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Apenas. Nem crédito no barracão do açambarcador, nem os utensílios para a extracção do láctex - porque sem ambições, sem vaidades, sem desejos de riqueza, sem a esperança de voltar às terras do Nordeste, sem enthusiasmos para aquella luta infrene na floresta - nunca poderia ser um legítimo seringueiro. Seria um intruso, um inutil, um canhestro repudiado ou devorado pela horda implacavel, sua missão terminara...71

Sandoval Lage, no livro “Quadros da Amazônia”, também volta e meia se refere ao “caboclo” como o “homem autóctone” que se contrapõe ao ‘Yorasteiro”, o descendente de índios e brancos que, ao contrário do cearense que chega pensando em fazer fortuna, nada ambiciona a não ser viver tranqüilamente, aceitando os limites que a exuberante natureza amazônica impõe.

E assim, amplia-se sempre essa atoarda infame de que o homem amazônico é preguiçoso, e indolente, é amigo da rêde e do descanso, quando êle é apenas um desajudado, vítima das endemias e da agressividade da terra em que nasceu, mas com muito mais capacidade de trabalho do que muitos outros nascidos em climas saudáveis.12

O “caboclo” é sempre, nestes textos, comparado ao “cearense”. Ele é o ribeirinho que vive da pesca, da caça, da agricultura de subsistência, de algum trabalho extrativo sazonal, contrastando com o cearense, migrante nordestino que se dedica exclusivamente à extração da borracha e da castanha, em busca de fortuna que lhe permita voltar a sua terra natal. Se, por um lado, é tido como indolente, afeiçoado à cachaça e às festas, por outro todos admitem seu grande conhecimento da floresta e dos rios. Também faz-se distinção, nos textos citados, entre o caboclo e o índio. Este último é tido como praticamente desaparecido, o que se explica pelo fato de estes autores ocuparem-se principalmente de áreas da margem dos grandes rios, como o próprio Amazonas, das quais por esta época, os índios haviam sido expulsos há muito tempo.

Entretanto, não é exatamente este o sentido da palavra caboclo no Alto Juruá. Não é de um “tipo” característico que se fala, quando alguém se refere a uma pessoa como sendo “cabocla”. Trata-se mais de expressar uma relação social. Charles Wagley, que estudou uma comunidade do Baixo Amazonas na década de 1940, descreve assim o uso desta categoria:

71 Ibidem, p. 65.

Assim como a gente da cidade tem uma tendência a considerar Itá uma sociedade homogênea de camponeses de aldeia, a Gente de Primeira de Itá também costuma classificar todos os que lhe ficam abaixo na escala social de ‘o povo ’ ou ‘caboclos Por sua vez, a Gente de Segunda da vila demonstra sua superioridade sobre toda a população rural, chamando-a de ‘caboclos’, termo que, entre os lavradores, é reservado aos seringueiros da ilha que consideram inferiores. E, finalmente, esses seringueiros se sentem ofendidos quando são chamados de ‘caboclos', pois não fazem distinção entre si próprios e os lavradores.73

E ainda esclarece em uma nota:

Os seringueiros da ilha empregam o termo ‘caboclo ’ para designar os índios de tribos que habitam as cabeceiras dos afluentes do Amazonas. O ‘caboclo’ amazônico só existe, portanto, no conceito dos grupos de posição mais alta quando se referem às pessoas de posição mais baixa.74

De maneira geral, pelo que pude observar em 1995, no Alto Juruá e mesmo na cidade de Cruzeiro do Sul, “caboclo” serve tanto para designar genericamente os índios como para marcar as hierarquias sociais, como mostra Wagley em outra época e outra situação. A palavra é usada como um substantivo para se referir aos índios, e como uma espécie de adjetivo, por exemplo, para se referir a uma criança travessa, ou a um homem ou mulher de forma pejorativa. E ela carrega ainda um sentido relacional, pois se opõe a outra categoria: cearenses ou “carius”. Do ponto de vista dos índios, normalmente se coloca esta oposição: caboclos x carius. E assim que D. Raimunda, que teve um companheiro índio, explicou-me: “Os caboclo chamava os brasileiros

»75

cariu.

