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Un trait d’histoire de vie méconnu chez les arbres forestier : la reproduction

3. Etude des traits d’histoire de vie chez les arbres forestiers

3.3. Un trait d’histoire de vie méconnu chez les arbres forestier : la reproduction

Sento-me

evidentemente

circunspectamente

irremediavelmente

senhor professor doutor

(L.N.Jorge, Exame, em Quarta Dimensão)

A fotografia mais conhecida destes jovens estudantes, à entrada da Faculdade de Letras de Lisboa, é de Julho de '59, não tem sombras (negras) de capas, e não tem sombra mesmo. Ligeiros, luminosos, num dia cheio de sol de fim de curso. Gastão Cruz, Fiama Hasse Pais Brandão e Luiza Neto Jorge são ali já uma premissa à Poesia 61. Acompanham-nos Luísa Ducla Soares, Fernão Perestrelo e Dulce Pombeiro. O Decreto Lei nº 40 900, de 12 de dezembro de 1956, limitando muito a autonomia das associações estudantis, não tinha avançado; outras limitações haveriam de chegar, e na sequência delas as ocupações e as greves, e a crise académica de '62. É nestes anos e neste clima que nasce a revista Grafia – publicação não-periódica de alunos da fac. de letras, dirigida por Mário Sottomayor Cardia, com três números publicados, em Maio de 1961, Maio de 1962 e Abril de 1963. O segundo número é, diferentemente dos outros dois, dactilografado e mimeografado, supomos por falta de outros meios. Da redacção farão parte ao longo dos três anos Fiama Hasse Pais Brandão, Gastão Cruz, João Paulo Monteiro, Luiza Neto Jorge (que continuará a colaborar, desde Faro, mas sairá da redacção já a partir do número 2), João Carlos Passos Valente e Maria da Graça Mota Fernandes; na revista, que liga de forma directa a acção cultural e a militância política, colaborarão estudantes, jovens, mas também os mais iluminados entre os professores, e valerá a pena citar pelo menos Delfim Santos, Lindley Cintra e David Mourão Ferreira. Entre os estudantes, lembremos, para além dos nossos, António Torrado, Luísa Ducla Soares, Maria Teresa Amado e Yvette K. Centeno. Gastão Cruz assume-se ali como o verdadeiro “teórico” do futuro “grupo” (aspas aqui inevitáveis), e A Crítica de Poesia, artigo saído no nº 1, será neste sentido, porventura, o seu exórdio como tal. Luiza Neto Jorge publicará no nº 2 um poema, em prosa, depois nunca mais re-editado, e, no nº 3, o Poema quase epitáfio, depois aproveitado para Terra Imóvel. E ainda na senda destas experiências, embora publicada apenas em '64, o mesmo ano de Terra Imóvel, surge a

33 Antologia de Poesia Universitária. Os poemas ali publicados referem-se ao ano académico '62-'63, e as mesmas datas fecham o volume Terra Imóvel. Ambos foram editados pela Portugália em '64, e surgem portanto num contexto análogo: a editora escolhe para essa colecção de poesia o eloquente nome de NOVOS. É todavia provável que a antologia (em que participam Alfredo Vieira da Luz, Almeida Faria, António Augusto Menano, António Manuel Lopes Dias, António Freire Torrado, Armando de Carvalho, Boaventura de Sousa, Eduardo do Prado Coelho, Fernando Vaz Garcia, Ferreira Guedes, Fiama Hasse Pais Brandão, Francisco Delgado, Gastão Cruz, João Columba, João Medina, João Rui de Sousa, J.M. Vieira da Luz, José Carlos de Vasconcelos, Luis Serrano, Luisa Ducla Soares, Luiza Neto Jorge, Manuel Alegre, Manuel Imar, Margarida Losa, Rui Namorado, Ruy Belo e Sérgio Cardoso)5, saia pouco antes do livro da Luiza. Dos 5 poemas que a autora publica na antologia, um já tinha saído no nº 3 de Grafia (Poema quase Epitáfio, publicado na citada antologia sem título) e, com As Bandeiras, Se não há a perder ou a ganhar e Sátrapa reaparecem em Terra Imóvel. O primeiro, Diálogo com um amigo, não será depois aproveitado. Desse conjunto, só o Poema quase Epitáfio é mantido no volume Os Sítios Sitiados (Plátano Editora, 1973), nova edição revista (com poemas acrescentados ou retirados) de toda a obra publicada até à data.

