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6.6 Transformation Composition in Action
Ao iniciar essa dissertação as possibilidades da fonte e do tema eram múltiplos, e ainda são, porém era preciso definir um caminho e segui-lo. Assim, a sociedade passou a ser o percurso apropriado para se examinar a partir do romance Veias e Vinhos (1981), que mostrou ser uma fonte instigante dada as opções estéticas de seu autor.
A narrativa como um quebra-cabeça induz a uma nova leitura sempre que se volta a ele, o que permite descobrir novos elementos, que contribuem para a construção de seu sentido histórico.
O sentido histórico de uma obra literária foi apresentado à pesquisadora, durante uma leitura de Literatura e Sociedade, de Antonio Candido (2006), quando este autor relaciona a estrutura da obra e a sua função com as relações sociais.
A função (ou “razão de ser sociológica, para falar como Malinowski) comporta o papel que a obra desempenha no estabelecimento de relações sociais, na satisfação de necessidades espirituais e materiais, na manutenção ou mudança de uma ordem na sociedade. Assim, os episódios da Odisséia, cantados nas festas gregas, reforçavam a consciência dos valores sociais, sublinhavam a unidade fundamental do mundo helênico e a sua oposição ao universo de outras culturas, marcavam as prerrogativas, a etiqueta, os deveres das classes, estabeleciam entre os ouvintes uma comunhão de sentimentos que fortalecia a sua solidariedade, preservavam e transmitiam crenças e fatos que compunham a tradição da cultura. (CANDIDO, 2006. p. 54-55)
Assim, pensar essa função social que a obra teve quando feita para uma temporalidade, pressupõe conhecer a sociedade que a toma, embora a sua estrutura não se altere, a função sim, pois as gerações são distantes e até mesmo, ao se levada a uma outro espaço social, terá mudanças neste sentido, uma vez que se trata de um corpo social com práticas culturais específicas e distintas daqueles de sua origem.
Desta maneira a metodologia aplicada para estudo de Veias e Vinhos buscou compreender: o conteúdo da obra relacionado ao período histórico de sua tessitura e ao da narrativa; a forma, pois as escolhas do autor para comunicar assumem um caráter relacional, transmite uma mensagem direta e outra indiretamente e dão conta das influências que permeiam o momento da escrita e sua formação.
Observados conteúdo e forma se chegou aos temas, comunicados pelo texto, que se relacionam ao contexto social do escritor. No interior da narrativa, as personagens movem uma sociedade marcada pela violência em uma jovem cidade, que foi planejada para a elite administrativa, política e econômica, que relegou o espaço a margem para os
trabalhadores. Bem, a questão relativa a ocupação do espaço foi posta e investigada. A investigação percorreu os pressupostos fundadores da cidade de Goiânia, que se estenderam à concepção modernidade, pois as demandas que foram apresentadas pela sociedade construída na ficção dialogavam com a sociedade externa a literária no tempo social da escrita de seu autor.
A intencionalidade da composição, se expressa na associação a um acontecimento externo, notório que marcou a história dos primeiros anos da cidade, o romance tem a pretensão de trazer o leitor para próximo da trama, por meio da mímesis.
As personagens, inspiradas nos seres extraliterários, ressignificam os eventos, permitindo uma visão dos contornos mais profundos do ser fictício, dentro de uma sociedade que está envolta em crises políticas, desigual, violenta e por isso autoritária, uma vez que priva os sujeitos dos direitos.
E para entender as escolhas estéticas, foi necessário circunscrever o escritor em seu lugar social. Seu processo formativo está ligado a um grupo de universitários, possibilitado pela modernização ocorrida nos anos de 1950, que instituiu as universidades, a casa da razão, da ciência, algo necessário a modernidade.
Modernidade, que se apresenta em suas contradições e anomalias, há permanente busca pela renovação no campo das artes, da economia, mas para se fazer existir mantém o parecer ser acessível a todos.
Veias e Vinhos (1981) permite discutir a violência sob suas diversas manifestações, a coerção que coloca barreiras para que se viva o espaço da cidade de maneira igualitária, há guetos, a sua heterotopia compõe a ação violenta do processo de modernização, que impôs a migração, mas que rejeita o migrante no espaço da cidade.
Sob o sujeito considerado estranho a uma cultura, pesam as arbitrariedades do Estado e da sociedade. A figura da personagem Altino da Cruz é esse sujeito e os processo de suspeição, tortura e acusação tornou possível compreender a leitura de Miguel Jorge sobre a relação entre Estado e Sociedade no exercício da força e contrapor a leitura que Bernardo Élis fez, em O Tronco (2003), duas obras do modernismo goiano que em comum têm a escolha: de uma acontecimento real, distintos, mas são chacinas e a leitura do personalismo político, mais vivido na obra de Élis.
Ademais, os distanciamentos estão no trato da violência, aquele que detém o monopólio da força, no romance de Bernardo Élis, vai ao povoado livrar os moradores do julgo dos coronéis, uma ação para o bem da maioria, mas acabam por cometer atos
igualmente criminosos, porém ao final a ideia de a violência emprega deu novas possibilidades para os moradores do lugar.
No romance de Miguel Jorge a sensação ao final é a de que a injustiça foi feita, a sociedade compactuou e os agentes do Estado cometeram crimes para se manterem na condição de privilégio. As práticas de violência física, psicológica, social e política, são mantidas não cessão com a prisão e condenação do inocente, outros interesses do Estado se impõem e sob outros sujeitos são os mesmos atos, por isso Altino tem medo, sofre quando está próximo de ser libertado, percebe a permanência.
O romance Veias e Vinhos, situa o leitor na atmosfera do período de instabilidade política do Regime Civil Militar brasileiro, pela maneira como seu autor dispões as questões, se engajando por meio da literatura, no desvelamento reflexivo sobre a ordem social, política e econômica no contorno de uma sociedade autoritária que legitima governos autoritários.
É uma obra do modernismo em Goiás, que se vale de técnicas literárias e com a incorporação das de outras linguagens artísticas, que aglutinadas comunicam ao leitor a sua denúncia, que trata da violência presente no corpo social que produz vítimas e permite a existência de processos que delineiam estruturas autoritárias.
Por fim, a perspectiva de um modernismo essencialmente goiano, demanda um aprofundamento de pesquisa, pois, as produções no campo da arte literária em Goiás, apresentaram conexões com movimentos, ainda que em descompasso temporal, externos ao Estado. Em razão disto, compõe o modernismo brasileiro, que tem a característica, observando as conexões entre as espacialidades do território, de ser multiforme, com regionalismos no tratamento do urbano e do rural; algo próprio da modernidade anômala desencadeada pelo processo de modernização.