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essencial, e no caso específico em que k < (s − t + 2)(p − t + 2) a suavização essencial é uma suavização genuína. A topologia de uma fibra de uma suavização de uma variedade determinantal também foi estudada por Ballesteros, Okamoto e Tomazella em [35].

4.2 A característica de Euler evanescente de superfícies

tóricas

Dada uma superfície tórica Xσ ⊂ Ck usando resolução de singularidades e a fração

contínua de Hirzebruch-Jung obtemos um refinamento ∆σ de σ e construíremos uma

suavização especial de Xσ, assim poderemos definir a característica de Euler evanescente

de Xσ. Para a realização deste processo nos basearemos em [16].

Para resolver a singularidade de Xσ colocaremos o cone σ na sua forma normal dada

pela Proposição 2.2.13 (gerado pelos vetores e2, e pe1−qe2onde 0 ≤ q < p e mdc(p, q) = 1).

Se p = 1, então q = 0 e neste caso Xσ é difeomorfa a C2; caso contrário inserimos o raio

e1, o que proporciona um blow up do ponto singular, desde que o cone gerado pelos

vetores e1 e e2 é suave e a origem será um ponto “menos” singular do menor cone do que

o ponto singular do cone original. Para ver isto, podemos posicionar o menor cone na forma normal através de uma rotação por um ângulo de π/2 da grade (movendo e1 para

e2) e então transladando o outro vetor verticalmente até a posição (p1, −q1) com p1 = q,

0 ≤ q1 < p1 e q1 = b1q − p para algum inteiro b1 ≥ 2.

Se q1 = 0 este novo cone corresponde a uma superfície tórica suave, caso contrário

temos p q = b1− q1 p1 = b1− 1 p1 q1

e o processo pode ser repitido. Denotando a fração contínua de Hirzebruch-Jung de p/q por [[b1, . . . , br]] podemos ver que existem r novos vetores v1, . . . , vr entre os vetores dados

78 Capítulo 4 — A Característica de Euler evanescente de superfícies tóricas Exemplo 4.2.1. Consideremos σ ⊂ R2 o cone gerado pelos vetores w1 = e2 e w2 =

3e1− 2e2. A fração contínua de 3/2 é dada por

3

2 = 2 − 1 2,

logo v0 = w1 = e2, v1 = e1, v2 = 2v1 − v0 = 2e1 − e2 e v3 = 2v2 − v1 = 3e1− 2e2 = w2,

como ilustra a Figura 4.2.

Figura 4.1: Cone σ

Figura 4.2: Subdivisão ∆σ do cone

σ

Utilizando o processo de decomposição de um cone, como descrito acima, temos a seguinte.

Proposição 4.2.2 ([16], pág. 48). Se ∆σ é a subdivisão de σ obtida acrescentando os

vetores vi’s, então a variedade tórica X(∆σ), obtida a partir do leque ∆σ, é uma resolução

de singularidades de Xσ.

Observação 4.2.3. Uma superfície tórica Xσ, que é uma singularidade cíclica quociente,

sempre possui uma suavização que é localmente difeomorfa a sua resolução X(∆σ) (veja

[38], Satz 10). O problema é que esta suavização não necessariamente é única. Por exemplo, em [45] Wahl apresentou um exemplo de uma suavização da superfície tórica Xσ ⊂ C5 associada ao cone σ ⊂ R2 gerado pelos vetores v1 = e2 e v2 = 4e1 − e2, cujas

fibras Xttem característica de Euler igual a 1. Mas em [35] os autores deram um exemplo

4.2 A característica de Euler evanescente de superfícies tóricas 79 Riemenschneider provou em [38, 39] que uma superfície tórica Xσ ⊂ Ck é uma inter-

seção completa com singularidade isolada (ICIS) se, e somente se, o cone σ ⊂ R2 é gerado

por vetores da forma v1 = e2 e v2 = pe1 − qe2, onde 0 < q < p com p e q primos entre

si, tais que p = q + 1. Isto é, Xσ é uma ICIS se, e somente se, a dimensão mínima de

mergulho de Xσ é k = 3. Neste caso, X(∆σ) pode ser vista como a fibra de Milnor de

Xσ, e temos que X(∆σ) tem o mesmo tipo de homotopia de um bouquet de esferas e o

número de Milnor de Xσ é o número de esferas neste bouquet (veja [26]). Neste caso, o

número de Milnor coincide com a característica de Euler evanescente, que é

µ(Xσ) = β2(X(∆σ)) = χ(X(∆σ)) − 1

onde β2(X(∆σ)) denota o segundo número de Betti de X(∆σ). Baseados em [35] e uti-

lizando a Observação 4.2.3, apresentamos a seguinte definição:

Definição 4.2.4. Definimos a característica de Euler evanescente de uma superfície tórica Xσ por

ν(Xσ) := χ(X(∆σ)) − 1.

Para definir a característica de Euler evanescente de uma superfície tórica nós nos baseamos no trabalho [35], desenvolvido por Nuño-Ballesteros, Okamoto e Tomazella, que por sua vez se basearam no artigo [30].

Teorema 4.2.5. Seja σ ⊂ R2 o cone gerado pelos vetores w1 = pe1− qe2 e w2 = e2, onde

0 < q < p e p, q são coprimos, então

ν(Xσ) = (a2− 2) + · · · + (ak−2− 2) + (ak−1− 1),

onde a2, . . . , ak−1 são os inteiros provenientes da fração contínua de Hirzebruch-Jung de

p/(p − q).

