Quanto à produção, 66,7% das usinas possuíam produtividade média inferior a 5.000 t/mês. Por sua vez, na linha de produtos constatou-se que 66,7% das usinas produzem apenas AR, enquanto que as demais agregam valor a esse material através da fabricação de artefatos em concreto, como blocos, piso e outros. A SP 3 possuía a maior linha de produtos dentre as usinas analisadas (Figura 65). Em contrapartida, a maioria das usinas priorizava a produção da bica corrida (Figura 66), em função do direcionamento do produto para uso em pavimentação.
Figura 65 - Peneira vibratória e correias
transportadoras para produção de ARC na SP 3
Fonte: Nascimento (2007, p.7)
Figura 66 - Produção de bica corrida na usina SP 4,
em Guarulhos
A produção de artefatos de concreto com AR ocorre pontualmente e em pequena escala nas usinas SP 1 (Figura 67 e Figura 68), MG 1 e MG 3, o que não atende a demanda de uma indústria como a ICC. Diante disso, observa-se uma oportunidade para ampliação da participação das usinas privadas nesse mercado, a partir da agregação de valor aos AR, por meio da produção desses artefatos. As usinas MG 3 (Figura 69) e MG 1 (Figura 70) fabricam blocos de vedação sem função estrutural com ARC, direcionados para as obras da Prefeitura, enquanto que os blocos de MG 3 são comercializados pela cooperativa Ecobloco.
Figura 67 - Fabricação de artefatos em concreto na
usina SP 1
Figura 68 - Exemplos de alguns produtos da fábrica
Figura 69 - Cooperativa de artefato em concreto
Ecobloco, situada na usina MG 3
Figura 70 – Blocos de vedação com AR fabricados
na usina MG 1 para obras públicas
Em relação à aplicabilidade dos AR produzidos nas usinas, os gestores apontaram diversos processos construtivos e materiais (Tabela 48). Atribui-se esse resultado a não visualização do potencial dos AR, tendo em vista que apenas 33,3% das usinas analisadas fabricam outros materiais com AR. Entre as outras aplicações dos AR (44,4%), os gestores citaram muro de contenção, urbanização de favelas, assentamento de guias de meio-fio e pisos intertravados. Tabela 48: Aplicações dos AR produzidos nas usinas, segundo gestores
Aplicações citadas f %
Base e sub-base para pavimentação 9 100
Regularização de nível (aterros) 7 77,8
Argamassa 5 50
Bloco de vedação não estrutural 4 44,4
Concreto não estrutural 4 44,4
Outras aplicações 4 44,4
Artefatos pré-moldados em concreto 2 22,2
Bloco de vedação estrutural 1 11,1
Conforme G 1, a utilização de AR para cobertura de estacionamentos, em Belo Horizonte “É um destino menos nobre, vamos dizer assim, mas de qualquer forma você está reaproveitando o material”. Tal opinião é compartilhada por G 9 “Esse material é muito nobre para ir pra pavimentação”. Por outro lado, em Socorro, não há demanda de AR para essa aplicação porque “Aqui ainda tem fartura de terra, você entendeu? Ainda tem muita gente que cava o barranco para tirar terra, para fazer cobertura de aterro (G 4)”. Diante disso, verifica-se que as aplicações de AR podem variar, conforme a demanda de AN na região.
O aumento de produtividade da usina está relacionado ao período de seca segundo 77,8% dos gestores, enquanto que para os demais se relaciona a quantidade de empreendimentos em execução, como assegura G 9 “Tendo obra, tem resíduo”. O aumento da produtividade ocorre, principalmente, entre os meses de maio e agosto (Tabela 49).
