• Aucun résultat trouvé

Un cadre véritablement mixte de scolarisation

Dans le document LES JARDINS D ENFANTS (Page 110-117)

Rapport de recherche sur les jardins d’enfants de la Ville de Paris

ÉQUIPE SCIENTIFIQUE

C. Ouverture aux parents

4. Le rapport des familles aux jardins d’enfants : déterminants du choix, modalités d’interaction et perception des effets sur les enfants

4.3 Un cadre véritablement mixte de scolarisation

A partir de 22 de dezembro de 1998, acresce-se às cenas o já referido Axé-Busu — um expedi- ente pedagógico realmente singular – (extra)vagante, nas ruas da cidade.

As 11:00 horas daquele dia, foi feita a cerimônia de inauguração. No Farol da Barra, estão presen- tes autoridades da política local, o corpo diretor do Axé, técnicos, educandos, jornalistas, transeuntes atraídos. O presidente da Instituição discursa, agradecendo à Prefeitura de Salvador, à Embaixada do Canadá e à DIAKONIA-Áustria, que patrocinaram a biblioteca móvel. O prefeito também fala, ressal- tando a importância de alianças para promover rupturas de estereótipos e reimpressões sociais. No palquinho do teto do ônibus, quatro dos meninos da banda tocam. Embaixo, no gramado do Farol, outros doze acompanham-nos. A banda já se tornou conhecida dentro e fora da Bahia, apresentando- se em eventos isolados ou em co-participação.

Após o número, membros do Axé e seus convidados entram no veículo para conhecê-lo. Trata-se de um ônibus ornado com figuras fantásticas do universo infantil, sob um fundo azul, tão intensamente turquesa, que cintila. Nele, além da biblioteca, estão instalados a videoteca e a sala de primeiros socorros. Sua exuberância provoca impactos e atrações fulminantes a todos que o vêem, principalmen- te aos meninos que permaneceram incólumes às intervenções da educação de rua, já descritas. Desde então, o Busu roda pelo centro e periferias da cidade, seduzindo crianças e jovens em situação de rua em Salvador, bem como em municípios vizinhos. A força que emana daquele transporte incomum é visível. O Axé faz dele palanque para toda a platéia soteropolitana.

Alguns dos visitantes, naquela manhã, só cumprem o cerimonial. Outros se demoram, admirando o acervo. Sentam-se nas mesas e cadeiras, lendo os livros, conversando com a bibliotecária. Meninos que circulam por ali também vêm. Pedem à funcionária que lhes conte uma história. Há aqueles que preferem assistir um vídeo. Um desses, travesso, pergunta:

— Aqui tem comida?

— A comida daqui são os livros. A gente come eles e de quebra, viaja nas histórias, diz-lhe uma educadora.

Ambos sorriem, acomodando-se junto aos demais, para ouvir o conto.

Em algumas ocasiões, assistiu-se a ações político-pedagógicas dos educadores de rua em conjun- ção com aqueles que atuam no Axé-Busu. A primeira dessas deu-se na manhã do dia 03.03.99, em Itapoã. O ônibus pára no estacionamento lateral da principal via do bairro. Seu azul confunde-se com o do céu e o do mar. Rebrilhando sob o sol de verão, compõe a paisagem.

A bibliotecária G arruma o material nas prateleiras, desarrumadas no trajeto, destacando aquele que vai ser o núcleo da atividade do dia – a obra infantil de Monteiro Lobato. Como está próxima a data do aniversário de nascimento do escritor, várias agências e veículos culturais propagam matérias sobre sua vida e criações. Enquanto ela vai arrumando livros, móveis, conferin- do o material didático, colando jornais e cartazes nas paredes e estantes, o motorista B sobe na cobertura para ligar o gerador. Sabe que o programa de hoje inclui a exibição de um filme. Abre a lateral direita, que se transforma num largo balcão de atendimento e ampla tela para os especta- dores – de fora e de dentro – acompanharem.

G seleciona exemplares com capas bem coloridas e os dispõe no balcão, ajudada por um garoto da área. Este a auxilia a prender fotos e textos de – e sobre – Lobato, no fio que impede os livros de caírem

durante os percursos. Juntos, colocam uma mesa plástica na calçada com suas quatro cadeiras. Nela, organizam a distribuição de folders, que apresentam a Instituição e suas linhas de trabalho. A essa altura, os educadores da zona de Itapoã já se aproximam. São duas moças do Axé e um rapaz da FUNDAC, que trabalham em conjunto, a partir de um acordo entre as duas entidades. São orientados por uma coordenadora da área: V, com longo vínculo com o Axé.

