Para Beck (1992), a percepção “distorcida” dos riscos pode fazer com que o sujeito, em vez de ser capaz de identificar os riscos do mundo, passe a ver o mundo como um risco tornando-se incapaz de agir, já que segundo o autor, “quem olhar o mundo como um risco
de terror, torna-se incapaz de agir. É esta a primeira armadilha armada pelos terroristas. A segunda: a manipulação política da percepção do risco de terrorismo desencadeia a necessidade de segurança, que suprime a liberdade e a democracia. Justamente as coisas que constituem a superioridade da modernidade. Se nos confrontarmos com a escolha entre liberdade e sobrevivência será já demasiado tarde, pois a maioria das pessoas escolherá situar-se contra a liberdade. O maior perigo, por isso, não é o risco, mas a percepção do risco, que liberta fantasias de perigo e antídotos para elas, roubando dessa maneira à sociedade moderna a sua liberdade de acção”. Acrescenta, ainda, que “ (…) particularmente à escala internacional é profundamente verdadeira a coincidência entre a miséria material e a cegueira face aos riscos”. O autor quer com isto dizer que uma
sociedade pobre revela despreocupação ou até desconhecimento face aos riscos, já que as suas preocupações se relacionam, sobretudo, com a sua própria sobrevivência.
Os estudos relacionados com a percepção dos riscos apresentam-se, hoje, como fundamentais para a criação de indicadores utilizados em vários campos do conhecimento, em especial no campo da saúde pública, visando a construção de instrumentos capazes de subsidiar estratégias direccionadas para a formulação de prioridades políticas e institucionais (Navarro e Cardoso, 2005).
É obvio que a percepção social dos riscos depende “do contexto que posiciona o individuo
num determinado lugar, ou seja, a sua inserção num dado evento (quotidiano ou esporádico), da função que ocupa o individuo em determinado espaço social, dos aspectos culturais, da personalidade, da história de vida, das características pessoais e das
pressões e/ou demandas do ambiente. Influenciados por um sistema de valores, os indivíduos tendem a construir uma auto-imagem e a consolidar o que pensam ser um determinado potencial humano, baseando-se neste sentimento para promoverem auto- avaliações para se exporem ou não aos riscos” (Navarro e Cardoso, 2005).
Em todas as sociedades, na sua organização social e humana, sempre esteve e está presente o conceito de risco, bem como a percepção de que podem ocorrer riscos inesperados. Contudo, essa percepção tem uma dimensão diferente daquela que tinha em épocas anteriores.
Nunca nenhuma sociedade teve noção do risco como a sociedade actual. A atitude da sociedade perante o risco mudou drasticamente.
Perante isto, é fácil depreender que entre as sociedades tradicionais e as sociedades modernas, se configuram diferenças no que concerne à percepção dos riscos, pois a realidade de cada uma delas é muito díspar.
Como já foi referido anteriormente, as sociedades tradicionais percepcionavam os riscos de acordo com a sua maneira própria de ver o mundo. Para elas, estes eram vistos como penitências, fatalidades, castigos dos Deuses perante o mau comportamento dos Homens ou pelo facto de estes seguirem um caminho desviante (como é o caso das bruxas, judeus…). Daí que, também a sua noção de risco fosse diferente. Estas sociedades possuíam um conhecimento dos fenómenos muito limitado, não tinham acesso a uma informação vasta do que se passava à sua volta, logo, a sua percepção limitava-se ao que se passava no seu círculo de acção, limitava-se àquilo com que contactavam diariamente. As pessoas não tinham consciência da maioria dos riscos nem dos problemas que existiam e que os podiam afectar. Como não se falava muito dos problemas, era como se eles não existissem. Eram, como se diz na actualidade, negligenciados.
No que diz respeito às sociedades modernas, podemos afirmar que são as que estão mais expostas a diferentes situações de perigo, situações estas que têm uma natureza diferente da dos riscos que atingiram as sociedades anteriores, mais tradicionais, pois a realidade vivida por cada uma delas é única.
