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IV Schottky products with parabolic subgroups and the associated winding process

IV- b The transfer operators L z,u,v

A evolução de mentalidade aqui descrita se deu em diversos níveis. Segundo Ariès (1973, p. 22-24), no fim do século XVII e no século XVIII, há um recuo da família, que sai da vida coletiva e dirige-se para a esfera privada, para a intimidade. Essa transformação se reflete na organização das casas, cujos cômodos vão aos poucos se especializando. Paralelamente, desenvolve-se um novo sentimento entre os membros da família, centrado nas mulheres e nas crianças, com o crescimento do interesse pela educação das crianças e a elevação do estatuto da esposa. Essa configuração emerge, particularmente, em Florença. Badinter (2010, p. 100-105), por sua vez, relata que, no século XVII, nobres francesas buscavam emancipação prati-

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Durante a elaboração desta pesquisa, a busca de informações sobre o ambiente cultural da França do final do século XVII, em que Perrault escreveu Le Petit Chaperon Rouge, teria sido desejável con- tar com edições críticas ou com obras dedicadas à história da literatura francesa daquele período. Isso não ocorreu em função da dificuldade de acesso a tais fontes bibliográficas no Brasil e do exíguo tempo de realização desta pesquisa. Cabe ressaltar, porém, que se considerou que o uso de tais fontes de informação não era imprescindível, uma vez foram encontrados, em Shavit (1986), Ariès (1973) e Badinter (2010), os dados necessários para o esclarecimento das questões primordiais den- tro da argumentação aqui adotada.

77 cando a arte de viver sem crianças, hábito que foi mais tarde incorporado pela bur- guesia. Elas tinham o desejo de brilhar em uma vida social refinada, e a cidade era o lugar do saber, da cultura e do diálogo. A situação era bem diferente no campo: as mulheres ficavam na fazenda com os bebês e as crianças, sem acesso aos salões frequentados por pessoas de espírito.

Com efeito, segundo Badinter (2010, p. 107), o meio de emancipação feminina era o intelecto, a capacidade de se fazer respeitar e ter controle sobre o amor e o desejo do outro. Esse ideário de liberdade e soberania se difunde em Paris e na province, sendo satirizado por Molière. O fato de um grande dramaturgo ironizar as Précieu-

ses, essa primeira geração de feministas avant la lettre, só evidencia a importância

que suas ideias ganhavam na França do século XVII. O teólogo e escritor Fénelon (1651-1715) julgava que a curiosidade científica se aparentava a um despudor se- xual e defendia que se refreasse o esprit das mulheres. De acordo com Badinter (2010, p. 110-111), as mulheres tiveram de ser autodidatas para contornar as difi- culdades que encontravam para ter acesso ao saber: é preciso lembrar que a edu- cação intelectual lhes era proibida e que o ensino dispensado às meninas foi medío- cre até o século XIX, pois seu destino, tradicionalmente, era se tornarem esposas devotas e mães de família dedicadas. A solução, assim, era aprender na vida social (salões, conferências, diálogos), e a grande carência intelectual de que elas par- tiam45 fazia com que poucas chegassem a se tornar reais eruditas, daí o nome pejo- rativo desse movimento.

Badinter (2010, p. 113) aponta que o desinteresse das Précieuses pelas tarefas do- mésticas, bem como suas ambições intelectuais, encontraram uma forte resistência masculina. Molière, Rousseau, Montaigne e Fénelon são alguns exemplos de ho- mens célebres que clamavam que os estudos distraíam as mulheres das funções naturais: a maternidade e o matrimônio. As pioneiras do feminismo, no entanto, prosseguiram sua luta e abandonam progressivamente o preciosismo. A partir dos anos 1660, algumas delas se destacam em disciplinas científicas: é o caso de Ma- dame de Grignan, Madame Dacier, Madame de La Sablière, Madame de Motteville, Madame de Montpensier, Madame de La Fayette e Madame de Sévigné. A maioria delas é desconhecida atualmente, mas sua fama, na época, teve um forte efeito de

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No século XVII, segundo Badinter (2010, p. 111), o analfabetismo atingia 79% dos homens e 85% das mulheres. A rigor, dentro dessas circunstâncias, é até difícil falar em “leitor” como categoria soci- al; o que não nega, entretanto, a existência de uma classe letrada e sua influência na sociedade.

78 emulação. No século XVIII, o comportamento agressivo das primeiras Précieuses se apazigua, reflexo de mais lucidez e autonomia intelectual. É chegado o tempo das mulheres filósofas, que já contam com o apoio de intelectuais como Voltaire, d’Alembert ou Condorcet. Badinter (2010, p. 116) relata que, para Madame du Châ- telet, o saber era mais importante para as mulheres do que para os homens, pois eles tinham outros meios de chegar à glória. Para alcançar a liberdade, essas filó- sofas tinham de se submeter a um longo e laborioso processo que exigia uma inde- pendência com relação à vida conjugal e à maternidade.