Transeuntes se surpreendem com o ônibus que se metamorfoseia. Duas jovens paulistas, em férias, se avizinham, querendo informações sobre o trabalho. Os educadores explicam detalhadamente e as convidam a assistir a programação, que, fora a já referida, incluirá a de desenhar. Elas aceitam com entusiasmo e relatam que estavam na praia, conversando com os “pivetinhos”. Na segunda vez que usam o termo, a educadora A corrige:

— São meninos.

— Desculpe... É sem ofensas, diz uma delas.

Saem, assegurando voltar rapidamente. De fato, vêm pouco depois, a tempo de acompanhar o relato da História do Saci. Os dois educadores, que faziam a “ronda”, atraindo os meninos dispersos pelo bairro, retornam trazendo três deles. Um desses já estivera no Axé, no ano anterior. No Carnaval, não resistiu e voltou às ruas. Nessa manhã, expressa o conflito: quer regressar à Instituição, ao mesmo tempo em que a vida solta também o atrai.

Aos poucos, o ônibus vai se enchendo de crianças. Um jovem pai, saindo do banho de mar com suas duas filhas, é por elas puxado para perto. As meninas querem participar. Ele avalia, inseguro, e não lhes solta as mãos. A bibliotecária intervém:

— Não se preocupe! Eu cuido delas.

As duas sobem felizes e, em breve, compõem o grupo ocupado em desenhar, partilhando o material disponível com os seus companheiros. O pai acompanha o processo do lado de fora, mas as meninas não lhe dão atenção. Mais relaxado, avisa que volta dentro de uma hora para buscá-las. No seu retorno, as filhas mostram-lhe o que fizeram. Tinham produzido desenhos, que foram admirados pela bibliotecária e pelos colegas. Saem radiantes. O pai também está satisfeito e, principalmente, aliviado... Não verbalizara, mas seu receio estava explícito no rosto e nas mãos que seguravam as das crianças com firmeza.

Pouco depois, quase todos os meninos saem. V explica que é normal, que eles são muito inquie- tos, principalmente pela manhã:

Eles dormem até tarde, porque usam muita droga. A cola e o craque estão pesados em Itapoan.

Todavia não demoram. Tornam a entrar e retomam seus desenhos, mas não se concentram. Face à dispersão, G propõe alterar a programação, começando pelo filme, passando à história e voltando aos desenhos. Na videoteca, eles escolhem o Desfile do Axé para assistir. Distribuem-se pelas cadei- ras, pelo chão, pelo balcão. Do lado de fora, na calçada, estão os mais excitados.

Entre esses está I (de 10 a 11 anos), que desacata a educadora. V lhe diz que ele volte, quando se acalmar – “só quando se acalmar!” Ele apanha um livro do balcão, desafiando, e se afasta. Volta, tenta entrar pelo balcão. Como é impedido, joga o livro dentro. De longe, joga pedras. Nenhuma chega perto. Ele parece querer mais chamar a atenção que afrontar. É a própria imagem do processo explora- dor-segregacionista brasileiro. Trata-se do “indiozinho”, já conhecido desde o início do processo de educação de rua em Itapoã. Um sobrevivente, perdido no pesadelo histórico que sacrificou a maior parte do seu povo.

Dois dos meninos que assistem ao vídeo, estão visivelmente drogados, além de muito sujos. A experiência de V permite-lhe o reconhecimento do seu estado e, rapidamente, pede ao motorista que compre água e lhes ofereça continuamente, buscando neutralizar os efeitos. De repente, I invade o espaço, abordando-a. Vem acompanhado de outro, que só agora vencera os efeitos da noite. Este, magrelo, cabelo descorado, chega decidido a resgatar a garrafa de cola, que, conforme lhe informara I, tinha-lhe sido surripiada por J., um dos dois “em maresia”,

— Acordei retado porque minha cola sumiu!

De fato, o frasco está sob a camiseta, no cós da bermuda de J. Antes que o conflito se acentue, a educadora aponta-lhe a porta, dizendo-lhes que resolvam “lá fora”. Eles obedecem. J devolve o tóxico de M, mas, quem sai lambendo é I. Reunidos, afastam-se, renovando as pedradas no Busu. P, aquele que já viveu um período institucionalizado, sai para acalmá-los. Dá certo.

