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Na introdução do livro Pascal: elogio do efêmero (2001), de Ben Rogers, Blaise Pascal é visto como um penetrante e subversivo crítico da tradição filosófica e é assim que também estendemos esse conceito ao escritor Machado de Assis, que, a seu modo, subverteu e criticou as relações humanas de seu tempo. Pascal é o primeiro ancestral do existencialismo, que é a filosofia da existência.
Na introdução do livro Pascal: ɶuvres complètes (1963, p. 10), escrita por Henri Gouhier, consta o seguinte trecho:
Trezentos anos após sua morte, o que impressiona na vida e no pensamento de Pascal, é que não é absolutamente necessário vesti-lo segundo a moda da atualidade para reconhecer nele um contemporâneo. Todavia, isso não é o feito dos ‘mestres’? Nós não temos que aproximá- los de nós: somos nós que devemos nos aproximar deles. Nenhuma necessidade de romancear a vida deles ou modernizar sua obra: sigamo- los em uma época que não é mais a nossa para descobrir sua atualidade permanente no meio e mesmo a favor da diferença.1 [tradução da
autora].
Blaise Pascal nasceu na cidade de Clermont, hoje Clermont-Ferrand, na Auvergne, França, no dia 19 de junho de 1623, e foi educado por seu pai Étienne, conselheiro eleito para o rei. Sua mãe se chamava Antoinette Begon. Pascal teve duas irmãs: Jacqueline Pascal, nascida em 5 de outubro de 1625, e Gilberte Pascal, nascida em 1º de janeiro de 1620. Em 1641, Gilberte se casaria com seu primo, Florin Périer, passando a se chamar Gilberte Périer.
Gilberte Périer, em seu texto La Vie de Monsieur Pascal, escreveu:
Entretanto, minha mãe, tendo falecido no ano de 1626 quando meu irmão tinha apenas três anos, meu pai, vendo-se sozinho, dedicou-se mais intensamente aos cuidados de sua família e, como ele não tinha outro filho além daquele, esta qualidade única de filho e os outros que ele reconhecia nesta criança lhe deram uma tão grande afeição que ele não conseguiu decidir transferir sua educação a um outro e decidiu a partir de então de ele mesmo instruí-lo como ele o fez, e meu irmão nunca tendo
1Trois cents après as mort, ce qui frappe dans la vie et dans la pensée de Pascal, c’est qu’il n’est nullement
nécessaire de l’habiller à la mode du jour pour reconnaître en lui un contemporain. Mais n’est-ce point le fait des «maîtres»? Nous n’avons pas à les rapprocher de nous: c’est nous qui devons nous approcher d’eux. Nul besoin de romancer leur vie ou de moderniser leur œuvre: suivons-les dans une époque qui n’est plus la nôtre pour découvrir leur permanente actualité au sein et même à la faveur de la différence.
estado em um colégio e nunca tendo tido outro mestre além de meu pai.2
[tradução da autora] (PASCAL, 1963, p. 18).
Em 1631, a família Pascal se mudou para Paris, onde Étienne e Blaise passaram a frequentar um círculo de filósofos e cientistas que sempre estavam com o padre Marin Mersenne. Pierre Gassendi, Thomas Hobbes (residindo na França nessa época) e René Descartes (residindo na Holanda) eram algumas pessoas do círculo.
Aos 16 anos, Pascal e sua família foram para a Normandia, onde, em Rouen, sua carreira científica tomou impulso. Ele pesquisou a geometria dos cones, bem como projetou e fabricou la pascaline, uma máquina de calcular. Procedeu a experiências através das quais demonstrou a existência do vácuo, fez um trabalho sobre pressão atmosférica que se relacionava com o que ele estudou sobre o vácuo.
Blaise Pascal e sua família foram convertidos ao jansenismo quando o pai de Pascal, no inverno de 1646, aos 58 anos de idade, quebrou o quadril quando escorregou e caiu em uma rua gelada de Rouen. O pai teve assistência de dois médicos jansenistas por três meses. Durante esse tempo, eles se tornaram amigos próximos da família. Esses médicos emprestaram livros sobre o jansenismo. Uma das obras era Discurso sobre a
reforma interior do homem, escrito por Jansenius. O filósofo fica impressionado com o
texto, que ele relê e, posteriormente, começa a ter atitudes religiosas que estão de acordo com as orientações jansenistas. Esta é a chamada primeira conversão de Pascal, que começou a escrever sobre temas teológicos no ano seguinte.
