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Dans le document Two Scoops of Django (Page 61-66)

Um movimento puro e ostensivo Palpita sobre os nossos corações Ó capoeira! Quem te olha mal Não sabe que a vida sua é uma união. Movida sobre uma necessidade Sempre concreta distingue a razão Se a luz da força a um corpo Velho ou moço, é lindo eu digo então Vamos capoeirar...55

Se a cultura é um campo vasto, passível de várias interpretações e adequações a um contexto político e histórico, o esporte é um fenômeno que, alicerçado pela lógica do capital, vai influenciar e se manifestar em todo exercício físico conhecido pela humanidade, moldando-o e transformando-o em uma espécie de reprodutor e perpetuador das ideias da sociedade.

As tentativas de nacionalização da cultura vão expor a capoeira, num primeiro momento, como ginástica, conclamando-a como possibilidade pedagógica de ensino em Educação Física. Nasce então a defesa dessa manifestação como um Método de Ginástica Nacional.56

Essa relação com a Educação Física irá, em um curto período histórico, elevar socialmente a capoeira, de uma atividade marginal a uma forma de educar.57

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Isso também não significou que seu processo histórico fosse tranquilo, pelo contrário, os fatos demonstram o mesmo tratamento: criminalidade, perseguição e discriminação.

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Vamos Capoeirar: Música do Mestre Tonho Matéria.

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Sua defesa como ginástica não impedirá que o termo esporte apareça em diversos momentos, tratando das duas coisas, como se fossem somente uma.

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Pedro Antelo Pagni, no texto de 1997, A prescrição dos exercícios físicos e do

esporte no Brasil (1850-1920): cuidados com o corpo, educação física e formação moral, informa que, no início do século XX, o trabalho físico era discriminado e ainda

estava associado à escravidão e às classes subalternas da sociedade.

Uma possibilidade para conseguir que o projeto se concretizasse foi a institucionalização da obrigatoriedade da Educação Física nas unidades escolares. Ou seja, seria necessária a sua expansão e popularização. Carmen Lúcia Soares (2001) destaca que a incorporação da disciplina ao ensino regular58 não ocorre de forma imediata, nem tranquila. Ainda pairava sobre a sociedade um preconceito sobre os exercícios físicos,59 principalmente para as mulheres, ainda de acordo com essa autora.

Nesse processo, a prática do esporte vai paulatinamente substituindo, em muitos casos, a ginástica. Pagni (1997) situa os anos de 1910 a 1920, como o período de sua discussão pedagógica e, consequentemente, de seu avanço social no território. O Brasil dessa época passa por transformações, efeito dos processos de mudança também vindas do velho mundo.

Moura (2009) destaca que o objetivo do primeiro livro sobre capoeira era disseminá-la nas forças navais. Não imaginava que isso extrapolaria o âmbito militar e civil.60 Ao mesmo tempo em que se cria um vínculo entre capoeira e ginástica, cria- se, por tabela, um envolvimento muito próximo com a caserna, que culminará no fortalecimento da ideia de marcialização, contexto mais complexo do que o da luta.

Nesse mesmo ano, Raul Pederneiras, em artigo de sua autoria: A Defesa

Nacional61 “ressalta a supremacia da capoeiragem como exercício físico” (MOURA,

2009, p. 139). Em 1922, Coelho Neto escreve sobre a capoeira, desta vez, no livro

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Ruy Barbosa e Fernando de Azevedo são apontados por diversos autores como grandes defensores dessas ideias. Para eles, a Educação Física inserida nas unidades escolares brasileiras contribuiria para forjar o indivíduo forte, disciplinado e saudável, assim também como auxiliaria na regeneração da raça que a nova sociedade em formação necessitava.

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Tanto a ginástica como os jogos e os esportes, atividades consideradas como cultura corporal, serão inseridas no rol dos conteúdos da Educação Física, como estratégias educacionais desse componente curricular. A princípio, esses professores procedem dos espaços militares. São instrutores militares, em muitos casos, oriundos da Europa. O primeiro curso de Educação Física no Brasil data de 1910 e tinha um cunho militar. Somente em 1929 abrem-se as inscrições para civis.

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O mesmo autor destaca que, em 1921, a Revista da Semana entrevistou o professor de ginástica e jiu-jítsu Mário Aleixo sobre sua criação: um método capoeirístico que denominou de A arte de defesa

pessoal. Ao que tudo indica, o professor teria misturado golpes de outras lutas à capoeira, com o

discurso de torná-la um desporte (escrita original) mais valorizado e um método de defesa considerado insuperável.

