A semeadura direta tem se mostrado um sistema de manejo de solo eficiente no controle das perdas de sedimentos. A eficiência decorre da cobertura do solo proporcionada pelos resíduos vegetais deixados na superfície por este sistema. Os resíduos vegetais exercem um efeito protetor para o solo contra o impacto da gota de chuva (FOSTER, 1982). Além de proteger o solos contra o efeito desagregador da gota de chuva, os resíduos vegetais, são um meio eficaz para reduzir a concentração de sedimentos na enxurrada, por diminuírem a velocidade do escoamento superficial da água em razão da barreira física formada por eles (MEYER et al., 1970). Na passagem da água por entre as peças de resíduos, ocorre a filtragem dos sedimentos em suspensão na enxurrada (FOSTER, 1982). Por sua vez, nas áreas depressionais formadas pelos resíduos, ocorre a deposição dos sedimentos por capturarem as partículas de sedimento que estão sendo erodidas (ONSTAD, 1984). Portanto, a semeadura direta é um sistema que pode contribuir para a redução das perdas totais dos nutrientes, pelo efeito que exerce no controle das perdas de sedimentos (SHARPLEY et al., 2001; SHARPLEY et al., 1981; EGHBALL e GILLEY, 2001)
No entanto, o benefício proporcionado pela semeadura direta na redução nas perdas de sedimentos, nem sempre é acompanhado por menores perdas de
água (CARVALHO et al., 1990; LEVIEN et al., 1990; CASSOL et al., 2002). Isto decorre, em grande parte do fato de que a semeadura direta caracteriza-se, entre outros aspectos, pela apresentação de baixos índices de rugosidade superficial (COGO, 1981), sendo que estas características tendem a acentuar-se na medida em que aumenta o tempo de permanência do sistema (WISCHMEIER, 1973). Superfí- cies menos rugosas terão uma reduzida capacidade de quebrar a velocidade do fluxo superficial e assim reduzir a própria enxurrada, na relação direta com o índice de rugosidade superficial (CARVALHO, 1986; ZOBECK e ONSTAD, 1987). Assim, permanece um risco considerável de perda de água. CARVALHO et al. (1990) e MUELLER et al. (1984) estudando as perdas de água em diferentes sistemas de manejo de solo, constataram que na condição de semeadura direta as perdas foram maiores em relação as demais formas de manejo. Por sua vez, LEVIEN et al. (1990) e CASSOL et al. (2002) constataram que a semeadura direta apresentou igual perda de água em comparação ao sistema convencional de manejo do solo.
Em conseqüência da semeadura direta apresentar maior eficiência no controle das perdas de sedimentos do que de água, faz com que as perdas de nutrientes, nesse sistema, tenham uma relação mais direta com a perda de água na enxurrada (CASSOL et al. 2002). SOILEAU et al., (1994) constataram que no sistema de semeadura direta, a maior perda do P foi através da água, em razão do ter apresentado um relativamente grande volume do componente água no escoamento superficial, em comparação com o pequeno volume de sedimento perdido. Por outro lado, a contenção do escoamento superficial como medida para o controle das perdas de nutrientes se reveste de uma importância ainda maior para o caso do P, por duas razões, a saber: a) é o principal elemento eutrofizante das águas, conforme já mencionado e; b) em razão de ter uma grande reatividade com a matriz do solo, as perdas deste elemento ocorrem principalmente por superfície (HEATWAITE et al., 2000; SHARPLEY et al., 2001; PETER et al., 1976; SIMARD et al., 2000). Fica evidente, portanto, que em condições de semeadura direta, o controle das perdas de água através do gerenciamento do escoamento superficial, se constitui de uma medida importante para ocasionar impacto no controle das perdas de nutrientes, principalmente de P (LAFLEN e TABATABAI, 1984), uma vez que em áreas sob o sistema de semeadura direta, “a enxurrada, embora praticamente translúcida, apresenta taxa de enriquecimento mais elevada
(especialmente em P), do que em outros sistemas menos conservacionistas” (HERNANI et al., 1999).
