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Tentar compreender uma vida como uma série única e, por si só, suficiente de acontecimentos sucessivos, sem outra ligação que a vinculação a um “sujeito” cuja única constância é a do nome próprio, é quase tão absurdo quanto tentar explicar um trajeto de metrô sem levar em conta a estrutura da rede, isto é, a matriz das relações objetivas entre as diversas estações.43

O nosso objetivo neste capítulo é analisar a construção de um espaço social católico44, com centralidade no Rio de Janeiro45. Nessa perspectiva buscaremos apresentar como uma série de indivíduos e instituições se movimentou, construindo uma rede de relações e aglutinando uma grande quantidade de capital religioso que possibilitou a transformação do Rio de Janeiro no centro do catolicismo brasileiro na primeira metade da década de 1930.

Cabe-nos ressaltar que há na historiografia uma tendência de naturalização das relações entre o religioso e o político. Nesse sentido, Peixoto aponta

[...] que desde o século XVIII instituiu a ideia da separação das esferas do religioso e do político. Portanto, as categorias 'religioso' e 'Religião' já estariam condicionadas por uma fabricação que oblitera a observação do investigador ao enfatizar não apenas a separação entre Igreja e Estado, mas também a instruir teorias que pensam as categorias ‘religioso’ e ‘Religião’ tão somente no invólucro da ‘invenção’.46

Essa perspectiva de analisar os fenômenos do religioso e do político sempre de forma separada, acaba por condicionar os historiadores a uma visão naturalizada da participação da Igreja nos eventos políticos. A própria ideia da existência de um espaço social católico é muitas vezes rechaçada, pois, esse espaço acaba sendo percebido como algo inerente a coletividade, não sendo necessário analisar a sua constituição e particularidades. Se colocando de forma contrária a essa visão naturalizada dos historiadores secular, Peixoto escreve:

Por conta destes problemas o analista que pensa a religião enquanto uma construção coletiva, cujos liames e conexões de sua relação com o político haveriam de ser inquiridos dela mesma, necessitaria levar em conta a tensão gerada pelo discurso

43 BOURDIEU, Pierre. Razões práticas: sobre a teoria da ação. São Paulo: Papirus. p. 81.

44 Usamos o conceito de espaço social conforme o proposto pelo sociólogo francês Pierre Bourdieu, para o qual

o mesmo é determinado por estruturas sociais objetivas, ou seja, por uma multiplicidade de campos sociais (nos interessando aqui, sobretudo, o campo religioso), independente da consciência e da vontade dos indivíduos, mas que são capazes de orientar suas práticas e representações.

45 Compreendemos que o conceito de Bourdieu não contempla divisões regionais do espaço social, mas sim o

compreender a partir de sua totalidade. No entanto, damos ênfase ao espaço do Rio de Janeiro, pois, compreendemos que os demais espaços acompanham a distribuição de capital oriunda desse centro, que tornar- se assim, um centro de produção e difusão do capital religioso.

46 PEIXOTO, Renato Amado. Da Liga Eleitoral Católica à Reação Nacionalista: o percurso do Catolicismo

brasileiro rumo à colusão com o Fascismo. Texto submetido à Revista Brasileira de História das Religiões. 2016. p. 02.

moderno, pois este constituiu uma autoidentidade para o historiador secular, histórica e conceitualmente parasitária da invenção do religioso e da Religião.47

Buscando nos desvencilharmos de qualquer tipo de visão naturalizada e realizando uma análise das nossas fontes, nos parece bem clara a constituição desse espaço social católico que é frequentemente utilizado como mercado linguístico, no qual, os bens simbólicos referentes ao capital religioso são distribuídos. Os agentes católicos atuavam por meio de jornais, revistas e livros consolidando posicionamentos, como foi o caso do projeto da Neocristandade e o reacionarismo católico, posições da Igreja que eram amplamente difundidas visando alcançar uma série de indivíduos que compondo esse espaço católico conferiam valor aos discursos veiculados por esses meios.