5 Respeitamos a forma dos nomes apresentada na publicação. É de resto extremamente fácil reconhecer

34 4. Tempo de Vanguarda A N D A A N D A O N D E A N D A O N D E A N D E O N D A O N D A O N D A O N D E A N D E A N D E [...]

(Abílio José Santos, Sem título, 1968)

Paralelamente às experiências intimamente ligadas ao ambiente académico e às suas inquietações, e por influência dos análogos movimentos internacionais (especialmente o alemão e o brasileiro, e, mais logo, o italiano), também em Portugal a instância vanguardista volta a afirmar-se, herdeira parcial da tradição europeia do começo do século XX, mas também da poética poundiana e das suas filiações (especialmente fecundas no Brasil), juntando o elemento lúdico-satírico (já surrealista), a um declarado amor pela intertextualidade (Fiama será um exemplo máximo neste sentido), aos filtros de re-leitura (re-leitura como glosa ou nova escrita: as vozes comunicantes de Helder) a uma ambição de “cultura poética” quase enciclopédica, e ao rigoroso trabalho da linguagem, verdadeiro leit-motiv da Poesia 61. Movimento, o nosso, que, entre muitas outras coisas, contribuiu para evitar uma certa deriva maneirista e excessivamente cerebral (ou então efémera) da própria Po.Ex., com que todavia partilhará espaços editoriais e físicos, revistas e desejos. Aliás, este clima proporciona uma nova atenção aos suportes, tanto da poesia e da escrita quanto da pintura e das artes gráficas, com uma exigência de ruptura de fronteiras que põe em causa fatalmente quer a ideia e a forma do objecto livro, e do livro como objecto, quer as modalidades da sua fabricação, divulgação e comercialização. Um facto extremamente importante, o do suporte, porque implica, especialmente se visto sob a perspectiva digital que começa a ser a nossa, questões de estética e também problemas relacionados com a memória, os documenta e os monumenta (ou ainda as ruínas) do declínio (diríamos mesmo crepúsculo) da nossa civilização ocidental, re-discutida não poucas vezes também graças ao contacto com aquele oriente (já nem mítico nem exótico, mas simplesmente alternativo) a que aludimos. Não nos é possível, nesta sede, desenvolver a questão

35 devidamente, mas pede-se ao leitor o esforço de “ouvir” como baixo-contínuo ou “ver” como pano de fundo as vozes e os gestos diversos, mas nos nossos convergentes, de um Camilo Pessanha, do modernismo, do dadaísmo, do surrealismo e do surrealismo dissidente português, de Ezra Pound, de Eliot, de Walter Benjamin (partindo de uma aura perdida a uma nova aura possível), do concretismo brasileiro, e ainda da arte povera ou mesmo do italiano Gruppo 63, sem esquecermos a recuperação de toda uma tradição que lhe podia ser afim, ao longo do tempo – no caso português, viva sobretudo na poesia visual barroca (PARMIGGIANI 2002, D'ORS 1977 e HATHERLY 1983). A Casimiro de Brito caberá a mais continuada viagem simbólica para oriente – e mesma de Luiza Neto Jorge e Paulo Rocha ao escreverem o texto objecto da presente dissertação – ; Fiama Hasse Pais Brandão será quem penetrou com mais assiduidade as teias do texto e das suas filiações (traduzindo e escrevendo, mas sempre poeta); finalmente, o rigor da busca da – e dentro da – própria linguagem em Gastão Cruz remete na verdade para experiências poéticas algo distantes do húmus que acabamos de evocar. Mas é certamente Luiza Neto Jorge a poeta de Poesia 61 que com mais equilíbrio se inscreve na tradição do surrealismo e de certo simbolismo, adoptando por vezes recursos próprios da poesia experimental, mas sempre com um enorme respeito pela palavra poética e sem cair nunca, como já dissemos, no jogo pelo jogo. A revista Hidra, na qual colabora, pode sem dúvida ser vista como a premissa e a pré-história do movimento de poesia experimental Po.Ex. – da importante base de dados on line sobre todo o movimento, coordenada por Rui Torres, damos referência na bibliografia.

