5 Computational results on two-dimensional two-phase prob- prob-lems
5.2 Underwater explosion with cavitation
Em virtude das diversas definições contraditórias disponíveis na literatura, conceituar o termo bilinguismo não é uma tarefa simples. Ao longo dos anos, muitas foram as explicações propostas que levam em conta aspectos bastante distintos. Se
14 Texto original: “girls are more advanced than boys in language development, especially in the early
years. They have a larger vocabulary and are more skilled in the use of words” (LAMBERT e PEAL, 1962, p. 01).
para algumas dessas interpretações um indivíduo bilíngue é toda pessoa que conheça algumas meras palavras em outro idioma (EDWARDS, 2006), para outros linguistas, bilíngues são apenas os indivíduos que possuem controle nativo em outro idioma (BLOOMFIELD, 1933).
Para Bloomfield (1933), o “verdadeiro” bilíngue é a pessoa que domina uma segunda língua de forma tão proficiente, ao ponto de poder se passar por um nativo do idioma, sem perder sua língua materna. Segundo o estudioso, os bilíngues são os sujeitos que se comportam da mesma forma em ambas as línguas. Bloomfield (1933), ainda, afirma que o bilinguismo é o resultado do uso de dois idiomas na primeira infância, sendo bastante improvável que após esse período seja possível atingir o nível esperado, uma vez que já não existe a flexibilidade muscular e nervosa para reproduzir os sons da língua estrangeira, por exemplo.
Macnamara (1967) especifica que dentre as quatro habilidades linguísticas (falar, escrever, entender e ler) não necessariamente um bilíngue precisa dominar todas da mesma forma. O linguista defende que os falantes bilíngues são aqueles que “possuem uma das habilidades linguísticas mesmo que em um nível mínimo em sua segunda língua”16 (MACNAMARA, 1967, p. 59-60). Portanto, um indivíduo que
não teve instrução formal em uma língua estrangeira, mas a utiliza para se comunicar com outras pessoas pode ser considerado bilíngue. Ou, ainda, um aluno da rede pública de ensino que é capaz de compreender os textos levados pelo professor para a sala de aula, também, pode ser visto como um bilíngue. Macnamara (1967) acredita na ideia de bilinguismo como um continuum. Para o autor, o fenômeno bilíngue deve ser associado a um continuum que varia entre os indivíduos e entre as habilidades.
Mozzillo de Moura (1997) corrobora a ideia de um continuum bilíngue. A autora destaca que todos os indivíduos que dominam pelo menos uma das habilidades linguísticas em mais de uma língua estão situados em algum lugar de um continuum imaginário, conforme ilustrado na Figura 02. De acordo com a pesquisadora, o continuum está dividido em: monolíngues, bilíngues incipientes, bilíngues passivos ou receptivos, bilíngues desequilibrados e bilíngues equilibrados
16 Texto original: “possess at least one of the language skills even to a minimal degree in their second
ou falantes equilíngues. Faz-se vantajoso destacar que os indivíduos não permanecem estáticos na linha imaginária do continuum, durante o percurso de aquisição de uma língua, o indivíduo pode mover-se entre os níveis de proficiência, tanto proceder quanto retroceder em sua aprendizagem17 (MOZZILLO DE MOURA,
1997, p. 73-74).
Figura 02 – Continuum bilíngue. Fonte: A autora. Baseado em de Mozzillo de Moura (1997)
Classificar o monolinguismo não parece apresentar dificuldades, uma vez que estar no ponto “monolíngue” significa deter apenas um sistema linguístico. Todavia, no que diz respeito ao bilinguismo existem distinções entre como os aprendizes podem ser classificados. Existem os bilíngues incipientes, indivíduos que recentemente começaram a estudar uma língua estrangeira. Tem-se os bilíngues passivos ou receptivos, sujeitos que leem ou entendem bem na língua estrangeira. No entanto, não têm a mesma desenvoltura na produção escrita ou na fala como, por exemplo, estudantes universitários que utilizam a leitura em uma língua estrangeira para fins acadêmicos. Os bilíngues desequilibrados são aqueles que, apesar de se expressarem bem, em todas as habilidades, “não passam por nativos ao serem julgados por quem o seja realmente” (MOZZILLO, 2001, p. 291). Por fim, os bilíngues equilíngues são os sujeitos reconhecidos como nativos em ambas as línguas que falam. Mozzillo (2001) pondera que raramente essas pessoas altamente proficientes nos dois idiomas são efetivamente equilibrados, uma vez que, em geral,
não apresentam desempenho semelhante nas duas línguas em todos os contextos. Deste modo, por exibir alto grau de domínio nas situações em que usam a L2, esses indivíduos acabam sendo vistos como nativos em ambas as línguas (MOZZILLO, 2001).
