IV. Traitement et anatomo-pathologie:
1- Traitement chirurgical:
Para além da atuação das militantes na ASTTAL, há uma cena cultural que surgiu e tem crescido nos últimos dois anos através da atuação do grupo Trans Show, essa organização surge no Dia da Visibilidade Trans de 2014, com cinco integrantes, ao realizar um show performático em evento de comemoração da data e continua atuando até o presente momento. A discussão a ser feita aqui tomará tal grupo como norte, uma vez que o mesmo tem se constituído, cada vez mais, como estrutura na qual as trans de Maceió se apoiam para se inserir e continuar no movimento, para resistir diariamente.
O fato do grupo ser integrado em sua maioria por militantes não é mera coincidência, pois Natasha, que já fazia apresentações artísticas solo, resolveu convidar algumas das integrantes da ASTTAL para formar um grupo e participar de shows, sem a garantia de receberem ajuda de custo pelos mesmos, contudo. Apesar de terem ocorrido algumas tensões entre os dois grupos, a relação de cooperação e troca de experiências entre eles é inegável, incluindo o Trans Show no cenário do ativismo político.
Tá, o trans show eu criei esse projeto, como eu gosto da cultura, eu criei o projeto que tanto ele pode ser através da associação ou não, porque esse projeto a gente vai, vai dar continuidade, eu vou dar continuidade né? Enquanto tiver vida e a ASTTAL como apoio, né? O apoio pela sede, pelo CNPJ, pra poder a gente conseguir cultura [...] A gente tem que tá trabalhando de mão dada, mão dupla, eu não posso ser só, tem que tá
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a associação junto com o grupo pra poder, pra poder as coisas dar certo. (Natasha Kiss, Entrevista em 11 de Novembro de 2015)
Essa parceria estabelecida e o “trabalho de mão dupla” narrado por Natasha, foi conceituado por Scheren-Warren (2006) como “formas de articulação inter-organizacionais”, onde se destacam redes de redes estabelecidas através do diálogo entre ONGs. Tais formas de articulação visam estreitar a relação entre essas organizações, de modo a empoderar a sociedade civil e formas de associativismo pontuais.
Em relação às travestis e transexuais do estado, articular-se com grupos que estão lutando pela mesma causa é de fundamental importância, uma vez que não costumam encontrar suporte com movimentos de trabalhadores, feministas, e em parcela do movimento LGBT, por exemplo. Como à época da entrevista o grupo não possuía CNPJ, as possibilidades de conseguir sozinho apoio governamental ou receber verbas ao inscrever projetos culturais em editais eram nulas, de modo que necessitavam reunir-se na sede da ASTTAL e utilizar o CNPJ da mesma para inscrever projetos culturais.
Há também uma particularidade do estado de Alagoas no caso de fomento à cultura, uma vez que na capital, por exemplo, publicam-se em torno de dois editais por ano voltados para essa área, o que também gera repercussões para o Trans Show:
Porque via a precariedade dentro da... como eu sou artista já, transformista, eu via a precariedade dentro da cultura pra gente travesti, as menina... as travesti que tem o dom da arte, da cultura se prostituindo na rua, entendeu? Elas precisando de fazer suas fantasia, fazer suas roupa, porque não acredita mais na cultura do nosso estado, então pra mim foi isso, foi isso que me deu força, "não, vamo ter que correr atrás" começar da cultura pra que elas tenha outro olhar, pra que elas lutem e pelo que, pelos nossos direitos, entendeu? (Natasha Kiss, Entrevista em 11 de Novembro de 2015)
Desse modo, percebemos que há uma luta que se ramifica: em primeiro lugar, percebemos que há um movimento de resistência atrelado à valorização da cultura local, pois embora se refira à precariedade do fomento à cultura, Natasha revela em sua fala um processo de não deixar o grupo estacionar por conta desse cenário, fazendo com que se retome a crença de que há cultura no Estado entre as travestis e transexuais integrantes.
Enquanto a herança negra e indígena da cultura do Estado vai sendo cada vez mais esquecida, o grupo vai modificando suas próprias crenças ao explorar tais heranças em suas performances (figura 4), trazendo à tona um sentido de pertencimento e valorização da negritude, por exemplo. Especialmente nesse ponto, é interessante notar que o Trans Show tem como pauta a reafirmação da cultura da negra, algo que apenas esse grupo tem realizado dentro do movimento LGBT do estado, embora grande parte desse movimento seja de etnia negra,
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mostrando que talvez haja uma despreocupação com a questão racial no mesmo, ainda que a juventude negra (e LGBT) no estado esteja sendo assassinada dia após dia.
