3. SYSTEME DE GESTION DE FICHIERS
3.2 TYPES DE FICHIERS
A aprendizagem do movimento por pessoas cegas nos revelou ser um processo bastante peculiar porque, como dissemos em outros momentos, a cegueira muda as relações de percepção sobre o corpo, as formas, os gestos, enfim, sobre o mundo.
A visão tem papel de elevada importância no processo de aprendizagem convencional humano porque a imitação é o instrumento mais comum e utilizado para a aquisição do nosso acervo cognitivo, além de estar amplamente associado à relação do sujeito com o meio.
Portanto, a necessidade de se criar meios educativos que favoreçam o desenvolvimento da criança cega, através de uma pedagogia que considere suas particularidades e procure compensa-las, dentro do que for possível, os déficits cognitivos, psicomotores e sócio-afetivos decorrentes da deficiência sensorial são indispensáveis ao processo de ensino dirigido a estas crianças.
Os postulados de Vygotsky nos mostram que não existem diferenças essenciais entre as crianças ditas normais e aquelas que apresentam alguma deficiência. Tanto em uma, quanto na outra, o desenvolvimento segue as mesmas leis e a diferença somente se dá no modo como esse desenvolvimento ocorre.
No caso do cego, é preciso que ele tenha acesso exatamente como nós a todas as habilidades. As estratégias que devem ser utilizadas e que podem ser colocadas ao seu dispor, para desenvolver tal capacidade, é que fazem a diferença.
É movimentando-se que enriquecemos nossas experiências motoras, adquirimos a consciência sobre nós mesmos e do espaço à nossa volta, estruturando nossa coordenação, nosso equilíbrio, a noção espaço-temporal e, como conseqüência, as nossas ações.
É sempre bom lembrar que, através do movimento, a criança se desenvolve, produz cultura e, ao mesmo tempo, tem acesso a ela.
Quando a educação abre espaços para que a criança cega conheça diversas atividades que lhes permitam a liberdade e a oportunidade de movimentar-se, ela contribui para o desenvolvimento global dessas crianças, que, na maioria das vezes, são privadas de vivenciar experiências necessárias à sua aprendizagem e que acarretam em defasagens cognitivas e sócio-afetivas, além de implicações para a sua motricidade.
Como, então, proporcionar à criança cega atividades que auxiliem seu desenvolvimento nas três dimensões? Que atividades reuniriam características que pudessem ser adaptadas à sua condição física, lhe proporcionassem o prazer de exercê-las e, ao mesmo tempo, produzissem resultados satisfatórios?
Acreditamos que não existem atividades ou métodos que sejam ideais para todos. Embora a cegueira implique na ausência total da visão, independente de quem a tenha, pessoas cegas são pessoas vivas, com características, medos, desejos e existência individuais. As crianças cegas são, antes de tudo, crianças e, como tais, precisam de motivação para aprender, têm o direito à educação, ao lazer e à cultura e precisam encontrar prazer em suas atividades para que possam exercitá-las e desfrutar da vida social e das coisas positivas que isso lhe possa trazer.
Nesta pesquisa, a aprendizagem da natação por crianças cegas, evidenciou a possibilidade de que é possível aliar os benefícios da atividade física com características educativas e prazerosas, através da ludicidade e, assim, superar o medo do desconhecido, vivenciar a adaptação ao novo, promover a socialização e alcançar os objetivos traçados.
Aprender a nadar, reproduzir o movimento sem enxergá-lo e melhorar a condição física e motora da criança cega é possível, como também acreditamos ser possível realizar inúmeras outros movimentos que darão segurança ao cego para viver de forma autônoma a vida diária e para aplicá-los ao esporte ou às atividades da cultura do movimento, como dançar, brincar ou participar de jogos.