Capítulo 2 – A comunicação de riscos
61 Em meados do século XVIII surgem alguns fenómenos que provocam alterações profundas ao nível da percepção e da natureza das catástrofes, de entre as quais:
• O fim das grandes epidemias de peste; • Iluminismo (a filosofia das luzes); • O início da Revolução Industrial.
Assistiu-se a um processo, ainda que lento, de substituição do medo pela angústia.
Entre os anos 50 e o início da década de 80 do século XX assistiu-se a uma mudança no que concerne à natureza e ao estatuto social do risco. Segundo Theys, (1987) “todas as
estatísticas demonstram que os riscos não voluntários de morte acidental são muito menores do que alguma vez o foram – pelo menos nos países industrializados – mas mais de 80% do público e 60% dos dirigentes consideram que, globalmente, os riscos são mais importantes agora do que há vinte ou há quarenta anos atrás. Esta diferença não pode explicar-se apenas por uma hipertrofia da angústia, mantida pela crise económica, o espectro da guerra nuclear e o excesso de segurança objectiva: ela reflecte bem uma transformação qualitativa profunda da catástrofe, que a torna cada vez menos aceite”.
As sociedades actuais revelam os maiores níveis de desassossego relativamente ao futuro do planeta e da Humanidade. Segundo Beck (1992), são sociedades que se encontram como que “à deriva”. Vivem numa incerteza generalizada que não tem a ver apenas com problemas ambientais mas, com a pouca visibilidade que estes têm (não têm cheiro, não são palpáveis…) e o seu carácter global, isto é, o facto de as suas consequências se verificarem além fronteiras, faz com que as pessoas os receiem. Há como que uma globalização do risco. Podemos mesmo dizer que os riscos, actualmente, não podem ser limitados em termos de tempo, localização ou grupo social. Afectam todos os grupos sociais por um período de tempo indeterminado e nos mais diversos locais.
O elevado conhecimento que possuímos acerca dos mais variados assuntos/perigos, faz- nos temer ainda mais. Podemos pois afirmar que os riscos de hoje não são maiores do que os das sociedades antigas. O que mudou foi a percepção dos actores sociais perante esses mesmos riscos. Conhecemos as suas causas, sabemos como ocorrem e as consequências
que acarretam mas, desconhecemos quando nos irão afectar. No entanto, também há riscos diferentes, como os riscos tecnológicos (os nucleares, por exemplo), que antes não existiam.
Perante isto, a sociedade actual é denominada de sociedade de risco“ e tal como refere Giddens (2005) “as tentativas que fazemos para controlar o futuro acabam por se voltar
contra nós, forçando-nos a procurar novas formas de viver com a incerteza”.
“No sentido de uma teoria social e de um diagnóstico de cultura, o conceito de sociedade
de risco designa um estágio da modernidade em que começam a tomar corpo as ameaças produzidas até então no caminho da sociedade industrial” (Beck, 2001). Para este autor, o
processo de industrialização é indissociável do processo de produção de riscos, uma vez que uma das principais consequências do desenvolvimento científico industrial é a exposição dos indivíduos aos riscos e a inúmeras modalidades de contaminação nunca observados anteriormente, constituindo-se ameaças quer para as pessoas quer para o meio ambiente. Neste sentido, os riscos acompanham a distribuição dos bens, decorrentes da industrialização e do desenvolvimento de novas tecnologias. Estes riscos foram gerados sem que a produção de novos conhecimentos fosse capaz de trazer a certeza de que estes riscos diminuiriam ou seriam passíveis de controlo e monitorização eficazes. Esta certeza nos controlos favorecidos pela ciência e pela tecnologia teve a sua base na modernidade clássica onde os riscos eram compreendidos como fixos e restritos a determinados contextos localizados e mesmo que se estendessem à colectividade, seriam frutos do desenvolvimento de novas tecnologias. Já na sociedade de risco, os riscos ultrapassariam os limites temporal e territorial e seriam produtos dos excessos da produção industrial. O diferencial refere-se ao papel da tecnologia na própria configuração do risco, deslocando o foco da ordem para a dúvida. São os avanços tecnológicos que ao ampliarem o domínio do conhecimento e da visibilidade, ampliam igualmente o domínio da incerteza (Navarro e Cardoso, 2005).