Figura 4- Apresentações do Trans Show no ano de 2014. (Fonte: acervo da pesquisa)
A partir disso observamos a formação de um vínculo indissociável entre política e cultura, conformando uma política cultural, entendida enquanto “resultado de articulações discursivas que se originam em práticas culturais existentes – nunca puras, sempre híbridas, mas apesar disso, mostrando contrastes significativos em relação às culturas dominantes – e no contexto de determinadas condições históricas”. (ALVAREZ ET AL, 2000, p. 25)
Em segundo lugar, a partir da cultura e da representatividade de seus corpos, as integrantes do Trans Show resistem utilizando a arte como uma nova linguagem, o que lhes confere força para prosseguir:
O que mais me marcou, me deu força, foi ver uma travesti chamada Paula, cadeirante, uma travesti com problema de cadeira de rodas, né? Que fica acamada em casa e quando foi pro negócio da cultura de, elas assim... de, nós fizemos um show cultural e ela disse que ia participar, e ver ela subindo no palco ali, né? [...] Aquilo me deu o incentivo de continuar a cultura, porque eu vi que as pessoas gostam daquilo, né? A cultura é um incentivo, tanto que me deu força assim, de ver uma pessoa cadeirante, e uma travesti de vulnerabilidade mesmo, doente, em cima de uma cama, ter essa força
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de vontade, assim, aí diz "não, então eu não posso desistir não, tem que ir até o final". E agora já tem outra agora que chegou também, que era de muletas, que tava de saída do HDT [Hospital de Doenças Tropicais] também, que ela vai participar do Trans Show também, aí isso pra mim é uma vitória muito grande, que ela vai inaugurar agora em Janeiro, que ela vai tá lá com a muletinha dela fazendo apresentação cultural, então pra mim isso é maravilhoso, não posso desistir por isso, entendeu? [...] Isso pra gente já é uma vitória, isso me deu força também de, de você quebrar a barreira de pessoas tão difíceis, né? E a pessoa tá ali brincando com a gente, subindo no palco ali, com dinheiro, sem nada, mas tá ali, entendeu? Participando. (Natasha Kiss, Entrevista em 11 de Novembro de 2015)
Desse modo, demonstram não só resistência simbólica frente a um contexto cultural que reforça a branquitude e a cisnormatividade, mas trazem consigo uma resistência física/corporal, por incluir corpos deficientes, vistos como incompletos, e corpos que transcendem a relação sexo-gênero, provocando “reapropriações e desvios dos discursos da medicina anatômica” (PRECIADO, 2011, p. 16).
Em consonância, no Trans Show a resistência é mantida por uma dualidade: esses corpos desviantes estão expostos à invisibilidade e à ridicularização, e ao mesmo tempo, se recusam a estar nesse não-lugar e o utilizam para resistir.
Embora suas performances não possuam o objetivo direto de subversão, pois muitas reforçam o discurso normativo de gênero por exemplo, ao fazerem de seus corpos agência, acabam por torna-los uma ocasião performativa (BUTLER & ATHANASIOU, 2013), utilizando seus shows como manifesto; assim, esses corpos se unem a produções artísticas precárias e público pequeno podem performativizar o lugar de abjeção em que se encontram.
A partir disso, pudemos inferir que o cenário cultural impulsionado pelo grupo não constitui resistência apenas por conferir valorização à determinadas heranças menosprezadas na cidade, também há uma luta por visibilidades específicas, isto é, a visibilização de trabalhos e atividades que não estejam ligados necessariamente à prostituição, de modo que possam ser vistas como artistas. As falas de Natasha ao longo da pesquisa e as transcritas aqui revelam essa dimensão que a cultura tem para as militantes que participam do Trans Show, ao se inserirem no âmbito cultural para visibilizar seus respectivos talentos artísticos, e as precariedades impostas às suas vidas que as impedem de serem vistas como sujeitas elegíveis no campo da arte e da cultura, nos apontam como isto as leva a lutar por espaço e por seus direitos.