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TINE Laurence D

Na última vez que havia frequentado as reuniões do Fórum Cosate no início de 2013, a discussão sobre pontos importantes dos artigos do Projeto de Lei que institui as Comissões de Saúde do Trabalhador da Educação15 era o que movia naquele momento. Mas as tais comissões de saúde na educação em Serra ainda não tinham concretude, ainda estavam no plano do que produzimos como linguagem para construção de comum enquanto o Projeto ia sendo feito.

Nessa reunião de retorno ao Fórum em 06 de fevereiro de 2014 havia um clima diferente. A começar pelo auditório usado para a reunião. Até então, havíamos nos reunido nos auditórios do primeiro andar do Centro de Formação Pedro Valadão, no Bairro de Fátima. Eram mais escuros, mais fechados, tinha um tom mais intimista no círculo que se formava para discutir os artigos que compunham o Projeto de Lei. Nesta reunião em 2014 estávamos em um auditório nos andares superiores do Centro de Formação. Claro, ensolarado, aberto. O círculo também estava bem grande naquele dia, parecendo até outro Fórum. A questão não era só visual, talvez fosse justamente o inverso: por se tratar de uma mudança no que se discutia e no que desdobrava ali, acabava marcando também esta mudança como uma referência ao que se passava.

E o que se discutia era ação: como encaminhar o Projeto de Lei para a Câmara de Vereadores e como vivenciar as comissões de saúde tal como preconizava o Projeto de Lei. Nesta reunião estas comissões provisórias que tinham por fim experimentar o que se propunha como Projeto Piloto eram chamadas de “comissões piloto” ou “Cosates Piloto”. Já experimentávamos um vocábulo para nomeá-la desde 2013 e faziam parte das nossas articulações para trazer a participação dos trabalhadores da educação para o Fórum.

A pauta da reunião se entrecruzava, os pontos iam e voltavam. Essa conversa que circulava sem travar e interligando os pontos da pauta era uma marca do modo de funcionamento das reuniões do Fórum. Embora nos primeiros momentos

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tratássemos da questão do encaminhamento do Projeto de Lei, pois o mesmo havia sido entregue à advogada do Sindiupes para que ela avaliasse e sugerisse melhorias, rapidamente a pauta deslizou para quais escolas comporiam o Projeto Piloto.

- Quais escolas receberiam e apostariam no Projeto? – pergunta a coordenadora do PFIST.

As estudantes de graduação da psicologia que participavam como pesquisadoras da Iniciação Científica já atuavam em várias escolas da região e apontavam o clima e possível adesão.

- O Olivina? Não, ali não vai rolar, tem a pedagoga que bate no peito e diz que “essas coisas não acontecem na MINHA escola”.

- O Manoel Batista? Olha, sentimos mudança na postura do diretor desde que iniciamos algumas intervenções lá na escola...

- Tem a escola do bairro Hélio Ferraz, acho que a diretora seria uma parceira...

Ueberson, integrante do PFIST que naquele período havia começado a trabalhar no Centro de Formação da Secretaria de Educação, aponta possíveis parcerias:

- Tem também o CMEI Luciano. A Eriadnes é a diretora e é também participante ativa do Fórum.

- Então está decidido: as comissões piloto serão na escola de Hélio Ferraz e no CMEI Luciano de Souza Rangel.

Buscávamos parcerias para a realização do Projeto Piloto, escolas e diretores que estivessem abertos aos princípios que nos direcionavam ali no Fórum. Em outras palavras, buscávamos campo auspicioso à ideia das Comissões, no qual a experiência poderia reverberar com intensidade. Embora uma vez aprovada e implementada a Lei, por si só, não garante que as Cosates nas escolas funcionem como comissões que promovam a conversação, a análise dos processos de trabalho e gestão coletiva, que promovam a produção de saúde; pensávamos que nesse momento era preciso também uma aposta tanto dos trabalhadores quanto da direção, um campo com disposição favorável à experimentação das comissões.

E nesse ponto da conversa sobre quais escolas receber o projeto o traçado volta para a questão do Projeto de Lei:

- Como procedemos? Esperamos aprovar a lei e só então partimos para o Projeto Piloto nas escolas? Fazemos as duas coisas ao mesmo tempo? Ou ainda: passamos para o Piloto e depois trabalhamos na aprovação da Lei?

A promotora Cláudia aponta:

- Olha gente, a aprovação da Lei não é rápida. É importante a gente lembrar que tem que passar pelo Conselho Municipal de Educação. Tinha um representante do Conselho participando de umas reuniões no início, mas ele não tem vindo mais. Eles ficam “ressentidos” quando a Câmara aprova alguma Lei sem ter passado por lá antes. Vamos enviar o Projeto de Lei para o Conselho, que vai formar uma comissão para examinar a proposta oficialmente. Eu vou estar lá acompanhando esse processo.

