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RESEARCH AND KNOWLEDGE

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RESEARCH AND KNOWLEDGE

A questão não é mais como representar o outro, mas como colaborar com o outro em um espaço comum. O objetivo, raramente alcançado, é garantir a participação efetiva do “outro” em todas as fases da produção (SHOHAT; STAN, 2006, p. 69).

A princípio essa pesquisa destinou-se a analisar os filmes dos Pontos de Cultura da cidade de Natal, no Rio Grande do Norte e seus possíveis desdobramentos, com a ênfase na comparação entre os filmes feitos nos Pontos e aqueles filmes comerciais. Porém à medida que os filmes foram vistos e as pessoas foram entrevistadas percebemos a inevitabilidade de lidar com os filmes de Ponto sob a ótica da sociologia e da importância desses filmes diante da sociedade como um todo. Ou seja, abandona-se a análise de “estudo do filme” em detrimento de uma mais aproximada a uma sociologia da cultura.

Por isso, ao fim desse trabalho, é necessário reconhecer este como o maior desafio de todo o projeto: encontrar uma abordagem que não compreendesse o filme apenas em comparação com outro filme, ou a partir da análise técnico-estética. Porque fundamentalmente, não se trata de ver o filme de maneira ilustrativa. O filme dos Pontos, e essa é posição defendida aqui, não é exemplo de uma luta social. Ele é, em si mesmo, um produto de luta social.

Segundo Keller (2001, p. 47) a abordagem materialista da cultura do Círculo de Birmingham190 (do qual Raymond Williams é um dos principais expoentes) vê as relações na cultura e suas trocas simbólicas por seu impacto na realidade social. Nesta pesquisa, está presente a tentativa de interpretar a criação dos filmes e consequentemente da imagem da pessoa comum, por meio dos filmes dos Pontos de Cultura.

O que importa não é quão desorganizados e quão curtos os movimentos foram ou serão, importa que mesmo em pequenas ações é possível influenciar as condições materiais da sociedade ou de determinado grupo social. Nesse sentido, são nos pequenos processos que lentamente podem vir a causar as fissuras e é nelas que não só o desejo, mas sim as próprias mudanças podem acontecer dentro da cultura.

190

“Os estudos culturais britânicos surgiram nos anos 1960 como um projeto de abordagem da cultura a partir de perspectivas críticas e multidisciplinares que foi instituído na Inglaterra pelo Birmingham Centre for Contemporary Cultural Studies e outros.” (KELLER, Douglas. A Cultura da Mídia. Edusp: Bauru,2001. P.47)

Isso esclarece, portanto, o principio fundamental que orientou toda A imagem da Pessoa Comum: sobre os filmes dos Pontos de Cultura de Natal/RN. Especificamente porque não houve uma centralização da análise no produto cultural foi possível investigar o processo de produção e as relações estabelecidas durante esse processo, sejam elas relações com a anterioridade desse processo – no caso da cultura herdada – e consequentemente com as forças sociais, econômicas, políticas e culturais já existentes.

A Teoria dos Campos de Pierre Bourdieu (2007) surge, então, como o aporte ideal para essa discussão. De acordo com a sua teoria, o campo cultural é dividido entre campo erudito e campo da indústria cultural. Havia, portanto, uma facilidade de localizar a produção de filmes nessa teoria. Historicamente a produção de filmes havia se dividido em dois tipos maiores de produção (embora outros existam, fora do eixo América do norte - Europa) a produção hegemônica e industrial estadunidense representada pela alcunha de Hollywood e os movimentos de rejeição a essa forma dominante de fazer filmes, que o fizeram a partir da determinação em perceber o filme como obra de arte.

Por isso, essa ferramenta teórica tornou possível perceber a produção de filmes a partir do que aventurou-se chamar de um campo cinematográfico. De fato, boa parte dos conceitos discutidos especialmente no segundo e terceiro capítulo (habitus, regras do campo, instâncias de consagração etc.) advém da análise feita por esse autor do funcionamento da cultura, suas regras e restrições. Para ele a participação no campo e o grau de legitimidade no campo são elementos chave para entender seu funcionamento, e são tão importantes quanto instituições e instâncias consagradoras. Essas são, por vezes, muito mais identificadas como cultura do que, em ocasiões, os agentes ou mesmo as regras de funcionamento de um campo cultural, que sem sua teoria talvez não recebessem a atenção que lhes é devida.

Essa teoria de campo pode ser erroneamente interpretada como determinista uma vez que diante da dinâmica do campo, e o cinema é o nosso exemplo disso, as possibilidades de mudança parecem ser diminutas, pois existem em atividade forças estabelecidas diante das quais uma pessoa comum pode não ter forças para se opor, ou para mudar. O sistema de campos, assim, parece rarefeito e esotérico.