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A publicação ficou sobre a responsabilidade da Revista da Semana. Todos esses artigos em defesa da capoeira, em especial no Rio de Janeiro, contribuirão para sua inserção social, anos mais tarde. Porém, para ser aceita, ela deveria se adequar.

Bazar. O escritor maranhense também lança a crônica Nosso Jogo. Moura (2009)

enfatiza que o autor manifesta a sua decepção pela capoeira, em específico a do Rio de Janeiro, não ter se expandido e alcançado o exterior.

Soares (2002) ressalta que, em 1926, uma série de publicações no jornal Rio

Sportivo, lança reportagens direcionadas à capoeira, sob o título Capoeiras e Capoeiragens. O autor, o argentino Adolfo Morales de Los Rios Filho, apesar de não

ser brasileiro, defende ideias nacionalistas de incorporação da capoeira ao mundo dos esportes.

Dois anos após a publicação dos artigos no jornal Rio Sportivo e seis anos após a Semana de Arte Moderna era lançado, no Rio de Janeiro, pelo militar Annibal Burlamaqui, o livro Gymnastica Nacional (Capoeiragem): methotisada e regrada. Seu objetivo era expor suas ideias e vê-las aceitas socialmente, inserindo a capoeira oficialmente como uma prática de exercícios.62

O prefácio da obra, de autoria de Mario Santos, deixa claro sua intenção: “São meus votos que seja a ‘Gymnastica brasileira’ acceita e praticada, pois vae n’isso, além de um acto de brasilidade, um pouco de integralisação na posse de nós mesmos” [sic] (BURLAMAQUI, 1928, p. 5).63

As passagens do autor no livro também indicam isso, quando enfatiza seu patriotismo, ao expor suas ideias: “Quis apenas ser um brasileiro – e um brasileiro útil [...]”. [sic] (BURLAMAQUI, 1928, p. 7). Da mesma forma, no agradecimento ao prefacista: “[...] esse patriótico gesto, para a destruição do archaico e tolo preconceito de que a “GYMNASTICA BRASILEIRA” – a capoeiragem – desdoura a quem pratica”. [sic] (BURLAMAQUI, 1928, p. 7).64

Em nossa linha de raciocínio, observamos a necessidade de pontuar políticas que influenciaram a sociedade. Essas iniciativas intervieram nos rumos do desenvolvimento e no entendimento da prática da capoeira, induzindo, consequentemente, as políticas culturais voltadas ao seu trato.

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Fortalece as ideias de cunho esportivista e nacionalista do argentino Rios Filho e de tantos outros que, já há algum tempo, ansiavam por ver essa manifestação ajuizada a partir dessa formatação.

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Não há dúvidas aqui sobre os objetivos de inserção social da capoeira e a compreensão, por parte dos seus defensores, do benefício que tal adoção traria para a pátria.

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No prefácio da obra, Mario Santos lamenta a falta de reconhecimento da capoeira enquanto sport

nacional e enfatiza as suas vantagens frente a uma luta (o boxe) e a uma arte marcial (o jiu-jítsu).

Ambiciona a aceitabilidade da proposição de Burlamaqui pela sociedade e espera futuramente a formação de campeões nacionais frente aos estrangeiros. O discurso é arrolado por ideias higienistas e positivistas, na tentativa de ganhar adeptos de outras camadas da sociedade que, até então, repugnavam a capoeira.

O peso das origens de suas tradições e práticas será um fardo que, em diversos momentos, será renegado, ora camuflado, em recursivas tentativas de sua aceitação. Após inúmeros ensaios de ressignificação da capoeira para sua inserção e aceitação, aos poucos, com a persistência característica dessa manifestação frente aos desafios históricos que enfrentou, ela vai conseguindo, não sem determinados custos, se consolidar como prática cultural da sociedade.

É fato que esses movimentos tinham em comum um espírito de nacionalismo. Em todos os projetos existe esse ponto comum: a capoeira é brasileira.65

A partir de então, a capoeira irá percorrer uma trajetória política que envolve várias vertentes, como o turismo, a educação e o esporte. É através deste último que ela se institucionaliza e consegue sair da clandestinidade, sendo citada na legislação e se organizando, na lógica associacionista, a partir de entidades dessa esfera.