Tabela 49: Relação de meses com maior índice de recepção de RCC e produtividade de AR, segundo gestores Mês Usinas M G 2 M G 3 M G 1 S P 6 S P 1 S P 3 S P 2 S P 4 S P 5 F re q u ên ci a P o rc en ta g em Janeiro x x 2 22,2 Fevereiro x x 2 22,2 Março x x 2 22,2 Abril x x x x 4 44,4 Maio x x x x x x x 7 77,8 Junho x x x x x x x x 8 88,9 Julho x x x x x x x x 8 88,9 Agosto x x x x x x 6 66,7 Setembro x x x x 4 44,4 Outubro x x x x 4 44,4 Novembro x x 2 22,2 Dezembro x x 2 22,2
Nesse período, a elevação na produção ocorre porque “É o período mais produtivo em ambas as partes: você tem entulhos mais secos e o pedreiro trabalha com mais facilidade” (G 4). Além disso, “para não pagar a taxa do aterro, o cara toma cuidado e traz para gente um material mais limpo” (G 1). Em contrapartida, G 6 enfatiza que a produtividade da SP 3 mantém-se constante, pois “[...] o incentivo do Governo ele tem gerado a quantidade praticamente igual em todos os meses. Nós não tivemos crise na área de construção civil”. Ainda que 90,6% dos pesquisadores acredite que a caracterização das propriedades dos AR deve ser frequente, a maioria dos gestores não respondeu de forma clara a periodicidade e os tipos dos ensaios realizados nas usinas. Dentre os citados, está Absorção, Abrasão Los Angeles, Índice de suporte Califórnia, Ensaios de compactação e análise granulométrica. Esse resultado foi justificado pelos gestores devido aos seguintes fatores: (a) os ensaios são realizados, esporadicamente, de acordo com a demanda para aplicação em uma obra pública e (b) os resultados dos ensaios são enviados para secretarias municipais e não se verificou indicativo de repasse de informações para os gestores. Somente a usina SP 3 possuía um arquivo com os ensaios para consulta.
A par disso, questiona-se como os gestores de usinas públicas ou privadas podem garantir o desempenho e a qualidade dos AR para os consumidores e/ou usuários? Assim sendo, acredita-se que o contexto atual deve ser modificado, tendo em vista a implantação de programas de controle de qualidade para inserção do material no mercado, bem como sua utilização para fabricação de artefatos em concreto.
Na opinião dos gestores, a falta de triagem no canteiro de obras é o fator que mais influencia a qualidade dos produtos fabricados na usina, visto que “Uma triagem mal feita ou feita de forma inadequada vai causar baixa qualidade e comprometer a produção de agregado reciclado. Compromete a produção, comercialização e uso também” (G 8). Nesse sentido, as medidas sugeridas para melhoria da qualidade dos AR (Tabela 50), implicam em ações além dos muros das usinas de reciclagem e, portanto, de difícil execução para os gestores das usinas, havendo necessidade de interação com outros agentes intervenientes.
Tabela 50: Ações sugeridas para melhoria da qualidade dos AR, segundo gestores
Ações citadas f %
Realização de triagem no canteiro de obras 6 66,7 Capacitação e conscientização dos operários 4 44,4 Implantação do PGRCC nos municípios 5 55,5 Parceria entre usinas, construtoras e SINDUSCON 2 22,2 Parceria entre Prefeituras e caçambeiros 2 22,2 Redução do tempo de triagem nas usinas 2 22,2
Em relação à comercialização dos AR, os gestores sugeriram medidas necessárias para sua inserção no mercado (Tabela 51), destacando-se a divulgação do produto com bases que garantam ao consumidor sua qualidade: “Está faltando de cara mostrar que você produz um produto de qualidade" (G 8). No que se refere ao processo e ao produto constatou-se que nenhuma usina possuía certificação ou selo verde, apresentando apenas o alvará de funcionamento e a licença ambiental expedidos em nível municipal.
Tabela 51: Ações sugeridas para inserção dos AR no mercado, segundo gestores
Ações sugeridas f %
Ampliar a divulgação sobre suas características e aplicações 5 55,5 Incentivar a entrada da iniciativa privada no mercado 3 33,3 Incentivar a compra de AR pelos munícipes 2 22,2 Buscar melhoria contínua no processo produtivo 2 22,2 Investir em novas pesquisas sobre aplicações dos AR 2 22,2
Investimento do setor público 2 22,2
Produzir artefatos de concreto com AR 1 11,1
Valorização do fator preço dos AR 1 11,1
A divulgação de informação sobre as características e aplicações de AR deveria ser diferenciada, conforme o tipo de público. Quanto à divulgação das características dos para a população: “Eu acho que tinha que ter uma divulgação maior disso, tipo seminários, feiras, voltada para este tipo de material” (G 1). Quanto à exposição de informações técnicas para profissionais e projetistas da construção civil deveria ser ampliada, pois: “Tanta gente faz
mestrado e doutorado com isso e a informação não chega no pedreiro.[...] Falta de divulgação, a universidade falha" (G 9).