Nova balbúrdia, contudo, se instala ao final da sessão do vídeo. M queria ouvir a última música da trilha sonora. Sob o efeito da droga, não apreende as explicações de G, de que a fita acaba antes que a música se complete.

Uma das educadoras explica que a menina, que chefiava a tribo de Itapoã, foi presa, há pouco tempo. Desde então, seus liderados estão revoltados, drogando-se muito – desnorteados. Revela preocupação com a disseminação do consumo. Além das gravidades comuns, segundo ela, os educa- dores não estão devidamente preparados para atuarem junto aos meninos usuários. Ou seja, não há o devido contraponto socioeducacional para o problema.

Começa a leitura da História do Saci, depois de uma preleção sobre o seu autor, já conhecido por alguns dos meninos. A narração da educadora é cheia de interrupções, para esclarecer perguntas, do tipo:

— E saci, existe mesmo?

— Se está no livro, é porque existe, seu trouxa!, responde o companheiro.

Concluído relato, os meninos pedem para desenhar. Distribui-se papel e lápis. Eles se concentram na atividade. G desprende as reportagens expostas, cedendo-as “para que os meninos se inspirem”. Os drogados se recusam a participar, saindo. J está muito trôpego. V, percebendo seu estado, vai atrás. Ele se deita num banco isolado da calçada, e a educadora acomoda-se junto. Conversam durante muito tempo. A princípio, J expressa-se ruidosamente, explicitando seu desconforto e irritação. O diálogo vai serenando o menino, até que ele se levanta e abraça a educadora, longamente. Voltam juntos ao Busu. Chegam mais dois garotos: C e R, vindos da escola. Entram ansiosos, como quem chega atrasado para uma grande festa. Desenham com ardor. Terminada a tarefa, C dança feliz, embora não haja música. Apresentando-se à “nova educadora”, mostra-lhe a cédula de identidade na carteira vazia.

Ele e seus colegas assinam e datam seus desenhos, acrescentando-lhes suas idades, conforme o pedido da bibliotecária. Ela os examina, destacando os aspectos positivos de cada uma das repre- sentações do saci. Excetuando-se a de R. S., todas as demais são monocromáticas. A sua é, também, a única com o título: SACI. Antes, ele perguntara se a palavra começava com S ou C. Ainda, diferente- mente dos outros, seu desenho reproduz o saci em movimento e o coloca num cenário florestal complexo. Ele surpreendera desde a chegada. É um belo e inteligente rapazinho, participando de todas as etapas do trabalho material. Embora sereno, revelara sua vivacidade e franqueza infantis.

A manhã acaba. Os três educadores da área vão-se embora, bem como os meninos, exceto os que compõem o núcleo da tribo local. São retidos por V., para tratar de seus ferimentos. Primeiramente, ela tranca-se no gabinete médico com X. Com a prisão da líder, ele assume o vácuo da chefia. E, embora seja respeitado pelos outros, parece não ter a mesma dimensão daquela a quem sucedeu, que, conforme os

relatos, é uma figura quase mítica, heróica. X. acaba de ser libertado da Casa de Acolhimento do Menor - CAM. Esteve ali recolhido por tentativa de assalto. Há boatos que o colocam na posição de suspeito de assassinato. De acordo com tais relatos, teria incendiado um menino no Aquidabã, que tentara queimá- lo. Foi solto agora, porque sua mãe comprometeu-se a cuidar dele, pô-lo na escola. Mas ele voltou às ruas, imediatamente. As marcas que traz no corpo revelam muita agressão. Está com um olho roxo e hematomas no tórax e costas. É um belo menino e, apesar do estado e da história, mostra-se equilibrado. Narra que foi pego por um policial, que, segundo ele, supôs que ele ia arrombar uma barraca, porque estava próximo e com uma ferramenta na mão. Teria sido levado para o quartel do Flamengo e lá enforcado com uma corda, também usada para chicoteá-lo. De quebra, teria sido esmurrado.

V volta a fechar-se no gabinete, para cuidar de JJ. Diferentemente do companheiro, esse não se deixa tratar. Insulta-a com um rol de palavras agressivas e obscenas – algumas irreconhecíveis... Conclui o ato, jogando-lhe éter nos olhos, e ela, cega, impõe-lhe o limite: “Chega! Volte quando estiver mais calmo.” Agora, como os meninos drogados, a educadora está com os olhos injetados.