O movimento folclorista do Brasil retomará novamente a discussão da capoeira como pauta do dia. Ela será a manifestação oriunda do povo, uma prática popular; e um saber que deverá ser preservado ao invés de perseguido. Suas características, como oralidade, regionalismo, mitologia e ritual serão exaltadas. Em 1930, o país sofre novamente várias mudanças, a partir dos acontecimentos mundiais. O projeto nacionalista, que tem início no século XIX, ainda persiste, mas, desta vez, a partir de outro contexto e outras influências.

Essa é uma década marcada por pequenos e grandes conflitos, quebras e mudanças de paradigma, recessões econômicas, profundas mudanças políticas e sociais e a eclosão de regimes totalitários. Para o Brasil, o início dessa era significa o fim da Política do café com leite e a assunção ao poder do presidente Getúlio Dornelles Vargas, que comandaria o país por longos 15 anos. Ao final da década de 1930 tem-se o início do chamado Estado Novo.

Nesse período têm início, na cidade de Salvador, movimentos voltados para a capoeira, que mudarão radicalmente o seu contexto, em todo o território nacional e, mais tarde, fora do país. Estamos nos referindo ao surgimento da Luta Regional Baiana, mais tarde conhecida como Capoeira Regional, criada por Mestre Bimba

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Dentre as ações que colaboraram para a capoeira ser reconhecida pelo Governo do Brasil está a criação do Departamento de Luta Brasileira (Capoeiragem) da Federação Carioca de Boxe (FCB), em 1933, mesmo com a capoeira ainda legalmente proibida. É nesse período que se inicia uma reviravolta, em relação à capoeira. Até então, a legislação existente sobre a matéria resumia-se ao Código Penal da República dos Estados Unidos do Brasil, em especial o Decreto 847, de 11 de outubro de 1890.

(Manoel dos Reis Machado)66 e da invenção do que conhecemos como Capoeira de Angola, tendo como seu representante maior Mestre Pastinha (Vicente Ferreira Pastinha). Essas inovações irão influenciar a capoeira, em todo o território brasileiro, reorganizando essa manifestação e apresentando um perfil dessa prática.67

Folclore passou a ser a denominação utilizada, no século XIX, para os costumes populares. A antropóloga Maria Laura Videiros de Castro Cavalcanti, no artigo Entendendo o folclore, nos esclarece que: “A palavra Folclore provém do neologismo inglês folk-lore (saber do povo) cunhado por William John Thoms, em 1846, para denominar um campo de estudos até então identificado como ‘antiguidades populares’ ou ‘literatura popular’” (CAVALCANTI, 2002, p. 1).

A tradição, que era entendida como o passado – o que veio antes – na contemporaneidade – o agora – servia para legitimar a nação moderna e nortear os caminhos a seguir. Conforme Oliveira (2008), essa era uma preocupação do Iluminismo, porém com uma interpretação racional sobre o pensamento popular. Aquele que se ocuparia em estudar os costumes e tradições, denominado de folclorista, deveria coletar e traduzir esses materiais.

Maria Laura Videiros de Castro Cavalcanti fez uma comunicação, apresentada no Seminário “Patrimônio Cultural e Identidade Nacional”, na mesa- redonda sobre Cultura Popular,68 em 2001, intitulado Cultura e Saber de um Povo: uma perspectiva antropológica.69 Para ela:

A fala sobre folclore e cultura popular inaugura-se quando se reconhece intelectualmente uma distância entre os modos de vida e saberes das elites e do povo. Um dos muitos méritos do Romantismo foi o de traçar várias pontes e atalhos sobre essa distância que, entretanto, o constitui. Valorizando a diferença e a particularidade – em oposição ao ideal de uma razão intelectual universal proposto pelo Iluminismo – e fortemente associado em sua gênese aos nacionalismos europeus mais tardios, o Romantismo atribuiu às noções de folclore e cultura popular características

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Em Salvador, Mestre Bimba, auxiliado por discípulos e amigos, inicia um trabalho de ressignificação da capoeira, para que a mesma saísse da marginalidade em que se encontrava e fosse aceita pela sociedade. Sua metodologia chamou-se, inicialmente, Luta Regional Baiana. Contudo, após a capoeira sair do código penal, o método de Bimba vai se transformar, influenciado pelo contexto societal do momento, no que conhecemos hoje como Capoeira Regional.