Os gestores da iniciativa privada (G 4, G 6, G9) enfatizaram a necessidade de incentivos e subsídios governamentais para inserção de AR e construção de novas usinas: “Incentivo do governo, incentivo de construtoras, incentivo de pavimentadoras e assim por diante” (G 6). Por outro lado, os gestores públicos (G 1, G2, G5, G7) indicaram a divulgação das atividades desenvolvidas nas usinas e a utilização de materiais reciclados em obras públicas para conscientização da população sobre a importância do gerenciamento dos RCC. Enquanto isso, os gestores das empresas de economia mista incentivaram a realização de novas pesquisas. Nesse contexto, verifica-se uma margem de lucro elevada, quando se percebe que produzindo AR com qualidade há mercado consumidor. A par disso, G 5 destacou a possibilidade de lucro da iniciativa privada nesse negócio: “Porque se eu fabrico um bloco em escala econômica a 35-40 centavos ele sendo vendido no mercado a 1,50 dá uma variação absurda de percentual”. Para que isso ocorra seriam necessários alguns condicionantes: “Se tiver produção, qualidade, é num falta mais nada. É sério! E falta agregado, falta agregado no sentido que faltam usinas de reciclagem de entulho nas diversas cidades” (G 4).
O planejamento para ampliação da capacidade produtiva ressalta a necessidade de relatórios periódicos contendo a variação do volume de resíduos recebidos, triados e reciclados pela usina. Essa análise colaboraria para a ampliação da capacidade produtiva e avaliação da produtividade, subsidiando estudos de viabilidade e diversificação de produtos. No entanto, durante a pesquisa, relatórios como estes não foram citados e/ou fornecidos pelos gestores. As ações referentes à ampliação da produção citadas anteriormente são relevantes na medida em que se considera a utilização dos AR, em larga escala, por outros setores da construção civil (Tabela 52). Nessa questão, permaneceu a ênfase no setor de pavimentação por que: “Hoje no Brasil, de forma geral, você tem uma demanda muito grande pra pavimentação” (G 8) e “[..] pavimentação engole tudo. Você joga, é barato. Em vez de você jogar na beira do rio você joga na rua. Só que fica útil entendeu?" (G 9).
A aplicação em pré-moldados (66,7%) condiciona-se ao uso de ARC: “Vai ter um agregado de melhor qualidade, seja areia,brita. Qualquer coisa que produza com esse material vai ser de melhor qualidade” (G 4). Por outro lado, a ampliação do uso necessita de “[..] uma campanha de utilização de agregados reciclados, aonde você tenha a maior demanda para uso e aonde ele se aplica de uma melhor maneira, com relação as suas características” (G 8).
Tabela 52: Setores da construção civil aptos ao uso, em larga escala, de produtos com AR, segundo gestores
Setores citados f %
Edificações interesse social 8 88,9
Edificações residenciais 8 88,9
Pavimentação 8 88,9
Elementos Pré-moldados 6 66,7
Edificações comerciais 4 44,4
Construção pesada 2 22,2
Em relação a habitações de interesse social, G 5 informou sobre o desenvolvimento de um projeto pela SP 1: “Nós já estamos desenvolvendo uma residência, ecologicamente correta, feita exclusivamente com os materiais aqui produzidos que seria: o bloco e o contrapiso”. Entretanto, para que isso ocorra, G 5 relatou a necessidade de ações da Prefeitura, bem como a formação de parcerias com construtoras e empreiteiras do setor. Durante a visita, observou- se que a edificação piloto estava em fase de construção na área dessa usina (Figura 71).
Figura 71 - Projeto piloto para construção de edificações
de interesse social