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4. Profil des maisons d'édition

4.1 Titres au catalogue et production annuelle

` Em seus escritos autobiográficos, Nietzsche buscou efetivar sua auto- afirmação em relação à vida e à filosofia. Eles revelam, em última instância, a luta por mais potência, como uma vontade que supera as demais, inseridos em um contexto de afirmação da totalidade da existência, da vida. É a auto-afirmação que permite o aumento da vontade de potência, realizado numa situação de combate instintual, como foi apresentado no tópico anterior. Entretanto, Nietzsche, ao defrontar-se com sua enfermidade, encontrou-se numa situação paradoxal, na medida em que descobriu algo que o pôde conduzir, à primeira vista, a um estado de degeneração, de incapacidade física e psíquica e, posteriormente, a uma condição precária e irremediável de saúde que poderia se tornar um risco à sua missão enquanto filósofo. Em Ecce Homo, não se pode desvincular o escrito autobiográfico dessa

constante preocupação, numa dinâmica de auto-afirmação e de vinculação a um estado de vida ascendente. Assim, a doença é vista não como um princípio de degeneração e de destruição da vida, mas como o motor, a mola propulsora para uma vida em ascensão, voltada para o aumento da vontade de potência.

Para Nietzsche, a ânsia da vontade de potência, inserida naquele contexto de embate agonístico com os outros, em vista da auto-afirmação, sugere sempre um processo de não-identificação, libertando-se de qualquer amarra que assinale uma ausência de si (Selbstlosigkeit) ou que não favoreça o cultivo do amor-próprio (Selbstsucht). Por isso, em seu processo de auto-afirmação, ele preferiu a doença e outras adversidades a confundir-se com o conjunto letárgico no qual estava inserido.

Naquela época, meu instinto decidiu-se inflexível pelo fim daquele ceder, seguir, confundir-se com os outros. Qualquer espécie de vida, as condições mais desfavoráveis, doença, pobreza – tudo me pareceu preferível àquela indigna “falta de si”, na qual havia caído por ignorância, por juventude, e na qual havia depois permanecido por letargia, pelo chamado “sentimento do dever”.68

Nesse processo de libertação e de ascensão até a si, Nietzsche descobriu, na doença, um importante instrumento. Para ele, ela era oriunda de sua hereditariedade paterna, porém, mais ainda de sua suposta ancestralidade polaca que inferia uma determinação no conjunto devido à dinâmica do instinto, ocasionando que sua enfermidade fosse, ao mesmo tempo, uma cura69. Trata-se da cura de um desvio de si proporcionado por sua “vocação” na Basiléia que o afastava da própria vida e do aumento de potência. “O que em mim então se decidiu não era uma ruptura com Wagner – eu percebi um total desvio de meu instinto, do qual um desacerto particular, fosse ele com Wagner ou a cátedra da Basiléia, era apenas um

68 NIETZSCHE, Ecce Homo ; Humano, demasiado humano, 1995 ; 2005, § 4, p.75.

69 Como a determinação do conjunto de saber-poder reduzia Nietzsche a uma condição degenerativa e

patológica, ele buscou no atavismo polaco uma resposta que já sugere uma afirmação de si e de sua vontade de potência, invertendo a lógica patologizante do discurso externo.

sinal. Uma impaciência comigo mesmo me tomou; vi que era hora de refletir, retornar a mim”.70

Assim, Nietzsche fez da sua doença um caminho até a sua própria si- mesmidade, num processo de libertação e de ascensão, na medida em que esta o afastara da possibilidade de uma vida medíocre nos círculos românticos wagnerianos e na cátedra da Universidade da Basiléia. Do conformismo àquilo que o discurso médico tinha instaurado e da modéstia que sua vida profissional implicava, ele parte rumo a si mesmo pelas vias da enfermidade. A herança paterna transformou-se em ajuda:

