Cross sections for electron capture and excitation processes in collisions between
2. Theoretical method
O pesquisador em geral está preso entre a grandiosidade de suas ambições e os limites impostos pelo tempo disponível para pesquisa. Assim, antes mesmo da pesquisa se iniciar é necessária uma autoanálise delimitando o espaço/tempo a ser pesquisado. Essa relação envolve mais uma vez uma postura de humildade do pesquisador, o reconhecimento de que
não é possíveldesvendar todo o processo em uma única pesquisa, que é necessário equalizar os esforços em função de prazos e disponibilidade de esforços.
Tendo em vista este ponto de partida e considerando que a proposta é uma metodologia em forma de trama, o que se deve igualmente buscar é a superação da dicotomia estudo quantitativo versus qualitativo, compreendendo que a quanti- dade é uma qualidade em si mesma e que, portanto, pode ser usada sempre que puder fornecer parâmetros que contribuíam para esclarecer o conjunto de dados. A partir deste ponto, é necessário buscar técnicas que permitam o levantamento de dados que inter-relacionem pelo menos os três aspectos determinantes das emissoras de televisão – produtora de conte- údos simbólicos, empresa e aparato técnico. Em função disso, alguns passos devem ser considerados.
O primeiro levantamento de dados diz respeito ao acesso aos documentos, sejam os documentos legais da própria empresa, sejam os conteúdos – produtos – que a emissora veiculou em diferentes momentos de seu funcionamento. Esse ponto é significativo porque, com a provável exceção de alguns documentos obrigatórios, que em geral revelam a relação da empresa com o Estado e as questões relativas a propriedade (da concessão e dos espaços físicos), poucos documentos são arquivados e um número menor ainda colocado ao alcance dos pesquisadores. Mesmo nas empresas públicas, que atualmente estão submetidas às pressões (e leis) para a transparência de suas ações, o desconhecimento soma-se à inexistência dos documentos, que não foram conservados ou resguardados dos danos decorrentes do abandono.
Essa falta de cuidado, intencional ou não, também atinge o material produzido pelas emissoras de televisão.
Embora se possa vincular essa ausência de arquivos a própria origem da televisão, cujas transmissões iniciais eram ao vivo, extensas pesquisas realizadas nas primeiras emissoras de televisão brasileiras revelam alguns poucos filmes guardados, documentários episódicos feitos pela própria TV sobre a sua história e as fotos da época, eventualmente em poder da empresa, mas também sob a guarda de ex-funcionários e até de curiosos, em um conjunto que está longe de representar a variedade, extensão e importância do material produzido. Dessa forma, embora se trate de um material importante, que deve ser considerado durante o trabalho de pesquisa, o pesquisador não deve se limitar a ele.
Uma forma de ampliar esse material, ou pelo menos compreender parcialmente o seu alcance e significado simbólico envolve uma busca em outras mídias, particularmente os jornais impressos, arquivos públicos e setores ligados à preservação de documentos históricos. A consulta aos jornais impressos, em particular fornece dados importantes para um levanta- mento dos principais fatos da cidade e da região, fornecendo o pano de fundo determinante para o seu desenvolvimento.
Também é importante recordar que a importância da televisão abria espaço para que diferentes momentos de sua programação fosse anunciada ou comentada nestes veículos. Durante muitos anos a programação da televisão era parte obrigatória do caderno de entretenimento, que eventualmente trazia destaques sobre estreias ou sucessos. Um pesquisador eficiente pode monitorar essa programação, que em geral sofre alterações em função dos dias da semana, mas que também muda ano a ano, por meio de uma análise de conteúdo, que permita entender os gêneros e formatos mais presentes e, a partir desse ponto, entender o caráter
da própria emissora. Já os elementos destacados fornecem dados importantes, pois pontuam mudanças e adaptações internas do conteúdo da emissora.
Na análise da programação, o fator determinante é o volume de dados. Se a inclusão da programação for diária, e o período de pesquisa mais ampliado, é interessante que o pesquisador determine uma semana padrão (uma semana considerada típica, ou seja, em princípio isenta de elementos comemorativos ou diferenciais na programação) como base da pesquisa. Neste caso, a periodicidade da semana padrão a ser pesquisada (uma por mês, uma por semana etc.) vai ser definida em função da amplitude do material de pesquisa e dos objetivos do pesquisador.
A consulta à programação também oferece indícios – que posteriormente devem ser confirmados nas entrevistas – sobre a produção local, questão particularmente importante para a compreensão das emissoras locais e regionais. Nestes casos, deve-se igualmente buscar um critério que delimite a produção local, em geral considerando que estes programas que envolvem equipes locais; ainda que essas equipes se desloquem para a realização do trabalho – como seria o caso de uma transmissão de um jogo de futebol fora da cidade – ou que se utilize nesse processo de filmes ou outros materiais informativos comprados ou obtidos fora da emissora. Como contrapartida, o critério para a produção nacional diz respeito aos programas que envolvam equipes de emissoras nacionais; ainda que essas equipes se desloquem para fora do país na realização do trabalho.
