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3. CONTROL SYSTEM

momento não como a desintegração da sociedade nativa, mas como um momento de grandes transformações históricas naquela sociedade.

6 BRANCO, J. M. Brandão Castelo. O gentio acreano. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Vol. 207, Abril-Junho de 1950, p. 3-78. p. 9-10.

7 TASTEVIN, C. Quelques considérations sur les indiens du Jurua. Bulletin et Mémoires de la Société d’Anthropologie de Paris. Séance du 6 Novembre 1919, p. 144-154. (trad. minha)

de copaíba, e, mais para diante, borracha.9 A febre da borracha, a partir de 1870, trouxe para a região do Alto Juruá, dois novos personagens em busca da goma elástica: os “caucheros” peruanos e os seringueiros brasileiros.

Os caucheiros eram geralmente peruanos que se especializaram na busca da

castilloa elastica, conhecida como caucho, árvore que produz grande quantidade de

látex, cuja técnica de extração é o corte da árvore, retirando-se de uma vez toda a sua seiva. Esta “técnica” fazia dos caucheiros nômades em busca de territórios ainda não explorados, já que sua passagem arrasava as árvores de caucho em toda uma área. Estes caucheiros utilizavam como mão de obra os índios da região, além de matarem tribos inteiras que não colaborassem em seus propósitos ou somente para poderem explorar livremente o território escolhido naquela temporada de coleta. Segundo Aquino e Iglesias:

A passagem dos caucheiros pela região do Alto Juruá foi marcada pela violência extrema com as populações nativas. Nas suas perambulações pela floresta, comumente promovidas nos meses da estação seca (maio a setembro), os caucheiros promoviam correrias contra as populações indígenas, procurando dizimá-las e amedrontar os seus integrantes para forçá-los a abandonar seus locais de moradia. Por outro lado, índios eram capturados e escravizados para desempenharem diferentes tarefas durante as expedições (às vezes até caírem mortos por esgotamento físico e maus-tratos) e/ou para serem vendidos nos tambos e nos centros urbanos mais próximos. Os caucheiros frequentemente se aproveitavam de tradicionais conflitos intertribais, aliando-se a uma das partes, fornecendo-lhe armamento, munição e outros produtos industrializados para que realizasse correrias e escravizasse membros das populações derrotadas.10

Os caucheiros peruanos ficaram com a fama de cruéis exterminadores de índios, fama alimentada por autores como Euclides da Cunha, no contexto da disputa do território acreano entre brasileiros, peruanos e bolivianos, que os descreveu com detalhe e sua habitual força de expressão no livro “A margem da história”:

9 TOCANTINS, Leandro. Formação histórica do Acre. Voll. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Brasília: INL; Rio Branco: Governo do Estado do Acre, 1979. p. 110.

10 AQUINO, Txai Terri Valle de e IGLESIAS, Marcelo Piedrafita. Kaxinawá do Rio Jordão. História, território, economia e desenvolvimento sustentado. Rio Branco: Comissão Pró-índio do Acre, 1994. p.7-8. Tambos eram entrepostos comerciais onde se trocava o caucho por mercadorias.

“E os caucheiros aparecem como os mais avantajados batedores da sinistra catequese a ferro e fogo, que vai exterminando naqueles sertões remotíssimos os mais interessantes aborígenes sul-americanos. ”n

Neste discurso os caucheiros são “...um caso de mimetismo psíquico de

homem que se finge bárbaro para vencer o bárbaro. ”12 A tarefa da civilização

caberia aos nordestinos, transformados na floresta amazônica em seringueiros: para o caucheiro um domador único, que o suplantará, o jagunço. ”1S Tastevin também

chama a atenção para os caucheiros, como exterminadores de índios, classificando-os, em um de seus textos de “semi-civilizados” {demi-civilisés).u

Caucheiro peruano (à direita de roupa branca) com “seu” grupo de índios “campa” (ashaninka).15

O estabelecimento dos seringais foi acompanhado de sangrentos conflitos com os índios. O discurso predominante sobre isto, tanto na literatura como na memória

11 CUNHA, Euclides. Os Caucheros. In: Um Paraíso Perdido. Ensaios, estudos e pronunciamentos sobre a Amazônia. (Org. por Leandro Tocantins). 2 ed. São Paulo: José Olympio, 1994. p. 64-75, p. 65.