3.6.3. Efeito do sistema de terraceamento no controle das perdas de nutrientes
Segundo DENARDIN, (1984), o manejo do solo deve proporcionar o controle da enxurrada através da adoção de práticas que criem condições tais como reter ao máximo a água das chuvas aonde ela encontra o solo e reduzir a velocidade de escoamento superficial da água não infiltrada no solo, dentre outras. Por outro lado, face a importância cada vez maior da água, tanto em qualidade quanto em quantidade, PREVEDELLO (1996) recomenda que a água captada no meio rural, nas microbacias hidrográficas, deve ser infiltrada lentamente, minimizando-se o escoamento superficial, de modo a utilizar-se o potencial de retenção de água no solo como agente de estocagem natural e liberação lenta às nascentes e fontes dos cursos de água e lençóis subterrâneos. Assim, as considerações feitas por estes autores devem ser levadas em conta no estabelecimento de estratégias que venham a ser implementadas para o controle da perda de nutrientes.
Diante da conveniência de reter o escoamento superficial na encosta, dentro da estratégia para melhorar a qualidade e a quantidade das águas nos mananciais, sistemas de terraceamento tem se apresentado como uma alternativa viável tecnicamente para alcançar tal objetivo. Os terraços são considerados como estruturas conservacionistas que exercem modificações morfológicas nas áreas implantadas e tem a função principal de controlar a erosão hídrica, pelo seccionamento das encostas. Os terraços, ao seccionar as pendentes, quebram a velocidade da água que pode se acumular no canal do terraço e assim aumentar a sua infiltração e retenção no solo (SEAB, 1994). Por outro lado, a presença do terraço na lavoura se torna um instrumento de orientação para que as operações motomecanizadas, como a semeadura, sejam executadas em nível. Isto resulta num benefício indireto importante no controle do escoamento superficial.
Nos últimos anos, tem se observado uma retirada crescente dos terraços sem critérios técnicos, em lavouras de agricultores que adotaram a semeadura direta, contrariando os esforços empreendidos nas ações de pesquisa e assistência técnica nas últimas décadas e que contribuíram para uma melhoria ambiental considerável.
Este procedimento tem sido adotado, devido a percepção por parte dos agricultores de que a enxurrada que se forma em ambiente de semeadura direta, normalmente apresenta uma baixa turbidez. No entanto, é necessário considerar que em condições de semeadura direta, a enxurrada apresenta uma taxa de enriquecimento de nutrientes mais elevada do que em outros sistemas menos conservacionistas (HERNANI et al., 1999). Assim, a manutenção do risco potencial de erosão, e consequente seca edafológica, pela alta quantidade de água perdida, pressupõe, segundo HERNANI et al. (1999), a necessidade de haver uma análise técnica criteriosa para decidir sobre a eliminação de terraços em áreas sob o sistema de semeadura direta, uma vez que segundo estes autores, para preservar a qualidade dos mananciais, faz-se necessário associar ao sistema de manejo, inclusive no plantio direto, outras práticas conservacionistas, como os terraços.
Quando barreiras como os terraços são implantados nas lavouras, além de evitar a perda de água da chuva, retendo-a na encosta, proporciona a contenção e a deposição dos sedimentos desagregados ainda na área erodida, próximo ao local em que os sedimentos foram removidos. Os terraços se constituem, portanto, numa medida de proteção do solo e da qualidade das águas de superfície. Estas obras são particularmente importantes na contenção e deposição dos sedimentos suspensos na enxurrada, uma vez que estes são retidos com menor eficiência em condições de semeadura direta (MOOGe WHITING, 2002). HERNANI et al. (1999) ao estudar a perda de nutrientes e matéria orgânica por erosão em sistemas de manejo do solo, afirmam que “para preservar a qualidade dos mananciais, faz-se necessário associar ao sistema de manejo, inclusive no plantio direto, outras práticas conservacionistas, como os terraços. Segundo os autores, sem a proteção dos terraços, a enxurrada conteria concentração de P relativamente elevadas, promovendo, ao longo dos anos, condições necessárias para a aceleração da eutrofização de reservatórios”.