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A fala de Elizama Cardozo187 sugere que para esses produtores e as pessoas envolvidas na produção de filmes de Ponto o processo de criação e produção dos filmes tem um papel a desempenhar, eles têm uma função. Quando questionados sobre se a aplicação desse recurso possuía uma função social tivemos diferentes reações a primeira resposta reconhece um esforço pedagógico de inclusão de indivíduos desprovidos de ferramentas tecnológicas. Sobre esse aspecto Teotônio Roque explica que
Só você colocar uma câmera na mão de um menino e dizer que ele vai ser protagonista de uma história seja ela uma produção de ficção ou documental, isso já uma função educativa, pedagógica, inclusiva, de autoestima isso é bem imaterial [...] O produto final que é o filme ele vai ser muito importante e valioso para a história da comunidade do estado e do município, então é um recurso (público) muito bem aplicado (Grupo Focal, 16 e Fevereiro de 2012. Disponível no Anexo 2).
A motivação por trás da pergunta aberta sobre qual seria a função social dos filmes dos Pontos de Cultura, entretanto, é questionada por Teotônio Roque que afirma:
Quando é um filme (como) E Aí, Comeu188? Um filme que tá aí aparecendo, que fala sobre comer uma mulher sobre sexo e sobre não sei o que, é dinheiro público (o filme foi realizado usando os mecanismos da Lei Rouanet189.) e alguém já perguntou pra eles se o filme tem uma função social? Se perguntar ao diretor ele pode dizer que tem, mas ninguém vai perguntar isso pra ele (Grupo Focal, 16 e Fevereiro de 2012. Disponível no Anexo 2).
padrão de qualidade técnico. Fonte: DOCTV4_regulamentoRJ.pdf. Disponível em:
<http://tvbrasil.org.br/doctv/download/DOCTV4_regulamentoRJ.pdf>. Acesso em: 29 abr. 2013. polegada.
187 P. 105 188
E aí comeu?(2012) Dirigido por Felipe Joffily E aí... comeu? Disponível em: <http://www.eaicomeu.com.br/>. Acesso em: 23 abr. 2013.
189
Lei Rouanet é o principal mecanismo para a capitação de recursos federal. Trata-se de uma lei que permite que empresas e pessoas físicas doem um percentual (até 5%) do seu imposto devido e o apliquem em projetos culturais. Lei Rouanet - Portal Brasil. Disponível em: <http://www.brasil.gov.br/sobre/cultura/Regulamentacao-e-incentivo/lei-rouanet>. Acesso em: 7 abr. 2013.
Carlos Tourinho compreende que esses filmes dos Pontos são caracterizados pelo seu engajamento cultural e que por isso devem receber apoio do Ministério, quando os filmes da indústria cinematográfica (E Aí, Comeu?2012) devem solicitar apoio do Ministério da Indústria e Comércio.
A opinião desses atores reforça a tese de que os filmes dos Pontos de Cultura foram e tem sido importantes – tanto para os atores que participam dessa produção e quanto para a sociedade – não tanto pelo produto final, o qual, como dissemos, não encontra ainda o seu lugar no campo cinematográfico mas, fundamentalmente, pelo processo em que são criados.
Ao assistir esses pequenos filmes (produtos, ou bens) não é óbvio para o público o número vasto de elementos estão envolvidos na sua realização. O mesmo certamente ocorre com os filmes ditos comerciais, como os longa metragens que são exibidos nas salas de cinema. Eles também são fruto de uma delicada e complicada relação de agentes e instituições e também de tomadas de posição dentro de um campo.
O caso dos filmes de Ponto é diferenciado porque eles não estão – por inúmeras razões entre as quais a própria novidade dessas ações que não se estabeleceram de maneira completa – inseridos completamente dentro de um campo. Todavia, mais do que os produtos, o processo que levou a sua criação foi influenciado por forças sociais importantes e também por uma transitória mudança na ordem social nacional, o período que compreendeu a Era Lula. Como processo, ainda de acordo com os agentes desse campo, ele se apoia em duas ações principais: a educação e a melhor distribuição dos meios de produção.