A inserção desse novo circuito de conversa era muito mais complexa do que parecia à primeira vista. Isso porque o representante do Conselho que havia participado de algumas reuniões do Fórum estando presente inclusive na sua formação inicial também era integrante do Sindiupes em uma chapa de oposição à que estava na direção do sindicato e participando atualmente do Fórum. Daí a preocupação que o Fórum – e o Projeto de Lei – não se tornassem um campo de batalha entre as chapas do sindicato, com posições pró ou contra devido às oposições que já se produziram na disputa pela direção daquela organização. Trabalhar pelo apoio ao Projeto de Lei – e às Cosates – então era mais do que apresentar os objetivos e os motivos do movimento, era também tentar angariar apoio entre inimigos políticos, que se combatiam pública e intensamente. Isso demandava do movimento um cuidado para não desarticular o engajamento e, ao mesmo tempo, não mediar um conflito que ultrapassava os objetivos do Fórum.

As linhas que se cruzam e correm rápido marcam essa reunião. Depois de quase dois anos de muita conversa para produzir o Projeto de Lei, que também funcionou como instrumento para constituir um modo de inteligibilidade que tornasse possível a construção de saberes sobre trabalho e saúde na educação em Serra, havia um clima de pressa como se houvesse um prazo determinado e que, portanto,

demandava que as deliberações fossem resolvidas rapidamente. O movimento entrava nesse momento em um modo mais veloz exprimindo uma intensidade de afetos que também demandava das pessoas ali envolvidas dar vazão em ações que desenhamos como importantes.

O que pudesse ser adiantado era feito ali e na hora: em meio às conversas sobre essa situação, também falamos por telefone com as diretoras das escolas sugeridas que apoiaram a ideia. Elas toparam, mas solicitaram autorização da SEDU/Serra.

Em nossas conversações na construção do Projeto de Lei os professores, trabalhadores da SEDU, do DMST/Serra e outros sujeitos que atuam na educação em Serra foram apontando que a questão de uma lei funcionaria como uma estratégia de luta que tanto tornava nossas demandas palpáveis, claras, objetivas e, portanto, inteligíveis na conversa com instâncias mais burocráticas; quanto também funcionaria como disparador para indagar a organização dos processos de trabalho nas escolas. Além disso, também atuaria como respaldo, pois os trabalhadores demonstravam em suas falas que no ambiente escolar o excesso de denúncias, demandas e entradas de organizações jurídicas e legais é sentido como estreitamento da sua atuação. Daí que o Fórum trabalhava com a ideia de que a lei também se constituiria em uma estratégia para que o professor ou qualquer outro trabalhador que participe das Cosates possa ter respaldo para sair da sala de aula ou da escola a fim de participar de reuniões sem sofrer retaliações ou denúncias. E também é esse respaldo que as diretoras buscavam para receber as comissões piloto: que a experiência de saúde não fosse marcada por denúncias de “professor fora da sala de aula”.

E, se ao mesmo tempo a Lei viabiliza as horas para que o professor junto com outros trabalhadores da escola atue fora da sala de aula, pensando e analisando sua organização, ela também serve como expediente para interrogar outra prática naturalizada: professor só trabalha quando dá aulas. Se sai da escola, por qualquer motivo, não está trabalhando. As inúmeras negociações, discussões e movimentações que envolvem a aprovação de uma Lei que interfere na organização escolar também levam essa discussão adiante, fazem circular dentro da administração municipal, no legislativo, com os atores envolvidos em conselhos e outras instâncias de decisão.

Se a construção da Lei funcionou para constituir uma linguagem comum entre pesquisadores da UFES e pesquisadores do Fórum ampliando o grau de comunicação entre os sujeitos do campo na tessitura desse plano, agora, ao levar a ideia do Projeto de Lei para outras organizações ele também funcionava para criar canais, estabelecer contato e forjar novas conexões, expandindo o grau de comunicação do movimento. Funcionava como meio para irradiar o diálogo sobre a questão saúde e trabalho, como recurso possível para interrogar sua organização assim como para voltar o olhar para o isolamento como efeito da produção de subjetividade capitalística que, ao mesmo tempo em que insere os sujeitos em ilhas de competição, planifica a vida esvaziando-a dos afetos que potencializam a existência (GUATTARI; NEGRI, 1987).

E a conversa desenrola... Salas cheias no início do ano letivo e falta de vagas nas escolas... Reunião da promotora com a Secretária... Sobre como levar a proposta: “temos de ser objetivos”... As Cosates terão componentes de vários turnos ou só pela manhã? “Vamos deixar cada escola resolver como funciona melhor”...

No encerramento da reunião os encaminhamentos sinalizam: quem vai falar com a Secretária, quem vai enviar Projeto para Conselho de Educação com prazos, quem precisamos convidar para próxima reunião...