Por conseguinte, temos compreendido que esse espaço social católico possuía um lugar central, no qual, os agentes possuidores de maior capital religioso se aglutinaram e passaram a exercer influência. No nosso entendimento o Rio de Janeiro se consolidou na primeira metade década de 1930 como esse lócus central de produção e difusão do discurso católico, foi a presença de líderes da Igreja como dom Sebastião Leme e dom José Araújo; dos intelectuais católicos Alceu Amoroso Lima e o Pe. J. Cabral e ainda de importante meios difusores como o centro Dom Vital, a revista A Ordem e o jornal A Cruz, que estabeleceram a capital da República como centro do catolicismo brasileiro.

A Igreja Católica no Brasil possuía uma lógica espacializante intencional que necessitamos compreender para avançarmos na compreensão dos deslocamentos da mesma. A configuração espacial da Igreja se modifica no tempo e no espaço de acordo com suas estratégias e interesses, logo não tratamos aqui de uma instituição estática, mas sim, dinâmica, capaz de se espacializar e des-espacializar 48 conforme os seus projetos. De acordo com Della Cava:

No fim dos anos 20, a Arquidiocese do Rio de Janeiro estava a caminho de se tornar o centro do poder nacional da Igreja e, pelo início dos anos 30, eclipsaria, por fim, a primazia canônica da Sé da Bahia. Na verdade, o deslocamento histórico das forças políticas, econômicas e institucionais do Brasil no nordeste para o centro-sul, que vinha se operando desde meados do século XX, só se completaria nesse momento.49

Esse deslocamento do centro do poder católico para o Rio de Janeiro no fim dos anos 20 e que se consolidou na década de 1930, se deu devido à estratégia da Igreja de se situar de

47

PEIXOTO, Renato Amado, 2016. Op. Cit. p. 03.

48 Fazemos uso do conceito de espacialização como proposto por Peixoto, no seu artigo A flecha e o alvo, ou

seja, com uma fabricação dos espaços e consequentemente a des-espacialização assume o sentido contrário.

49

modo a estar mais próxima do poder econômico, cultural e político brasileiro, bem como devido a grande quantidade de agentes possuidores de capital religioso que intencionalmente se aglutinaram na capital da República, sendo atestado pela concentração no Rio de Janeiro do único cardinalato da América do Sul, da residência do Núncio apostólico, da principal revista católica, A Ordem e de um dos principais periódicos católicos, o jornal A Cruz. Todo esse deslocamento de efetivos para o Rio de Janeiro tinha por objetivo consolidar o espaço da capital federal como principal centro do poder católico do Brasil. Podemos entender essa lógica espacial da Igreja por meio do que ROSENDAHL e CORRÊA (2006), classificam como seletividade espacial:

Uma prática espacial amplamente adotada no processo de decisões locacionais, as quais estão associadas ao processo de difusão espacial. A seletividade, no entanto, deriva de uma combinação entre atributos das localizações, mutáveis ao longo do tempo, e as necessidades e possibilidades da Igreja Católica de construir, reconstruir e controlar territórios religiosos.50

Nesse sentido, percebemos que a Igreja buscava se colocar em espaços onde ela estivesse estrategicamente posicionada, podendo assim exercer influencia política, social e cultural. Desta forma, entendemos que o deslocamento do poder da Igreja da então região Norte para o Centro-sul do país, se corrigirmos e continuarmos utilizando a configuração espacial colocada pelo Della Cava, se deu devido à necessidade da mesma se estabelecer presencialmente nas disputas sociais e políticas advindas do novo panorama brasileiro, oriundo da Revolução de 1930.

De maneira geral nossa análise busca compreender como a Igreja Católica se espacializa, ou seja, como ela fabricou espaços, na primeira metade da década de 1930. Interessando-nos para constituição desta pesquisa os seguintes espaços: o espaço discursivo que era ocupado pelos jornais católicos que reproduziam um discurso elaborado pela Igreja e buscava orientar o desenvolvimento dos fieis dentro dos preceitos da Santa Sé; o espaço institucional da Igreja, sobretudo o Rio de Janeiro que é compreendido como o centro do poder católico na década de 1930 e, por fim, o espaço social católico que é construído a partir da distribuição de uma série de bens simbólicos que é direcionado a receptores específicos, que lhe atribuíam um valor.

50 ROSENDAHL, Z. Espaço e Religião: Uma Abordagem Geográfica. Rio de janeiro, EDUERJ, 2ª edição, 2002.

1.3. TRAJETÓRIA DO MAIS DESTACADO PERSONAGEM DA IGREJA DA

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