Outra invocação de Santo Antônio é a dos “Pobres”, sendo seu atributo principal, além do Menino Jesus, um avental cheio de pães que o Santo oferece aos pobres. Esse tipo iconográfico de Santo Antônio originou-se de uma lenda que conta que em Toulon, na França, em 1890, uma senhora, por não conseguir abrir uma porta mesmo após ter experimentado diversas chaves, nem tampouco o serralheiro que foi chamado, resolveu enfim ir buscar ferramenta para arrombar a porta. Ao retornar, a senhora pediu que se experimentassem outra vez as chaves porque ela fizera a promessa a Santo Antônio de dar pão aos pobres se não fosse necessário estragar a porta. Experimento feito, promessa atendida, a porta abriu com a primeira chave sem a míninma dificuldade. A partir daí, a notícia se espalhou, e os cofres a Santo Antônio também. Um fabricante de imagens em Paris relata que de janeiro a maio de 1894 vendeu quarenta mil imagens do Santo688. A
partir daí, a devoção a Santo Antônio dos Pobres se espalhou pelo mundo: Santo Antônio “ouve” os pedidos e em troca “recebe” pão para os pobres.
O “pão de Santo Antônio”, que se manda benzer em honra ao santo, relaciona-se com a crença de receber ou conservar a saúde e também para não faltar o pão cotidiano689
.
Importante alimento para todos os povos, o pão é símbolo da nutrição essencial, lembrando ainda da clara importância da consagração do pão feita por Jesus, visto que o homem não vive “somente de pão”, também a alimentação espiritual pode ser chamada de pão690
.
Em Vitória, existiu uma Irmandade de Santo Antônio dos Pobres, desde 1917, sendo instalada em 1919 no convento de São Francisco e composta pelos antigos devotos de 687 BORGES, 2005, p. 153 a 164. 688 RÖWER, 1980, p. 151. 689 Ibid., p. 152. 690 HENZ-MORHR, 1994, p. 272 e 273.
São Benedito691
, Irmandade esta, que não mais existia no convento. A imagem de seu orago inicialmente fora prometida pelo bispo diocesano, mas finalmente, encomendada do Rio de Janeiro692
, foi doada a Irmandade pelo padre Elias Thomasi em 1920693. Essa
imagem saía em procissão na festa do santo, que contava ainda com missa, bênção e distribuição dos pães. Seu Livro de Atas se encerra no ano de 1937, embora as festividades ao santo prossigam. O último registro que encontramos dela foi em 1945, na capela do orfanato (antiga capela dos terceiros) com missa cantada e “solene procissão, nela tomando parte uma grande massa de fiéis devotos do glorioso taumaturgo. Assim, piedosamente, passou-se em Vitória o 13 de junho de 1945”694
.
(Figuras 93 a 97).
A permanência dessa imagem de Santo Antônio dos Pobres nesta igreja deve-se muito à instalação do Orfanato, já que naquele lugar também se fazia assistência aos pobres, com distribuição de roupas e pães695
. A senhora Maria Laurentina Leal, em 2000, aos 73 anos de idade, deu um depoimento a um periódico local relatando que “se lembrava que São Francisco deu lugar a Santo Antônio como patrono do local, depois que o antigo Convento foi desativado”. E ela complementa: “Eu me recordo das trezenas e das orações que a gente fazia na antiga capela de Santo Antônio. A diversão era total no mês de junho, tanto que a frente do antigo convento era iluminada por fogueiras e fogos de artifício, feitos para a festa do santo”696
.
Existe uma imagem de Santo Antônio dos Pobres em um nicho lateral da igreja de São Gonçalo, em Vitória, citada inclusive numa notificação de 1948, no mesmo local onde atualmente ela se encontra: em nicho lateral da nave, lado do Evangelho697
. Ela é assim identificada, mesmo sem apresentar os atributos característicos, pois o santo não possui avental nem os pães, apenas a tonsura, o hábito franciscano negro, uma cruz na mão
691
Ata de Santo Antônio dos Pobres 1919 -1937. Para sua história, ver capítulo 4. 692
Ata de Santo Antônio dos Pobres 1919- 1937. p. 22 e 23. 693
Diário da Manhã, Vitória, 10 jan. 1920, p. 2. Talita Arrivabene havia sugerido em sua dissertação que essa imagem seria datada do século XIX, baseando-se em critérios estilísticos (que, aliás, não ficaram muito claros). Ela também havia descartado a possibilidade de que essa imagem teria vindo do convento de São Francisco, baseando-se em uma interpretação errônea de Mário Freire (ARRIVABENE, 2008, p. 148). No entanto, através de nossa pesquisa e do documento citado acima, podemos descartas tais hipóteses e afirmações.
694
Tombo Catedral Paróquia Nossa Senhora Conceição Prainha 1898-1947. p. 121v. Cúria Metropolitana. 695
Relatório de devoção particular de Santo Antônio dos Pobres e do Menino Deus na Igreja de São Francisco apresentado ao bispo D. Benedito A. de Souza. 31/12/1932. Cúria Metropolitana.
696
A Gazeta, Vitória, edição especial, domingo, 20 ago. 2000, p. 3. 697
Notificação nº 550 enviada ao diretor geral do IPHAN – RJ pela Arquiconfraria de Nossa Senhora da
direita e um livro na esquerda, sobre o qual está de pé o Menino Jesus. Ambos possuem resplendor de latão. A escultura mede 1,00 x 0,45 x 0,28m, e é em madeira policromada, em muito semelhante à que se encontra no altar-mor da igreja conventual de Santo Antônio do Rio de Janeiro, que tem 1,66 m de altura e é de barro queimado698,
e também não apresenta tais atributos de Santo Antonio dos Pobres. Mesmo assim, como escreve frei Röwer, “desde sempre o Convento Santo Antônio [do Rio de Janeiro] repartiu o pão que come de esmola com os pobres de fora”, servindo inclusive almoço para os necessitados na porta do convento699
.
Em 1990, esta imagem foi restaurada pelo IPHAN-ES700
. O santo se encontrava repintado, com a mão direita solta. O cinto original, feito em madeira, estava perdido e seu livro havia recebido purpurina sobre o douramento. Com relação ao Menino Jesus, ele estava totalmente repintado, censurado na área genital com um grosso calção curto feito em gesso. Atualmente o calção do Menino foi retirado, e ele se encontra nu sobre o livro que o santo segura com o braço esquerdo. O santo recebeu um cordão de tecido.
É nossa hipótese, e também a de Wallace Bonicenha701
, que essa imagem é a que pertencia originalmente à igreja conventual de São Francisco. Seu estilo condiz com uma imagem do início do século XX, e além disso, o primeiro documento da igreja de São Gonçalo a mencioná-la data de 1948702 - sendo que o Orfanato foi dali transferido
em 1960. Além disso, sabemos que essa igreja recebeu diversas imagens provenientes de outras igrejas locais703. No entanto, na documentação pesquisada, não encontramos
documentos que relatem seu translado ou doação para esta igreja.