O último ponto relativo ao contexto cultural na época de Perrault a ser tratado neste capítulo é a relação com os contos tradicionais. Para Ariès (1973, p. 134-135), esse tipo de literatura se dirigia tanto às crianças quanto aos adultos: Madame de Sévigné (1626-1696), por exemplo, era ávida consumidora de histórias de fadas (féeries) e Colbert (Ministro da Economia de Luís XIV) apreciava escutá-las. Na segunda me- tade do século XVII, as classes altas tinham uma relação dúbia com esse tipo de literatura: ela é considerada demasiado simples, mas se torna um gênero da moda, declinado em recitações ingênuas. Surgem, então, edições direcionadas, ao menos em tese, a crianças, como a de Perrault (1697), e outras, mais sérias e filosóficas, destinadas a adultos. Ariès (1973, p. 135-136) menciona Mademoiselle L’Héritier (1664-1734), sobrinha de Perrault, entre os autores que ajudaram a registrar a tradi- ção oral em um estilo arcaizante. Segundo o autor, no fim do século XVIII, quando a leitura já havia substituído a recitação oral, os contos antigos suscitavam na alta so- ciedade uma curiosidade de caráter arqueológico. Uma edição popular (Bibliothèque

Bleue) de 1784 reunia os contos de Perrault e de outros autores. Aos poucos, a no-

breza e a burguesia relegaram esse gênero aos camponeses e às crianças, que ha- viam sido seu primeiro público e acabaram por se tornar o último. Essa situação só começou a se reverter a partir do lançamento da coletânea dos Irmãos Grimm, na Alemanha, em 1823.

Shavit (1986, p. 9-10), por sua vez, afirma que essa atitude das classes intelectuali- zadas já começava a se manifestar desde a metade do século XVII. Para a pesqui- sadora, a relação que os adultos da alta sociedade mantinham para com esse tipo de literatura se baseava em um acordo tácito com o escritor, que devia fingir escre- ver para crianças. Seria o caso das Histoires ou contes du temps passé, cuja signifi- cação se estabelece pela existência de mais de um nível de interpretação. Embora

79 fizesse parte de uma onda de obras similares publicadas na França entre os séculos XVII e XVII, a coletânea de Perrault (1697) chamou a atenção por não ter sido assi- nada por ele (ponto que será comentado no próximo capítulo, dedicado à análise do material paratextual do corpus) e também por apresentar um estilo sofisticado e irô- nico. Shavit (1986, p. 12) defende que a aceitabilidade desse texto estava ligada à percepção da criança como fonte de diversão para os adultos e que a evolução do conceito de infância comandou as alterações que ele sofreu posteriormente.

Com efeito, Shavit (1986, p. 7) defende que há um paralelo entre a transformação no olhar da sociedade sobre as crianças e o nascimento e a evolução da literatura in- fantil. A autora recorre precisamente a Ariès para descrever o primeiro processo e frisa o fato de que as mudanças nas mentalidades e nesse filão literário (que só flo- resceu realmente depois da segunda metade do século XIX) continuam em curso. Assim, à medida que, de um período para outro, difere a compreensão das capaci- dades e necessidades das crianças, alteram-se os textos destinados a elas. Shavit (1986) se serve justamente do exemplo de numerosas variantes de Chapeuzinho

Vermelho para ilustrar esse argumento e situa a obra de Perrault (1697) em um mo-

mento histórico anterior ao estabelecimento da noção “educacional” que impulsionou o desenvolvimento da literatura infantil e orientou seus textos canônicos. A seleção do corpus deste trabalho se orienta, em parte, pelo mesmo motivo, mas o interesse se concentra na indagação sobre a influência de fatores culturais sobre as decisões de editores, tradutores e adaptadores, que retomam clássicos da literatura infantil e os transformam de acordo com suas próprias concepções do que seja conveniente ao público infantil e, evidentemente, do que seja aceitável para os pais das crianças, os quais são, em última análise, os prováveis compradores das obras impressas. Parece plausível supor que fatores mercadológicos exercem uma influência sobre as escolhas editoriais e as estratégias de retextualização.

Shavit (1986, p. 7) caracteriza a versão de Perrault como “mimadora” (coddling), a dos Irmãos Grimm como “pensante” (reasoning) e as do século XX como “proteto- ras” (protective). A ideia é que, no século XVII, a visão da criança como uma fonte de diversão para os adultos permitiu que Perrault jogasse com os dois públicos de seu texto; no século XIX, os Grimm fizeram um conto dotado de preocupações pe- dagógicas, estimulando seus leitores à reflexão; no século XX, finalmente, há certa dúvida quanto à capacidade de compreensão das crianças, aliada a um grande cui-

80 dado em preservá-las de conteúdos violentos ou sexuais. Como se verá adiante, o último comentário é válido para a adaptação de Marques (s/d), encontrada na livraria em 2010.

Para esta pesquisa, o importante é destacar que, como indica Shavit (1986, p. 7-8), o conto de Perrault (1697) tem indícios textuais e paratextuais de que não era dire- cionado somente a crianças. Mas o fato de os pequenos serem o público oficial ex- põe, ao menos parcialmente, a maneira como eles eram vistos naquele tempo: nem com o desprezo com que eram desconsiderados na Idade Média, nem com as pre- cauções de que são cercados hoje. O próximo capítulo, ao se debruçar sobre as in- dicações que o paratexto fornece a respeito da pragmática do texto-fonte e de suas retextualizações, sugere que Perrault não era completamente desprovido de inten- ções pedagógicas. É de se esperar que tal dubiedade se encontre também nas tra- duções e na adaptação – o que será investigado na parte final desta pesquisa.

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