Qual o papel do diretor de turma (DT) e, efetivamente, quais são as tarefas pelas quais está ele responsável? Esta é uma das muitas questões que ganhou sentido à medida que me inseria no contexto pedagógico e que futuramente poderei vir a cumprir. Fazendo uma introspeção enquanto aluna do ensino básico e secundário, deparo-me com definições e atribuições de papéis relativamente simples e que, em certo ponto até aqui, pareciam ser suficientemente descritivas e claras. Contudo, e dado o contacto permanente com este cargo através do professor cooperante, dou por mim numa busca de conhecimento mais específica relativa a esta função. Fundamentando-me em algumas referências bibliográficas específicas à questão que aqui se propõem, logo de imediato surge o conceito de agente de gestão curricular (Roldão, 1995).
Em conjunto com o chefe de departamento curricular, o DT é responsável por desempenhar funções mais específicas, intervindo assim a um nível meso sobre as decisões de gestão curricular. Quando falo em funções específicas, segundo Roldão (1995), este órgão intermédio é responsável por controlar todo o processo a que se responsabiliza e articula-lo com todos os seus interlocutores, nomeadamente os docentes da turma, os seus alunos e respetivos encarregados de educação. Com maior especificidade, cabe a este “mentor” coordenar as ações de todos os professores no âmbito de cada disciplina, através da implementação de normas pelas quais todos devem reger as suas intervenções, como por exemplo as normas de avaliação e articular estas ações com os professores, alunos e encarregados de educação. Sabendo que os mesmos alunos trabalham com uma diversidade de professores, é fundamental que estes visem objetivos educativos comuns e que as atividades sejam estruturadas de forma coerente e adequadas às características e necessidades da turma. Cabe também ao DT a definição dos meios pelos quais os outros docentes devem esclarecer as atitudes e valores a promover, evitando contradições que possivelmente poderiam ser difíceis de lidar por parte dos alunos.
De facto, o DT acaba por se envolver em duas áreas de intervenção, a docência e a gestão. A título de exemplo, cabe ao DT a importante análise global
da turma, identificando problema e necessidades a trabalhar e desta forma, em conjunto com outros docentes definir as melhores estratégias de intervenção e aquelas ditas como mais apropriadas. Todo este trabalho prévio irá conduzir a uma melhor aprendizagem, a uma metodologia de ensino adaptada às necessidades da turma e que será adotada por todos os docentes, evitando a falta de rendimento dos alunos. Logo, o DT foi responsável por intervir na gestão do currículo mas também desempenhou funções de docência ao atuar sobre outros docentes, assumindo um papel claro de liderança e coordenação neste tipo de análise e tomada de decisões.
Em forma de conclusão, a gestão da coordenação curricular passa por diferentes dimensões, contudo para que se cumpra todo o processo de forma sequencial, cabe ao DT realizar previamente uma análise da situação que contemple todos os registos da turma, a um nível global, como o enquadramento socioeconómico e cultural, o passado escolar, entre outros; e a um nível mais individual, como a formação de grupos dentro da turma, situações de difícil integração, entre outros. Toda esta análise deve ser disponibilizada pelo DT aos restantes docentes para que todos têm conhecimento da caracterização da turma. Cabe posteriormente a este processo, a reconstrução, adequação e construção curricular ao DT em cooperação com os restantes docentes, debatendo-se numa perspetiva formativa e construtivista, evitando leituras eventualmente discriminatórias que possam surgir face a esta análise inicial (Roldão, 1995). Posto isto, e em função do meu acompanhamento com o PC e DT da minha turma residente, percebi que este cargo assenta em várias funções, nomeadamente administrativas, pedagógicas e ainda relacionais, prossupondo uma capacidade de resolução a todos estes níveis. O papel do DT exige, de facto, um elevado encargo, prossupondo a existência de inúmeras dificuldades, essencialmente administrativas. A quantidade de documentos a elaborar, corrigir e apresentar era indeterminável, qualquer situação que ocorresse exigia do DT elaboração de documentos, comunicação ao diretor da escola e/ou encarregado de educação (Enc. Ed). Dado o mau aproveitamento escolar da turma, também este aspeto exigia um trabalho fastigioso na elaboração dos planos de apoio e de recuperação, na justificação de faltas e na comunicação de faltas indisciplinares aos EE através do envio de cartas. Ao nível pedagógico também
aqui me fui apercebendo de uma elevada dificuldade no cumprimento do plano curricular para a disciplina de educação para a cidadania. No sentido de resolver todos os problemas e constantes chamadas de atenção, os conteúdos programáticos acabavam por ser colocados de parte visto que, a maior preocupação centrava a correção de todos os comportamentos impróprios adotados pelos alunos, e consequente transmissão de valores. Por fim, a nível relacional também aqui presenciei uma elevada dificuldade em estabelecer contato com os Enc. Ed. Na grande perspetiva dos pais, a culpa do insucesso escolar recaía sobre o corpo docente e não no aluno, ignorando em muitas das vezes a informação transmitida pelo DT. Esta situação permitiu identificar alguma despreocupação por parte dos EE sobre o percurso escolar dos seus filhos, atribuindo a tarefa de educar e forma à escola e aos docentes. Toda esta realidade desencadeou dificuldades crescentes ao DT, visto que todo o concelho de turma procedia constantemente à apresentação de acusações de faltas de comportamento e assiduidade. Este problema que começou a assemelhar-se a uma “bola de neve” acabou por despertar um sentimento de desorientação ao DT, com todas as tentativas testadas nenhuma apresentava melhorias.
Enquanto estudante-estagiária, apenas presenciei uma reunião com o DT e encarregados de educação pelo facto da minha turma ser a direção de turma do professor cooperante (PC). Ao longo do ano letivo o PC teve o cuidado de nos manter sempre dentro de todo o trabalho exigido pela direção de turma, ao nível das decisões e documentos a realizar nas diferentes situações, como por exemplo, faltas disciplinares e excesso de faltas. Como responsável por articular o processo de ensino-aprendizagem com os restantes agentes educativos, o PC sempre nos incluiu na base de contactos da turma, disponibilizando-nos toda a informação que retratava as normas e meios de intervenção a adotar por todos. Foi também disponibilizada da sua parte, toda a informação da turma, de forma a conhecermos a sua realidade, quais os principais problemas e necessidades, assim como todo o enquadramento à volta do aluno e da turma. Sempre que realizadas reuniões de direção de turma, o PC teve sempre o cuidado de nos elucidar sobre o retratado, essencialmente a um nível mais administrativo e na elaboração de novos documentos de apoio ao aluno.