Para o jansenismo, a natureza humana é má e miserável, desprezível e egoísta, escrava dos instintos, com tendência para o mal. Para tanto, o ser humano, a fim de salvar- se, necessita ser socorrido pela graça. Pascal vai-se identificar com o jansenismo. Trocando em miúdos, a concepção jansenista e pascaliana do ser humano e do mundo é destituída de uma visão generosa e sã do universo. Pascal constata no ser humano incoerências e contradições trágicas e ressaltará o lado vil do ser humano. Ambos verão na natureza humana contradição, inconstância, tédio, inquietude. A teologia jansenista, que Pascal abraçou incondicionalmente, via a eficácia da graça da seguinte maneira: a
2Cependant, ma mère étant morte dès l’année 1626 lorsque mon frère n’avait que trois ans, mon père se
voyant seul s’applique plus fortement au soin de sa famille et, comme il n’avait point d’autre fils que celui-là, cette qualité de fils unique et les autres qu’il reconnassait en cet enfant lui donnèrent une si grande affection pour lui qu’il ne put se résoudre à commettre son éducation à un autre et se résolut dès lors de l’instruire lui-même comme il a fait, mon frère n’ayant jamais été en pas un collège et n’ayant jamais eu d’autre maître que mon père.
graça eficaz significa que o ser humano é incapaz de realizar boas ações, a menos que esteja sob a influência direta de Deus.
Segundo Goldmann, citado por Pondé em sua obra O Homem Insuficiente:
Comentários de Antropologia Pascaliana (2014, p. 153):
o jansenismo é um movimento que no século XVII francês representa a voz de toda uma classe social (a nobreza de toga) que, vivendo fora de seu ‘tempo’ político social, moral, afetivo e histórico (e religioso), elabora uma concepção de mundo – entendida como um conjunto de representações intelectuais que buscam dar unidade e coerência aos aspectos a que nos referimos imediatamente acima como descritivos da extemporaneidade jansenista – que por sua extemporaneidade entra em choque com o mundo à sua volta.
É válido esclarecer que, em outubro de 1661, surgiu uma problemática entre Pascal, os jansenistas e a Igreja. A questão refere-se ao fato de que Pascal se opôs ao posicionamento assumido pelo seu antigo grupo de amigos jansenistas, Arnauld, Nicole, Singlin e o Mestre de Sacy e mais sua irmã Gilberte e Florin, seu cunhado. Essas pessoas anteriormente haviam lutado para difundir as ideias de Jansenius. Contudo, para escaparem da condenação da Santa Sé, queriam assinar um formulário preparado pelo Papa em que condenariam o jansenismo e professariam a pureza de sua fé. Assinar o documento significaria negar tudo o que vinham praticando até então, em outras palavras, ir contra a doutrina da graça eficaz de Santo Agostinho. De agora em diante, Pascal se afastou dos jansenistas e se negou a assinar o formulário do Papa. Em outros termos, preferiu ir contra os companheiros e o formulário a contradizer a si mesmo.
Embora Pascal estivesse bastante dedicado a esse novo tipo de fé, ele continuou suas investigações científicas. Ao se mudar para Paris em 1647, prosseguiu com suas experiências sobre o vácuo. Após o falecimento do pai em 1651, Pascal passou a levar uma vida mais mundana. Foi quando ele conheceu os teóricos da honnêteté, ou da conduta de cavalheiros, de Antoine Gombaud, cavaleiro de Méré, e Damien Mitton. O interesse de Méré por jogos de azar faz com que Pascal passasse a estudar a teoria das probabilidades.
Em 23 de novembro de 1654, Pascal vivenciou uma conversão extática. Tal experiência mudou o destino pelo resto de sua vida e foi registrada em um pedaço de pergaminho encontrado em meio às suas vestimentas na sua morte. Será a partir desse dia que Pascal vivenciará uma virada religiosa, que demarcará sua maneira de pensar e agir
e lhe proporcionará uma nova maneira de encarar o sofrimento. O texto é conhecido pelo título de “Memorial”, em que Pascal, com palavras justapostas, frases e citações, repudia o Deus dos filósofos e acolhe o Deus da Bíblia, explicitando sua espiritualidade cristocêntrica, que permeia sua obra Pensées:
Ano da graça de 1654
Segunda-feira, 23 de novembro, dia de São Clemente, papa e mártir, e outros no Martirológio.
Véspera de São Chrysogonus, mártir, e outros.
A partir de cerca das dez e meia da noite até cerca de meia-noite e meia. Fogo.
Deus de Abraão, Deus de Isaac, Deus de Jacó, não dos filósofos e dos eruditos.
Certeza, certeza, sentimento, alegria, paz. Deus de Jesus Cristo.
Deum meum et deum vestrum. Teu Deus será meu Deus.
