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Como ficou claro no capítulo anterior, a legislação actual dá grande relevância ao papel e competências do serviço de educação especial, bem como dos serviços de psicologia. Embora o papel do professor do ensino regular seja constantemente referido, parece-nos oportuno dar um destaque particular ao seu contributo essencial na construção de uma escola inclusiva.

As atitudes do professor do ensino regular e as suas expectativas são determinantes no desempenho dos alunos. Conhecendo os alunos e as suas problemáticas, o professor encara de forma mais positiva a sua integração e desenvolve interacções mais significativas. É fundamental que haja um conhecimento prévio do aluno, das suas capacidades, dificuldades e motivação para aprender; o professor tem de perceber de que forma aprendem os alunos e como os pode ensinar, tendo em conta a sua diversidade (Rodrigues, 2001; Torres González, 2002).

O professor terá que desenvolver estratégias correctas durante o processo ensino-aprendizagem, para que as suas decisões relativamente à turma e especificamente aos alunos com N.E.E., se revelem eficazes (Rodrigues, 2001). Algumas dessas estratégias são apontadas por Morgado (2003):

♦ A diferenciação de metodologias; ♦ O ensino individualizado;

♦ A interacção e a entreajuda entre os alunos com vista à promoção de uma maior autonomia;

♦ A valorização dos sucessos, que contribui para a resolução de problemas; ♦ A promoção de um clima positivo, onde a aprendizagem se processa com tranquilidade e se aceita o erro;

♦ As expectativas positivas face às aprendizagens dos alunos.

O mesmo autor cita Creemers (1994), ao referir outros factores importantes no papel que o professor desempenha, nomeadamente:

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Maria Paula R. V. R. Marcelino 61 ♦ A gestão curricular, ou seja, a forma como são definidas os objectivos,

organizados e transmitidos os conteúdos, efectuada a avaliação e corrigidos os erros;

♦ O funcionamento do professor ao nível do clima que cria na sala; ♦ As expectativas positivas em relação aos alunos e a si próprio; ♦ O envolvimento dos alunos na sua própria aprendizagem; ♦ A organização/cooperação dos alunos.

Na mesma perspectiva, Munoz e Maruny (1993) realçam que os objectivos definidos são os elementos de referência para o que se pretende ensinar e que é importante relacionar os conteúdos com interesses e actividades significativas e motivadoras para os alunos, deixando-os participar nas decisões. (Torres González, 2002).

As interacções que se estabelecem entre o aluno, o professor e os conteúdos geram a aprendizagem e condicionam a qualidade e eficácia no contexto da sala de aula (Coll, 1996b; Marchesi & Martin, 1998, in Morgado (2003).

Torres González (2002) reforça o papel do professor, não só como transmissor de conhecimentos, mas também como orientador, de forma a poder ajudar/colaborar nas tomadas de decisão. Salienta a importância de ser capaz de planear e tomar decisões, reflectir sobre o seu próprio trabalho e trabalhar em colaboração com outros profissionais, bem como com as famílias. Neste sentido, cita outros autores (p. 135) ao falar de “reprofissionalização dos docentes como estratégia para assegurar o equilíbrio entre a compreensibilidade do currículo e a diversidade dos alunos.” (Torres González & Sánches Palomino, 1996; López Melero, 1996).

No sentido de facilitar a organização do professor com a sua turma e a

integração dos alunos com N.E.E., Correia et al (2008), entre outros autores, dão

algumas sugestões:

● Realizar actividades bastante diversificadas com diferentes níveis de exigência, organizando a turma de diferentes formas em diferentes momentos (trabalho individual, pequeno ou grande grupo).

Esta flexibilidade permite estimular relações de comunicação entre os alunos (Munoz & Maruny, 1993, in Torres González, 2002). Landivar (1994), considera ainda que favorece as atitudes de cooperação, interajuda, valorização recíproca (devendo os alunos com N.E.E. estar divididos pelos vários grupos), facilita o apoio individualizado, um desenvolvimento mais globalizante do currículo, isto é, pensar o processo ensino-aprendizagem como um todo, envolvendo os conceitos, as aquisições académicas, mas também as sociais (regras, valores, atitudes), por vezes mais acessíveis a estes alunos, e a colaboração entre os professores do

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Maria Paula R. V. R. Marcelino 62 regular/especial. Também Leite (2005) aponta igualmente o trabalho cooperativo

entre pares como facilitador de socialização e de aprendizagem para estes alunos, desde que sejam atribuídas tarefas de acordo com as capacidades e os conhecimentos de todos os alunos, motivando-os para progredir. A autora considera o trabalho de projecto representativo desta metodologia, uma vez que engloba o trabalho individualizado e o trabalho cooperativo entre pares, estimulando a autonomia dos alunos.