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Tanto uma como a outra serão influenciadas pelas ideias ginásticas, que ainda se mantinham nessa época e se propagavam pelos cursos de formação em Educação Física e nas escolas baianas, bem como pelas lutas e artes marciais e as competições de luta livre, e também pelo fenômeno do esporte que, a partir desse momento, incidirá no país, com um forte apelo para o seu desenvolvimento, contando inclusive com apoio estatal.

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Evento promovido pela Frente Parlamentar de Apoio à Cultura Popular do Congresso Nacional do Distrito Federal.

que até hoje nos assombram. (CAVALCANTI, 2001, p. 2)70

Marx e Engels (1998) entenderão as relações sociais a partir da produção. Estas definem o social e até mesmo, como afirmaram, em última instância, a nossa própria consciência. O trabalho, no entendimento da teoria marxista tradicional, é a categoria fundante e estruturante de toda a sociedade, assim como a natureza é a fonte dos valores de uso que consistem na riqueza, bem como fonte da cultura.

A capoeira fará parte desse movimento. As pesquisas de Edson Carneiro e Câmara Cascudo levariam ao público notícias a respeito dessa manifestação. Na Bahia, principalmente, esta será explorada repetidas vezes como tal, pelas instituições de turismo. A capoeira ganha contornos folclóricos que influenciaram o imaginário social, dentro e fora do país.71

Com esta manifestação enquadrada nessa lógica, iniciativas atreladas a interesses econômicos começam a se desenvolver. A Política Pública de Turismo contribuirá para fortalecer o desenvolvimento de uma capoeira espetacularizada, em prol de um determinado consumidor – o turista.72

Com o amadurecimento dessas práticas vieram os grupos folclóricos que mais tarde passaram a ser denominados de para-fólclóricos.73 Estes traziam a capoeira como base de preparação dos dançarinos, apresentando-se em algumas oportunidades e até mesmo fora do Estado. Porém, o trivial eram os hotéis, casas de shows, restaurantes temáticos e navios.74

O turismo é a primeira experiência da capoeira lidando diretamente com os

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Esse trato com a capoeira, a partir de demonstrações previamente contratadas, vai ser fortemente desenvolvido, em um primeiro momento, em Salvador, inicialmente através de Mestre Bimba, com as suas demonstrações de capoeira (inclusive para políticos). Com o passar do tempo, se unirá junto a outras manifestações da cultura afro-brasileira (maculelê, dança de orixás, puxada de rede do xaréu, dentre outras) para formar o que se denominou inicialmente de show folclórico. Fica claro que a noção da forma de viver e se relacionar distintamente entre grupos, em consequência do desenvolvimento da sociedade e de sua produção em massa, gerando excedente, originando a exploração do homem pelo homem, possibilitou o surgimento da divisão social do trabalho e a desigualdade social. As classes sociais terão relação com as distintas formas de saber e fazer que inicialmente o folclore tentará explicar.

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Autores como Rego (1968) e Esteves (2004) já abordaram parte dessa fase da capoeira, na perspectiva da folclorização. Os autores citados apontam os anos de 1930 como o início desta fase.

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Nesta fase, podemos identificar alguns elementos que antes não faziam parte dessa manifestação, como, por exemplo: a supervalorização de acrobacias, indumentária de cores exageradas, jogo combinado e sem objetividade e demonstrações individuais de gestualidade corporal etc.

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Grupo folclórico diz respeito a grupos que vivem na própria comunidade e que tentam manter uma determinada tradição, a partir de seus ritos passados. Grupos para-folclóricos são coletivos formados para apresentar artisticamente determinadas manifestações no âmbito da recepção turística.

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Ao tempo que desmistificavam a marginalização da capoeira, exploravam a força de trabalho dos seus praticantes e vendiam uma imagem (estética) que não condizia com o real e o concreto desta prática, levando à ideia de superficialidade e esvaziando as possibilidades de sua práxis cotidiana.

órgãos públicos, fora da marginalidade. Para nós, iniciada de forma inadequada e superficial. Aliás, muitos compartilham desses pensamentos. As políticas públicas para o turismo, desde o seu surgimento, não contribuíram significativamente para a valorização, a democratização e a conscientização da capoeira enquanto patrimônio cultural.75

Em meio às discussões sobre folclore e cultura, uma destas, dizendo respeito à temática do patrimônio no Brasil, delineia-se, primeiramente, a partir de um pensamento ligado ao concreto, ao material. Segundo Oliveira (2008), o primeiro órgão federal que tinha como responsabilidade a proteção ao patrimônio foi a Inspetoria de Monumentos Nacionais.76

É exatamente dessa época, a legislação brasileira sobre o assunto, apesar da proposição de Mário de Andrade, em 1936, através de um projeto de lei, onde “também fossem incluídos no patrimônio brasileiro os falares, os cantos, as lendas, as magias, a medicina e a culinária indígenas” (OLIVEN, 2009, p. 81). A opção política naquele momento foi pelo patrimônio edificado, demonstrando a tendência referente ao entendimento que deveria permear a sociedade brasileira.