Pudemos observar que todas as crianças envolvidas na pesquisa obtiveram melhorias significativas na postura, na interação entre eles e com o professor e, destacadamente, na coordenação motora. Gradativamente tornaram-se confiantes e adquiriam desenvoltura na execução dos movimentos na água. Podemos considerar que todos aprenderam a nadar (entendido aqui como deslocar-se na água com autonomia e independência), embora em graus diferentes de eficiência motora, velocidade e versatilidade nos movimentos, porque, além da personalidade, elas trazem consigo histórias de vida, de educação, de oportunidades diferentes umas das outras.
Visando desenvolver ainda mais os recursos aqui já abordados neste projeto de pesquisa, no início deste semestre (março/2007), exploramos um recurso novo, que nos proporcionou uma série de elementos que ajudaram na formação de conceitos dentro da natação para cegos.
Antes de inserir os novos alunos no contexto da água propriamente dita, ou seja, na adaptação ao meio líquido, na iniciação da imersão e flutuação, aproveitamos a piscina numa fase de manutenção, ou seja, completamente vazia, e fizemos uma excursão por todo o espaço interno da piscina. Através do tato, os alunos perceberam toda a estrutura física que envolve a piscina como a sua lateralidade e profundidade.
É importante que o professor respeite os medos e limitações dos alunos buscando explorar todo o espaço físico onde será desenvolvida a atividade, objetivando o sucesso de todo o trabalho. A natação é um esporte no meio líquido, onde as leis físicas diferem dos movimentos realizados fora d’agua. Daí a importância de se realizar um trabalho preparador para uma adaptação tranqüila a algo novo.
A experiência realizada com a piscina vazia foi produtiva, pois, desse modo, as crianças tiverem uma vivência pré-natação, ajudando-as a adquirir confiança e segurança para se adaptarem ao meio líquido e construindo os seus conceitos antes de irem para a água. A criança cega necessita internalizar sua vivência e imaginação antes de construir o seu movimento. O que não há necessidade
com a criança que enxerga, pois esta, já possui o recurso da imitação, que a ajuda na construção do movimento.
Foram feitas explicações prévias sobre a profundidade e outras dimensões da piscina, temperatura da água, locais de saída e sucção da água dentro da piscina. Foram feitos passeios por toda a sua extensão, passando confiança para andar em várias direções, incentivados pelos jogos cantados, exploraram as bordas, e enfim, conhecerem todo o meio que irão usar para um novo aprendizado.
Ainda neste momento, foi utilizado o recurso da ludicidade e musicalidade. Somente a partir daí, que o professor trabalha os fundamentos da respiração, flutuação e deslocamento de movimentos de pernas, braços e pernas e braços associados. Nesta fase, estimulamos as atividades espontâneas mantendo o caráter da ludicidade.
Após a experiência e familiaridade antes e depois com o meio líquido, pudemos desenvolver os objetivos do nosso trabalho, que seria o movimento.
Foram utilizados jogos educativos e, a partir daí, desenvolvemos a capacidade de locomoção e sustentação no meio líquido, exercícios de inspiração e expiração, imersão em busca de objetos, batidas de pernas e mergulho, mobilizando todos os recursos adaptáveis ao nosso trabalho
A criança cega deverá “ver” a natação como uma gostosa brincadeira, e brincando iremos estimular um leque de vivências que a ajudará no processo de desenvolvimento, apesar da sua limitação visual.
Através de jogos e brincadeiras pode-se ampliar a percepção de movimentos, favorecendo o caminho de acesso ao mundo exterior.
Um dos recursos mais aproveitados foi a utilização de músicas durante todo o trabalho. As músicas fazem parte do meu universo profissional e sempre foram utilizadas como forma de trabalhar os movimentos de modo lúdico, atingindo sempre os objetivos propostos no trabalho.
Algumas crianças foram fonte de inspiração por apresentarem diferentes, dificuldades. As músicas, foram criadas buscando superar estes problemas, dando-lhes condições de executar as atividades com alegria e satisfação. Assim, cantando as suas dificuldades conseguiram superar barreiras e atingir mais uma vitória.
Colocaremos, em anexo, as letras das músicas que foram criadas durante o processo com os respectivos objetivos para cada obstáculo.