Muitas ações, muitas tarefas, prazos... Das linhas que torciam, curvavam e dobravam realizando movimentos meticulosos, ensaísticos e de composição desde a constituição do Fórum passamos para linhas que corriam, linhas com direção certeira, com prazo, com velocidade. Linhas que haviam se convertido em autopistas, que iam e voltavam em celeridade indicando outro momento do Fórum. Das reuniões onde o foco dos integrantes estava no que acontecia ali, nos afetos e deslocamentos produzidos pelas conversas na constituição do Projeto de Lei passamos para reuniões que envolviam ações de contato com vereadores, com outros setores da Secretaria de Educação, Conselho de Educação, escolas, diretores, trabalhadores das escolas, pais... Em nossas ações com vistas a implementar as Cosates Piloto em 2014, o foco do grupo sai do que se passava nas reuniões para mover outros setores e romper segmentos, para ampliar o nosso grau de comunicação com os atores que tinham papel importante na constituição das políticas públicas de saúde e educação em Serra e expandir o movimento não só na

direção da aprovação da Lei, mas também no investimento do que apostávamos como lutas importantes para produção de saúde no trabalho.

O movimento em ação também é um movimento de produção atenta às forças que compõem o campo de lutas; é um movimento em expansão, que busca ampliar suas zonas de contato, suas conexões, que intenta intensificar os efeitos dos afetos e do desejo que movem os sujeitos implicados. A luta pela implementação das comissões era uma forma de indagar o que se pensa sobre saúde, sobre trabalho, sobre os funcionamentos da escola em meio à produção da subjetividade capitalística que orienta o sujeito como início e fim de tudo que lhe acontece (GUATTARI, 1987; LAZARATO, 2006) e neste sentido também enfraquece a ideia de coletivos que podem atuar sobre si mesmos, dentro e para além do contexto em que estão inscritos. Expandir o movimento era necessário para ampliar nossa conversa, para fortalecer o desejo pela apropriação pelos trabalhadores da gestão do tempo e da produção de conhecimento sobre seu trabalho (GUATTARI; NEGRI, 1987).

Os sujeitos do Fórum em ação para criar formas de criar conexões com o Conselho de Educação, de movimentar a Câmara de Vereadores, de levar demandas à Secretaria de Educação é o movimento dos sujeitos empreendendo, comunicando, atuando no plano.

O que uma reunião atualiza no movimento não são decisões da maioria que serão automaticamente seguidas, mas o que se efetiva a partir dali é o que de fato o grupo participante partilha e age tendo um norte comum (CI, 2016). Do contrário, ainda portaria a centralidade de pensar em validação como algum direcionamento ou decisão a qual todos consentiriam e seguiriam, o que de fato não é nada democrático.

A transversalidade em um movimento desejante de afirmação da vida implica também no acentrismo que destitui a reunião ou o encontro como o lugar onde as decisões desbotadas serão postas à votação para, ao invés disso, investir nestes encontros como lugar de partilha, de construção. As ações resultantes do que se articula no encontro decorrem então muito mais como efeito daquilo que consegue ser constituído como comum do que mero ‘tarefismo’. Desta maneira, embora as decisões mais corriqueiras como data de encontro, horário e local de reunião eram tomadas por canais como whastapp e e-mail; era no encontro, no que interrompia a

rotina e levava os sujeitos a se juntarem que de fato ganhava força em seus corpos, em suas ações. Em nenhum momento do Fórum algum participante que andava sumido assumia sozinho alguma ação. Quando os sujeitos no movimento sentiam que a pauta a ser discutida os convocava, era comparecendo primeiro no encontro que essa ação ganhava sentido.

É na atenção aos ditos, não ditos e aos silêncios que se forja e fortalece ‘o como’ e ‘para o quê’ se empreende as ações na luta (CI, 2016). Os encontros eram em uma primeira visada um lugar de construção de linguagem comum para, ao adensar essa experiência, ganhar continuidade nas ações às quais os sujeitos se comprometiam ao se sentirem mais convocados ali no Fórum. Assim, ao expandir suas ações para além dos encontros indo em direção ao engendramento de articulações, experiências e parcerias o movimento Fórum Cosate faz emergir uma série de atividades de atenção ao que se passa no campo de Serra, às relações de força que configuram este campo e às polaridades e tensionamentos que o perpassam, dando sentido ao agir em movimento.

Os deslocamentos produzidos demandam então também sentidos e direções que quebrem a verticalidade de uma autoridade supostamente legal que a produção, aprovação e aplicação de uma lei envolveria como também a horizontalidade dos interesses e conexões forjados por esta via: os deslocamentos também demandam transversalidade. Se um movimento se realiza pelos deslocamentos que produz (C.I., 2016), estes demandam ampliação do grau de comunicação em todos os sentidos e direções, numa operação que é composta em uma malha de forças e tensionamentos próprios, como o campo da Educação de Serra-ES.

Superando os impasses da verticalidade da hierarquização entre pontos e saberes e também da horizontalidade característica das comunicações entre áreas na mesma direção, a transversalidade (GUATTARI, 1987) aponta para uma dimensão que é constitutiva, processual: se realiza enquanto se amplia a comunicação, quando o plano é alargado em atenção sensível às forças que o compõem. É simultaneamente mapear e compor o movimento com seus atravessamentos e suas conexões, exercitando atenção aos efeitos do que se fala, do que se move e do que se ouve.

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