A tecnologia da internet no Brasil é anterior à década de 2000, mas a popularização e democratização do acesso apenas foram alcançadas nessa década. Isso deve-se muito à disseminação de estabelecimentos chamados Lan House, que cobravam a utilização de
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computadores conectados à internet por fração de hora utilizada. Borges explica a evolução desse negócio no Brasil:
"Em 1998, as lan houses chegaram ao Brasil. O avanço da internet e o desejo por estar conectado motivaram o aumento das lan houses nos centros urbanos. Diante do crescimento da penetração do computador pessoal, internet domiciliar e oferta da rede wi- fi por centros comerciais de fluxo como shoppings, lanchonetes, etc., as lan houses deixaram de ser um negócio lucrativo e foram desaparecendo das zonas centrais. Mas mesmo frente às políticas privadas e públicas para promover a maior cobertura do acesso junto à população da periferia, é nessas áreas que as lan houses encontram mais que sobrevida comercial: reconfiguram seu negócio e se tornam novos espaços de encontros, lazer e práticas de sociabilidade. Como demonstram Carla Barros (2009), Olívia Carvalho (2008), Daniel Miller e Don Slater (2004) e Martín-Barbero (2008) as lan houses são espaços que promovem sociabilidade on-line e off-line, característica não somente de São Paulo mas também de outros centros urbanos como Rio de Janeiro ou cidades menores como em Trinidade, mas com características de exclusão digital domiciliar" (2013, p.19).
Foi por meio dessas Lan Houses que muitos brasileiros mantiveram contactos com amigos e parentes que eram imigrantes em Portugal. Existem estudos que demonstram como as redes promotoras da imigração brasileira foram nesse período trocando o suporte da carta para o e-mail e depois a utilização de programas que possibilitavam conversas instantâneas entre os utilizadores localizados no Brasil e em Portugal. A condição de Portugal inserido na a União Europeia muitas vezes significou estar na frente das mudanças tecnológicas em relação ao Brasil. Em função disso, para muitos imigrantes brasileiros havia a sensação de melhor qualidade de vida em Portugal.
"A migração de longa distância provoca grandes transformações para os sujeitos que vivenciam essa experiência. Porém, em vez de pensá-la apenas como um fator que provoca o rompimento de laços, procurei complexificar a análise demonstrando que também possibilita novos arranjos familiares e de gênero. Portanto, a família migrante não pode ser vista apenas como aquela cujos laços são desfeitos no contexto de migração, mas como aquela que tem suas relações reconstruídas em um contexto no qual também se redefinem as relações de gênero, construindo um campo complexo de relações entre os dois lugares que aponta para a com configuração de laços transnacionais que conectam em diferentes contextos o estar aqui e estar lá" (Assis, 2007, p.10).
As famílias imigrantes conseguem manter os laços familiares das mais diversas formas: para combater a ausência física do imigrante brasileiro que está trabalhando em Portugal, utilizam-se várias estratégias. Os meios de comunicação foram sempre utilizados e acompanharam os desenvolvimentos tecnológicos, primeiro as cartas, depois o telefone, mensagens de telemóvel e, finalmente, a internet e os seus variados programas que possibilitaram desde a troca de e-mails, ao contacto ao vivo por vídeo.
141 A autora Gleiciani Fernandes em As boas mães brasileiras em Portugal: (re)formulando pertenças, (re)construindo identidades (Silva, 2015) utiliza como fonte a rede social Orkut68 que permitia a formação de grupos de discussão entre os usuários sobre os mais variados temas. Foi por meio desses grupos que a autora estudou as construções de identidades de imigrantes brasileiros. Essas negociações se davam tanto entre os imigrantes que estavam em Portugal, como entre os imigrantes e seus familiares que estavam no Brasil. Além disso existem outras importantes formas de estabelecer laços entre os imigrantes em Portugal e sua família que ficou no Brasil.
Igor Machado e Fábio Stabelini abordam detalhadamente como as remessas dos imigrantes criam essa relação entre os dois contextos. Mas indo além da questão propriamente escrita relacionada com dinheiro, os autores abordam a relação física que alguns objetos de tecnologia acabam ganhando no contexto familiar migrante quando há filhos envolvidos. De acordo com uma pesquisa de campo realizada, os autores apresentam a seguinte tese:
"A maior incidência de presentes é de produtos de alta tecnologia despachados directamente do exterior, principalmente celulares, videogames e outros produtos de tecnologia ainda não lançados no Brasil, ou de difícil acesso, tratando-se de populações de baixos rendimentos. O videogame do modelo PlayStation foi enviado para o Brasil por um entrevistado que ficou três anos em Portugal. A figura reflecte bem o que procuramos sobre os produtos enviados à família e comprados com o dinheiro que é ganho durante o projecto de emigração. O primeiro facto que nos chamou a atenção foi a cor do produto, que não era comercializado no Brasil dessa forma, o que já sugere uma diferenciação entre os objectos. Ainda, a bandeira de Portugal é evidenciada através de um adesivo colado na parte superior do aparelho. No adesivo aparece a inscrição: «Se amas, vota.» Toda ilustração nos sugere que o objecto não foi enviado para o Brasil somente como um presente para a família. Além disso, reafirma os laços entre o ente que não é mais observado como presença física no âmbito familiar, mas sim por esse tipo de ligação: enviando presentes à família que sugiram uma continuidade dos laços afectivos e ainda dêem conta de aproximar a família que permanece no Brasil com a sociedade para a qual o pai emigrou" (Machado e Stabelini, 2011, p.142).
Além da bem abordada questão da presença física desses bens no campo das construções familiares das famílias migrantes, existe outra questão muito relevante no que diz respeito aos objetos enviados do exterior. Eles representam a realização e concretização do projeto migrante no quesito financeiro, pois permitem materializar esses bens de consumo, ou até mesmo duráveis, como carros, motos ou casas adquiridas com o dinheiro das remessas realizadas pelos imigrantes. A vizinhança vai identificar esses bens como a prova da vitória
68 Rede social criada pela empresa Google e que existiu durante os anos de 2004 até 2014. Os brasileiros foram
os principais usuários desta rede. Em 2008 a administração do site passou para a Google Brasil devido à grande utilização do Orkut no país, alcançando mais de 50% dos usuários (Teixeira, 2013).
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do processo migratório e muitas vezes isso vai despertar e alimentar o desejo de outros brasileiros tentarem realizar a imigração como forma de superar a sua condição financeira limitada. Os presentes, as remessas de dinheiro e a internet vão alimentar as redes sociais migratórias, influenciando desse modo esse movimento transnacional.
Neste texto buscámos ressaltar como a tecnologia influenciava o dia a dia dessas famílias, pois, o aprimoramento tecnológico permitiu, o envio de fotos e até mesmo transmissões em tempo real, por meio de programas como o MSN ou o SKYPE. A internet, as remessas e os presentes enviados ou trazidos pelos próprios imigrantes eram constantes e condicionantes do cotidiano nas famílias que ficavam no Brasil. Essas questões ganhavam, uma importância que não tinham paras as famílias não envolvidas nesse contexto transnacional. As novas ferramentas tecnológicas foram difundidas entre os imigrantes e garantiram um novo tipo de comunicação entre os dois lados das famílias, entre os que ficaram no Brasil e os imigrantes em Portugal.