Hidra surge em 1966 pelas mãos de Melo e Castro (que assina, conforme a tendência da altura, em minúsculas: e. m. melo e castro) e é editada no Porto (para outros dados ver mais adiante), mas foi pensada e composta já em '63; no primeiro número, em que Luiza Neto Jorge colabora, a relação texto imagem é declarada, embora sem a originalidade do grafismo que encontraremos nos cadernos Po.Ex. As colaborações, de per si, já nos remetem para um determinado clima: Manuel Baptista, Eurico Gonçalves, René Bertholo, António Areal (desenho); António Aragão, Gastão Cruz, Maria Alberta Meneres, João Rui de Sousa, Maria Teresa Horta, Luiza Neto Jorge, Salette Tavares, Ramos Rosa, Herberto Helder, Fiama Hasse Pais Brandão e Liberto Cruz, entre outros poetas. Destacam-se ainda as colaborações mais “laterais” de um Egito Gonçalves, de um Helder Macedo, de David Mourão-Ferreira, de Rui Mário Gonçalves. Luiza

36 participa com uma primeira versão, ainda sem título, do poema em prosa Difícil Poema de Amor, que será logo aproveitado para Terra Imóvel. Não nos deixemos enganar pelas datas: já vimos que a revista, publicada em '66, estava já composta em '63, e Terra Imóvel sai em '64. Data de 1966 a sua colaboração no nº 2 dos cadernos Po.Ex., com o poema já mencionado, que não foi aproveitado para nenhum livro sucessivo. Deste poema, escrito em '64, existe agora edição fac-similada, que integra a antologia da Po.Ex. organizada por Carlos Mendes de Sousa e Eunice Ribeiro (SOUSA-RIBEIRO 2004: pp. 134- 139). Por volta destas mesmas datas Luiza Neto Jorge colabora na revista Cronos – Cadernos de Literatura, editada entre 1965 e 1970 (com mudança de formato para o primeiro, e último, número da segunda série), e fundada por Fernando Luso Soares e Mário Dias Ramos, sucessivamente acompanhados por Eduardo Prado Coelho e Mendes de Carvalho (cf. PIRES 2000: p. 192-3). Colaboram na revista, entre outros, Gaspar Simões, Herberto Helder, Mourão-Ferreira, Virgílio Ferreira, Natália Correia, Melo e Castro, Ernesto Sampaio, José Saramago, João Rui de Sousa, Vitor Silva Tavares, Mário Cesariny. No número 4 da revista publica-se o poema O Sítio da Chávena, posteriormente integrado em O Seu a Seu Tempo, com o título Sítio Sorvido. De '69 a publicação no Jornal de Letras & Artes do poema O Amor e o Ócio, junto com os poemas Os Sítios Sitiados (logo integrado no volume Os Sítios Sitiados com o título Sítio em Vista) e SO-NETO JORGE, Luiza, que saem na revista & Etc. nº 2, em Janeiro de '73. O volume O Seu a Seu Tempo, editado pela Ulisseia em 1966, é datado porém de 1964, e Dezanove Recantos, ainda com o subtítulo de Epopeia Sumária, sai em 1969 na Iniciativas Editoriais, mas é datado Paris-Lisboa, 1965-1966. São esses dois livros, pela data de composição evidentemente relacionados com as experiências acima mencionadas, os que porventura melhor exemplificam o equilíbrio que Luiza soube encontrar, e como ninguém, entre recursos experimentais, rigor e busca da linguagem, construção do espaço da página com uma atenção especial à disposição e ao “desenho gráfico” (ou, diríamos mesmo, à caligrafia), entre outras coisas, sem perder de vista a sua poética pessoal. E é por isso que encerram oportunamente este parágrafo.