Outra estratégia é organizar trabalhos em grupos de investigação, desenvolvendo ou não o mesmo tema (Landivar, 1994). Este autor aponta, no entanto, algumas desvantagens nesta forma de organização das aulas, como, por exemplo, o maior esforço que exige do professor, a possibilidade de criar modos de funcionamento diferentes numa escola se, por exemplo, só um professor utilizar estas estratégias e não fomentar a colaboração dos professores entre diferentes níveis/ciclos de ensino.

● Diferenciar o ensino, adequando-o aos estilos de aprendizagem dos alunos, isto é, às suas características cognitivas; corresponder às necessidades específicas dos alunos, propondo níveis de dificuldade diferentes para as mesmas actividades ou actividades diferentes para alunos diferentes.

Munoz e Maruny (1993), in Torres González (2002) propõem a utilização de diferentes materiais ao nível da comunicação, que permitam a utilização de diferentes linguagens (ex: multimédia) e Landivar (1994) sugere o desenvolvimento de actividades práticas (oficinas, trabalhos manuais), considerando-as um recurso fundamental para todos os alunos da turma.

● Promover um ensino eficaz, que Correia et al (2008, p. 133) consideram um “ensino explícito, sistemático e controlado, porque lhes possibilita uma

estruturação cuidada das aprendizagens.”

● Desenvolver nos alunos técnicas de estudo, que os ajudarão a saber estudar e a organizar-se;

● Desenvolver nos alunos estratégias cognitivas e metacognitivas, respectivamente, tarefas que apelam à realização de actividades intelectuais e à reflexão sobre as aprendizagens que realizam e de que forma as realizam;

● Utilizar modelos conceptuais, com o objectivo de promover a compreensão de conceitos e a relação entre eles, facilitando as aprendizagens que o aluno realiza;

● Correia et al (2008) defendem assim a valorização das perspectivas construtivistas, que levam os alunos a “aprender a aprender”.

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Maria Paula R. V. R. Marcelino 63 Estes autores frisam ainda a importância do trabalho em colaboração entre o

professor da turma e o professor de educação especial, em todo o trabalho com alunos com N.E.E. A mesma perspectiva tem Landivar (1994), que defende que a definição de estratégias, o tempo para planificar as adaptações curriculares, de acordo com cada aluno, é um aspecto essencial para a integração dos alunos com N.E.E.; esta colaboração pode envolver outros técnicos/equipas em reuniões, seminários, que contribuem para a formação dos professores do regular e uma melhor compreensão sobre os alunos com que trabalham.

São igualmente propostas outras estratégias, de acordo com as diferentes realidades, entre elas (Landivar, 1994):

● Grupos de trabalho divididos por diferentes actividades e programas específicos, que são na prática actividades desenvolvidas pelos alunos, de acordo com as suas características e onde é adequada a intervenção do professor de educação especial, para trabalhar mais especificamente com os alunos com N.E.E., concretizando as ACI;

● Elaboração de materiais didácticos pelos próprios alunos, em diferentes áreas curriculares/actividades manuais, que desempenham assim um papel activo na sua própria aprendizagem e desenvolvem capacidades de cooperação.

● A organização de grupos de alunos por nível ou ciclo, em áreas distintas como áreas académicas ou de expressões/actividades manuais, de acordo com os níveis de aprendizagem; facilita o trabalho individualizado, o que beneficia os alunos com N.E.E., além de fomentar a ideia de ciclo de ensino e a colaboração entre professores dos diferentes ciclos. As desvantagens são que os alunos passam por mais e diferentes professores, o que dificulta o seu acompanhamento e requer maior coordenação entre todos os professores.

Segundo Munoz e Maruny (1993) in Torres González (2002), são igualmente importantes as actividades de auto-avaliação, aliadas à avaliação dos professores, o papel das equipas docentes para acompanhar as aprendizagens, articular a programação com os recursos existentes (escola/comunidade) e adequar o espaço e o tempo das aprendizagens aos ritmos dos alunos.