Vale destacar aqui uma defesa feita por Oliveira e Leal (2009), quando enfatizam que, desde essa época, no anteprojeto do SPHAN, a capoeira poderia ser reconhecida como patrimônio imaterial da cultura brasileira. De acordo com os autores, para que tivesse o seu reconhecimento como patrimônio, uma obra teria que pertencer a uma das categorias estabelecidas.77

A pesquisadora Calabre (2009) confirma que é na gestão do presidente

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Na Bahia, ainda persiste com grande força a utilização das manifestações da cultura local nessa perspectiva, reforçada pelas constantes propagandas que utilizam símbolos da capoeira, muitas vezes patrocinada pelos próprios órgãos estatais de turismo, como atração. Constantemente, a propaganda dos órgãos públicos reforça a ideia de que o Estado, e principalmente Salvador, é a cidade do turismo, criando, pela reprodução dessas ideias, um estereótipo de cidade “cultural”.

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Criada por Gustavo Barroso, a partir do Decreto n° 24.735, de 14 de julho de 1934, e ligada ao Museu Histórico Nacional. O Estado Novo cria o primeiro órgão federal de proteção ao patrimônio, em 1934. Mas essa é uma política que amadurece primeiramente em níveis estaduais, com ênfase no Sudeste do país. Conforme Oliveira (2008), houve posteriormente experiências em Minas, na Bahia e em Pernambuco, que contribuíram para que essa empreitada se consolidasse na criação do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN), em 1936/1937, em substituição à Inspetoria. Vale destacar que há registros que apontam a década de 1920, como os primórdios da noção de patrimônio em nosso país, que se institucionaliza, principalmente, através de projetos de proteção (muitos sem sucesso), conforme destaca a professora Maria Lúcia Bressan Pinheiro, no texto Origens

da noção de preservação do patrimônio cultural no Brasil.

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No caso, a capoeira poderia se enquadrar na categoria intitulada Arte Popular. Porém, como também afirmam os autores citados, a capoeira não tinha reconhecimento e apoio social suficiente para isso, como um elemento que a identificasse a nossa cultura, para ser definida como tal. No ambiente desse momento histórico, encontramos tanto discriminações, preconceitos e estereótipos, como também indivíduos obstinados em transformar tais concepções.

Getúlio Vargas (1930 a 1945), onde encontraremos os primeiros indícios de uma organização, através de um grupo de ações em nível federal, com contornos de políticas culturais.78 A cultura era a essência da nacionalidade e caberia, à educação e ao campo da propaganda, fortalecer e incutir essa ideia na sociedade.

Essa estratégia se qualifica pelo engajamento de intelectuais da época, envolvendo-se não somente com a produção do conhecimento, mas também nas questões políticas. A criação do Ministério da Educação, inicialmente vinculado à saúde, ensejou a formação de uma cultura nacional. De acordo ainda com a supracitada autora, Francisco Campos assumiu a pasta até 1934. Seu sucessor, Gustavo Capanema, reunirá um grupo79 respeitável de educadores, artistas e intelectuais, que fortalecerá institucionalmente o campo da cultura.

Nota-se que Capanema entendia que a educação não podia estar desvinculada da cultura. Sua gestão, conforme Fonseca (apud CALABRE, 2009) vai contribuir para o avanço de temas que vão desde a arquitetura até as questões indígenas. São as ideias e ações dessa gestão que contribuirão para a criação da Secretaria de Cultura do Ministério da Educação e Cultura (MEC), durante o primeiro ano da década de 1980.80

Contudo, sabemos que a gestão de Getúlio tentava “apoiar” as manifestações mais populares, dentre elas a capoeira, que o próprio presidente reconheceu como manifestação integrante da cultura. A introdução e o desenvolvimento de lutas e artes marciais no país; o movimento esportivo crescente; o governo populista de Vargas, dentre outros fatores, vão estimular e fundamentar as modificações feitas por Bimba na capoeira.

Assim, a capoeira começa a ser tratada a partir da lógica de uma Educação

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