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5. Luiza só, e não só

Conheço toda a terra só de amar: sem nós e sem desvãos, um corpo liso. (Luiza Neto Jorge, SO-NETO JORGE, Luiza, em Os Sítios Sitiados)

É no fim dos anos '60, e na sequência do seu regresso a Portugal, que a adesão a uma certa estética de grupo se atenua, embora nunca se desfaça o laço estreito que a ligava e a reunia àquela geração que, muito embora não declarada, sem dúvida o foi, sendo aliás uma geração evidentemente fin de siècle, no sentido mais abrangente do rótulo, e que de resto se espelhava inteira no fim do século que a tinha precedido: A Ilha dos Amores é neste sentido o maior monumento português ao fim de século, e também a esse fim de século concebido como espaço do exílio interior. Laços, esses, que se entrelaçaram antes e durante a estadia em Paris, a distância ou aproveitando das tais “viagens a Paris, já se arranjaram algumas” (Cesariny), num clima que reunia tanto os autênticos exilados, quanto os chamados “asilados”, ou exilados voluntários, ou ainda os bolseiros da Fundação Gulbenkian: trata-se de uma história ainda por escrever, narração na qual talvez valha a pena pensar algum dia. E, entre muitos artistas plásticos, relembremos Júlio Pomar (e é com ele que se pensa num primeiro projecto de colaboração “para livro-objecto”), José Escada (autor de um célebre retrato dela, e para o qual escreverá o belíssimo poema Fractura, na sequência da sua morte), Lurdes Castro, René Bertholo6, e obviamente Jorge Martins, com o qual acabaria por realizar três livros- objectos. Cada um destes livros tem uma especial importância pelos seus aspectos específicos e pelas problemáticas que levanta no âmbito próprio da história do livro e do seu estatuto, a partir do facto de esses serem considerados livros de artista, e portanto não terem depósito legal7: O Ciclópico Acto, livro-objecto com Jorge Martins, editado

6 Em 2012 esteve patente na Fundação Szenes-Vieira da Silva uma exposição intitulada “Os Amigos de

Paris, e dedicada a Lurdes Castro, René Bertholo, José Escada e Jorge Martins. O casal Szenes-Vieira da Silva será certamente um pólo de atracção fundamental para os mais novos. Luiza Neto Jorge traduzir- lhes-á para português o livro-entrevista O Fulgor da Luz.

7 Não se trata dos únicos casos no seio da produção de Luiza Neto Jorge: a primeira edição das traduções

de Verlaine (Poemas Malditos) também sai numa colecção de luxo em In-4º, O Oiro do Dia, Porto, 1981, com 12 desenhos eróticos de José Rodrigues, com tiragem especial de 50 exemplares fora do mercado

