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TRAITEMENTS ENZYMATIQUES

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55 VI. EXTRACTION ET SEPARATION DES ACIDES NUCLEIQUES

IX. TRAITEMENTS ENZYMATIQUES

No livro-poema A Balada do Cárcere, de Bruno Tolentino, um dos mais belos da língua portuguesa, o autor lembra na Introdução que

Há situações extremas, como a do encarceramento ou a iminência da morte, em que a criatura se confronta com questões fundamentais. Então caem as máscaras e a introspecção torna-se inevitável. Essa solidão é produtora de poesia, ou de desespero269.

Tomemos, a título de exemplo, o caso do guerrilheiro Josias270. Ele não estava naquele grupo dos oito “eleitos” de Osvaldão, aqueles “mais corajosos e preparados”. Era meado de dezembro de 1973 quando Josias restou sozinho

                                                                                                                         

269 Quando era professor de Literatura na universidade de Oxford, Inglaterra, Tolentino foi acusado de

fornecimento de cocaína a professores e alunos. No julgamento, declarou-se consumidor e culpado de compartilhar a droga. Foi condenado e passou dois anos preso em uma penitenciária chamada popularmente de Ilha do Diabo. Foi quando então compôs o referido livro-poema. Bruno Tolentino. A

Balada do Cárcere. Rio de Janeiro, TopBooks, 2006, pág. 17.

270 Tobias Pereira Júnior, estudante de Medicina na Universidade Federal Fluminense antes de aderir à

na floresta. Apartara-se de seu grupamento a fim de tentar escapar. Chegou à casa de José de Souza Gomes, o Zezão, capataz da fazenda outrora chamada Rainha do Araguaia, hoje Matrinxã. Estava armado com uma carabina e com um revólver. Zezão expõe suas lembranças271.

“Quem é o responsável aqui?” – teria dito Josias, apontando a arma para o camponês.

“Sou eu” – respondeu Zezão.

“Você vai me levar ou mandar levar lá na beira do Araguaia e me atravessar para o outro lado para eu ir embora”.

“Calma que tá terminando de fazer o almoço”. “Tem dias que não como” – respondeu Josias.

A palavra “almoço” teria acalmado de imediato o guerrilheiro, de acordo com as reminiscências do capataz. Josias teria abaixado a arma, mas se mantido alerta. Minutos depois, o cozinheiro, apelido Cartucho, gritou lá de dentro que a comida ficara pronta. Rápido, Josias apanhou um prato, pegou uma concha e, enquanto a levava para dentro da panela, soltou a arma por um instante. O camponês Wagner o segurou. Não reagiu, já estava muito fraco. Zezão o amarrou e mandou avisar os militares na Base da Consolação. Uma hora depois, o capitão Curió chegaria de helicóptero272. Josias xingou muito os

militares.

“Filhos da puta, vocês são covardes”.

O guerrilheiro entrou no helicóptero de cabeça baixa, de acordo com as lembranças de Zezão. Foi levado para a Base de Xambioá. Para ele, a partir daquele instante – como ficaria claro com a reconstrução dos eventos – findara o sonho de construir um país igualitário. Capitulara. Sua única esperança era

                                                                                                                         

271 Foram dois depoimentos orais a esta pesquisa, ambas em Fev 2011.

272 Ressalte-se que, naquela ocasião, o capitão Sebastião Rodrigues de Moura usava o codinome de Dr.

Luchini. Era, também, apenas mais um dentre os muitos oficiais do Exército servindo no Araguaia, aliás, o 25º na cadeia de comando, de acordo com as apurações desta pesquisa junto a militares. Depois de promovido a major, passou a fazer uso aberto de seu apelido pessoal, Curió. Seu mito na região só se consolidaria a partir da década de 1980, quando tornou-se responsável pelo garimpo de Serra Pelada. Em dezembro de 1973, quando desceu de helicóptero na casa de Zezão para apanhar o guerrilheiro Josias, era o Dr. Luchini. Contudo, nas lembranças de Zezão, quem esteve lá foi o Major Curió.

sobreviver. E, como os escravos tão menosprezados por Platão porque se submetiam “ao domínio do amo por desejar permanecer vivo a qualquer preço”, como lembra Arendt273, Josias contou o que os militares dele queriam saber. E levou-os onde eles gostariam de ir. A 22 de dezembro de 1973, o guerrilheiro chegaria ao Ponto dos Perdidos à testa de uma equipe do Exército. Josias avistou o camarada Jaime274, sozinho, dentro de um abrigo de palha e pau a pique.

“Se entrega, Jaime, que a luta está perdida” – gritou Josias275.

