A imposição da restrição da oferta pela OPEP mostrou que o petróleo era importante demais para deixar o mercado ser comandado pelas majors e pelos países produtores. Os governantes das potências ocidentais aprenderam que deveriam ter uma participação mais efetiva nesse mercado. Durante a crise de 1973, os preços do petróleo bruto quadruplicaram, elevando acentuadamente os rendimentos dos países exportadores. Com a formação do cartel, os rendimentos das exportações saltaram de 23 bilhões de dólares em 1972, para 140 bilhões de dólares em 1977 (YERGIN, 2014, p. 718). O acúmulo de elevados superavits financeiros nos países da OPEP causou grave retração na economia mundial. A elevada transferência de capitais dos países consumidores para os países produtores de petróleo provocou grave recessão nos primeiros e elevados gastos nos segundos. Os países produtores utilizaram os superavits comerciais para: investimentos em infraestrutura interna; financiar a elevação do consumo interno em produtos importados; para a importação de materiais bélicos, em virtude da instabilidade política da região; e emprestar aos países capitalistas ocidentais. A venda de armas pelos países industrializados ocidentais era vista como uma estratégia de aproximação e elevação da influência no Oriente Médio, ou seja, as grandes potências ocidentais viam na venda de materiais bélicos uma forma de estreitar relações com os governantes dos países produtores e, dessa forma, tentar evitar novas restrições na oferta de petróleo. Havia também a preocupação de ocupar rapidamente o mercado de armamento em função da expansão soviética para a região. As exportações de armas e de outros produtos industrializados para a região era uma forma de amenizar o desequilíbrio do comércio com os países da OPEP, o qual havia ficado muito deficitário com a crise do petróleo.
As consequências econômicas da crise foram basicamente: elevada expansão das economias exportadoras de petróleo; retração29 acentuada nas economias dependentes do petróleo; e uma inflação elevada no mundo capitalista. A teoria econômica não estava preparada para lidar com os fenômenos conjuntos de recessão e inflação, que, até então, não haviam ocorrido durante os anos dourados do capitalismo. As teorias indicavam que, nas implementações das políticas econômicas, havia um trade-off entre desemprego e inflação, segundo a interpretação da curva de Phillips e, portanto, não previam o fenômeno da estagflação. Os países que mais sofreram com a primeira crise do petróleo foram os em desenvolvimento, porque a maioria deles era de importadores líquidos de capitais e de petróleo.
29 O PNB dos Estados Unidos caiu 6% entre 1973 e 1975, enquanto o desemprego dobrou, se elevando para 9%
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Esses países ainda tentaram equilibrar os seus balanços de pagamentos fazendo empréstimos junto aos credores que reciclavam os petrodólares da OPEP para financiar os investimentos necessários para manter o mesmo nível de crescimento, mas isso somente foi viável enquanto as taxas de juros praticadas no mercado interbancário internacional ainda estavam baixas para os países emergentes devido ao excesso de liquidez. No momento em que a liquidez internacional diminuiu, as taxas de juros aumentaram, as dívidas desses países explodiram e a recessão acompanhada de elevada inflação atingiu todo o mundo emergente.
Com a forte elevação do preço do petróleo, praticamente, todos os países industrializados buscaram reduzir, de alguma forma, a dependência do petróleo importado. As políticas energéticas que esses países implementaram tinham basicamente três princípios: a conservação da energia; investimentos em pesquisas com a finalidade de descobrir campos petrolíferos novos dentro do próprio país e a busca por fontes alternativas de energia; e a intensificação da produção para os países que tinham reservas petrolíferas.
Os Estados Unidos passaram a ter uma nova preocupação com a crise do petróleo: o assédio que a Europa poderia sofrer do petróleo da União Soviética, caso novas restrições de oferta fossem impostas pela OPEP. Havia também a preocupação com o avanço da União Soviética sobre a Europa, o qual havia sido afastado com a consolidação da democracia nos países aliados dos EUA. O fenômeno da estagflação, que, praticamente, se instalou em todo mundo ocidental, poderia comprometer o sistema de bem estar social e fazer renascer o fantasma do socialismo.
Passada a crise de 1973 – 1974, houve uma estabilização dos preços nominais do óleo cru, mas, devido a elevada inflação provocada pelo choque de oferta do petróleo, os preços reais30 se reduziram significativamente. A estabilização nominal dos preços teve como causas: a queda da demanda em função do desaquecimento da economia mundial; elevação da oferta gerada pelo aumento da produção fora do cartel da OPEP; diminuição da participação da OPEP no mercado intenacional, de 54% para 48% no período de 1974 a 1978; manutenção do controle da fase de comercialização do petróleo pelas grandes empresas, apesar da perda do controle sobre a produção.
O desaquecimento da demanda teve como causa principal a recessão mundial, mas também não podemos esquecer que os países importadores de petróleo implementaram políticas de racionalização do consumo de energia, bem como substituíram uma parte do consumo de
30 Utilizando o índice de preços de exportação dos países industrializados como medida da inflação importada dos
países da OPEP, o preço de 12,70 dólares o barril do petróleo cru, que estava em vigor em junho de 1978, equivalia a 7,70, quando expresso em dólares de 1973, significando queda real próxima a 40% (CLÔ, 2000, cap 5).
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derivados de petróleo por outras fontes de energia, como as renováveis, as fontes nucleares e até retomaram o consumo de carvão mineral que estava em forte declínio nas décadas anteriores. A queda da demanda ocorreu em função da diminuição da renda dos países capitalistas, haja vista a alta elasticidade-renda31 da demanda tantono curto quanto no longo prazo e baixa elasticidade-preço da demanda32 no curto prazo, mas moderada no longo prazo.
A elevação do preço do petróleo viabilizou a produção em outras áreas marginais dos Estados Unidos, Norte da Europa, Golfo do México e também em outros países que, até então, não tinham tradição na exploração de petróleo. A perda de mercado dos países exportadores da OPEP significou que uma parte da restrição da oferta poderia ser suprida pela produção de outras áreas, o que diminuiu um pouco o poder do cartel dos países produtores do Oriente Médio.
As majors, apesar de terem perdido o controle da produção, continuaram controlando a distribuição do petróleo para todo o mundo capitalista. As grandes empresas, dessa forma, conseguiram contrapor relativamente o poder político da OPEP na fixação do preço do petróleo. Essas empresas foram duramente criticadas e pressionadas em seus países de origem após a crise, pois foram responsabilizadas, em parte, pela acentuada elevação dos preços do petróleo. Diante das ameaças de estatização de seus capitais que vinham sofrendo, principalmente, nos seus países de origem, as majors utilizaram a estabilização dos preços como estratégia para arrefecer os ânimos dos Governos ocidentais e dos consumidores, pois a imagem dessas empresas estava muito desgastada após a forte elevação dos preços dos derivados do petróleo para os consumidores finais.