O comportamento do indivíduo e sua noção do “ser homem” e “ser mulher” dependem do meio no qual ele está inserido, dos acontecimentos que vivencia e de fatores como as crenças, as atitudes e os valores que estão em voga na sociedade da qual faz parte, aspectos que atuarão de maneira a regimentar os padrões de conduta. Pode-se afirmar, como fora abordado no tópico anterior, que os comportamentos tidos como masculino e feminino não são inatos e nem fixos, passando por alterações, por exemplo, à medida em que novos valores são adquiridos pelos diferentes grupos.
Nesse sentido, “a sociedade constrói, então, não só uma identidade social, mas também uma sexual, que pode ser reforçada em qualquer domínio da vida compartilhada, nas relações afetivas, familiares, educacionais e profissionais” (VIEIRA, 2005, p.222). As identidades sexuais começam a ser construídas já nos primeiros instantes de vida, quando o bebê é apresentado às primeiras representações de gênero (como, por exemplo, a cor da roupa com a qual é vestido após receber o primeiro banho, ainda na maternidade).
Essas representações receberão forte influência da estrutura familiar, exemplificada na maneira como os pais se dividem para educar os filhos; na vida educacional, uma vez que as escolas (e demais instituições de ensino) de diversos países e sociedades apresentam
atividades curriculares voltadas aos diferentes sexos; e no mercado de trabalho, que nas mais diferentes culturas apresenta profissões e atribuições consideradas tipicamente masculinas e tipicamente femininas. Além disso, vale destacar a importância das produções midiáticas e dos sistemas de comunicação nesse processo, visto que, ao transmitir informações de maneira instantânea para pessoas dos mais variados locais, acabam influenciando comportamentos e contribuindo na construção das identidades. Filmes, novelas, propagandas, romances de ficção, músicas e produções jornalísticas, dentre tantos outros produtos, estão o tempo todo ajudando a criar e difundir estereótipos, atuando diretamente sob a percepção dos indivíduos.
No caso das sociedades ocidentais, nota-se que as identidades de gênero foram historicamente construídas de maneira a subjugar a figura feminina aos cuidados do lar (esfera privada), enquanto que cabia ao homem atribuições como a caça, a guerra e o domínio da vida social (esfera pública). Um modelo de divisão sexual do trabalho que se repete em várias sociedades5 e, segundo Vianna e Ridenti (1998), foi elaborado a partir de diferenças biológicas entre os sexos (a antiga visão determinista corroborada ao longo de muito tempo por diversas instituições e deveras combatida pelo feminismo). De acordo com as pesquisadoras,
o determinismo biológico seria definidor das desigualdades entre mulheres e homens, tendo a medicina e as ciências biológicas como importantes aliadas que, durante muito tempo, subsidiaram as normas sociais quanto às relações de gênero. Também a antropologia combinou muitas vezes uma explicação funcionalista das sociedades coletoras-caçadoras com uma explicação evolucionista do homem, para justificar a diferença sexual, na qual o homem teria uma composição biológica mais apropriada à caça e as mulheres ao cuidado dos filhos e à coleta dos alimentos. Isto é, a força física masculina e uma “inata” capacidade de liderança habilitariam o homem para proteger e garantir o sustendo da família. A mulher, por sua vez, é referenciada pela maternidade, como se sua vida só se explicasse pelo desempenho dessa função essencial, inerente à sua condição de fêmea, sendo, portanto, nutridora, maternal e habilitada para criar os filhos; diferenças essas que acabam se estendendo a outros campos por intermédio de mecanismos ideológicos, como é o caso das atividades relacionadas ao cuidado (p.97-98).