Ainda sobre a consulta de fontes documentais/jornais impressos é válido destacar que os profissionais que traba- lham nas emissoras locais, muitas vezes elevados à condição de celebridades, ganham destaques nas “colunas sociais”,
que ao comentá-los expõem dados sobre seu trabalho e relacionamentos profissionais ou até mesmo o funciona- mento das emissoras.
Uma vez colhido esses dados, e considerando que o objetivo é ter um panorama amplo, é importante fazer tabelas que relacionem fatos, programas/programações e pessoas, elementos que serão fundamentais para as decisões relativas às entrevistas e para a análise do material obtido.
As entrevistas
A importância histórica da televisão e seu impacto social muitas vezes nos leva a colocar em segundo plano a noção de que se trata de uma tecnologia relativamente nova. No caso brasileiro, e particularmente quando a pesquisa envolve emissoras menores ou que se localizam fora do eixo Rio de Janeiro-São Paulo (onde foram implantadas as primeiras emissoras), as pessoas que parti- ciparam da implantação das emissoras de televisão ainda estão disponíveis para entrevistas, reconstruir sua história através de suas memórias ou o levantamento de sua história oral.
A definição dos entrevistados deve ter como base os dados obtidos nas pesquisas anteriores, mas evidentemente será um reflexo dos objetivos da pesquisa. Trabalhos sobre a história política, por exemplo, devem valorizar os jornalistas, enquanto os técnicos podem ocupar espaço de destaque nas questões sobre programação ou produção cultural. No entanto, uma vez que a disponibilidade de entrevistados é normalmente reduzida, é comum que as entrevistas incluam diferentes profissionais.
Em termos conceituais, a base das entrevistas é a história oral, o que
[...] implica uma percepção do passado como algo que tem continuidade hoje e cujo processo histórico não está acabado. A presença do passado no presente imediato das pessoas é a razão de ser da história oral. (BOM MEIHY, 1996, p. 10).
A moderna história oral nasceu em 1947, na Universidade de Columbia (EUA) mas só ganhou impulso no Brasil depois da chamada abertura política, em 1983. Seu objetivo é buscar na experiência dos indivíduos aspectos de sua vida sem deixar de lado um compromisso com o contexto social, reconhecendo a memória como instrumento capaz de colocar novos elementos à disposição dos interessados na leitura da sociedade.
Nos casos específicos sobre história das emissoras de tele- visão, usa-se preferencialmente a modalidade chamada história oral temática, que implica no uso da documentação oral a mesma maneira que as fontes escritas. Dessa forma, o pesquisador vale-se
[...] do produto das entrevistas como mais um documento, compatível com a necessidade de busca de esclarecimentos, o grau de atuação dos entrevistados como condutor dos trabalhos fica mais explícito (BOM MEIHY, 1996, p. 41).
Ainda assim cabe a pesquisadores considerar que “[...] a lembrança é a sobrevivência do passado” (BOSI, 1994, p. 53), uma “imagem - lembrança” é subjetiva e imprecisa. O pesqui- sador deve, portanto, “[...] descolar as camadas de memória, cavar fundo em suas sombras, na expectativa de atingir a verdade oculta” (THOMPSON, 1988, p. 197).
Limitados por estas considerações, a técnica de entrevista semiestruturada apresenta algumas vantagens, pois ao mesmo tempo em que o entrevistador pode organizar roteiros diferentes
em função do período em que a pessoa trabalhou na emissora ou mesmo em função da atividade que desenvolvia, abre espaço para contribuições espontâneas ou não previstas.
Finalmente, é importante destacar que a memória humana é “desorganizada”, e se prende a detalhes que fogem ao controle (e ao conhecimento) do pesquisador. Principalmente quando envolve um passado não muito recente, datas e até fatos tendem a se misturar. A história oral permite confrontar o entrevistado com os dados de outras fontes, solicitar explicações, acrescentar, detalhar, mas para que essa relação seja mais rica, é importante utilizar tabelas com dados colhidos inicialmente nos jornais e outros documentos para “ancorar” essas memórias.
O tratamento – a análise – das entrevistas também deve se centrar nesta preocupação, cabendo ao pesquisador desenvolver estratégias para destacar os pontos principais ao mesmo tempo em que determina o período no qual ele ocorreu. Ainda assim, muito do resultado desse trabalho dá-se não só em função do que foi dito, mas também do que não foi dito. Os olhares que dizem, as histórias que são citadas, mas não contadas, e assim por diante.