Jaime reagiu atirando, como já narrado, e terminou decapitado pelo guia Iomar Galego. Quanto a Josias, passaria três meses na Base de Xambioá. Em seu caso, era uma espécie de prisão domiciliar. Podia andar pela base, mas não deixá-la, sob pena de execução sumária. Como estudante de Medicina, usufruía da regalia de fazer o rancho com os oficiais.

Nesse tempo, relatou o que sabia da guerrilha, apontou mapas, levou os militares a diferentes pontos na floresta. Mas somente Jaime teria sido abatido por conta de seus apontamentos. Josias conversava muito. Tanto com os militares, quanto com os camponeses que serviam de guias do Exército. A eles, relatou vários episódios da guerrilha, como a morte do camarada Mundico276 e o enterro de Ari.

                                                                                                                         

273 Arendt. A condição humana. Op. cit., pág 329.

274 Jaime Petit da Silva, um professor de Matemática e Física, além de estudante de Engenharia.

275 De acordo com as narrativas orais dos ex-guias Sinésio Martins Ribeiro, o Sinésio Bringel, e Cícero

Pereira Gomes, o Cícero Venâncio, que estavam presentes no episódio.

276 Rosalindo Cruz Souza, o Mundico, provável autor da letra da “Canção do Guerrilheiro”, morrera em

agosto de 1973, durante o período de trégua. Trata-se do único dentre os 53 guerrilheiros mortos e desaparecidos que os militares não assumem (informalmente) a autoria da morte. Teria sido “justiçado” (executado) pelos próprios companheiros por suposta traição aos ideais revolucionários. O episódio que resultou em sua morte, resultados das pesquisas de campo, será narrado adiante, no Capítulo 8, “A Luta na Floresta”.

Josias (em foto depois de preso pelos militares)

Buscava muito justificar sua mudança de lado, tentar explicar que não seria um “traidor da guerrilha”, mas sim uma vítima. Pois, segundo ele, quando estudante de Medicina em Niterói, fora recrutado pelo partido para “fazer um trabalho de assistência social no interior”, e não para participar de uma luta armada277. Chegou a combinar com um militar com quem conversava tomar

chopp no bar Garota de Ipanema, no Rio de Janeiro, quando a guerra acabasse. Em meados de março, esse mesmo militar recebeu a ordem de executá-lo. Não conseguiu cumpri-la278.

                                                                                                                         

277 O ex-guia Cícero Venâncio teria ficado seu amigo e, com ele, mantido longas conversas. As

informações acima são baseadas na narrativa de Cícero a esta pesquisa – nesse caso específico, gravadas em vídeo. Ressalto, contudo, que os ex-guias Iomar Galego e Jacó Gaioso também conversaram bastante com Tobias Pereira Jr. e que suas respectivas lembranças sobre o guerrilheiro guardam o mesmo sentido geral das lembranças de Cícero. Idem para um militar que também interrogou o guerrilheiro. Essas quatro diferentes fontes apresentam um guerrilheiro que se diz arrependido, que se diz traído (e não traidor) e que garante que não fora convocado a uma revolução, mas apenas a prestar serviços de assistência social no interior.

278 Na obra A Lei da Selva, op. cit., pág. 82 e 83, registro o relato desse militar, codinome Mário, sobre

sua relação com o guerrilheiro Josias. Quando chegou a ordem de executá-lo, esse militar não conseguiu cumpri-la. Procurou um oficial e pediu: “Afasta de mim esse cálice”. Então, a missão teria sido entregue a outro militar. Em pesquisas mais recentes, descobri que Tobias Pereira Jr. pode ter sido poupado. Como já relatado em nota de rodapé anterior, os militares teriam poupado a vida de alguns guerrilheiros, como Hélio Luis Navarro de Magalhães, o Edinho, desde que assumissem nova identidade, como é prática nos programas de delação premiada dos Estados Unidos. Esses supostos desaparecidos políticos são chamados de “mortos-vivos”. Os grupos de Direitos Humanos debatem quem seriam os mortos-vivos desde o início da década de 1990. Nessa época, o historiador Rubin Aquino chegou a ir atrás da família de Tobias, aventando a possibilidade de ele ser um dos mortos-vivos. Em fins da década de 90, a Rede Globo chegou a abordar o tema no programa “Você Decide”, baseado em um caso real de um morto-vivo que estaria morando no Rio de Janeiro. Em 2006, o ex-ministro da Educação, Jarbas Passarinho,

* * *

Josias não seria o único a buscar a Vida como Bem Supremo. Ou por falta de convicção na missão messiânica – uso o termo de acordo com a acepção benjaminiana – ou por terem sido tomados por aquela emoção que Osvaldo chamaria de medo.

