4. CADRE DE REFERENCE
4.2 Ulcère veineux de jambe
Na intenção de explicitar questões que emergem da prática docente das professoras de ciências pesquisadas, utilizo a análise textual discursiva discutida por Moraes e Galiazzi (2007), uma modalidade de análise que se situa entre a análise de conteúdos (BARDIN, 2002) e a análise do discurso (ORLANDI, 1999).
A análise textual discursiva parte de uma análise rigorosa e criteriosa, buscando o aprofundamento dos fenômenos que se investiga com a intenção de compreender e reconstruir conhecimentos existentes sobre o tema investigado. Nessa perspectiva, ao examinar o corpus, por meio da desconstrução19, unitarização20 e categorização dos textos transcritos, trago
excertos narrativos das falas dos sujeitos da pesquisa, que possibilitaram uma compreensão mais profunda acerca de pensamentos, concepções e sentimentos das professoras ao relatarem sobre sua prática docente. Nas falas busco as recorrências – comunalidades –, mas também as singularidades.
Neste cenário, Moraes e Galiazzi (2007, p. 17) me ajudam a esclarecer sobre minha posição quanto à autoria desta pesquisa, quando afirmam que nada é realmente dado,
mas tudo é construído. Tomando como base esses autores, entendo que o corpus textual da
análise representa informações recolhidas durante a pesquisa de campo, a partir de cada um dos sujeitos – os informantes. Assumo a autoria da pesquisa a partir das interpretações que construí nas análises por mim realizadas, em diálogo com a literatura. No entanto, essa assunção não me fará esquecer de que os autores dos textos que compuseram o corpus desta pesquisa é fonte primária dos conhecimentos que busco construir sobre o Ensino de Ciências na perspectiva da educação científica para a formação cidadã.
Busco apoio em Pinheiro (2007, p. 41) para selecionar, das transcrições das entrevistas realizadas, excertos que transmitem singularidade, pois entendo, com o autor, que o que há de singular nas manifestações orais, é o que expressa um ‘calor’ presente na voz, sua ‘alma’ discursiva que guarda um potencial de revelar sentimentos, tensões e relações compreensivas pulsantes que se manifestam em atitudes profissionais, expostas nas falas de cada sujeito.
Meu primeiro mergulho no material empírico ocorreu por meio de sucessivas leituras quando decidi construir mapas conceituais21 dos relatos das entrevistas, com intuito de me possibilitar melhor visualização e compreensão do emaranhado de ideias expressas durante a entrevista, impregnando-me das falas e ideias dos sujeitos. Esse instrumento serviu para perceber também as comunalidades, ou seja, aspectos que os diferentes sujeitos traziam em comum em suas falas e, de outro lado, as singularidades entre as ideias e posicionamentos manifestos. Minha intenção foi a de atingir em maior grau a rede de ideias decorrentes da entrevista e visualizar os núcleos ideacionais que me encaminhariam à construção das
19
É um processo de desmontagem dos textos destacando seus elementos constituintes. Significa colocar o foco nos detalhes.
20 Unidade de significado ou de sentido. Surgido a partir da desconstrução do texto. 21
Criado por Joseph Novak e pode ser utilizado em qualquer área do conhecimento, seja como estratégia, instrumento ou recurso de aprendizagem, (RIBEIRO; NUÑEZ, 2004).
categorias. Esse foi, portanto, um procedimento de imersão da pesquisadora nas falas dos sujeitos entrevistados, não constituindo parte integrante do texto final22.
A partir dessas opções, precisei intensificar minha imersão no material empírico e teórico. Assumi esse procedimento de maneira tal que, por meio da análise das informações obtidas nos relatos, os núcleos de sentidos se configurassem em depoimentos narrativos, porém com significado distinto da área jurídica, apoiando-me em Dutra (2002), que assume com Queiroz (1991, p.7) outro significado, designando depoimento como relato de algo que o informante efetivamente presenciou, experimentou, ou de alguma forma conheceu, podendo assim certificar. No meu modo de ver, depoimentos narrativos que comunicam sentidos da realidade vivenciada, neste caso, o fazer pedagógico de professores frente ao ensino de ciências.
Desse modo, pude me deter na observação das recorrências, ou seja, da reiteração de ideias, reflexões, declarações que tendem para um ponto de confluência. Nesse processo, me detive na observação, de um lado, das comunalidades e, de outro, das singularidades. As transcrições dos depoimentos sofreram ajustes de forma, que foram realizadas com a finalidade de retirar marcas da oralidade, de modo a não depreciar o autor da informação, tomando o cuidado de não alterar o sentido e o significado dos depoimentos.
De cada manifestação, selecionei depoimentos com ideias recorrentes e similares entre os investigados e procurei destacar palavras e frases em itálico, que representassem o núcleo de sentido expostas pelos depoimentos destacados e, assim, procurei inferir sentidos e significados ao fazer pedagógico dos sujeitos investigados. Vale ressaltar que o tratamento em termos de depoimentos narrativos que expressam categorias, representa um modo de organizar as questões de maior destaque para os sujeitos, num contexto de interrelações, de maneira tal que esses depoimentos mantenham suas interconexões para construir um processo multidimensional de significação permanente.
Com base nesses critérios por mim definidos, pude identificar depoimentos narrativos que assumi em termos ideacionais como princípios da prática docente do
professor de ciências com vistas à formação da cidadania, uma vez que percebi a prática
pedagógica centrada no aprender como propõe o relatório Delors (1999). Busquei, então, estabelecer relação com os pilares da educação para o século XXI.
Esta opção organizativa permitiu-me o delineamento de três capítulos de análise tendo por base os princípios formulados a partir das vozes dos sujeitos, que aglutinam
22 À guisa de exemplificação, incluo um mapa conceitual , como apêndice do texto, esclarecendo que não se trata
categorias provenientes dos depoimentos narrativos abrangentes e mutuamente inclusivos. Os capítulos construídos são respectivamente, os seguintes:
• Aprendendo a conhecer e a fazer o ensino de ciências,
• Ensino de ciências, escola e comunidade: espaço para aprender a conviver, • Aulas de ciências: caminhos para aprender a ser.
Para melhor compreensão do processo analítico desenvolvido, apresento e discuto, em íntima articulação com a literatura pertinente, práticas docentes em aulas de Ciências que concorrem para a formação da cidadania, buscando compreender também as razões que mobilizam as professoras para essas práticas.