Demonstração. Sabemos que

80 Capítulo 4 — A Característica de Euler evanescente de superfícies tóricas Mas, Xσ é uma superfície normal, então pelo Teorema 4.1.2 temos que β1(X(∆σ)) = 0.

Logo,

β2(X(∆σ)) = χ(X(∆σ)) − 1 = ν(Xσ).

Em [1] Barthel, Brasselet, Fieseler e Kaup provaram que

dimH2cld(X(∆σ)) = d1− 2,

onde d1 denota o número de cones 1-dimensionais em ∆σ e H2cld(X(∆σ)) denota o grupo

de homologia, com suporte fechado, de X(∆σ) no nível 2. Além disso, os autores provaram

em [1] que quando um leque ∆ é simplicial, então

β2(X(∆)) = β2cld(X(∆)),

onde βcld

2 (X(∆)) = dimH2cld(X(∆)). Do processo de subdivisão do cone σ, temos que o

leque ∆σ é simplicial, assim

β2(X(∆σ)) = d1− 2 = r,

onde r é a quantidade de vetores inseridos entre os vetores v0 = w1 e vr+1 = w2 para

obtermos a subdivisão ∆σ do cone σ. Além disso, como consequência de [38, 39], temos r X i=1 (bi− 1) = k−1 X j=2 (aj − 1), então r = k − 2 + r X i=1 bi− k−1 X j=2 aj ! = k − 3 + r X i=1 bi− k−1 X j=2 aj ! + 1

mas, de [21] temos que k − 3 =

r X i=1 (bi− 2), então r = r X i=1 (bi− 2) + r X i=1 bi− k−1 X j=2 aj ! + 1 = r X i=1 (bi− 1) − (k − 2) + 1.

4.2 A característica de Euler evanescente de superfícies tóricas 81 Portanto,

r = (a2− 2) + · · · + (ak−2− 2) + (ak−1− 1).

Em particular, se uma variedade n-dimensional X tem uma única suavização, o número de Milnor de X é definido como o n-ésimo número de Betti βn(Xt) da fibra Xtda suaviza-

ção de X, desde que Xt tenha homologia unicamente na dimensão média, isto é

µ(X) := βn(Xt).

Assim, temos o seguinte corolário.

Corolário 4.2.6. Se Xσ é uma superfície tórica que admite uma única suavização, então

ν(Xσ) = β2(X(∆σ)) = µ(Xσ).

Exemplo 4.2.7. Seja σ ⊂ R2 o cone gerado pelos vetores v

1 = e2 e v2 = pe1 − qe2, onde

0 < q < p e p, q são coprimos, tais que p

p − q = a − 1 b. Então, pelo Teorema 4.2.5

ν(Xσ) = (a − 2) + (b − 1).

Mas, de [38, 39] sabemos que Xσé uma superfície determinantal em C4dada pelos menores

2 × 2 da matriz   z1 z2 zb−13 z2a−1 z3 z4  .

Sabemos também que uma superfície determinantal X ⊂ C4 tem uma única suavização.

Além disso, em [37] Pereira e Ruas apresentaram uma fórmula para calcular o número de Milnor neste caso, que coincide com nossa fórmula para calcular ν.

Seja X uma variedade analítica com singularidade isolada na origem. Se X possui uma suavização, sabemos que χ(Xt) é independente de t. Quando consideramos v um campo

82 Capítulo 4 — A Característica de Euler evanescente de superfícies tóricas de vetores radial contínuo em X com singularidade isolada em 0, podemos relacionar o número χ(Xt) com o índice GSV de v em X. O índice GSV foi introduzido por Gómez-

Mont, Seade e Verjovsky em [20, 40] para germes de hipersuperfícies, e extendido em [41] para interseções completas. Na Seção 3 de [8] podemos encontrar a definição deste índice para o caso em que X admite uma suavização, o qual depende da suavização dada por Π. Os autores também provaram que IndGSV(v, X, Π) = χ(Xt), assim temos o seguinte

corolário.

Corolário 4.2.8. Seja σ ⊂ R2 o cone gerado pelos vetores v1 = e2 e v2 = pe1− qe2, onde

0 < q < p e p, q são coprimos. Considere v um campo de vetores radial contínuo em Xσ

com singularidade isolada em 0. Então,

IndGSV(v, Xσ, ΠRes) = (a2− 2) + · · · + (ak−2− 2) + (ak−1),

onde a2, . . . , ak−1 são os inteiros provenientes da fração contínua de Hirzebruch-Jung de

p/(p−q) e IndGSV(v, Xσ, ΠRes) é o índice GSV de v em Xσ relativo a suavização cuja fibra

é X(∆σ), isto é, ΠRes é a aplicação plana (Definição 4.1.1) tal que ΠRes−1(t) = X(∆σ).

Em [35] Ballesteros, Okamoto e Tomazella definiram o número de Milnor de uma função f com singularidade isolada definida em uma Singularidade Determinantal Isolada X, como

µ(f |X) = #Σ( ˜f |Xt),

onde Xt é a fibra de uma suavização de X, ˜f |Xt é uma morsificação de f e #Σ( ˜f |Xt) denota o número de pontos de Morse de ˜f on Xt. Porém, utilizando a definição de índice

GSV, temos a seguinte proposição.

Proposição 4.2.9. Seja f : X → C uma função com singularidade isolada definida em uma Singularidade Determinantal Isolada X que possui suavização, e considere v o campo de vetores dado pelo gradiente da função f , então

µ(f |X) = IndGSV(v, X, Π),

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