Quanto aos alunos com N.E.E., Correia et al (2008) reforçam que o ponto de partida deverá ser sempre o currículo comum, realizando-se os ajustamentos e adaptações quando necessário e recorrendo aos serviços/recursos que sejam úteis aos alunos, nomeadamente a técnicos especializados, entre eles, o professor de

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Maria Paula R. V. R. Marcelino 64 educação especial. Citam Hegarty (1984), relativamente ao modo como os

professores poderão organizar o processo ensino-aprendizagem, tendo em conta as adaptações curriculares a realizar:

● Ter em conta as características e necessidades individuais do aluno, valorizando o que ele pode efectivamente aprender, seja importante para ele e não implique quaisquer perigos;

● Privilegiar as aptidões básicas (leitura, escrita, cálculo, autonomia pessoal), as actividades práticas (manipulativas, vida diária) e as aprendizagens que lhe poderão ser úteis noutros contextos, isto é, criar um equilíbrio entre a componente académica e a preparação para a vida pós- escolar.

Sendo fundamental o papel desempenhado pelos professores na construção de escolas inclusivas, Correia et al (2008), indicam algumas estratégias a utilizar para fomentar salas de aula inclusivas, entre elas:

● Criar um ambiente de interacções positivas; a atitude do professor face aos alunos com N.E.E. é muito importante na aceitação entre os pares e contribui para a aceitação social de todos;

● Organizar algumas actividades que contribuam para que os alunos se conheçam melhor entre eles e promover a amizade entre pares com e sem N.E.E., ajudando todos os alunos a estarem de facto integrados na turma; ● É importante que os alunos da turma conheçam as diferenças e necessidades dos colegas com N.E.E., ficando assim mais sensibilizados para a diferença;

● Ter expectativas altas e conhecimentos sobre como responder às necessidades individuais dos alunos, também contribui para o sucesso da inclusão;

● Promover a aquisição de comportamentos adequados ao nível pessoal, social e académico, nomeadamente, através da utilização de reforços positivos e negativos;

● Implementar práticas educativas flexíveis, tais como, a aprendizagem em cooperação, a realização de projectos, as tutorias, a utilização de tecnologias de informação e comunicação.

● Ajustamentos e adaptações curriculares; este trabalho implica a colaboração entre os professores do ensino regular, técnicos especializados, nomeadamente os serviços de educação especial e as famílias, opinião partilhada por Rodrigues (2006), que realça igualmente a importância das

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Maria Paula R. V. R. Marcelino 65 atitudes inclusivas face à inovação e capacidade de responder às

dificuldades, bem como a formação contínua dos professores;

● Uma sala de aula inclusiva pressupõe também que existam os meios humanos, materiais e didácticos necessários e que a própria escola se organize, no sentido de encontrar as melhores respostas para todos os alunos. Segundo Rodrigues (2006), é fundamental o apoio dos órgãos de gestão e administração da escola/agrupamento; a diferenciação curricular existe quando é realizada no contexto da escola, tendo em conta todos os alunos, não sendo da responsabilidade apenas do professor da turma, nem possível de efectuar apenas com a sua vontade, mas com o envolvimento de toda a organização escolar. O autor cita Ben-Peretz (2001) que diz que “a

tarefa do professor num mundo em mudança é praticamente impossível devido às dimensões dos desafios que lhe são colocados: o trabalho multidisciplinar, a globalização, a profissionalidade, etc.” (p. 83-84).

Apesar dos diversos especialistas valorizarem a importância do trabalho desenvolvido pelo professor do ensino regular na inclusão de alunos com necessidades educativas especiais, e das diversas investigações efectuadas que apontam algumas estratégias facilitadoras para o desempenho da actividade docente com estes alunos, esta é uma área onde as dúvidas e a insegurança persistem. De facto, são referidos estudos de diversos investigadores por Correia et al (2008), que revelam que os professores transmitem que sentem dificuldades em lidar com alunos com N.E.E. e em efectuar adequações curriculares (AC), manifestando frequentemente sentimentos de frustração e angústia no seu desempenho; receiam também a filosofia inclusiva quando consideram que não têm a formação, o tempo e os recursos que consideram necessários.

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