Áurea (Aurea Elisa Valadão) chegou a comover o sargento que a interrogava. Estavam em Marabá, em local conhecido por Casa Azul, onde os comandantes militares instalaram-se para coordenar toda a repressão à guerrilha. Ela, magra, extremamente fraca, com a pele tomada por pústulas de leishmaniose. O sargento relata que tentou reanimá-la, usando uma técnica de interrogatório que busca estabelecer a empatia com a prisioneira. Convidou-a para, juntos, tomarem cerveja e depois dançar a noite inteira. Áurea chorou:

“Não me dê falsas esperanças, porque depois você não vai poder cumprir” – teria dito a guerrilheira, de acordo com as lembranças do militar.

* * *

O mesmo Zezão que prendeu Josias, também pegaria Simão (foto). Nascera Cilon Cunha Brum, em São Sepé, Rio Grande do Sul, numa família de pequenos agricultores. Estudou em Porto Alegre; depois, mudou-se para São Paulo. Era estudante de Economia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo quando foi recrutado pelo PC do B. Chegou ao Araguaia com 24 anos.

Era meados de fevereiro de 1974 quando o

capataz foi avisado por um adolescente, Diquinho, filho do camponês Agenor de Miranda, que havia um “terrorista” armado em sua casa279. Zezão colocou o

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                     

concedeu entrevista à revista IstoÉ revelando que abrigara dois mortos-vivos do Araguaia, no início de 1974, quando era ministro da Educação. Seriam cinco os mortos-vivos do Araguaia, sendo quatro homens e uma mulher. Esclareço que esse tema não faz parte desta pesquisa e que o cito, em nota de rodapé, por preciosismo acadêmico, a título de esclarecimento sobre o destino de Tobias/Josias.

adolescente no carro e dirigiu-se ao local indicado. Segundo sua narrativa, entrou com arma na mão, apontando para Simão.

“Você vai entregar as armas ou não?”

Entregou a carabina e o revólver calibre 38. Estava “amarelo, arrasado, triste”, de acordo com a descrição do capataz. Era alto e magro. Usava uma calça de tergal azul marinho, muito folgada, amarrada na cintura por um cordão. Não ofereceu resistência. Sentou-se ao lado de Zezão no Jipe. Quando passaram em frente a um pasto cheio de gado, Simão chorou.

“Lembrei-me da minha terra”...

“Quase não o levei de pena”, relata Zezão. “Mas se não levasse, eu iria para o pau”.

Chegaram à Base de Babaca por volta das 17h30. Simão “fedia muito”, segundo o capataz. Um soldado o levou para o banheiro; sairia de lá de banho tomado e com outra roupa. O médico da base, codinome Dr. Walter, examinou o guerrilheiro. Mandou lhe dar vitaminas, de acordo com as lembranças de Zezão. Simão ficaria de duas a três semanas preso na Bacaba.

Nesse período, conversaria sobre suas esperanças com alguns moradores da região, dentre eles, o camponês Antônio Menezes. Falava em voltar a estudar, que sentia muitas saudades dos sobrinhos, queria voltar para casa. “Tenho fé que vou voltar a ver minha família”, disse, de acordo com Menezes. Aparentava uma imensa tristeza no olhar. Dizia que sentia enganado pelo partido, que abandonara os guerrilheiros. Enfim, segundo essas reminiscências expostas em narrativas, Simão queria viver.

Logo depois da Semana Santa, foi colocado em um helicóptero em companhia do guerrilheiro Raul – o mesmo que estava junto com Ari naquela encruzilhada na Grota do Cristal. Nascido Antônio Theodoro Castro, Raul fora aprisionado por moradores de Brejo Grande no Sábado de Aleluia. Era o dia da tradição da Malhação do Judas. Amarrado em um poste, Raul seria o Judas daquele ano. Mais tarde, seria também torturado por militares. O guerrilheiro

orgulhava-se de ser um homem duro, um sertanejo, um “cabra-macho”, como costumava dizer aos moradores do Araguaia.

Zezão lembra-se em detalhes da chegada de Raul e de Simão na sede da Fazenda Rainha do Araguaia. Desceram de helicóptero, com as mãos amarradas e ligados um ao outro por uma corda de paraquedas. Estavam ladeados por cinco militares, chefiados pelo capitão Curió, garante Zezão. Os dois vestidos iguais, calças azuis da aeronáutica e camisas bege de manga comprida. Raul estava muito magro, cabeludo, barbudo e sujo, em crise de malária. Simão, um pouco mais gordo, limpo e barbeado, “com aparência bem melhor”, relata o capataz. Era hora do almoço. Os militares pediram água. Zezão ofereceu um prato:

“O dotô come da nossa comida?” – indagou, olhando nos olhos de Raul. “Fiquei pensando no conselho da minha mãe: sempre dar comida para quem tem fome” – explica o capataz, no tempo presente.

