“Não importa o tamanho dos obstáculos, mas o tamanho da motivação que temos para os superar” Cury (2003, p. 101)
Perspetivar o meio escolar revelou-se um processo muito mais complexo do que eu expectava, por inúmeras que sejam as ideologias criadas, os conhecimentos adquiridos sobre a própria instituição e comunidade escolar apenas conseguimos perceber e conhecer esta realidade convivendo e vivendo a mesma. Numa fase inicial fui surpreendida positivamente, senti-me junto de uma comunidade acolhedora, disponível e com um excelente espírito de equipa e entreajuda. Integrar-me na comunidade escolar foi um processo em desenvolvimento nos primeiros tempos contudo, não se tratou de algo complexo e inalcançável mas sim conquistado logo na fase inicial. Neste sentido todas as
expectativas formuladas sobre a escola e sua comunidade escolar começaram a ser reconhecidas e modificadas à medida que iam passando os dias. Não existindo um conhecimento prévio fui também fortemente surpreendida pela imagem que rotulava a escola, um ambiente escolar complicado e frequentado por alunos que assumiam maioritariamente comportamentos de desinteresse e desrespeito. Associado a este mesmo rótulo observava-se ainda uma posição de abnegação por parte dos agentes educativos assim como da própria direção da escola. A verdade é que à medida que fui conhecendo melhor a escola e os seus alunos esta realidade foi evidenciando-se contudo, existiam também alunos fortemente caracterizados pelo interesse na escola, espírito de trabalho e com elevado nível de esforço, alunos que viviam a escola de forma prazerosa. De facto, acabei por perceber que aquela ideologia inicialmente traçada, que caracterizava a escola como um local acolhedor, de desenvolvimento integral do aluno e de convívio, foi ligeiramente modificada à medida que melhor ia conhecendo todo o seu ambiente. Contudo e embora algumas das expectativas não se tenham evidenciado como desejava, foi possível conhecer uma nova realidade a acima de tudo, aprender a comunicar e interagir com ela.
Com o decorrer do ano e início das atividades letivas extracurriculares da responsabilidade do grupo comecei a perceber que a ideia de grupo não era assim tão real, existindo rivalidade entre alguns dos elementos. Muito embora o conhecimento desta realidade tenha conduzido a alguma deceção, isto por contrariar a ideologia de grupo por mim construída ao longo dos anos, este grupo sempre demonstrou disponibilidade para nos ajudar, assim como flexibilidade para qualquer tipo de requisito da nossa parte. Atitudes como sentimento de superioridade para comigo e com as minhas colegas foram fortemente marcadas desde o primeiro e último dia da minha presença na escola por alguns dos elementos do grupo de EF, acabando por diluir ainda mais aquela que era a ideia de união e partilha dentro do grupo. Uma outra realidade que me surpreendeu negativamente trata a lecionação das aulas pois, muitas das modalidades existentes no programa são suprimidas pelos professores, refugiando-se na realidade do futebol. Esta situação prejudicou também a minha intervenção pois os alunos estavam habituados a uma realidade diferente da nossa atuação, não se mostrando predispostos a vivenciar e experimentar novas modalidades.
As características inicias da turma fora algo que me surpreendeu positivamente, expectando da melhor forma a minha primeira experiência enquanto professora. Com o passar do tempo algumas das perceções iniciais começaram a alterar-se. A turma revelou ser de difícil controlo, comportamentalmente problemática e com características muito complexas, nomeadamente ao nível das relações interpessoais, onde sempre se evidenciou uma rivalidade entre alunos, mas fundamentalmente no que concerne à inexistência de motivação para frequentar as aulas de EF e a própria escola. Se inicialmente os alunos já pouco participavam ativamente nas aulas, ao longo do ano esta diminuta motivação foi-se emancipando, resultando num reduzido número de alunos a realizar a prática e consequente elevado número de faltas de presença.
O DE, tal como referido, foi um dos assuntos mais badalados e expectados para o ano de estágio, não apenas por se tratar da minha primeira experiência neste sistema mas também por dirigir um grupo equipa numa modalidade com a qual não apresentava conhecimento aprofundado o suficiente para planear e organizar treinos. Por todos estes motivos supracitados penso que o nervosismo sentido inicialmente e consequente busca de informação me preparou para abraçar este desafio da melhor forma possível. Perceber no treino os problemas de jogo, as fragilidades e eventuais soluções foi algo que me surpreendeu visto ter conseguido adquirir esta competência mais rápido que o previsto. Hoje vejo que todo aquele receio e medo inicial é perfeitamente evitado e colmatado com a procura de informação e estudo da mesma, seja em futsal ou qualquer outra modalidade, o fundamental é prevenirmos metodologicamente antes da prática. Embora as minhas expectativas iniciais assentassem essencialmente na procura de conhecimento e planeamento dos treinos semanais o maior problema surgiu na prática, debatendo-se essencialmente no comportamento e assiduidade das alunas.
