa sua condição de indígena e com isto a possibilidade de participar dos mesmos benefícios que uma pessoa pertencente a algum dos nove grupos indígenas reconhecidos na legislação. O comum é que tal condição seja conferida após o casamento, quando a aliança se produz entre um indígena e um não indígena. Nesse sentido, o caso de seu Daniel constituiu

A decisão de inclusão de seu Daniel como sócio da comunidad indígena não recebeu reparos ou críticas por parte de pessoas de Tranaman, nem dos sócios nem dosnão-sócios. Por todos foi bem recebida a decisão, e seu Daniel e sua esposa agradeceram e reconheceram a aceitação. Tal decisão, junto ao fato de terem conseguido,tempos antes, comprar e se transformar em donos das terras que durante anos cuidaram, os impulsionou a concretizar a construção da sua nova casa. Não lembro bem se conseguiram um subsídio ou se a casa foi comprada com recursos próprios, o assunto é que depois de um tempo sua antiga casa foi demolida e trocada por uma nova. Infelizmente, Rosa não teve a possibilidade de ver concretizado esse grande sonho, pois veio a falecer inesperadamente por uma parada cardíaca. Seu Daniel teve uma sorte similar e faleceu, também, pouco tempo depois da sua esposa.

3.4 A negativa para o ingresso de Mary como sócia ativa da

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