Um homem maduro reflete sobre as diferentes formas de ver a sexualidade, apresentando o seu próprio exemplo. Este é o argumento do conto de Francisco Escobar Bravo. Dada a extensão reduzida da sintagmática, o narrador não entra em muitos detalhes sobre a história, vai apenas aos factos que interessam para defender a sua tese. Mostra que, nos anos sessenta, as coisas eram menos vistosas, mais discretas, mas que, ao contrário do que os jovens atuais pensam, não deixavam de acontecer. Explica, então, a traços largos, como perdeu a inocência, com uma desconhecida que não voltou a ver. Nesta narração não existe um verdadeiro desfecho, nota-se qua a vida continuou. Considera-se que estamos perante um episódio de uma história mais longa que ainda decorre. Como se trata de uma narrativa cujo
desenlace é aberto (Reis 2002: 97-99), logicamente, não se verifica nem a circularidade nem o equilíbrio final ou estado de paz modificado presente nos contos tradicionais.
Ainda assim, as características formais e temáticas não afastam muito este texto do cânone. Se olharmos para as personagens, notamos que existem em número reduzido, limitando-se ao narrador, protagonista, aos seus dois amigos, à ilustre desconhecida, bem como à mãe e a avó do narrador, quase figurantes neste enredo da vida. A descrição, tanto física como psicológica é parca, sabe-se que o narrador, agora homem maduro, recorda a juventude, recuando até aos seus anos de adolescência, numa fase em que tinha pressa de crescer e não gostava da proteção exagerada da sua mãe e da sua avó. Dos amigos, pouco sabemos, apenas o que, à luz da memória, nos diz o narrador: Juanito morreu jovem, vítima de cancro e com Pepito perdeu todo o contacto na atualidade. Os dois amigos são responsáveis pela ida do narrador ao chalé abandonado, ou seja, acabam, indiretamente, por intervir no acontecimento que motiva esta reflexão. Quanto à desconhecida, não sabemos nada a seu respeito, nem o nome, apenas que teve um papel importante no desenvolvimento sexual do jovem. Quase tudo o que apreendemos das personagens chega a nós pelas suas ações, com uma caracterização direta reduzida ao mínimo essencial. Verifica-se, pois, um sincretismo actancial, em que as personagens assumem funções variadas dentro da narrativa, como é visível no quadro que apresentamos de seguida.
Destinador: Narrador, amigos Objeto: Crescimento, Amadurecimento Destinatário: narrador Adjuvante: Amigos, desconhecida Sujeito: Narrador Oponente: Mãe e avó
Já no que respeita às coordenadas espaciais e temporais, rompem-se os cânones do conto tradicional, uma vez que tanto o espaço físico como o tempo cronológico estão bem demarcados. De facto “corría la primavera de 1960” (Bravo s/d 1) quando se deram os eventos que o narrador pretende eternizar. A passagem do dia está bem vincada, bem como a evolução / crescimento das crianças, com as repetidas idas ao chalé. A expressão “una tarde…” (Bravo s/d: 1) demarca-se no texto, assume que aconteceu algo fora do normal, mais importante, mais marcante. Existe uma oposição entre o passado e o presente, de tal modo que
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pode falar-se de tempo psicológico, de um regresso ao passado para recordar um momento feliz e transmitir uma moralidade. E o mesmo acontece com o espaço, desde o principio se aponta para lugares da cidade madrilena, desde as “puertas del Calasancio…” às “calles hoy llamadas Conde de Penálver y General Diáz Porlier”(Bravo s/d 1). O chalé pode ser ao mesmo tempo um espaço físico e social, dado que aí se encontravam os jovens nos anos sessenta. Além de que tudo não passa de um espaço psicológico, preso dentro da memória de um velho, quase cinco décadas depois.
Ao longo desta deambulação pelo texto, já fomos falando do narrador, autodiegético e subjetivo, que transmite o seu ponto de vista acerca de acontecimentos passados, numa focalização totalmente interna, pelos olhos de um jovem de treze anos e, em paralelo, de um adulto, homem maduro que é na atualidade. O objetivo do autor seria, decerto, mostrar aos jovens atuais, que normalmente sentem necessidade de bater de frente com os mais velhos, que os confrontos geracionais sempre existiram, que os mais novos sempre tiveram vontade de afirmar-se perante o mundo, que a sexualidade é um ato natural na nossa vida, não sendo necessário torná-lo algo complicado ou demasiado publicitado, como acontece hoje em dia.
A título de curiosidade, e tendo em conta as ressalvas que fomos fazendo ao longo da análise (já que este conto foge aos cânones) deixamos abaixo os aspetos semióticos que resumem toda a dinâmica narrativa. As provas de Courtès podem resumir-se ao seguinte (Courtès 1979): a qualificadora prende-se com conseguir permissão da mãe para brincar na rua; a decisiva foi a ida ao chalé com os amigos naquela tarde e a glorificadora tem a ver com a perda da inocência e comparação entre passado e presente.
Já quanto aos momentos da ação (Lopes 1987), podemos verificar que na situação inicial, o protagonista mostra-se inocente, com vontade de ser considerado “crescido” pela mãe e pela avó. A perturbação chega com a permissão da mãe para ir de vez em quando brincar na rua, a que se segue a transformação, ligada às idas ao chalé com os amigos. Num desses encontros é abordado por uma jovem desconhecida, que o introduz nos prazeres “da carne”, dando-lhe a sua primeira experiência sexual. É a resolução. Já o estado final mostra- nos que, depois de muitos anos, o narrador recorda o momento em que “cresceu”, comparando a forma de agir e pensar dos anos 60 e da atualidade.
Para terminar, resta-nos apontar que se trataria de um excelente texto para iniciar estas temáticas em sala de aula, já que estão presentes nos programas de espanhol, sobretudo a nível do ensino secundário. E apresentar-se-iam de forma interessante, sem tabus.