Entretanto, nessa pesquisa os campos servem para que seja possível entender exatamente isso, as limitações e condições postas do próprio campo e da cultura como um todo. É inevitável que a afirmação de Benjamim (1996, p.1983) “cada pessoa, hoje em dia, pode reivindicar o direito de ser filmado” de um século atrás, encontre, mais de cem anos

depois mais dificuldades e impossibilidades do que quando o mesmo a compôs. Ou seja, perceber a cultura em um complexo de relações e deixar claro, que relações são essas, pode também mostrar que ferramentas que podem ser usadas para empoderar grupos e agentes que desejem uma posição igualitária na sociedade.

Todavia, como postulado, a imagem da pessoa comum representa o processo de alteração no papel do agente cultural das camadas mais populares, das massas, do povo. Uma mudança na atitude da pessoa comum em relação a sua participação na produção de filmes. Longe de fazer uma análise lógica de que todas as pessoas são pessoas comuns num certo sentido, deseja-se compreender que a criação de imagem de uma pessoa comum, sobre uma pessoa comum, significa principalmente, a apropriação da ferramenta de produtiva, que pode levar, como de fato o fez, a criação de filmes.

A ideia foi investigar com um grupo expropriado historicamente das ferramentas de trabalho, ou seja, aqueles que não proprietários: os trabalhadores – o povo. Essas são as pessoas comuns que não são, segundo Williams (2007)devidamente representadas nos filmes. Talvez eles não sejam devidamente representados, supõe-se, não apenas porque os artistas se recusem a mostrar a sua realidade – citamos alguns exemplos do uso da imagem da pessoa comum em filmes comerciais – mas porque, não são eles mesmos que produzem os filmes com o olhar deles sobre eles mesmos, de dentro pra fora.

A continuidade dessa experiência, todavia, está ameaçada pela fragilidade em que o movimento dos Pontos de Cultura se encontra com o fim do apoio econômico Estatal há a preocupação de que esses grupos da sociedade civil que foi beneficiada pela criação do Programa Cultura Viva, se enfraqueçam novamente, e deixem de produzir filmes. Não é possível saber se isso resultará na queda de produções de filmes ou no desaparecimento deles.

A especulação mais positiva é a que compreende que mesmo diante da falta de recursos esses filmes serão feitos. A partir de uma “estética do desespero”. É possível que para certos agentes as mudanças possam ser relevantes o suficiente para que esses se tornem produtores independentes. Ao mesmo tempo em que há uma preocupação que o rótulo “filme de Ponto” seja abandonado e que a imagem da pessoa comum seja mais e mais adotada pelo cinema comercial. Entre todos os cenários possíveis uma coisa é certa: os filmes dos pontos de cultura terão sido relevantes, simplesmente por terem existido.

Uma das supostas qualidades da pesquisa científica, e core de toda a filosofia é a pretensão de universalidade. Para a ciência a universalidade é necessária para a reutilização

dos métodos em outros, seja qual for o fenômeno há uma teoria estabelecida para analisá- lo. Para a filosofia, como ponto de origem de todas as ciências – tanto naturais quanto humanas – o mesmo se passa. Uma teoria só é validade se for absoluta, e aplicável a todos os casos.

Ao longo dessa dissertação buscou-se demonstrar uma série argumentos que para mostrar que a imagem da pessoa comum caracterizava os filmes produzidos nos Pontos de Cultura e porque ela deveria ser considerada como fenômeno relevante para a sociedade brasileira, aqui representada pela sociedade de Natal - RN.

Como resultado dessa pesquisa, todavia, não oferecemos uma teoria universal e nem tampouco acabada. O objetivo principal da pesquisa foi, portanto alcançado uma vez que o fenômeno dos filmes dos Pontos de Cultura pode ser compreendido em relação ao campo cinematográfico estabelecido e a ação governamental.

Porém, não foram desenvolvidos padrões universais, para prover uma análise completa e universal de todos os filmes feitos nos Pontos de Cultura em todo o país. A análise de três desses filmes, mostra sim, uma pesquisa orientada pela contingência dos fenômenos cultuais, pela sua fluidez e pelo seu movimento cíclico e nem por isso menos válida.

No decorrer da pesquisa, todavia, mesmo a partir de sua estruturação surgiram outras questões que levaram a hipóteses distintas. A hipótese de que os Pontos de Cultura são parte da sociedade civil e que são importantes para a história do país foi comprovada uma vez que eles foram os aportes da apropriação das ferramentas para produzir filmes pelas pessoas comuns.

Em relação à utilização da teoria dos campos de Pierre Bourdieu (2007, 2008) para analisar os filmes dos Pontos de Cultura pode-se dizer que ela também foi comprovada. Entretanto, esse aparato teórico necessitou de outros auxiliares, uma vez que apenas a teoria dos campos, não pode abarcar completamente o fenômeno e por isso mesmo, a teoria materialista de Raymond Williams (1979, 2005, 2007) e a Indústria Cultural de Adorno eHorkheimer (1997) se tornaram tão relevantes foram também decisivas para o resultado aqui apresentado.