A educação e a posse do meio de produção são dois dos elementos chave para a cultura. De certa forma, tudo o que foi discutido até aqui gira em torno desses dois processos. Fundamentalmente porque a educação e posse dos meios de produção são a base para obtenção do poder simbólico. Existem, nas relações sociais e no campo da cultura, especificamente, forças opostas que lutam pelo domínio desse campo. Essas lutas podem ser implícitas ou explicitas. Usualmente a forma de organização da sociedade moderna intensificada pela natureza do sistema capitalista torna essas disputas mais veladas. Ou seja, implícitas, imbricadas num sistema complexo de significações que protege nas estruturas específicas de cada campo a sua origem na simples exploração da maioria por uma minoria, e da subsequente desvalorização endêmica da pessoa comum – através de formas (o cinema, por exemplo) e organizações formais (o cinema) que excluem
as pessoas não apenas da posição igualitária que todos os seres humanos merecem diante das leis, mas também da construção da sua própria imagem, e da sua idiossincrática forma de ver.
No primeiro capítulo citamos a passagem em que Coutinho diz que A Cultura é um campo em que há disputas pelo poder e pela hegemonia, pois é na cultura que os grupos expressam as suas posições a ordem dominante. Desde um artigo em um jornal até a publicação em um artigo em uma revista acadêmica, a leitura de m determinado autor: todos podem ser posicionamentos culturais, mais ou menos conscientes. Essa tomada de posição e o eventual embate entre posicionamentos diferentes, entretanto, deve ser entendido sim como uma disputa de poder dentro do campo, e também na sociedade no sentido amplo. Para Bourdieu (1989, p. 07), todavia, esse poder
Num estado do campo em que se vê o poder por toda a parte, como em outros tempos não se queria reconhecê-lo nas situações em que ele entrava pelos olhos de dentro, não é inútil lembrar que - sem nunca fazer dele, numa outra maneira de dissolvê-lo, uma espécie de "circulo cujo centro está em toda a parte e em parte alguma" - é necessário saber descobri-lo onde ele se deixa ver menos, onde ele é mais completamente ignorado, portanto, reconhecido: o poder simbólico é, com efeito, esse poder invisível o qual só pode ser exercício com a cumplicidade daqueles que não querem saber que lhe estão sujeitos ou mesmo que o exercem.
Embora pareça, em certos momentos, equivocadamente determinista, a teoria de Bourdieu acerca do campo da cultura sugere que além de explícitas em relações materiais economicamente organizadas, as relações culturais também se dão em um nível simbólico. Por essa razão, as formas de opressão e exclusão são menos claras, mais difusas e difíceis de traduzir em dados quantitativos – através dos quais a Ciência, e a Sociologia como parte dela, procura oferecer soluções para os problemas.
A dificuldade persiste na análise da cultura porque ela é entendida pelo senso comum, muitas vezes, como uma coisa dada. Como algo imutável dentro do qual se nasce e cresce sem a devida compreensão de que desde a canção de ninar até os filmes no cinema, toda a atuação cultural do ser humano é permeada por forças sobre as quais pode não haver nem controle racional – especialmente se a racionalidade, no sentido de razão ocidental ela mesma, pode ser entendida como uma construção cultural – nem material.
A Imagem da Pessoa Comum: sobre os filmes dos Pontos de Cultura é uma tentativa, então, de mostrar como, na construção de pequenos filmes feitos em Pontos de
Cultura essas relações estão intricadas e estão latentes. Neles, a imagem da pessoa comum denota a possibilidade de compreensão dessas relações simbólicas: e através da compreensão pode-se, talvez, criar uma maior consciência dessas forças simbólicas e através delas passar a disputar mais espaço dentro das relações sociais.
A imagem em si é extremamente carregada de simbolismos, como vimos. É por isso que o cinema, a televisão e outros meios de reprodução audiovisual são constantemente questionados. A famosa frase que diz que “uma imagem vale mais do que mil palavras” não captura, por assim dizer, o fato de que a compreensão imediata da imagem pode camuflar não apenas as relações sociais correntes no momento específico do toque no botão de gravar, mas relações, históricas, econômicas e até mesmo psicológicas, cuja descrição apenas seria muito mais longas do que essas mil palavras.