Esquecimento do mundo e de tudo menos de Deus. Ele só é encontrado pelas vias ensinadas pelo Evangelho. Grandeza da alma humana.
Pai justo, o mundo não te conheceu mas eu te conheci. Alegria, alegria, alegria, lágrimas de alegria.
Dele me separei.
Dereliquerunt me fontem aquae vivae. Meu Deus, abandonar-me ás?
Que eu jamais seja separado dele para sempre.
Esta é a vida eterna, que eles te conheçam, o único verdadeiro Deus e aquele que há enviado, J.C.
Jesus Cristo. Jesus Cristo.
Eu me separei dele, fugi dele, o renunciei, o crucifiquei Que eu jamais me separe dele.
Ele só pode ser conservado pelas vias ensinadas no Evangelho. Renúncia total e doce.
Submissão total a Jesus Cristo e a meu diretor.
Eternamente em alegria por um dia de esforço na terra.
Non obliviscar sermones tuos. Amen. (REALE; ANTISERI, 2017, p. 532)
A partir de então, Pascal fica sob orientação espiritual de Antoine Singlin, superior de Port-Royal. Port-Royal foi o centro do movimento do agostinismo católico francês, que se opunha ao otimismo dos jesuítas e à posição protestante. Os católicos de Port-
Royal enfatizavam a fraqueza e a corrupção do ser humano e sua necessidade de encontrar a salvação no autoabnegado amor de Deus.
Pascal faz vários retiros espirituais em Port-Royal des Champs, onde se juntou aos
solitaires (grupo formado por pessoas que vivem apartadas do mundo porque este é mau
e Deus é “escondido”. Em outros termos, há uma distância insuperável entre Deus e o homem-Deus. Não há Graça que o torne manifesto ao homem). Os solitaires eram um grupo formado por jovens bem-nascidos que levavam uma vida quase monástica de meditação, louvor e trabalho físico.
Em 1656, uma sobrinha de Pascal, de 12 anos e aluna interna em Port-Royal, obteve a cura “milagrosa” de uma úlcera ocular. Logo em seguida, Pascal começou a escrever um tratado sobre milagres, o qual parece ter-se transformado em projeto de apologia em larga escala da religião cristã. Em 1658, Pascal apresentou um esboço do trabalho a seus amigos em Port-Royal, mas em 1659, a saúde em franco declínio o impede de completar seu projeto.
Pascal teve uma saúde cronicamente frágil. Discorrendo mais amplamente e aqui com base em Thiago Calçado, em sua obra O sofrimento como redenção de si: doença e
vida nas filosofias de Nietzsche e Pascal (2012), na vida de Pascal, o sofrimento estava
presente. São palavras de Calçado: “Trata-se de vislumbrar, em toda sua história de vida, a presença sempre marcante e constante da dor, do ponto de vista psicológico à consumação da doença que o afligira significativamente durante toda existência, com um acento maior nos últimos anos de vida” (p. 105).
A dor que Pascal vivenciou era de caráter psíquico, afetivo, emocional e físico. Alguns autores, como a própria irmã do filósofo, Gilberte Périer, e Jacques Attali, nos falam desse padecimento, que vai influenciar seu pensamento.
Gilberte Périer, no mesmo texto em que foi transcrito um trecho sobre a morte da mãe de ambos, assim se referiu à doença de Pascal:
Meu pai tinha tanto prazer [em ensinar a Pascal o latim, o grego, a lógica, a física e outras partes da filosofia] que se pode acreditar em relação a este progresso que meu irmão fazia em todas as ciências; mas
ele não percebeu que estas grandes e contínuas zeloso para com o espírito em uma idade tão jovem podiam afetar bastante sua saúde e, de fato, ela começou a se alterar desde que ele [Pascal] atingiu a idade de 18 anos.3 [tradução da autora] (PASCAL, 1963, p. 19).
Calçado escreveu:
(...) Pascal pode ter herdado de sua mãe uma natureza fraca e doentia, além de um sistema nervoso abalado. (...)
Como era próprio do imaginário religioso da época, as enfermidades eram constantemente causadas por intervenções sobrenaturais, ligadas às inúmeras crenças presentes no cotidiano europeu no século XVII. Por mais que a revolução racionalista provocasse uma mudança considerável na forma como o ser humano seiscentista se relacionasse com o universo, as crendices e a religião ainda possuíam significativa interferência no imaginário coletivo e na sua relação com o corpo humano. (...) (CALÇADO, 2012, pp. 108-109).