Aquino, que estudou o grupo Kaxinawá do Rio Jordão, coloca a questão da seguinte forma:

Já as categorias ‘caboclo’ e ‘cariu’ são marcadas por forte ideologia étnica, que discrimina radicalmente o primeiro em detrimento do segundo.

A identidade do ‘cariu ’ só é definida em contrapartida à identidade do ‘caboclo ’. São termos complementares que se implicam mutuamente para que possam adquirir significado. O termo ‘cariu’ é a identidade de todos os brasileiros da área que mantenham vinculação com a extração da borracha e o termo ‘caboclo' é usado para designar, indiscriminadamente, todos os remanescentes e descendentes dos diversos grupos indígenas da região: ‘Falou cariu já sabe, quer dizer os brasileiros que vivem

73 WAGLEY, Charles, p. 121. 74 Ibidem, p. 121, nota 2.

por esses seringais todinho. Se falou caboclo aí pode ser esses Kaxinawá, esses campa, esses culina... ”76

Ainda segundo este autor, são atribuídas aos “caboclos” as seguintes qualificações negativas: Preguiçoso, vagabundo, irresponsável, sem ambição, inconstante, ocioso, ladrão, sem futuro, traiçoeiro, vingativo, desconfiado, selvagem, infantil, feiticeiro, cachaceiro, animal.77

Nas entrevistas que realizei, muitas destas qualificações foram repetidas. D. Mariquinha, residente na vila Restauração, falou:

O pai de papai fo i matador de índio, fo i o pecado que Deus perdoou.78

Dona Calô, antiga parteira e rezadeira, perguntada se já havia feito parto de alguma índia respondeu:

Nunca fiz parto de cabocla não. Nunca gostei de caboclo.79

E justifica sua afirmação contando uma longa história de traição e assassinato. A entrevista que fiz com D. Mariana é muito interessante pois conta a história de uma índia capturada em uma correria, que era a mãe da entrevistada. A história é narrada assim de um ponto de vista bem diferente das outras narrativas que obtive, pois nesta a narradora se identifica com os “caboclos” o tempo todo. Ela faz parte de uma família que valoriza a origem indígena, com uma consciência incomum, para a região, da importância da “Aliança dos Povos da Floresta”. Um dos filhos da D. Mariana e do Sr. Milton (que é filho de uma cearense e de um índio - num caso um pouco raro de inversão na relação índia-seringueiro), chega mesmo a visitar periodicamente as aldeias indígenas próximas à Reserva Extrativista, mantendo contatos e amizades com os índios, que considera como seus “parentes”.80 A certo ponto da entrevista D. Mariana esclarece seu ponto de vista:

- O Cristina, eu vou lhe dizer, minha filha, que aqui, é pouca gente que não tem sangue

do índio. Pessoa assim, como eu, essa menina (aponta para uma neta). Eu, a minha mãe era índia pura. Meu pai já era do Ceará. As minhas filhas já são índias, porque eu já sou casada com outro índio, né? Agora os filhos deles, já são índios. Porque eu sou índia aqui do Acre, e o pai deles é índio amazonense, desses meninozinhos (falando dos

76 AQUINO, Terri Valle. Kaxinawá: de seringueiro “caboclo” a peão “acreano”., p. 73-74. 77 Ibidem, p. 74-76.

78 NASCIMENTO, Maria Pereira do (D. Mariquinha) e NASCIMENTO, Francisco Epifãnio (S. Epifãnio). Entrevista. Com a participação do Sr. José Virgílio de Andrade.

79 MOURA, Calorinda Pereira de. (D. Calô). Entrevista. Com a participação de Maria Gabriela