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La tortue et le concombre de mer

Dans le document LA CONSERVATION DE LA BIODIVERSITÉ (Page 64-70)

A ação centra-se num homem que leva o filho ao centro comercial na época festiva. A amálgama humana é tanta que só depois de sair se apercebe que não é a sua criança que leva pela mão. Confuso e sem vontade de passar por complicações, decide fingir que aquele é o original. Também a mulher, ao vê-lo, resolve fingir que está tudo bem, para poder continuar a assistir à sua telenovela. O rapaz não reclama, adapta-se ao novo lar e o pai, que inicialmente ainda assume alguns problemas de consciência, acaba por afeiçoar-se ao jovem, que é muito mais calmo e bem-educado que o seu. Passam as festas e, numa ida ao cinema, em que voltam a encontrar-se muitas crianças da mesma idade, são os próprios meninos que desfazem a troca. Como seu filho tem mais defeitos que o outro, o homem dá por si a ter saudades da troca e a fazer passeios com o rapaz em locais onde eventualmente poderá encontrar o outro.

A moralidade do conto é evidente, já que transmite uma mensagem para a sociedade atual: vive-se num alheamento problemático, em que as relações são artificiais e não conhecemos os nossos próprios filhos. Trata-se de uma mordaz sátira à sociedade e à família contemporâneas. Por essa razão, a ação é fechada, com um desfecho de certa forma circular, pois restabelece-se o equilíbrio acidentalmente quebrado. Mas, ao revisitar os mesmos lugares com o filho, o protagonista demonstra que o equilíbrio é apenas aparente. No fundo, deseja um novo desequilíbrio, o que prefigura uma clara fuga aos cânones.

Desta forma, as personagens cingem-se ao homem, aos filhos (o original e o trocado) e à esposa. O primeiro é claustrofóbico, uma vez que que não gosta de multidões e se mostra distraído (trocou o próprio filho), cobarde, preguiçoso e mesmo dissimulado pela forma como entra em casa. Nota-se uma falsa naturalidade nessa fase inicial, bem como uma aparente crise de consciência, com dificuldades em dormir. A determinada altura, chega a por em causa e troca, por causa de aparente normalidade em casa e, depois de desfeito o erro, tenta continuamente trocar o filho verdadeiro, evidenciando falta de caráter e de apego à criança. O filho trocado é dócil, tranquilo, quase alheado. Dorme bem, sem acordar nem perturbar. A adaptação ao novo lar é muito boa, chega a ser mais obediente e educado que o original. Sobre o filho verdadeiro sabemos que tem 4 anos, tem uma pequena participação inicial (1º parágrafo) e depois no final do conto e é apresentado pelo narrador com imensos defeitos: fazia xixi na cama, perturbava de noite, tinha dificuldade em comer, era caprichoso e malcriado. Já a esposa é igualmente dissimulada, distraída, despreocupada pela sorte do filho, tanto quando desaparece como quando volta a aparecer.

É igualmente evidente a centralidade do homem, bem como o seu estatuto de personagem redonda (Reis 2002: 323), devido aos momentos de questionamento. O filho

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verdadeiro tem um momento de aparente evolução, pois quando regressa a casa deixa de ser incomodativo por uns dias, embora logo de seguida vá regredir e voltar a ser mimado e fiteiro. Por sua vez, a mãe é dissimulada e distraída até ao fim, representa uma classe, está ao serviço de uma crítica social. Também o filho trocado é obediente do início ao fim, por oposição ao filho verdadeiro. Trata-se, pois, de duas personagens planas. O tipo de caracterização, como vimos, é sobretudo psicológico em todas as personagens; já o modo é direto nas crianças e indireto nos pais, pois temos acesso aos seus defeitos através dos seus atos e pensamentos.

Como acontece nos contos anteriormente analisados, aqui também se verifica um sincretismo actancial, em que a figura do pai resume em si quase todas as funções necessárias à dinâmica da narrativa.

Destinador: Pai

Objeto:

Viver na indiferença; não ter grandes preocupações

Destinatário: Toda a família

Adjuvante:

Falso filho, esposa

Sujeito: Pai

Oponente: Filho verdadeiro

No que respeita às coordenadas espácio-temporais, estamos na época de Natal, o que é evidenciado na referência à carta para os Reis Magos. Trata-se de um momento atual, mas sem uma referência concreta. Existe a noção do tempo que passa mas com poucas referências concretas. Encontramo-nos numa qualquer cidade espanhola contemporânea. Deparamo-nos com um centro comercial e um cinema, sempre lugares de multidões, em contraste com a casa, calma e tranquila. Não há referências que permitam situar-nos, porque se trata de espaços sociais, que funcionam como símbolos, possibilitando inúmeras reflexões. Resta-nos analisar o narrador, nitidamente heterodiegético, objetivo e omnisciente (Reis, 2002), pois, limita-se a transmitir informação, os factos tal como acontecem, sem tomar partido. Contudo, em determinados momentos, assume uma focalização interna, tornando-se subjetivo ao apresentar o ponto de vista do homem.

Passando agora aos aspetos de análise semiótica, notamos que a ida aos armazéns com o filho e a troca das crianças é a prova qualificadora. A decisiva é o fingimento e convivência com o rapaz trocado e, por fim, a glorificadora liga-se à ida ao cinema e à descoberta do filho verdadeiro. Estes momentos são ampliados pela visão globalizante de Ana Cristina Macário Lopes (Lopes 1987), que considera que a situação inicial é a ida ao centro comercial, com a

entrega da carta aos Reis Magos. A perturbação prende-se com o mau estar no meio da multidão, sentimento de claustrofobia que leva à troca das crianças. Passando à transformação, notamos a sua presença no fingimento de que tudo está certo, por parte dos três elementos e na vida mais ou menos normal que levam durante um período. A resolução, é claramente a ida ao cinema, com a consequente nova troca e o regresso do filho verdadeiro. O estado final não é, por isso, de equilíbrio recuperado, porque o protagonista tenta reencontrar a criança trocada, prefere esta ao filho verdadeiro.

A título de síntese, verificamos que este texto reúne temáticas interessantes para abordar em sala de aula, a começar pela fragilidade das relações humanas na atualidade, passando pelos elementos da família, ou mesmo, aspetos culturais relacionados com as festividades natalícias. E, embora se trate de uma composição bastante peculiar, não podemos deixar de notar que reúne os momentos narrativos essenciais ao estudo semiótico, cumprindo de certa forma alguns dos cânones previstos para o relato contista.

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