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Tours, Mame et Fils, Paris, Dentu, 1872

coisa para ser Ellis Grey.” (1:1)

Além de demonstrar extrema admiração por Ellis Grey, Cristina apresenta diversos traços de personalidade semelhantes ao da personagem que a inspira como, por exemplo, a competitividade, as habilidades como cirurgiã e a sensibilidade menos expressiva. Desde o primeiro contato, percebe-se uma extrema conexão e identificação mútua entre elas:

Ellis: Você e Meredith são boas amigas, dá pra perceber. Porque você está com muito medo de olhar para mim, como se eu pudesse perguntar algo pessoal sobre ela e você acidentalmente deixasse escapar. Mas você não faz nada acidentalmente, né? Meredith já escolheu uma especialização?

Cristina: Essa é uma pergunta pessoal?

Ellis: Para cirurgiões, a pergunta mais pessoal que você pode fazer. Diz quem você é.

Cristina: Minha mãe perguntaria se tenho um namorado. Ellis: Sua mãe parece uma mulher frívola.

Cristina: Se eu escolhesse cardiologia, o que isso diria sobre mim?

Ellis: Os cirurgiões cardiotorácicos são os sabe-tudo. Eles são os mais ambiciosos, os mais motivados. Eles querem tudo e querem agora. E não querem nada que possa atrapalhar o caminho deles. (3:14)221

Em contraposição a postura agressiva que tivera com Meredith, Ellis elogia habilidades profissionais de Cristina “Você é boa. Muito precisa sob pressão. Será uma cirurgiã excelente.” (3:14)222 Desse modo, tem-se a sensação de que Yang é a filha que Ellis gostaria de ter tido.

Apesar de admirar a mãe de sua amiga, Cristina, assim como Meredith, não se dá bem com a própria mãe. Quando Helen aparece para “cuidar” da filha logo após uma cirurgia emergencial,223 o diálogo entre elas explicita as diferenças de personalidade. Enquanto Cristina

quer voltar ao trabalho o mais rápido possível, sua mãe diz que “há mais coisas na vida além de cirurgia e carreira” (2:4). O clima conflituoso faz com que a personagem não queira ficar

220 Frase dita por Meredith ao falar com Helen, mãe de Cristina. (2:4).

221 “Ellis: You and Meredith are good friends. I can tell. Because you're afraid to look at me. As if I might ask you

some personal question about her and you'll accidentally slip. But you don't do anything accidentally, do you? Has Meredith chosen a specialty? / Cristina: That's a personal question? / Ellis: For surgeons, the most personal question you can ask. It tells you who they are. / Cristina: My mother would wanna know whether I had a boyfriend. / Ellis: You're mother sounds like a frivolous woman. / Cristina: If I chose cardio-thoracic's, what would that say about me? / Ellis: Heart surgeons are the know-it-alls. They're the most ambitious, the most driven. They want it all and they want it now. And they don't want anything getting in their way.” (3:14)

222 “Ellis: You're good. Sharp under pressure. You'll make an extraordinary surgeon” (3:14) 223 Por conta de uma gravidez ectópica, Cristina precisa realizar uma cirurgia as pressas.

confinada no mesmo ambiente que própria mãe. Aproximando-se, assim, da mesma sensação de Meredith, que fugira de Ellis todas as vezes que possível.

Imagem 45: Relação conflituosa entre Helen (mãe) e Cristina (filha) | Direitos reservados à emissora ABC.

Helen: Estou redecorando a sala com seda bege. Estou pensando... estilo moderno. Anos 50. E a sala de jantar...

Cristina: Mãe, devolve meus dedos.

Helen: Ok. Vou mudar de assunto. Quem é o pai? Cristina: Você disse anos 50?

Helen: Alguém que trabalha aqui, certo? Foi só por sexo? Você foi tão enfática sobre não criar vínculos.

Cristina: 20 minutos. Tudo que eu quero são 20 minutos de paz e silêncio. Helen: A filha que eu criei apreciaria a ajuda da mãe.

Cristina: A filha que você criou está implorando pra você ir embora. Agora! Helen: Eu não devia ter vindo aqui. Você sabe que sou muito ocupada. Cristina: Sim, eu sei. Redecorando sua casa. Bom, você pode me trazer um

mocha latte, por favor?

Helen: Sem gordura?