Ele se afasta rapidamente, mas ainda ouve a censura do colega e líder:

— Você xinga a tia. Quero ver você xingar um policial...!

configurando a representação maior de perigo.

A tribo se despede, depois de serem convidados para a sessão de vídeo da tarde. A diz que sim, pois está interessado em assistir o filme sobre AIDS. V, G e B limpam e arrumam tudo, preparando a biblioteca para o encontro vespertino. Ao final, sentem falta do chaveiro. Estão impossibilitados de fechar todas as portas internas e externas do veículo. JJ não se satisfez com as agressões e subtraiu as chaves. Antes que se acione o auxílio de algum profissional das proximidades, a tribo volta e X entra no ônibus para devolvê-las. Saem todos para o intervalo do almoço.

Adiante, a bibliotecária pára para um lanche. Nas vizinhanças, está o “indiozinho”. Mexe no conteúdo de um tonel-carrinho do lixo. Finalmente, entra e é encoberto pela imundície; misturando-se, submerge. Ali, há muito mais lixo que menino. Volta à tona, trazendo uma garrafa plástica de água mineral – de forma e tamanhos ideais para o uso de cola. Enfia-a sob a camiseta. Perto, uma jovem baiana, aproveita a pausa dos fregueses para almoçar. I senta-se junto. Muda, ela levanta-se e prepara-lhe um prato: bife, arroz e salada, num gesto que confirma a consciência humanista do Can- domblé, principalmente refletida nos movimentos de proteção às crianças. Ele agradece e senta na mesma mesa de G. A seu pedido, ela lhe compra um refrigerante.

A baiana dividiu o almoço dela com você. Isto é solidariedade. Da mesma forma, nós dividimos com você o que sabemos.

É trabalho! Mas, é um trabalho de solidariedade. E você “aprontou” a manhã toda...

Não seria mais fácil se você, também, fosse solidário?

Ele concorda. Separa parte da verdura e joga-a no chão. G diz-lhe que essa não é uma atitude solidária, pois suja a calçada que serve a todos. Ele a olha surpreendido e limpa o chão. Para quem, há pouco – literalmente –, confundia-se com os despejos urbanos na vasilha do lixo local, o conceito de higiene pública (solidária) provavelmente revela-se similar. Seguramente, nosso “indiozinho” precisa de mais tempo para internalizar a lição com profundidade. Séculos de referên- cias de monturo requerem transfigurações que exigem mais que anunciação. Mas tem-se logo um avant-première do processo, com a chegada de um seu amigo, fazendo-o dividir seu refrigerante. Derrama a metade no frasco resgatado, e como o quer para outros usos, fica com esse e entrega a garrafa ao companheiro.

I, A, M, J, JJ – núcleo da tribo de Itapo㠖 são dramáticas personagens construídas pela História. Apesar da pouca idade, refletem a violência que recai sobre os componentes da pobreza provocada, condenando-os. Dos cinco, apenas X aparenta uma estruturação, mesmo exposto e experimentando tantas sevícias. Os demais estão destroçados. Parecem viver imersos no coma da cola, que lhes permite abstraírem-se do real. Cheirando como quem mergulha, são afogados às avessas, que se lançam nas profundezas em busca de ar. I já vive um estágio superior (?). Não se satisfazendo em farejar o tóxico, come-o! (– é comido). Resiste às abordagens dos educadores. As atividades com que buscam atraí-lo parecem não ecoar nele; quando muito, digere-as, entre uma e outra lambida ou chupada de cola – como se fosse um sorvete (ou um beijo) – que lhe entorpece os sentidos e lhe aplaca a arquetípica dor.

Há anos está nas ruas, acuado. Na ida a campo (27.11.97), já se tinha travando conhecimento com ele. Àquela altura, embora muito pequeno, mostrou-se mais arredio e hostil. Nesta ocasião, esses comportamentos mantêm-se, oscilantes com os de “ensaios de civilidade”. Entretanto, os contatos amiudados com os educadores não foram, ainda, capazes de dissipar as neblinas de sua origem. Não se conhece seu referencial de família ou qualquer endereço. Só tem o nome: I corporificando o perso- nagem de dos Anjos(1995:205). 3

