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Dans le document XEROX 1186 GUIDE (Page 106-125)

Margarida de Cortona nasceu em Alviano, na Toscana, em 1247. De acordo com a tradição, ela teria tido um amante, que anos depois morrera e fora enterrado em lugar desconhecido. Guiada por seu cachorro, Margarida se deparou com o cadáver, sendo então invadida pela culpa e se tornado uma penitente perfeita. Voltou para Cortona e fez a sua confissão a um frade da Ordem de São Francisco, e após três anos de penitência voluntária, tornou-se uma terceira franciscana. Converteu-se em 1274, aos 25 anos; passando 23 de severa penitência e 20 usando o hábito religioso. Morreu em 22 de fevereiro de 1297 e foi canonizada em 1728 por Benedito XIII751

.

Santa Margarida de Cortona é representada vestindo hábito de franciscana, sendo acompanhada por um cachorro. Seus outros atributos relacionam-se com a sua penitência: a cruz a caveira e a disciplina. Pode estar ajoelhada, como penitente, com os seios seminus, contemplando o crucifixo que carrega ou mesmo aplicando a si as disciplinas752

.

Maria Cristina Pereira lembra que o contraste entre pecadora e santa é uma referência chave em sua iconografia. Embora essa dualidade, prossegue a autora, seja mais facilmente representada em pinturas, ela também pode ser expressa em esculturas, através da junção de elementos como os seios desnudos e o crucifixo e o hábito; a disciplina e a caveira, sendo assim capaz de se presentificar o “antagonismo pecadora- penitente”753

.

749

Manual da Ordem Terceira da Penitência, 1960. Op. cit. p. 140. 750

Livro da Ordem Terceira da Penitência, 1867. p. 4v. Cúria Metropolitana. 751

BUTLER, 1992, p. 38. 752

SCHENONE, 1992, v. 2, p. 565. 753

PEREIRA, Maria Cristina; CARVALHO, Fabrícia. Corpo pecador/corpo penitente: uma imagem de Margarida de Cortona do acervo do IPHAN-ES. In: Atas do I Simpósio Internacional sobre

Santa Margarida de Cortona está representada nas Ordens Terceiras Franciscanas de São João del Rei, Diamantina e Serro e na Arquiconfraria do Cordão de São Francisco, em Sabará; na igreja da Ordem Terceira de São Paulo, de Salvador e do Rio de Janeiro, onde ela está de pé e tem lágrimas nos olhos754.

Em Vitória, encontramos apenas uma imagem da santa, do acervo do Museu Solar Monjardim/IBRAM/Minc755. De pequena estatura, ela mede 0,34x0,21x0,15m e é de

talha inteira, com olhos de vidro, dourada e policromada. Seus cabelos, longos e escuros, caem pelos ombros e seu corpo está nu da cintura para cima, sendo coberto na parte inferior por uma túnica de fundo negro, com florões dourados em esgrafiado. Na cintura e nos antebraços possui um cilício e a carnação em torno dessas partes ganha um tom azulado. Na mão direita ela segura uma disciplina, feita de corda e cinco pontas de metal. As costas, desnudas, estão quase inteiramente cobertas por chagas esculpidas e pintadas com extrema realidade. Nesta imagem, Santa Margarida de Cortona está de joelhos, tendo sua cabeça virada para o lado esquerdo com olhar para o alto. Na mão direita leva uma disciplina e na esquerda há espaço para encaixe de uma cruz, segundo a hipótese de Pereira756

. A base é composta por um rochedo, com um crânio à esquerda.

Esta santa faz parte do conjunto característico de imagens que saem na Procissão da Quarta-Feira de Cinzas, organizada pelos Terceiros da Penitência, como a realizada em Vitória até o ano de 1868757. Embora se trate de uma escultura de tamanho reduzido para

sair em procissão, isso poderia ter ocorrido, como defende Pereira758, uma vez que essa

imagem pertencia à capela da Ordem Terceira. E isso porque não se tem notícias de outra representação dessa invocação na capela dos Terceiros ou em Vitória. Outro argumento é que ela possui três furos em sua base que poderiam servir para sua fixação em um andor. Além disso, como lembra Pereira, o esmero em sua carnação nas costas implicaria que fosse feita para ser vista, o que não aconteceria caso ela ficasse apenas em um nicho. (Figura 113 a 115).

754

QUITES, 2006, p. 97. 755

Essa imagem foi restaurada no ano de 2008 pelo NCR-UFES. Ela foi entregue ao Museu de Arte Sacra por Rodrigo de Mello Franco, diretor do IPHAN na época, segundo Levantamento conservado no NCR- UFES, referente ao acervo do antigo Museu de Arte Sacra do ES feito em 1980.

756

PEREIRA; CARVALHO, 2004. 757

Jornal da Victoria, 15 fev. 1868, p. 4. 758

Entretanto, como dissemos anteriormente, não descartamos a hipótese de que poderia haver uma imagem de vestir de Santa Margarida de Cortona em Vitória, feita para sair na procissão de Cinzas. De toda forma, o primeiro registro de uma imagem dessa santa em Vitória se encontra na descrição dos andores da Procissão de Cinzas realizada no ano de 1867, que a relaciona saindo no 8º andor, com as mesmas descrições da imagem encontrada no Museu Solar Monjardim759

. A única diferença é a ausência da cruz na mão esquerda, que provavelmente era colocada ali na intenção de cobrir-lhe o seio para que não estivesse à mostra durante a procissão, como defende Maria Cristina C. Pereira760

.

Mário Freire também menciona a imagem de Santa Margarida da capela da Ordem Terceira, informando que ela havia sido entregue ao Museu de Arte Sacra761

. No entanto, o autor se engana ao informar que esta imagem da Margarida de Cortona era em pedra. De fato, em virtude de sua carnação e de ser sua base um rochedo, seria possível que um leigo confundisse o material. De toda forma, ele é um argumento importante para a identificação dessa escultura, já que ele afirma que era essa imagem que saía na procissão de Cinzas de Vitória.

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