No que tange às classificações sobre os graus de bilinguismo, Wei (2000) traça um quadro bastante completo, elencando 28 tipos de falantes bilíngues. Não obstante, é essencial ressaltar que um indivíduo não deve ser categorizado em apenas um tipo específico de bilíngue, visto que os níveis de proficiência podem ser distintos no que se refere às quatro habilidades linguísticas (MACNAMARA, 1967). Por exemplo, enquanto um determinado falante pode ter desenvolvido sua capacidade de ler em uma língua estrangeira, o mesmo não obrigatoriamente acontece nas demais habilidades. Na Tabela 01, mostra-se o mapeamento apresentado pelo autor:
Tipo Definição
Bilíngue aditivo Quando as línguas complementam-se de forma a enriquecer uma a outra
Bilíngue ascendente O desempenho na segunda está melhorando devido ao seu maior uso
Bilíngue balanceado Indivíduo que tem habilidades bastante semelhantes em ambas as línguas Bilíngue composto
Acontece quando o sujeito aprende as duas línguas ao mesmo tempo, em geral, no mesmo
contexto
Bilíngue coordenado Quando a aprendizagem dos idiomas dá-se em contextos distintos
Bilíngue mascarado Indivíduo que esconde seu conhecimento na segunda língua devido a uma disposição atitudinal Bilíngue diagonal
Pessoa em que uma das línguas não é considerada padrão (possivelmente falante de um
Bilíngue dominante
Quando o falante apresenta maior proficiência em uma das línguas e a usa mais do que o outro
idioma Bilíngue adormecido
Ocorre quando uma das línguas não é consistentemente utilizada, por falta de
oportunidade
Bilíngue precoce Sujeito que aprendeu ambas as línguas na primeira infância
Bilíngue funcional
Pessoa que consegue utilizar ambas as línguas com ou sem a proficiência necessária para
determinadas atividades Bilíngue horizontal
Indivíduo bilíngue em duas línguas bastante diferentes, no entanto, que desfrutam do mesmo
status Bilíngue incipiente
Indivíduo que está nos estágios iniciais de aprendizagem e que não desenvolveu a língua por
completo
Bilíngue tardio Indivíduo que iniciou os estudos da segunda língua no final da infância
Bilíngue máximo Pessoa que tem praticamente o mesmo desempenho nos dois idiomas
Bilíngue mínimo Sujeito que apenas conhece poucas palavras ou frases na língua estrangeira
Bilíngue natural
Pessoa que nunca teve instruções formais na segunda língua, todavia, pode entender e até
traduzir de uma língua para outra Bilíngue produtivo
Indivíduo que, além de entender o idioma estrangeiro, também pode escrever em ambas as
línguas Bilíngue receptivo
Pessoa que compreende a língua estrangeira, porém, não necessariamente produz na escrita ou
na fala Bilíngue recessivo
Sujeito que começa a apresentar dificuldade em compreender ou produzir na língua estrangeira,
em decorrência da falta de uso Bilíngue secundário
Alguém cuja segunda língua tenha sido adicionada a uma primeira língua através de
instrução
Bilíngue semilíngue Indivíduo que não tem conhecimento significativo em nenhuma das duas línguas
Bilíngue simultâneo Pessoa para a qual ambas as línguas foram introduzidas desde o início da fala Bilíngue subordinado
Alguém que exibe interferência em seu uso da língua, reduzindo os padrões da segunda língua
para os da primeira Bilíngue subtrativo
Ocorre quando a aquisição da segunda língua acontece às custas de aptidões já adquiridas na
primeira língua
Bilíngue sucessivo Sujeito que aprende a segunda língua após o início da aquisição do primeiro idioma Bilíngue vertical
Alguém que é bilíngue em uma língua padrão e em uma língua relacionada à primeira, no entanto,
não-padrão, como, por exemplo, um dialeto
Tabela 01 – Tipos de bilinguismo. Fonte: Wei (2000)
Grosjean (2008a) propõe que o fenômeno bilíngue seja abordado a partir de uma visão holística, na qual o falante não seja percebido como um todo integrado que pode ser separado em duas partes. Em outras palavras, o autor rechaça o pensamento de que o bilíngue é a soma de dois monolíngues. Ao invés disso, para o pesquisador, o falante de dois idiomas possui uma configuração linguística específica que promove a coexistência e a constante interação das duas línguas (p. 13).
Apesar de esta dissertação tratar especificamente do fenômeno multilíngue, concordamos com os postulados de Grosjean (2008b), quando o autor afirma que os falantes bilíngues são aqueles que usam mais de uma língua em seu cotidiano (p.10). Também, compartilhamos da ideia de que o falante bilíngue é completamente competente para se comunicar em situações nas quais está inserido, uma vez que faz uso dos idiomas tendo diferentes propósitos, em diferentes contextos e com pessoas diferentes. Portanto, Grosjean (2008b) corrobora a concepção de Mozzillo (2001), ao ressaltar que raramente os bilíngues têm o mesmo nível de fluência em ambas as línguas que falam. Entretanto, devem ser concebidos como bilíngues os indivíduos que não utilizam os dois idiomas de mesma forma, nos mesmos contextos e com os mesmos níveis de proficiência (p. 14).
Com o intuito de esclarecer quais são as diferenças entre a aquisição bilíngue e a aquisição multilíngue, na próxima subseção, apresentaremos conceitos referentes à aquisição18 multilíngue, sob a ótica da Teoria dos Sistemas Dinâmicos
(TSD).