Cristina: Não. Com gordura! (2:4)224

224 “Helen: I'm redoing the living room in beige silks, I'm thinking. And modern. Very mid-century. And the dining

room... / Cristina (interrupts): Mother, give me back my toes. / Helen: Okay. I change the subject. Who's the father? / Cristina: Mid-century did you say? / Helen: Someone you work with, right? Was it just for sex? You made such a point of not forming attachments. / Cristina: 20 minutes. Just give ... All I want is 20 minutes of peace and quiet. / Helen: The daughter I raised would appreciate her mother's help. / Cristina: The daughter you raised is begging for you to go. Now! / Helen: I didn't have to come here. You know I'm very busy. / Cristina: Yeah, I know. I know. Redecorating your house. Well, can you get me a mocha latte, please? / Helen: A non-fat one. / Cristina: No. A fat one!” (2:4)

Embora Meredith quisesse falar sobre seus relacionamentos com Ellis, e que, aparentemente, Helen seja a personagem interessada nesse aspecto, mesmo que se invertessem as mães de Meredith e de Cristina, a caracterização de Helen ainda não a apresentaria como uma figura materna idealizada. Nesta cena, por exemplo, enquanto Helen passa esmalte nas unhas do pé de Cristina, explicita-se que suas preocupações estão relacionadas a questões estéticas e de aparência, visto que além de falar sobre decoração, o final do diálogo sugere que ela também se preocupa com o peso da filha.

Assim, o comportamento de Helen representa o medo de que, caso estivesse fora dos padrões estéticos e de feminilidade e, por ser mulher de carreira, Cristina terminasse sozinha. Deste modo, o comportamento de Yang representa uma atitude feminista contra as mães que tentam implantar a noção de ‘feminino’ imposta pelo patriarcado nas mulheres (Kaplan, 1983a).225 Helen só demonstrará orgulho em relação a filha ao vê-la vestida de noiva, prestes a

se casar.226 Como aparentemente é a primeira vez que a personagem recebe um elogio da mãe,

ela esboça uma reação de surpresa, porém feliz. No entanto, a alegria inicial se esvai quando a mãe conclui o raciocínio, dizendo: “Pensei que fosse atrofiada emocionalmente para se envolver com alguém” (3:25).

Nota-se, portanto, uma quebra de expectativas mútua nas relações entre mães e filhas. Do ponto de vista das filhas, é como se elas não conseguissem ver as mães como mulheres que possuem uma vida própria que vai além de se dedicarem integralmente a agradar as filhas (CHODOROW; CONTRATTO, 1989).227 Como Ellis e Helen não se dedicam a Meredith e

Cristina do modo desejado por elas, as filhas as criticam.

Além disso, Grey e Yang desconsideram o contexto da segunda onda do feminismo, que, provavelmente, foi um dos fatores que propiciou a existência dessas duas mães com visões de mundo totalmente opostas. Enquanto Ellis optou por se focar na carreira, Helen permaneceu idealizando a vida afetiva, como se esses elementos fossem mutuamente excludentes.

225 “[...] was in part a reaction against our mothers, who had tried to inculcate the patriarchal ‘feminine’ in us”

(Kaplan, 1983a, p.172).

226 Como fora discutido no item 1.2, Cristina não se casa com Burke.

227 “[…] known only in her capacity as mother. Growing up means learning that [the mother], like other people in

one's life, has and wants a life of her own, and that loving her means recognizing her subjectivity and appreciating her separateness. But people have trouble doing this and continue, condoned and supported by the ideology about mothers they subsequently learn, to experience mothers solely as people who did or did not live up to their child's expectations.” (CHODOROW; CONTRATTO, 1989, p.90).

A tentativa em conciliar ambas as esferas da vida, uma característica feminista da terceira onda,228 se dará através do desenvolvimento do arco-narrativo de Meredith, que, ao sair

da posição de filha, permitirá que – assim como em Riddles of the Sphinx – a história seja narrada do ponto de vista de uma personagem que é mãe. Sendo antes a primeira a condenar a postura de diversas mães, Meredith passará a ser a parte julgada quanto à sua capacidade de conciliar ambos os setores de vida. Somente a partir da mudança de lugar de Grey nesta díade, o espectador terá acesso a uma visão menos maniqueísta, nem por isso menos dialética, sobre a maternidade.

2.3 GESTAÇÕES INDESEJADAS, ABORTO ESPONTÂNEO E NOVAS