Segundo os mesmos autores, a problemática actual do risco está dotada de uma certa complexidade que envolve, sobretudo, a distribuição dos riscos, exigindo o posicionamento constante da sociedade no sentido da elaboração frequente de escolhas, o que tem transformado as acções quotidianas, antes voluntárias e mais motivadas pelo desejo e pela afectividade, por processos cognitivos que devem limitar tais escolhas. A
Capítulo 2 – A comunicação de riscos
63 sociedade industrial construiu a sua base ideológica no conhecimento e na tecnologia como meios para alcançar a equidade. Pensava-se que estes meios seriam capazes de dotar o mundo de abundância, de diminuir e/ou controlar a escassez e a fome, as calamidades naturais, as pandemias, etc. Considerava-se que os problemas se restringiam à sua essência mas, com a “globalização” defrontamo-nos com o facto de estes problemas serem complexos englobando diversas vertentes que configuram a realidade dinâmica dos fenómenos. Actualmente, somos afectados por uma variedade de riscos globais que implicam importantes dimensões pessoais.
Beck (1992) considera que os riscos sociais, políticos, económicos e individuais estão a escapar do controlo dos mecanismos criados pelas instituições organizadas para manter a protecção da sociedade. Esta sociedade de risco é também caracterizada como sendo dotada de reflexividade, isto é, confronta-se com suas próprias acções, reflecte e critica-se a si própria, as consequências de factos passados, as condições actuais e a probabilidade de possíveis riscos futuros, torna-se um tema e um problema para si mesma.
A prevenção de riscos, nesta sociedade, apoia-se no pressuposto de que os indivíduos possuem a capacidade de vigiar e de antecipar a ocorrência de eventos indesejáveis (Navarro e Cardoso, 2005).
No futuro, os países serão confrontados com vastas ameaças, algumas de custo e
importância potenciais sem precedentes (OCDE, 20035), de entre as quais:
• Mega-terrorismo;
• Novas doenças infecciosas;
• A destruição de cidades inteiras por terramotos.
Não é apenas a natureza dos riscos que está a mudar, mas também o contexto no qual estes surgem e a capacidade da sociedade os gerir. As forças que provocam estas mudanças são muitas e diversas. É de referir, ainda, que as fronteiras da descoberta científica e da inovação tecnológica estão a sofrer uma expansão excepcionalmente rápida, de modo que a
sociedade é confrontada com efeitos desconhecidos (e difíceis de conhecer) e por conseguinte com escolhas extremamente difíceis.
A forma como as sociedades percepcionam os riscos tem evoluído ao longo do tempo, uma vez que o próprio risco tem sido alvo de constante mutação. Aquilo que era considerado risco nas sociedades tradicionais, hoje faz pouco sentido nos países desenvolvidos, na medida em que foram surgindo outros factores que por sua vez, causaram novas preocupações e consequentemente, outro tipo de riscos.
“Perante situações de risco, cada contexto social desenvolve reacções e comportamentos
próprios que se encontram dependentes das suas características sociais, culturais, económicas e políticas” (Figueiredo et al., 2004).
Esta variação na percepção dos riscos pode ocorrer desde o simples conhecimento e posterior intolerância e indignação do mesmo, até à aceitação e ao reconhecimento do perigo que pode acarretar, havendo ou não actuação ou acabando por cair na total ignorância.
É imperioso não esquecer que mais importante do que considerar que existem diferentes e variadas percepções públicas do risco é compreender que o seu conhecimento é de extrema importância, na medida em que permite:
• Prever comportamentos ainda que de protesto;
• Promover campanhas de informação e de sensibilização; • Incentivar o debate de problemas.
Negligenciar a visão que as populações expostas aos riscos têm perante estes é um erro que pode ter consequências catastróficas. Não interessa apenas considerar o ponto de vista dos técnicos mas, também, o ponto de vista daqueles que sofrerão de perto as consequências do despoletar das situações de risco e que convivem de perto com as causas, podendo assumir um papel preponderante na prevenção e monitorização dos riscos.
É, por isso, fundamental que se proceda à integração das percepções do público nos instrumentos técnicos e políticos de gestão.
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