Da sessão matinal, apreende-se a perspectiva da potencial inversão da História re(de)pressiva sobre os estratos expropriados, na medida em que, apesar dos dramáticos episódios, tende a romper a inércia de participantes e espectadores. É o caso dos transeuntes, que, ultrapassado o espasmo da surpresa, aplaudem as iniciativas de educação e esboçam atitudes colaborativas. Como a de uma dentista do bairro, que se oferece para atender os meninos na sua clínica. Ou como a do proprietário de uma locadora de fitas de vídeo, que disponibiliza seu acervo como empréstimo ao programa de rua. Ou, ainda, como a de um dos líderes da tradicional Colônia de Pescadores, que se oferece para ministrar palestras sobre a história do bairro e faculta as instalações da Entidade para o uso educativo. Ou, simplesmente (?), como a do rapaz, que, mesmo inquieto, permite que suas filhas convivam e compar- tilhem de jogos e brincadeiras direcionados às crianças de rua, rompendo a apartação entre elas.

Noutra ocasião, 15.03.99, outras ações educativas com o uso do ônibus-biblioteca foram acompa- nhadas. Naquela manhã, a programação incluía as apresentações do Grupo de Capoeira, da Banda Axé, já descritas, e a disponibilidade do acervo de livros e filmes: mas o núcleo era uma palestra, sobre doenças sexualmente transmissíveis, para as crianças das ruas da Cidade Baixa.

A organização do evento fora mudada intempestivamente, em virtude da chegada daquele casal, representante da Embaixada do Canadá. A definição anterior pautava-se naquela mesma de Itapoan, de incentivo à leitura e à criatividade como elementos integrativos, a partir da obra de Monteiro Lobato. A presença do par de estrangeiros e da sua disposição de filmar e fotografar o programa redefiniu a proposta, enriquecendo-a com essas de maior intensidade plástica. Daí a aula sobre DSTs e o show de capoeira e música. A flexibilidade institucional em produzir enredos impressiona, da mesma forma como sua capacidade de se estampar, condizente com a era da imagem. Pondo-se e repondo- se nos palcos, angaria apoios técnicos e financeiros, ao tempo em que reimprime reflexões políticas acerca da problemática da infância em situação de risco e de novos marcos teórico-metodológicos, para reverter sua exposição.

Acomodados no chão, bancos e mesas da biblioteca, sete meninos e cinco meninas compõem o grupo inicial que acompanha a explanação do profissional da Unidade de Saúde do Axé. Este utiliza cartazes coloridos, apropriados para a platéia juvenil. São ilustrações de corpos humanos ou figurações destes e da suas partes reprodutivas, mas humanizadas – como a de um pênis com olhos, boca e nariz. As gravuras constituem um bloco, que ele vai desenrolando à medida que fala. Cada página exibe um subtema específico: o corpo do homem, o da mulher, o sistema reprodutor masculino, o feminino, a representação gráfica da sífilis, da gonorréia, do câncer de útero, etc. Trata-se de uma pedagogia muito simples, requerendo material pouco e leve, mas

exige experiência em comunicação, e o médico-educador tem-na. Ele vai envolvendo a garotada, instigando-a à participação.

Por fim, promove um jogo. De um lado, os meninos; do outro, as meninas. O educador faz perguntas e os dois times vão respondendo. Apesar da “proteção do juiz” à equipe feminina, o resultado é amplamente favorável aos meninos: 30 x 10 pontos, reproduzindo a maior liberdade cultural das vivências e discussões do universo masculino, no que diz respeito às questões da sexualidade.

Lá fora, a fotógrafa e o cinegrafista canadenses registram todas as etapas da sessão. Ali também estão os meninos da capoeira que, com seus trajes brancos, começam os preparativos para entrar em cena, mudando o foco dos câmeras. Depois deles, será a vez da banda. A coordenadora geral acom- panha parte do espetáculo. Uma técnica serve de intérprete para o casal de diplomatas. O gerente da Casa da Cultura também segue cuidadoso o desenrolar das atividades, bem como o instrutor de dança, o de capoeira, a coordenadora de rua do local e seus educadores. Além desses, ainda estão presentes a bibliotecária e o motorista do Axé-Busu, a coordenadora de rua de Itapoã e outros educadores. Todos a postos, atentos.

Como as experiências públicas já descritas, a assistência revela pasmo e encantamento. Os adultos que seguiam para os seus afazeres retardam-se, observando o que podem da seqüência de exposições. O tráfego torna-se lento, na medida em que motoristas e passageiros se intrigam com as funções. Contudo, não se ouvem buzinas de protesto. Meninos brotam às pencas, como se, de

Dans le document LES JARDINS D ENFANTS (Page 110-117)