Convém ressaltar que acreditamos que um programa de natação para cegos, que tenha objetivos educacionais e de dar acessibilidade à cultura do movimento, deveria enriquecer as experiências motoras da criança, promover a consciência corporal, auxiliando o seu desenvolvimento e motivando-a a buscar sua autonomia, ao invés de promover atividades mecanicistas, desprovidas de sentido e de prazer.
Na Proposta do Instituto de Cegos da Bahia encontramos afinidade com essas idéias e podemos compartilhar de um espaço de educação que acredita na capacidade de seus alunos, respeita suas características, trabalhando de maneira criativa para promover melhorias e novas possibilidades de atuação em um movimento constante.
Nos estudos de Catteu citado por Duran (2005), encontramos relato sobre a existência de uma máquina de ensinar a nadar, no século XIX, que envolvia sistemas de carros e manivelas. Tais instrumentos faziam do corpo a continuação da máquina, destituindo o ensino da natação de sentido e significado, impondo ao praticante um adestramento para a aprendizagem do movimento.
Confesso que, ao presenciar as dificuldades iniciais para ajudar os alunos a interiorizar o gesto do ato de nadar, cheguei a pensar em uma dessas máquinas, mas a convivência com o grupo e as respostas obtidas foram, aos poucos, possibilitando a abertura de novos caminhos.
Esses caminhos foram se apresentando à medida em que trabalhara a confiança, buscando na brincadeira e no faz de conta, meios de atribuir significado ao que era novo e não era possível ser visto.
Entendemos que adaptação ao meio líquido que as crianças adquiriram está diretamente relacionada à qualidade das primeiras interações e à comunicação com o professor.
A qualidade das mensagens táteis, sinestésicas e auditivas, transmitidas pelo tocar, pegar, e ouvir, refletiram segurança, tranqüilidade, tornando-as mais receptivas. Desse modo, os conteúdos relacionados diretamente com a natação foram se misturando, dando lugar à fantasia e asas à imaginação. Assim, introduzimos o jogo e a brincadeira como suporte para a metodologia.
Entendemos e constatamos que os jogos corporais e a as brincadeiras são importantes para a criança que não enxerga, pois nessas atividades, a ação sobre objetos, a vivência corporal e espaço-temporal tomam formas e significados.
Cada um no seu ritmo e do seu jeito iniciava seu contato livre com os movimentos, jogando com a aprendizagem, mergulhando em novas descobertas.
Embora tivesse, durante toda a minha trajetória pedagógica, utilizado os recursos da atividade lúdica, confesso que, inacreditavelmente, pensei em recorrer a repetições mecanizadas de movimentos. Eu, que já havia adaptado inúmeros jogos entre crianças cegas, molhei minhas idéias, mergulhei em minhas agonias para recriar os meus caminhos.
Junto com o grupo construímos novos jogos. Agora, dentro da água, para sentir o corpo no ambiente aquático, contudo, sem uma seqüência programada, oportunizando a aprendizagem da natação.
Compreendo, hoje, que estimular as experiências sensório-motoras são fundamentais para aquisição de conceitos. Essas experiências ajudam a criança a alcançar o domínio de movimentos, com autonomia e independência,
a descobrir o espaço, o poder sobre o seu corpo e o seu desenvolvimento no espaço, através da livre iniciativa do brinquedo, como acredita Bruno (1993).
Aos poucos, a música foi também utilizada e enriqueceu as aulas. Cada movimento inspirava uma nova música e, essa criação, resultou um novo trabalho pedagógico ..
Através das músicas, as brincadeiras aconteciam e os alunos se movimentavam livremente na água, interagindo com o “macarrão”, a prancha, com garrafas pet, com plástico de encosta,entre outros.
Com estes recursos, os alunos puderam experimentar o corpo na água de maneira lúdica e se aproximarem cada vez mais do gesto técnico.
Assim, cada aula se tornou uma festa em que jogos e brincadeiras eram criados ou adaptados ao meio líquido e à condição dos alunos cegos, ajustando o desempenho de cada na relação com a água e com o grupo.
