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Chapitre I : Synthèse bibliographique

1 Synthèse bibliographique

1.2 Diatomées

1.2.2 Ultrastructure et composition pariétale

Josso ao expressar-se sobre a utilização do trabalho biográfico, aprofunda as potencialidades do mesmo ao afirmar que se trata de um ―instrumento de identificação dos preconceitos, das convicções, das representações, dos sistemas interpretativos nos seus contextos de constituição, no seus acontecimentos e situações da vida em que são tecidas as dimensões individuais e colectivas, psicossomáticas, sociais e culturais das nossas actividades, das nossas interacções e das nossas representações‖ (Josso, 2002:105).

A corrente das Histórias de Vida mostra como nos formamos através das experiências de vida e concluímos que também as histórias de vida de outras pessoas nos podem ensinar e até formar em diversas vertentes da vida (saber, saber-fazer ou saber- ser/estar). A aprendizagem experiencial começa na leitura destas histórias e termina na reflexão e na capacidade de aplicar as ilações que delas tiramos na nossa vida. No fundo, é assim que se explica a riqueza da partilha de histórias de vida nas sessões de reconhecimento, num processo RVCC. Somos espelhos sociais uns dos outros, exercemos papéis semelhantes, lembramos experiências através do discurso do outro, aprendemos com as diferenças, aprendemos que há alternativas para as nossas decisões, aprendemos a ler as nossas experiências com outros olhos, no fundo trata-se de um método inconscientemente aplicado e designado no âmbito da Programação Neuro-Linguística como a re-significação. Através das histórias dos outros, reflectimos sobre a nossa e concluímos o que ainda queremos e podemos fazer no nosso percurso de vida. A isso chamamos viver e amadurecer, progredir, transformar e por que não formar…

Como testemunho vivo e poderoso daquilo que acabámos de expressar, não poderíamos deixar de destacar o que o escritor Luis Sepúlveda sentiu, quando visitou o campo de concentração de Bergen Belsen, na Alemanha. Ele fala do ―desejo de conhecer e contar a história da cada uma das vítimas‖ e ―de fazer da vida um método de resistência contra o olvido‖ e descreve (Sepúlveda, 2001:8,9):

Numa extremidade do campo e muito próximo do lugar onde se erguiam os infames fornos crematórios, na superfície áspera de uma pedra, alguém (quem?) gravou, talvez com o auxílio de uma faca ou de um prego, o mais dramático dos apelos: «Eu estive aqui e ninguém contará a minha história».

O autor reconhece ainda (idem:8):

Suponho que terei lido uns mil livros, mas nunca um texto me pareceu tão duro, tão enigmático, tão belo e ao mesmo tempo tão dilacerante como aquele, escrito sobre uma pedra. «Eu estive aqui e ninguém contará a minha história», escreveu alguém (quando?, uma mulher?, um homem?), pensando na saga pessoal única e irrepetível, ou talvez em nome de todos aqueles que não aparecem nos noticiários, que não têm biografias, mas apenas uma esquecediça passagem pelas ruas da vida.

Esta reflexão motivou Luís Sepúlveda a escrever histórias marginais de pessoas, com as quais se cruzou, as quais possivelmente, de outra forma, não seriam lembradas. Se há histórias de vida que nos poderiam ensinar o que não deve ser feito ou repetido (como é o caso do Holocausto Nazi) ou como se pode resistir perante as maiores atrocidades cometidas pelo Homem, também há histórias de vida que nos ensinam o lado mais pujante e positivo da acção humana (que em tudo tem a ver com a educação ecológica e socialmente sustentável de que tanto se houve falar). Para exemplificar, destacamos uma das histórias marginais que Luís Sepúlveda conta no seu livro, a história de ―Um tal Lucas‖. No final da história ele expressa (idem:88-91):

A Patagónia argentina começa a tomar uma intensa e crescente cor verde à medida que nos aproximamos da cordilheira dos Andes, como se a folhagem das árvores que sobreviveram à voracidade das madeiras nos quisesse dizer que a vida é possível apesar de tudo, porque haverá sempre um – ou muitos – loucos capazes de ver mais para além do nariz do lucro. (…) Cada árvore salva, cada árvore plantada, cada semente cuidada nos viveiros, é um segundo preservado do tempo sem idade da

Patagónia. Amanhã, talvez o projecto «Lemu» seja um grande corredor florestal de quase mil e quinhentos quilómetros de longitude. Amanhã, talvez os astronautas possam ver uma longa e formosa linha verde junto da cordilheira dos Andes austrais. Talvez alguém lhes diga que aquilo foi começado por Lucas Chiappe, um tal Lucas, um camponês de Epuyén, lá na Patagónia.

