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A cidade é um turbilhão, mas é todavia um corpo que possui órgãos classificados e um contorno. Desse corpo podemos compreender o caráter, a natureza, a estrutura. O exame de uma cidade entra no contexto dos trabalhos científicos, pois a massa é suficientemente coerente para permitir determinar-lhe o princípio (Le Corbusier, 2000:

64).

De forma geral, a idealização de Le Corbusier da cidade

contemporânea constitui uma síntese das idéias de uma corrente de pensamento que se formou na Europa, desde a abordagem dos problemas urbanos, oriundos da Revolução Industrial. Essa corrente, tida como “Progressista”, por alguns autores, teve em Le Corbusier e Walter Gropius os seus principais expoentes (Choay, 1979).

Ambos buscavam soluções para os problemas sociais, econômicos, higiênicos e do congestionamento das cidades, ao mesmo tempo em que questionavam a capacidade das estruturas urbanas tradicionais de absorverem, plenamente, as possibilidades oferecidas pelas técnicas modernas. Para

Corbusier e Gropius, a cidade e as suas arquiteturas eram incapazes de assegurar as promessas do mundo moderno. Elas precisavam se submeter a profundas cirurgias conceituais, cujo eixo central do pensamento e da

intervenção apoiava-se no racionalismo. O caráter revolucionário, adotado por essa corrente, conferia à arquitetura e ao urbanismo uma dimensão ética, a

partir da qual esses aspectos assumiam o papel de instrumentos para a transformação da sociedade industrial.

A ocupação regional, proposta por Corbusier, é concebida por três tipos distintos de aglomeração, cujas atividades complementavam as

necessidades da sociedade: a unidade de exploração agrícola, o centro linear

industrial e o centro radioconcêntrico de trocas37. Assistidas por particulares

redes de infra-estrutura, essas aglomerações são interligadas por sistemas regionais de transporte férreo, aéreo, terrestre e fluvial (Le Corbusier, 1979). Relativo ao centro radioconcêntrico de trocas, esse foi idealizado por

Corbusier, na década de 20 do século passado, sob o nome de “Cidade Contemporânea para Três Milhões de Habitantes”, e apresentado no salão de Outono de Paris em 1922. As suas formulações urbanas são reapresentadas, sob o título de “Ville Radieuse”, na mesma ocasião em que Gropius apresentou os seus postulados do edifício em altura, a fim de serem considerados na cidade industrial – 3.º CIAM. Apesar de não aprofundar cientificamente as questões de natureza urbana e arquitetônica, como o fez Walter Gropius, Le Corbusier acreditava no caráter científico do urbanismo moderno. Na verdade, a ciência era a grande aliada, tanto dos avanços tecnológicos, promovidos pela indústria; quanto do próprio movimento moderno.

Ao estabelecer, como pressupostos urbanos, a salubridade, a alta densidade populacional, a área verde, a velocidade nos meios de transporte e o descongestionamento do centro, Corbusier definiu a cidade, setorizada em áreas de habitação, trabalho e lazer, com artérias hierarquizadas, destinadas apenas ao deslocamento, cujos edifícios em altura estavam assentados numa imensa área verde. As grandes distâncias entre edifícios, a adoção do edifício sobre pilotis e as vias de deslocamento determinaram uma nova relação do edifício com o espaço público. A rua deixa de ser o espaço de contato entre as pessoas, para onde algumas atividades de comércio e de serviços estavam voltadas, e o local de atividades humanas – passeio, conversa, encontro, a qual os edifícios contribuíam para estabelecer. Na cidade corbusiana, os pontos de

37 Os centros de trocas eram destinadas às atividades de pensamento, comando e artesanato (Le

contato do edifício com a cidade ocorrem no parque e nos diversos níveis de garagem, interligados à rede de transporte.