12 Ibidem, p.71.

13 CUNHA, Euclides da. Contra os caucheiros. In: op. cit., p. 11-14, p. 14. (Originalmente publicado em O Estado de São Paulo, SP, 22 mai. 1904.)

14 TASTEVIN, R. P. Constant. Chez les indiens du Haut-Jurua. Missions Catholiques, t. LVI: 65-67; 78-80; 90-93; 101-104. p. 79.

15 BARROS, Glimedes Rego. Nos Confins do Extremo Oeste. O alvorecer do poente acreano. Vol II. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1993. p. 61.

oral, justifica a matança de índios pelas ações dos mesmos, que, segundo os seringueiros, roubavam os seus pertences e muitas vezes os atacavam em suas estradas de seringa. É o que conta o Padre Tastevin sobre o rio Murú, da bacia do Tarauacá:

O Murú tomou-se domínio incontestável dos seringueiros: eles o conquistaram pelo trabalho e pelas armas. Pelo trabalho eles transformaram a floresta virgem, que para os índios não era mais que um vasto território de caça, em uma verdadeira fábrica de produzir borracha. Quanto às armas, os índios os forcaram a se servir delas por seus roubos repetidos e pelos seus assassinatos, cometidos geralmente em circunstâncias de covardia, de ferocidade, de traição e de abuso de confiança revoltantes.16 (grifo meu)

O Sr Antônio de Paula, hoje presidente da Associação dos Seringueiros e Agricultores da Reserva Extrativista do Alto Juruá, que morou muito tempo perto da área indígena do Bagé, coloca a questão nos seguintes termos:

“[...] os índios foram muito perseguidos, muito massacrados aqui na região, o motivo era o seguinte: eles se achavam é... como donos da região, porque na verdade pertencia a eles. Ninguém tira deles, era deles, porque aqui não tinha outra pessoa senão o índio. Então eles, quando as pessoas chegavam pra tirar seringa, fazer as estradas, eles se afastavam aí... até que chegou o ponto deles resistirem, sabe? Nós não estamos no que é nosso? Então! [...] Brigavam por coisa que era dele... [...] Então roubava. Chegava aqui nos tapiri, onde o pessoal estava fazendo estrada ou até cortando seringueira, chegava e roubava tudo, escondia na mata porque não podia carregar. Aí tinha aqueles homens que eram, chamados chefe de correria, sabe? Mobilizava pessoas, né? Dúzias de homens armado de rifle, arma automática de repetição, não sabe? E o pobre do índio só com arco, levava desvantagem nisso, sabe? Até saber sabia atirar, mas não tinha arma, quando tinha era quando furtavam... ”17

As expedições de matança e apresamento de índios eram chamadas de correrias. Eram organizadas por profissionais contratados pelos patrões dos seringais e muitas vezes os seringueiros participavam delas. Ao mesmo tempo em que justificam a existência dessas expedições, as pessoas, hoje, mantém uma imagem sangrenta das mesmas:

João- Eu não vi não, mas o meu pai contava muito, o pessoal que fazia correria. Tinha um homem chamado Joaquim Nonato, ele fazia muita correria. Era todo aleijado, os caboclo, atiraram nele, quebraram o braço dele, aí.

Cristina- Mas ele era contratado, o patrão contratava ele pra fazer correria?

16 TASTEVIN, C. Le fleuve Murú. La Geographie. T. XLIII, 1925, pp. 400-422. p.418-419. (tradução minha).

17 PAULA, Antônio Francisco de. Entrevista .19/05/1995, com a participação de Maria Gabriela