A verdade é que as expectativas registadas por Luís Sepúlveda no ano 2000 foram correspondidas. Vejamos como…

Descobrimos que Lucas Chiappe é um argentino que viveu na Europa, Índia e noutro países latino-americanos, durante o regime militarizado da Argentina e que, em 1976, regressou ao seu país, estabelecendo a sua residência na floresta da Patagónia. Numa das suas muitas viagens, Luís Sepúlveda conheceu este homem e, mais recentemente, na introdução que escreveu para o livro8 de fotografias e artigos relacionados com a

conservação das florestas da Patagónia de Lucas Chiappe, o escritor revelou que Lucas Chiappe teve a ousadia de fazer aquilo que um governo poderia considerar ser impossível de fazer: com a ajuda de crianças, índios Mapuches, e professores, recolheu sementes caídas das árvores dos bosques da Patagónia, que estavam a ser devorados por empresas madeireiras, fez um viveiro e sem a ajuda do Estado ou de qualquer organização internacional, contribuiu para que dez anos mais tarde seja possível ver-se ―uma linha verde com mais de 2000 km de extensão‖ ou um ―corredor florestal‖ a partir do Google Earth.

Investigámos o projecto LEMU9 criado por Lucas Chiappe para perceber melhor o que

de alguma forma moldou a sua história de vida e, consequentemente, a de outros, e se transformou numa autêntica experiência transformadora e educativa para todos os que com ele têm contactado.

As florestas da Argentina, nas encostas dos Andes do sul, são ameaçadas pelos incêndios florestais, o abate indiscriminado de árvores, a invasão humana constante, bem como a substituição de árvores nativas por espécies inadequadas do hemisfério norte. Esses factores impedem a regeneração da floresta natural, pelo que há necessidade urgente de reflorestamento.

8http://sigmetum.blogspot.com/2010/02/rocio-filha-de-lucas-chiappe-cruzando-o.html (consultado em 03/04/2010)

O Projecto Lemu lançou uma campanha popular de sucesso no Sul da América Latina para proteger e restaurar as antigas florestas, bacias hidrográficas e sistemas de suporte de vida, tais como ar puro, água e solo. O objectivo de Lucas Chiappe é criar um Santuário Internacional de florestas sub-antártico, ao sul do paralelo 40, a partir da região da Patagónia, da Argentina. A ideia é que este santuário venha a abranger as áreas relevantes da Argentina, Chile, Nova Zelândia e Austrália, os quatro países com sub-antártico e florestas temperadas.

A estratégia de Lucas Chiappe passa pela criação de uma rede de líderes independentes e organizações de carácter ambiental, que articule através de cartas, faxes e telefonemas, com os dirigentes e funcionários públicos e a população em geral. Para implementar esta estratégia, membros do Projecto Lemu visitam pessoalmente várias localidades da região e dinamizam apresentações, palestras, vídeos e workshops. Através destes eventos, criam-se pequenos grupos de pessoas entusiasmadas e comprometidas com a causa da protecção ambiental, os quais se expandem ao estilo do Projecto Lemu. Até uma determinada fase do seu desenvolvimento, esses novos grupos continuam a receber aconselhamento e assistência do Projecto Lemu, mas não são mais dependentes dela. Desta forma, os grupos são capazes de manter o seu carácter local, dando um apoio mais eficaz às suas respectivas comunidades. A ideia é envolver a maior diversidade possível de parceiros locais.

Acrescente-se ainda que o Projecto Lemu está envolvido numa campanha educativa pelas escolas rurais da região, trabalhando em colaboração com uma rede de informação nacional e com o Ministério da Educação, que envolve cerca de 1.400 escolas do país. Nesta medida, tem realizado workshops para professores e já desenvolveu um manual sobre as florestas nativas da Patagônia e materiais pedagógicos sobre os ecossistemas locais.

Depois de investigarmos este projecto, a partir da história contada por Luís Sepúlveda, reconhecemos ainda de forma mais veemente o quão fácil é termos gestos que protejam o nosso planeta, nem que seja na pequena comunidade onde habitamos…Esta mensagem pode motivar-nos à acção e, quando divulgada nas instituições educativas, poderá formar muitas pessoas no mesmo sentido. Tudo começou com o relato de uma ―história de vida‖…