38 pela Galeria 111 em 1972; três poemas manuscritos acompanhados por três serigrafias de Jorge Martins, editados pela Galeria Altamira em 1985, na colecção Poetas e Pintores Portugueses, vol. 1, IIª série8; e 11 Poemas de Silves – com 11 desenhos de Jorge Martins – edição privada e policopiada, de 1986). É esta a parte que talvez mais nos interesse da história editorial que precede a publicação de Os Sítios Sitiados – volume, supervisionado pela autora, que sai com o intuito de reunir os livros anteriores e os dispersos, e de operar uma considerável poda – e de A Lume – livro autónomo e póstumo, mas supervisionado pela autora e organizado por Manuel João Gomes respeitando as suas últimas intenções, que reune os poemas dispersos, e publicados depois de Os Sítios Sitiados, e alguns poemas inéditos. Mais interessantes, dizíamos, porque são testemunha da continuação de uma linha que, provindo da estética “pobre” mas graficamente cuidada (de necessidade, virtude...) das colecções editadas pela “Cácima” e dos fascículos de Poesia 61, e passando por sucessivas edições sempre cuidadas mas mais vulgares quanto ao seu aspecto material, ou ainda pelas experiências da poesia experimental, leva à concepção destes três livros objectos, fruto do seu constante diálogo com as artes (pintura, música, cinema, teatro). Aspecto que se relaciona também com o seu gosto pelo bric-à-brak, pela colecção do inútil, do objecto sem valor comercial – mas só pessoal: das imagens sagradas, aos “cromos”, aos postais, à banda desenhada – ou ainda pelos brinquedos mecânicos e pelos livros infantis e interactivos/tridimensionais. Assim ela própria o explica:

É assim uma espécie de recuperação do que não tem valor, ou melhor, do que só tem valor sentimental, só tem valor para mim. Do ingénuo, da cópia, ou da citação se quiser, do que é brincar, e para brincar: também é

assinados pelo editor. Só mais tarde surgirão a também invulgar edição da & Etc. (1983) e a sucessiva da Assírio & Alvim. O mesmo se diga do volume Discurso para os grandes dias de um jovem chamado Pablo Picasso de Louis Aragon e outros poemas de Pablo Neruda e de Rafael Alberti, trad. de Luiza Neto Jorge e José Bento e desenhos de José Rodrigues, sempre para O Oiro do Dia. Como uma simples pesquisa no catálogo porbase (Base Nacional de Dados Bibliográficos) pode provar, é quase impossível localizar estes volumes em bibliotecas de referência. A Biblioteca de Arte da Fundação Gulbenkian possui O Ciclópico Acto e os 3 poemas. Os alfarrabistas poderão ajudar a encontrar exemplares dos Poemas Malditos. Discurso para os grandes dias... ainda se encontra na Municipal do Porto e na Nacional de Lisboa. Os 11 Poemas de Silves, só falando com amigos...

8 Da mesma colecção: António Palolo / João Miguel Fernandes Jorge (1 Iª sér.); Emília Nadal, Pedro Tamen

(2 Iª sér.); José de Guimarães / Vasco da Graça Moura; (3 Iª sér.); António Botelho / David Mourão-Ferreira (4 Iª sér.). O livro de Luiza Neto Jorge e Jorge Martins viria a ser o primeiro de uma segunda série, sobre cuja continuidade não encontrámos informações.

39 uma escrita à sua maneira. Cobrir estas paredes todas a pouco e pouco, jogar

com as coisas, com as pequeninas coisas, combiná-las, dar-lhes vida. No fundo é o sótão como tópico literário, o lugar de refúgio e de evasão, a viagem, agora que viajo tão pouco, é a infância, a memória das coisas, o maravilhoso, tudo isso. (ROQUE s/d)

uma verdadeira poética do objecto, ou da “criação originária” que o pode re- codificar, dando-lhe assim nova vida e salvando-o do esquecimento, em luta paradoxal e terna contra a desmaterialização e consequente desumanização (para além de alguma simpatia eventual com a mecanização que na mesma época se dava nas artes) a que a sociedade nos condena. Afirmações, em suma, não apenas bonitas, mas que nos remetem para uma série de questões que poderemos analisar só de passagem. Vejamos dois textos teóricos de Antonio Porta e Ana Hatherly que podem vir ao encontro do nosso discurso:

È utile precisare che si vuole, appunto, definire le immagini dell’uomo o degli uomini, delle cose e dei fatti che operano all’esterno e all’interno dell’esistenza.