Nesse sentido, ensinados desde o berço, os valores da dita sociedade patriarcal associavam a figura feminina à fragilidade e à submissão, incentivando práticas que tornavam as mulheres permanentemente dependentes de uma presença masculina, primeiramente
5 Cabe ressaltar, no entanto, que atribuir a todas as culturas os mesmos critérios para definir esfera pública e
privada é bastante precipitado. Cada sociedade organizou e modificou seus preceitos de maneira a ressaltar ou suprimir características que possuem fundamentação de acordo com valores, costumes e interpretações específicas (VIANNA; RIDENTI, 1998).
representada pela figura do pai e depois, pela do marido. Como destaca Gozzo et al., (2000), desde que nasce, a mulher
é educada ‘para dentro’. É criada para servir, ser obediente, casar, respeitar seu marido, ter filhos, ser dona de casa, sujeitar-se a um trabalho exaustivo, sem folgas ou reconhecimento. (...) Quando criança, deve ter bons modos e controle sobre sua vontade. Na adolescência, não é preparada para a vida, mas sim para negar o prazer, cheio de culpa, censura e medo. Nesta fase, as questões sobre sexo geram constrangimentos e são respondidas de maneira incompleta, quando não são ignoradas. Se ela deseja algo mais, lhe vem inconsciente ou consciente a ideia de que não é certo (p.84).
De acordo com Correia (1997), presente em diversas culturas desde a antiguidade, esse pensamento controlador em torno da condição feminina chegou às civilizações ocidentais como uma herança da moralidade judaico-cristã, que reprimia a sexualidade, associando-a ao proibido e ao pecado. Como argumenta, a própria Bíblia, maior livro do Cristianismo, “traz inúmeras citações sobre a sexualidade da mulher como origem do pecado e a exaltação da virtude da pureza” (p.29). O prazer sexual era condenado, de maneira que o sexo era permitido apenas para a procriação após o casamento. Essas ideias, acrescidas ao imaginário social da existência de um “Deus pai punitivo e coercitivo, que protege em troca de submissão” (p.30) pairou no período de estruturação do catolicismo (Idade Média), quando a religião exerceu um grande controle e estabeleceu princípios que ecoam até os dias atuais. Em concordância com esse pensamento, Jota (2007) argumenta que
a religião teve forte influência no estabelecimento de valores tradicionais que uma mulher deveria almejar e buscar realizar. A supressão dos desejos estava na posição número um da lista. À mulher cabia o papel de reproduzir. Não era direito seu ter orgasmo ou qualquer outro tipo de prazer. Isso cabia às mulheres libertinas, aquelas de vida fácil (p.8).
Nesse contexto, a sociedade dividia a figura feminina em duas formas de representações: “as mulheres de família”, “sérias”, “para casar”; e as “mulheres da rua”, de “má reputação”, encaradas como uma forma de o homem se divertir. Como destaca Correia (1997), “são os protótipos da santa e da prostituta. A primeira o homem ama mas não deseja, e a segunda, deseja mas não ama” (p.27, grifos da autora). Machista e preconceituosa, essa visão contribuía para limitar o exercício da sexualidade feminina, interferindo negativamente nas formas de a mulher relacionar-se consigo mesma e com os outros.
Bastante enraizadas, essas amarras só começaram a ser desconstruídas de maneira mais efetiva em meados do século XX, quando os movimentos feministas passaram a questionar uma série de práticas que vinham colocando a mulher numa milenar condição de submissão. Importante por ocasionar uma ruptura às fronteiras entre as concepções de “homem-dominador” e “mulher-submissa”, esses movimentos se destacam por trazer várias conquistas de direitos para as mulheres, estimulando “redefinições” tanto para os papéis femininos, quanto para as relações que se estabelecem entre homens e mulheres. Como destacam Connell e Messerschmidt (2013), as hierarquias de gênero podem (e são) “afetadas pelas novas configurações das identidades e práticas das mulheres, especialmente mulheres mais jovens – configurações que estão crescentemente sendo reconhecidas pelos homens jovens” (p.266).