Nisto me veio em ajuda, de uma maneira que não posso admirar o bastante, e precisamente no tempo certo, aquela má herança por parte de meu pai – no fundo uma predestinação a uma morte temporã. A doença libertou-me

lentamente: poupou-me qualquer ruptura, qualquer passo violento e

chocante. Não perdi então nenhuma benevolência, ganhei muito mais. A doença deu-me igualmente o direito a uma completa inversão de meus hábitos; ela permitiu, ela me ordenou esquecer; ela me presenteou com a

obrigação à quietude, ao ócio, ao esperar e ser paciente... Mas isto significa

pensar!71

Desse modo, a doença permitiu a Nietzsche romper de maneira não chocante com os círculos que o aprisionavam, que infligiam a ele uma conformidade, impossibilitando- o do cultivo de si e do aumento de sua vontade de potência. Obviamente, isso não foi fácil, tendo em vista a dificuldade imposta pelo isolamento e pela solidão. Trata-se de um processo vagaroso, no qual a doença faz emergir a suspeita em relação a tudo que o cercava, considerando a realidade ao seu redor como enfastiante e degenerativa de si.

Nesse sentido, através do cultivo de si e do aumento de sua vontade de potência, Nietzsche transgrediu um discurso dominante e inverteu suas regras fazendo-as voltar contra os próprios mecanismos de poder que ocasionavam sua dominação. Assim, Nietzsche deu uma nova interpretação àquilo que o conjunto de saberes-poderes tinha como instrumento de redução. Daquilo que o poder discursivo lhe imputava como patológico ele

70 NIETZSCHE, Ecce Homo ; Humano, demasiado humano, 1995 ; 2005, § 3. p. 74. 71 Idem, § 4. p. 75.

estabeleceu um caminho para se auto-afirmar e o trilhou rumo a sua si-mesmidade. Por isso, ele rompeu com esse discurso e o desconcertou, na medida em que, por meio de suas taxações, questionou o saber dominante a partir de sua filosofia.

No final desse processo, ao invés de submeter-se a um diagnóstico estabelecido por uma autoridade científica, Nietzsche submeteu o saber médico a si, alterando-o de modo que tudo em sua condição e em sua história, inclusive sua doença e sua hereditariedade, aparecesse como sintoma ou como parte de uma vida ascendente. Ele colocou a si mesmo no centro desse saber, ocupando o espaço que antes pertencia à norma. Assim constituiu uma dimensão de sua experiência enquanto sujeito que, mesmo engajada em jogos de verdade, deslocava-se, ao menos parcialmente, das determinações dos dispositivos disciplinares e da maquinaria bio- regulamentadora, uma dimensão cuja individualidade escapava ao esquadrinhamento destes complexos de saber-poder. Mesmo no interior do discurso médico e utilizando-se de suas regras, Nietzsche deslocou e subverteu diversos de seus procedimentos. Converteu-o em um contra- poder.72

Nietzsche inverteu a noção tática que o instinto tinha no poder regulamentador. O instinto era considerado como algo patológico, fruto de forças involuntárias e perigosas, responsável por condutas indesejáveis, consideradas fora da norma. De certa forma, o instinto representava para o saber dominante algo que implicava um descontrole, sugerindo uma insuficiência de desenvolvimento físico e psíquico. Assim, o discurso médico se apropriara do conceito de instinto para definir aquilo que seria patológico e anormal. O instinto sugeria uma diferença que denotava uma condição supostamente inferior.

Segundo Andrade (2007), em Nietzsche, essa diferença se transformou naquilo que deveria ser fortalecido. Nesse sentido se pode falar de uma transgressão.73 O instinto passou a ser fortalecido na medida em que possibilitaria uma afirmação de si e um aumento da vontade de potência. A partir da reviravolta nietzscheana, qualquer coisa que se opusesse ao instinto seria a manifestação de uma anti-natureza e, conseqüentemente, de doença. A verdadeira degeneração mudou de lado.74 Assim, o filósofo jogou o discurso contra si mesmo, valorando o instinto e a dinâmica da vontade de potência, a qual aderira por meio da errância,

72 ANDRADE, 2007, p. 124.

73 Daí resulta o título do livro de Daniel Pereira Andrade: Nietzsche - a experiência de si como transgressão. 74 ANDRADE, 2007, p. 137.

do isolamento e da solidão implicados pela sua enfermidade. O sofrimento o libertara e permitira a Nietzsche uma inversão na forma como ele compreendeu a si e à sua doença.