Compartilhamos novamente com a idéia de Bruno (1993), quando diz que a simbologia do jogo e a música alicerçam a construção do real. Brincando, a criança representa suas vivências, evoca suas experiências significativas, organiza e estrutura sua realidade interna e externa, tomando consciência de si para si mesma e para o mundo.
O atendimento individual aos alunos ofereceu possibilidades de introduzir algumas dicas para o nado acontecer e, enquanto a brincadeira se realizava, acontecia também o desenvolvimento do domínio do corpo e seus movimentos.
As conversas com o grupo e as discussões abertas dos problemas, na medida em que surgiam, também se mostraram aliadas importante na compreensão e na execução das atividades, principalmente no ensino do gesto técnico. Os alunos compartilhavam seus conhecimentos e desenvolviam, ao mesmo tempo, sua capacidade de se expressar.
Quem melhor entende as referências sobre as partes do seu corpo é o próprio aluno. O professor, quando ouve os dados fornecidos por ele e da mediação feita entre eles, colhe pistas quem servem como guias para sua metodologia e
referências para desenvolver sua comunicação com os alunos, que precisa ser clara e detalhada para que haja um melhor entendimento das ações,
Além de uma metodologia adequada, do conhecimento e da prontidão para observar, ouvir seu aluno e fazer auto avaliação, o professor precisa, para trabalhar com a criança cega, não deixar de acreditar na capacidade do indivíduo de encontrar meios de ensinar, aprender, construir e reconstruir, ainda que faltem elementos (como a visão ou a audição, por exemplo) que a maioria das pessoas julgariam indispensáveis para realizar certas atividades, caso não conhecesse a fundo a natureza humana.
Como podemos perceber durante a pesquisa, o programa de ensino, inicialmente, não prioriza o gesto técnico do nado. Pois o mais importante é a ambientação do aluno ao meio líquido, a descontração e o relaxamento, deixando que a água aja no desbloqueio das paratonias.
Para facilitar a aprendizagem, criamos durante o processo, algumas músicas relacionadas aos movimentos executados na água, favorecendo, de forma lúdica, a aprendizagem dos movimentos, tornando a natação, não apenas uma atividade, mas, também, um compromisso com a confiança e a afetividade, tão importantes na relação professor X aluno.
A experiência mostrou que a água torna-se uma aliada no processo de aprendizagem e, desta maneira, a dificuldade em estabelecer uma experiência de aprendizado é minimizada pelo reforço multisensorial.
O tátil (toque) e o sinestésico (consciência da posição dos músculos) são importantes para o desenvolvimento de experiências significativas, assim como o sentido da audição que permite ao aluno desenvolver a musicalidade, e dessa forma, desbloquear as tensões causadas pelo medo do desconhecido.
A percepção dos sentidos da criança está relacionada ao desenvolvimento dos componentes motores através de experiências sensoriais.
Daí, a idéia de estimular a prática do demais sentidos e, de forma prazerosa, liberar a energia retida na tensão muscular.
As tensões musculares servem para bloquear a energia vital, que segundo Reich (1988) “é a energia primordial da vida.” Em suas experiências, ele descobriu que as tensões musculares, após o desbloqueio de forma prazerosa, geravam uma mudança de ordem muscular onde as posições e os movimentos perdem a rigidez e a respiração fluía através de todo o corpo.
Portanto, mais importante que aprender a nadar para uma pessoa cega, é o convívio prazeroso com a água, dando oportunidade do corpo se sentir leve e interagir com os outros na busca do conhecimento.
Sem dúvida, a música que é na nossa grande aliada em toda a trajetória de trabalho, continuou marcando a nossa trilha e ajudando a construir alternativas pedagógicas para tentar solucionar os possíveis entraves na aprendizagem.
Colocaremos aqui uma relação de músicas que foram surgindo de acordo com a necessidade de melhor aproximar os alunos a descobertas novas, em cada momento do trabalho. Todas elas apresentam uma estreita relação com o mundo da fantasia que é uma característica muito forte do sistema de significação das crianças, principalmente da criança cega.
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