No começo de 1659, quando o sofrimento atingiu o ápice, Pascal precisava achar um sentido para seu estado. Buscando as causas, como filósofo, escreveu Oração para
pedir a Deus o bom uso das doenças. Nas palavras de Calçado: “Trata-se da oração um
crente. Aqui, o filósofo e o cristão Pascal se encontram, sendo impossível dissociá-los” (p. 127):
Vós me destes a saúde para vos servir, e eu fiz dela um uso profano. Vós me enviais agora a doença para me corrigir: não permitais que eu a use para vos irritar pela minha impaciência. Usei mal minha saúde, e vós me punistes justamente por isso. Não sofrais que eu empregue mal vossa punição. E uma vez que a corrupção de minha natureza é tal, que ela me faz favores perniciosos, fazei, ó meu Deus, que vossa graça todo- poderosa me conceda vossos castigos saudáveis. Se eu tivesse tido o coração cheio da afeição do mundo durante o tempo em que ele teve algum vigor para minha saúde, suprimi este vigor para minha salvação, e tornai-me incapaz de usufruir do mundo, seja pela fraqueza do corpo, seja pelo zelo da caridade, para que eu possa usufruir apenas de vós.4
[tradução da autora] (PASCAL, 1963, p. 362).
3Mon père prenait un tel plaisir qu’on peut croire de ce progrès que mon frère faisait dans toutes les sciences ;
mais il ne s’aperçut pas que ces grandes et continuelles applications d’esprit dans un âge si tendre pouvaient beaucoup intéresser sa santé et en effet elle commença d’être altérée dès qu’il eût atteint l’âge de dix-huit ans.
4 Vous m’avez donné la santé pour vous servir, et j’en ai fait un usage tout profane. Vous m’envoyez
maintenant la maladie pour me corriger : ne permettez pas que j’en use pour vous irriter par mon impatience. J’ai mal usé de ma santé, et vous m’en avez justement puni. Ne souffrez pas que j’use mal de votre punition. Et puisque la corruption de ma nature est telle, qu’elle me rend vos faveurs pernicieuses, faites, ô mon Dieu, que votre grâce toute- puissante me rende vos châtiments salutaires. Si j’ai eu le cœur plein de l’affection du monde pendant qu’il a eu quelque
Pascal morre em 19 de agosto de 1662, aos 39 anos. É relevante reproduzir um trecho da biografia escrita por Marguerite Périer, sobrinha de Pascal, em que ela relata a causa da morte do filósofo:
Estômago e fígado alterados, intestinos gangrenados, sem que se possa ter julgado precisamente se tal fora a causa das dores das cólicas ou se efeito. Mas o que houve de mais especial foi a abertura da cabeça, descobrindo-se que o crânio não tinha nenhuma outra sutura além da sagital; o que aparentemente causara fortes dores de cabeça às quais ele esteve sujeito durante toda sua vida. É verdade que já tivera a sutura que se chamava fontanela. Mas, uma vez que esta ficou aberta por muito tempo durante sua infância, como acontece amiúde nessa idade, e não se fechou, formara-se um calo que a cobrira por inteiro, calo tão considerável que podia ser facilmente palpado. Quanto à sutura coronal, não havia vestígio algum dela. Os médicos observaram que havia prodigiosa abundância de miolos, cuja substância era tão sólida e condensada que os levou a considerar que, não se tendo fechado a fontanela, a natureza teria assim provido à compensação, motivo este ao qual se atribuiu particularmente sua morte e os últimos acidentes que a acompanharam; viu-se que, por dentro do crânio, em relação com os ventrículos do encéfalo, havia duas impressões, como se fossem de um dedo na cera, que estavam cheias de um sangue coagulado e corrompido que começara a avançar sobre a dura-máter. (PÉRIER apud CALÇADO, 2012, pp. 123-124).
Tendo vivenciado uma existência marcada pela enfermidade, que o submeteu a dores lancinantes, não há como negar que a doença teve uma forte influência no pensamento pascaliano.
É como Calçado escreveu: “(...): a relação entre a enfermidade e a religião, a afirmação da vida e o sentido teológico do sofrimento são temas centrais para a compreensão dessa temática” (2012, p. 19).
Em vez de se desviar do sofrimento, o filósofo preferiu encarar um sofrimento que se manifestava psíquica, afetiva e emocionalmente, acrescido da própria dor física. Coerente com sua fé, ele escreveu: “(...)Vós me destes a saúde para vos servir, e eu fiz dela um uso profano. Vós me enviais agora a doença para me corrigir: não permitais que eu a use para vos irritar pela minha impaciência. Usei mal minha saúde, e vós me punistes justamente.”
vigueur, anéantissez cette vigueur pour mon salut, et rendez-moi incapable de jouir du monde, soit par faiblesse de corps, soit par zèle de charité, pour ne jouir que de vous seul.