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Transfers from individuals to the government sector

Costs related to refugee reception

3.2 Transfers from individuals to the government sector

Uma das grandes dificuldades na separação/divórcio, apontada pela literatura, é a tarefa dos ex-cônjuges de separar a conjugalidade da parentalidade. A decisão pela separação/divórcio envolve um processo de desconstruir a conjugalidade e, simultaneamente, reconstruir a identidade individual, o que envolve um processo lento, no qual, misturam-se a vivência de uma maior liberdade com o sentimento de solidão, configurando-se como um período difícil para homens e mulheres (Féres-Carneiro, 2003). Paralelo a esse processo, ocorrem mudanças no exercício da parentalidade, que envolvem responsabilidades essenciais para com os filhos, tais como exercer autoridade, promover trocas afetivas, oferecer orientação e instrução, compartilhar experiências do dia a dia e suprir as necessidades econômicas e materiais (Grzybowski & Wagner, 2010b).

A coparentalidade implica em um interjogo de papéis para o cuidado global da criança, envolvendo uma responsabilidade conjunta pelo bem estar da mesma. A coparentalidade envolve quatro componentes básicos: a) suporte para não denegrir o papel do outro genitor, o que envolve afirmar sua competência, reconhecer e respeitar suas contribuições, sustentar suas decisões e apoiar sua autoridade; b) diferenças em questões educativas e valores, o que envolve diferenças de opinião sobre temas relacionados à infância (valores morais, disciplina, padrões educacionais e prioridades, segurança, associações de pares, entre outros); c) divisão do trabalho parental, ou seja, de funções, tarefas e responsabilidades relativas a rotinas diárias, aos cuidados infantis, e às tarefas domésticas; d) gestão de interações familiares, incluindo a exposição das crianças ao conflito interparental (Feinberg, 2002). Sendo assim, a coparentalidade não é uma tarefa apenas dos pais separados/divorciados, mas nesta situação, os pais tem menos momentos e espaços em comum para efetivarem as relações interparentais na educação dos filhos (Grzybowski & Wagner, 2010b; Lamela et al., 2010).

A coparentalidade não deve ser entendida como grau de cooperação dos pais na educação dos filhos, pois não induz a uma tendência de qualidade nas relações interparentais. A inovação conceitual é definir as relações interparentais como um subsistema autônomo e estruturalmente diferente dos subsistemas conjugal e parental (Lamela et al., 2010). Dessa forma, a coparentalidade pode ser avaliada como positiva ou cooperante de acordo com o envolvimento 34

recíproco e coeso da díade coparental na educação e tomada de decisões sobre a vida dos filhos (Feinberg, 2003). Muitos pais e mães separados encontram dificuldades em manter um relacionamento coparental saudável, pois a definição do próprio conceito de coparentalidade implica na presença necessária de duas pessoas envolvidas e reponsáveis pela educação das crianças, o que muitas vezes não ocorre após a separação/divórcio do casal(Grzybowski & Wagner, 2010b).

Em pesquisa realizada no contexto brasileiro com 234 pais e mães separados com pelo menos um dos filhos com idade entre seis e doze anos, ficou evidenciada uma configuração tradicional do envolvimento parental, ou seja, maior envolvimento materno do que paterno após o fim do casamento. Foram avaliadas cinco dimensões do envolvimento parental, sendo que as mães apresentaram médias significativamente superiores a dos pais no envolvimento afetivo (suporte emocional) e envolvimento didático (escola/conhecimentos) e superiores no envolvimento social, envolvimento com disciplina e responsabilidade. Considerando que todas as mães participantes da pesquisa coabitavam com seus filhos é reforçada a compreensão de que coabitação leva a um maior envolvimento direto com as crianças. Além disso, os resultados são relacionados ao fato de historicamente as mães serem reconhecidas como as principais cuidadoras e responsáveis pela educação dos filhos e o fato delas recasarem menos frequentemente que os homens, o que não é considerado determinante (Grzybowski & Wagner, 2010a).

Os primeiros anos após o separação/divórcio costumam ser marcados por um padrão coparental com altos índices de conflito e descomprometimento na educação dos filhos, o que pode estar relacionado ao fato de os pais estarem mais centrados na própria adaptaçã à nova realidade familiar (Nunes-Costa, Lamela & Figueiredo, 2009). Segundo os autores citados acima, a distância física que se estabelece entre os genitores, as dificuldades em diferenciar as dificuldades conjugais da relação coparental e a diminuição do envolvimento do genitor não detentor da guarda contribuem para a ocorrência do descomprometimento coparental. Isso faz com que filhos de pais separados, muitas vezes, sejam expostos a práticas parentais paralelas e dessincronizadas, fomentando o conflito interparental e o desadaptação familiar (Nunes-Costa et al., 2009).

A separação/divórcio dos pais, assim como outras situações familiares estressantes, aumenta a probabilidade de pais e crianças evidenciarem mal-estar psicológico (Amato, 2000). Para algumas crianças, o mal-estar psicológico pode anteceder a separação/divórcio 35

devido a existência de conflitos intensos e crônicos com a presença de violência, podendo ocorrer uma diminuição de problemas após a separação/divórcio dos pais (Kelly & Emery, 2003). No entanto, no período inicial subsequente a separação/divórcio é comum que as crianças experimentem sensações e sentimentos como angústia, tristeza, ansiedade, raiva, ressentimento, confusão, culpa, medo em relação ao futuro, conflitos de lealdade, sintomas somáticos e luto em relação aos pais ausentes (Pedro-Carroll, 2001; Souza, 2000). A vivência de estressores múltiplos e não aliviados sobrecarregam as crianças no processo de adaptação à separação/divórcio e são mais propensos a resultar em maior risco e dificuldades psicológicas ao longo do tempo (Kelly & Emery, 2003).

Em pesquisa realizada por Souza (2000), foram relatadas as seguintes modificações percebidas pelas crianças após a separação/divórcio dos pais: mudanças no relacionamento com o pai e/ou redução de contato com o mesmo; mudanças no relacionamento com a mãe; mudanças no relacionamento com irmãos; aproximação da família materna; afastamento da família paterna, afastamento de amigos do pai ou da mãe; perda de amigos. Essas informações evidenciam as perdas múltiplas vivenciadas pelas crianças, apontando para a quantidade de estresse envolvido nesse processo que gera modificações na estrutura e funcionamento familiar e alterações profundas em sua rotina de vida.