Raul respondeu que não, “não vou comer”. Curió encerrou a conversa dizendo que comeriam na volta do reconhecimento que fariam no mato. Mas os militares almoçaram. Logo depois saíram a pé, mata adentro, em direção a uma estrada que estava sendo aberta, a OP-3. O camponês Isaías os acompanhou280. Andaram cerca de 1h30 pela fazenda. Sentaram para

descansar em uma área que ficava perto da gleba de Raimundo Cacaúba – aquele mateiro que estava no grupo que serrou o pescoço de Ari enquanto ele ainda estava vivo281.

Raul cuspiu na cara de Curió. O capitão então se levantou e deu tiro na cabeça do guerrilheiro. O sangue espirrou na mochila de um dos militares. Depois teria perguntado ao outro:

“Simão, você gosta da floresta?” “Gosto”.

                                                                                                                         

280 Fugira de Minas Gerais após matar a família. Encontrara abrigo na fazenda como juquireiro, segundo

seu relato oral.

281 Naquela ocasião, Cacaúba andava pela área, mas só ganharia a escritura da gleba em dezembro de

“Então fica aí” 282.

Simão teria dado um grito de terror no momento em que constatou que seria executado. Os tiros foram escutados na sede da fazenda. Era por volta de 14h30. Foram ambos, Raul e Simão, deixados insepultos na mata, ao largo da antiga trilha de tropa de burros que ligava a sede da fazenda Rainha do Araguaia à estrada OP-3

Dias depois, Cacaúba avistou os corpos enquanto caçava veados em companhia do camponês Antônio Fogoió. O cheiro era forte, havia muitas moscas, as pacas os devoravam, segundo sua narrativa à pesquisa. Outros camponeses também avistariam os corpos. Zezão mandou enterrá-los por causa do mau cheiro. A trilha era importante para a fazenda, explica em narrativa oral. Precisava estar limpa283.

* * *

Entre dezembro de 1973 e março de 1974, de 25 a 30 guerrilheiros caíram prisioneiros dos militares. De todos, três deles se mostrariam os mais apegados à vida: Edinho (Hélio Luíz Navarro de Magalhães), Duda (Luiz Renê Silveira Silva) e Piauí (Antônio de Pádua Costa). Duda e Piauí chegaram a servir de guias do Exército na caçada aos guerrilheiros – de acordo com as lembranças de camponeses e de militares, em relatos a esta pesquisa284.

                                                                                                                         

282 Nesta pesquisa, consegui localizar um militar que estava naquela equipe. Ele exigiu que sua identidade

seja preservada, o que será respeitado. Observo, desde já, que a história por ele narrada é extremamente parecida àquela narrada pelo mateiro Isaías a Zezão, como também ao relatado em reportagem da revista Veja. Quanto à biografia autorizada de Curió, Mata, op. cit., optou por omitir as execuções de Raul e Simão, apesar de testemunhas como Zezão e Antônio do Agenor terem sido entrevistadas e citadas em outras passagens.

283 Em fevereiro de 2011, levado por Raimundo Cacaúba, estive no local onde Cilon (Simão) e Theodoro

(Raul) foram executados e, depois, enterrados. O ex-guia do Exército foi localizado em Serra Pelada pelo casal Mercês Castro (irmã de Raul) e Jadiel Camelo, que o convenceu a ajudar os familiares na localização dos corpos. Cacaúba levou a mim e o advogado Jadiel ao local. Foi uma expedição de oito dias. Foram necessários três dias abrindo caminho pela mata espessa apenas para localizar a antiga trilha de burros onde Cacaúba avistou os dois corpos sendo comidos por animais silvestres. Localizamos a provável área, no topo de um morro, mas não encontramos a antiga touceira de bambu, ao lado da qual Cacaúba viu os corpos. O local foi marcado com GPS. Desde então, aguarda pela iniciativa da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência para que profissionais da geologia façam prospecções na tentativa de encontrar os restos mortais dos dois guerrilheiros.

284 Dentre eles, Iomar Galego, Jacó Gaioso e Cícero Venâncio, que chegou a manter longas conversas

Há três fotografias de Piauí guiando os militares. Fazem parte do acervo pessoal de um militar que participou da Terceira Campanha. Em duas delas, Piauí está sentado, descansando. Na outra, está dentro de um helicóptero.

Três momentos do guerrilheiro Piauí, depois de preso pelos militares. No helicóptero, ele é o segundo a partir da direita

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