Relativo à questão da arquitetura, Corbusier creditou o instrumento de unidade urbana à uniformização da técnica construtiva , tal como acontecia na cidade colonial. A uniformização da construção e a industrialização

promoveriam uma diminuição no custo da obra, favorecendo à construção de várias unidades, ao invés da dispendiosa construção do imóvel isolado. Devido a problemas de rompimento da escala homem / edifício e da salubridade, Corbusier lança outro tipo de ocupação no solo urbano: ao invés de dispor as torres ao longo da “rua corredor”, característica da cidade tradicional,

resultando em um congestionamento ainda maior do seu espaço, ele propõe a solução em torres sobre pilotis, isoladas do terreno e espalhadas no solo, destinado ao parque público da cidade moderna (Figura 2.2). Destas formulações, Corbusier concebe edifícios como complexos urbanos auto- suficientes, a partir da concentração de atividades de comércio, serviço, lazer e

habitação, na sua estrutura38. Neste sentido,

(...) a revolução arquitetônica, com a intervenção do vidro, do aço e do concreto armado, permitiu as soluções necessárias. O uso secular: fundações maciças, paredes portantes espessas, aberturas de janelas limitadas, solo inteiramente atravancado, cobertura impossível de ser utilizada, necessidade de repetir divisões idênticas em todos os andares, é substituída por uma nova técnica: fundações concentradas, supressão das paredes portantes, possibilidade de dispor de toda a fachada para a iluminação, solo livre entre os delgados pilotis, cobertura constituindo um novo solo para uso dos moradores (Le Corbusier, 1979: 28).

A revolução da técnica arquitetônica, anunciada por Corbusier, para atender às requisições da sociedade moderna, determinou a criação dos cinco princípios da arquitetura moderna: o edifício sobre pilotis, a planta livre, a fachada livre, a longa janela corrediça horizontal e o jardim de cobertura.

Dentre estes princípios, dois determinam uma nova relação entre o edifício e espaço urbano: o edifício sobre pilotis, que proporciona uma separação física entre o solo verde e as áreas internas do edifício; e o terraço jardim, na coberta do edifício, que confere uma área de lazer distante da rua.

Figura 2.2

Esquema que compara o edifício tradicional, com grossas paredes portantes, e o edifício proposto, para a cidade moderna, por Le Corbusier, com: pilotis, planta livre, fachada livre, longas janelas horizontais e teto

jardim.

Fonte: (Le Corbusier, 1979: 29).

As inovações tecnológicas permitiriam a concepção e a construção da torre isolada, atendendo às solicitações de salubridade. Com as fachadas mais abertas, em função da técnica do concreto e do vidro, e o recuo dos edifícios vizinhos ficavam asseguradas eficientemente a circulação do ar e a penetração de luz natural, em grande parte dos ambientes do edifício. Além disso, a solução em altura garantia à cidade uma alta densidade populacional, com baixa taxa de ocupação do solo, proporcionando uma maior superfície

destinada à área verde e uma suposta otimização da sua rede de infra-estrutura. Porém, a otimização se daria, de fato, caso a cidade não fosse setorizada, pois a setorização proposta determina uma alta taxa de ociosidade da rede de infra- estrutura, instalada em áreas da cidade ao longo do dia.

Assim como Gropius, Corbusier relaciona a questão da densidade com a altura do edifício. A área central da sua cidade é adensada com edifícios altos. À medida que se afasta do centro, em direção à periferia, a

38 As unidade habitacionais, concebidas por Corbusier, como a de Marselha, são estruturas

verticais urbanas, com residências, área destinada ao lazer e pavimento de comércio, buscando sua auto-suficiência.

densidade e altura dos edifícios diminuem. A cidade, concebida por Corbusier, ilustra a argumentação de Gropius, ao adotar a altura dos edifícios, densidade, área construída e distância entre edifícios e solo natural, como os elementos principais de desenho urbano.

Dessa forma, a cidade, proposta por Le Corbusier, distribuía-se em diversos setores de atividades específicas, em edifícios de grande altura (até 60 pavimentos), assentados sobre um imenso parque verde, destinado ao lazer, ao ócio, e à prática de esportes e educação. Também pensado por Gropius, de modo a readquirir o terreno perdido, com a implantação do edifício no solo, o teto jardim é incorporado na cidade de Corbusier como espaço de lazer, áreas para cafés, restaurantes, etc. (Le Corbusier, 2000).

Estes princípios urbanos, desenvolvidos por Le Corbusier e Walter Gropius, passaram a fazer parte do ideal de cidade do século XX, a partir de novembro de 1933, quando, no 4.º Congresso Internacional de

Arquitetura Moderna (CIAM)39, foi formulada a Carta de Atenas.

3.1.3. Carta de Atenas: a difusão do urbanismo moderno