O núcleo de estágio foi algo que correspondeu às expectativas e de certo modo, acabou por surpreender positivamente. Todo o trabalho em equipa foi essencial para cumprir e melhorar toda a minha atuação, dentro e fora da aula. Tão importantes como os momentos formais e de trabalho foram aqueles
dedicados ao lazer, a conversas, brincadeiras e partilha de momentos mais pessoais, traduzindo um fortalecimento da relação de amizade existente no grupo. Neste sentido, a união, os desabafos e até mesmo discussões foram, em todo o percurso, os pontos fortes do estágio. Para Rolim (2013), uma prática pincelada de entrega, partilha, ajuda e cooperação por parte dos estudantes estagiários, traduz o alcance pleno de todos os objetivos pretendidos e delineados inicialmente. A plenitude do trabalho, a sinceridade e o apoio foram de facto pequenos pedaços que construíram um grupo coeso e unido, acima de tudo que determinaram fortes amizades ao longo do estágio profissional (EP) e também após o mesmo.
Ainda integrante do núcleo de estágio, também os professores orientador e cooperante deram aso ao cumprimento de todas as expectativas traçadas inicialmente. No que concerne o PO, sem dúvida que todos os momentos de reflexão foram fundamentais para que a nossa prática fosse otimizada. O facto de sempre me questionar face às diferentes situações problema na procura de soluções, foi para mim uma das maiores aprendizagens promovidas no ano de estágio, permitindo desenvolver e otimizar a minha capacidade de resolução de problemas da prática mas também, preparar-me para o confronto com alunos e turmas de características distintas. Todas as conversas formais e informais traduziram-se em momentos de aprendizagem, permitindo não só reconstruir a minha prática mas também moldá-la, potencializando e adaptando as minhas metodologias à realidade da turma. Também o PC foi fundamental ao longo deste ano letivo, superando todas as expectativas iniciais. A sua presença diária traduziu-se numa “base” sólida para a minha atuação, urgindo um sentimento de segurança ao longo do ano mas essencialmente na fase inicial. A exposição ao núcleo de estágio de todos os ensinamentos adquiridos pela sua larga experiência traduziu-se em momentos pecuniosos de partilha de conhecimentos, saberes e metodologias imprescindíveis à condução do processo de ensino aprendizagem, desde tarefas de gestão da aula como também no controlo da turma.
Traçadas expectativas face aos agentes educativos da comunidade escolar é possível concluir que ao longo do ano me fui deparando com um misto
de sensações e opiniões. Por um lado, o reconhecimento de estudante estagiária, o respeito pelo cargo e trabalho, a disponibilidade em ajudar e cooperar sempre que necessário, não só por parte de outros professores como também por funcionários. Trataram-se de atitudes que marcaram positivamente todo este percurso, comprovando algumas daquelas que era as minhas expectativas iniciais face à minha inclusão junto dos demais agentes educativos. Por outro lado, a existência de sentimento de superioridade de alguns docentes perante o núcleo de estágio, a simples exigência em passar à frente no bar dos professores ou até mesmo na reprografia. Contudo, em certos momentos estas atitudes eram colmatadas pelos respetivos funcionários das diferentes secções, respeitando a ordem de chegada de todos.
Especulações, medos, receios e desejos eram muitos à entrada do EP, contudo certezas era apenas uma, iria estar perante uma turma onde o objetivo passava por ensinar e formar alunos de forma harmoniosa e o mais holística possível. Desde o início que apontava este momento de formação como sendo um percurso composto por altos e baixos, um percurso desenhado e constantemente adaptado em função das diferentes características da turma e dos alunos. Apontado como um dos grandes objetivos, educar os alunos de forma integral apresentou ser uma tarefa de elevada complexidade e para a qual nunca nos encontramos preparados dada a diversidade de personalidades existentes. Neste sentido, a educação não é de todo um processo linear nem uma realidade simples, homogénea, uniforme, redutível ou conformista, mas encontra-se aberta a imprevistos, a acasos, a roturas e desarmonias (Bento, 2014). É no estágio que aprendemos e nos dotamos de ferramentas que nos vão auxiliar a desenvolver competências refletidas e baseadas em significados (Batista & Queirós, 2013).