Para Arán (2003), esse novo cenário que surge a partir da revolução causada pelo movimento feminista foi proporcionado por algumas cenas que, ao trazer transformações ao âmbito da família, da reprodução e da sexualidade na cultura contemporânea, resultou na criação de um novo território para se pensar as sexualidades e a relação entre os sexos. Como enfatiza a autora,
os principais fenômenos constitutivos dessa mudança são: a crise da forma burguesa da família nuclear (monogâmica e heterossexual), a entrada da mulher no mercado de trabalho, a separação da sexualidade da reprodução e uma política de visibilidade da homossexualidade (p.400-401).
A “crise da forma burguesa da família nuclear” teria se iniciado ao final da Segunda Guerra Mundial, quando houve uma queda no número de casamentos e das taxas de fecundidade, paralelo a um aumento no número de divórcios e separações. Essa decadência do casamento, e a consequente crise da autoridade paterna, teria provocado tanto um estreitamento das relações entre mãe e filho, quanto uma “expulsão do masculino”, propiciando uma mudança na forma de pensar os contratos sociais e proclamando uma redefinição dos lugares ocupados pelo homem e pela mulher na família (ARÁN, 2003).
A “entrada da mulher no mercado de trabalho”, bastante impulsionada após o crescimento econômico vivenciado pelos países capitalistas ao final da Segunda Guerra Mundial, teve um crescimento vertiginoso ao longo do século XX e apresentou grande importância por constituir um primeiro passo para tirar a mulher da condição de mantida financeiramente pelo homem. Como salienta Arán (2003),
Se nos anos 1960 e 1970 o trabalho feminino era considerado pelos homens e pelas mulheres uma questão econômica, caracterizado como o “segundo salário”, uma forma de a mulher “ajudar” nas despesas do lar, o que observamos hoje é uma mudança significativa da relação da mulher com o seu trabalho. (...) Hoje as mulheres trabalham também porque querem. Independentemente da vida familiar, o trabalho feminino se tornou um valor. Não queremos dizer com isso que as mulheres não sejam mais as principais responsáveis pela organização do lar, mas a necessidade de trabalhar “fora” se caracteriza, também, como um desejo de autonomia, em que a identidade feminina não exclui uma vida profissional de sucesso (p.403-404).
Terceira cena apontada pela pesquisadora, a “separação entre sexualidade e reprodução” foi importante por garantir à mulher a possibilidade de decidir sobre o seu próprio corpo. Conquista garantida pelo advento da pílula contraceptiva, a separação entre sexualidade e reprodução interferiu diretamente na relação da figura feminina com a maternidade, transformando em opção o que antes era um dever. Parte fundamental do que se conhece hoje como “revolução sexual”, essa conquista auxiliou para que as mulheres pudessem “programar suas vidas e exercer tanto sua vida profissional como também a própria experiência da maternidade de forma mais satisfatória” (ARÁN, 2003, p. 404). “O desenvolvimento da política de visibilidade da sexualidade”, quarta e última cena colocada por Arán (2003), teve como principais vitórias a saída dos homossexuais do código internacional das doenças e o fim da condenação da prática homossexual no quadro penal, constituindo um importante passo para que as sexualidades fossem repensadas na sociedade contemporânea.
Para Jota (2007), a luta da mulher pela libertação das amarras sexuais passa também pelo surgimento de novas formas de erotismo, a exemplo do “gozo objetivista” (modo narcísico de se relacionar consigo mesma - e com o outro - onde o foco é a realização prioritária dos próprios desejos) e do “sexo de ocasião” (definido como uma relação sexual que não resulta de um encontro amoroso, mas, sim, de um encontro casual. Não há implicação afetiva e nem uma preocupação com o prazer do outro). Como defende a pesquisadora, nota- se que as mulheres da sociedade contemporânea têm promovido uma inversão de perspectivas onde o discurso romântico foi substituído pelo discurso do sexo, visto que “o incentivo à ligação da identidade feminina ao amor funcionava também como uma forma de dominação, pois, se era essa a sua maior vocação, seu lugar só existia se amparado por um homem” (p.11).