In questo senso si è interpretata la poetica degli oggetti, la poesia in re, non ante rem. Gli oggetti e gli eventi, rilevati e composti in un unicum ritmico, riescono a calarci nella realtà. […] Direttamente alla poetica degli oggetti si riallaccia il problema del vero e della verità, in simbiosi con la ricerca delle immagini […]. (PORTA 2003)

A nossa escrita de hoje, mesmo a produzida electronicamente, continua a ser uma forma de aprisionar a voz – é uma escrita da voz – mas o desenho-pintura-de-signos que a escrita fisicamente é, revela e transmite todo um mundo que excede o da fala, uma vez que os elementos que a constituem são formas, formas-objectos, e não apenas representações inertes de coisas, ideias, sensações, etc.

40 Quando a velha arte da escrita, tendo-se lentamente libertado das

peias da função de puro registo de factos ou coisas, e sacralizando os seus símbolos desenvolveu a consciência do seu carácter artístico, abriram-se as portas para as mais diversas formas de representação. (…) (HATHERLY 2004, p. 98)

Estamos, em suma, perante uma nova re-apropiação do objecto capaz de transformar-se num realismo essencial e não “histórico” que nos liga novamente ao mistério da opaca pegada que somos, de alguma coisa que não existe mas que se supõe. Que a cópia, o ingénuo, a citação, o lúdico e a infância sejam os elementos invocados por Luiza Neto Jorge, não é de estranhar. Este facto, quando é colocado, mesmo nessa forma humilde e isenta de pretensões com que ela no-lo apresenta, no apropriado contexto estético em que surge, desencadeia uma série de questões acerca do livro como objecto, do suporte, da relação quase amorosa com este suporte (e da bibliofilia quase patológica da Luiza é escusado falarmos), e por sua vez da relação deste objecto com as pessoas e os lugares que toca e o tocam, testemunha, em suma, não só pelo que diz, mas em si, do sublime e da pequenez da(s) vida(s). Relação de amor que o teórico de A Obra de arte na época da sua possibilidade de reprodução Técnica, até certo ponto quase contradizendo a sua própria teoria, descrevia assim, falando dos seus livros, num texto que nos parece tentar devolver uma nova aura possível aos objectos (a nova sacralidade proposta por Ana Hatherly):

A época, a região, a manufactura, o proprietário anterior - tudo isto se transforma para o verdadeiro coleccionador, em cada uma das suas peças, numa enciclopédia mágica cuja quinta-essência é o destino do seu objecto […] Habent sua fata libelli […] O coleccionador, porém, interpreta diferentemente esta máxima latina. Para ele, não são os livros, mas os exemplares, que têm um destino. [itálico meu] (BENJAMIN: 2004, p. 209)

Acrescentemos-lhe ainda a prática da colagem e do bricolage e a recuperação e recolha do inútil, como vimos, de uma espécie de lixo que é a versão menor do

41 “rovinismo”: ou seja de uma estética, de ascendência tanto barroca quanto romântica, de contemplação sublime das ruínas, quer na senda da tradição, quer na de T. S. Eliot. Estética que certamente vinha do surrealismo e do dada, mas que nesses anos podemos relacionar também com a chamada arte povera, com o fim de se inscrever justamente nesse novo re-alismo, à letra, i.e. : uma amorosa intimidade com os objectos.

Excessivo excursus, provavelmente, mas quanto a nós necessário para definir os contornos das obras de que falamos, e cujos aspectos salientes são, em síntese: 1. a homenagem ao livro infantil, tridimensional e interactivo, no Ciclópico Acto, sem nunca ceder ao mero jogo, mas antes construindo possibilidades de relações não lineares (nem meramente bidimensionais) entre os textos e o trabalho gráfico e plástico de Jorge

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