A hipótese de que os filmes dos Pontos de Cultura podem ser compreendidos em relação a um campo cinematográfico também pode ser comprovada a partir do discurso dos membros dos Pontos que participaram do Grupo Focal.

Foi dito que “há uma superação por parte das pessoas as pessoas comuns que alcançar emancipação política por intermédio da criação e produção da própria imagem” e essa hipótese não pode ser completamente confirmada, uma vez que embora tenha se ensaiado uma “emancipação” da pessoa comum por meio da apropriação das ferramentas de produção, esse movimento emancipatório não se consolidou, por hora, ao menos. Não há uma nova organização social ou uma nova forma de criação fílmica que tenha surgido dos Pontos de Cultura e tenha se cristalizado na sociedade, embora nada impeça que isso venha a acontecer no futuro.

Os dados empíricos encontravam-se, inicialmente, nos próprios filmes dos Pontos de Cultura, naqueles que foram oferecidos pelos seus próprios criadores, e que foram vistos e discutidos aqui nessas páginas. Por maior que fosse a ênfase na comunicação em rede e na “facilidade” da comunicação via internet durante os anos em que o Programa Cultura Viva ver perdurando, em um primeiro momento esse tipo de comunicação representou, de fato, um entreve para a pesquisa. Durante meses (de setembro de 2012 a fevereiro de 2013) tentou-se obter informações gerais e específicas sobre os filmes feitos no Rio Grande do Norte, com quase nenhuma resultado.

Durante o debate algumas das proposições teóricas foram confirmadas, especialmente, em relação a quem eram as pessoas que efetivamente haviam participado na realização desses filmes, as pessoas comuns. Inevitavelmente o debate adquiriu um alto teor político porque, para os participantes, era impossível falar do produto, dos filmes, sem falar do momento em que eles haviam sido feitos e nas condições que levaram a essa produção, o que validou a ideia de abordar os filmes dos Pontos a partir do prisma do materialismo cultural.

Por outro lado, as fortes relações estabelecidas pelos próprios “pontistas” (dissemos daqueles que fazem parte dos Pontos de Cultura) entre os filmes produzidos por eles e aqueles produzidos dentro do campo cinematográfico, confirmou a proposição de que mesmo sendo um fenômeno localizado fora da esfera do campo cinematográfico, ele possuía relações fundamentais com aquele campo e essas relações mostraram-se determinantes para compreensão global de que, mesmo em pequena escala, a presença da imagem da pessoa comum representa sim, uma ação orientada dos agentes culturais que percebiam a imagem em movimento apenas do ponto de vista da recepção e nunca da criação. Esse deslocamento, como foi dito e mostrado, representa sim uma emancipação cultural e porque não dizer social da pessoa comum.

Em síntese, A imagem da pessoa comum: sobre os filmes dos Pontos de Cultura mostrou que: a) há uma produção de filmes de pontos de cultura; b) essa produção se distingue por estar centrada na imagem da pessoa comum; c) Essa produção de filmes é relevante porque nela está implícita a apropriação das ferramentas de produção; d) Mostra que a associação da sociedade civil com o Estado pode gerar uma produção cultural relevante.

Se há dúvidas sobre a sobrevivência do Programa Cultura Viva, que nesse momento sofre com a por falta de investimentos, existe também uma esperança de que as forças criadas e provocadas pelo programa o superem e se tornem independentes dele. O movimento dos Pontos de Cultura configurou um novo ativismo cultural no país que, com alguma sorte, não desaparecerá quando (e se) o programa governamental for extinto. O brasileiro sempre criou, sempre realizou, mesmo quando lhe faltavam as condições mínimas de subsistência.

O Programa Cultura Viva serviu apenas para desvelar essa força que já estava latente e não apenas na produção de filmes. Se pudermos compreender alguma coisa da complexidade da organização cultural é que nada acontece “independentemente” ou surge “do nada”: grupos se organizam e fortalecem, por ideias e ideais e também pela importância e relevância de seus trabalhos, que marcam a história das cidades, dos bairros e especialmente das pessoas.

Uma experiência que pode não gerar tantos frutos, mas que de alguma forma modifica que fizeram parte delas. Ainda que esses sejam levadas por essa experiência a produções relacionadas. Nesse sentido, esperamos que essa dissertação seja útil para validar os filmes dos Pontos ou para apoiar a inserção da imagem comum como protagonista da produção fílmica, ainda que seja no meio acadêmico. Esperamos criar uma teoria relacionada ao fenômeno, para que ambos sigam provocando um ao outro, e que com os dois possamos construir na realidade, o que é apenas o sonho de um país em que todos são iguais e ao mesmo tempo diferentes.

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