Water vapour concentration
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A metodologia utilizada nesta pesquisa foi uma abordagem qualitativa com utilização, também, de dados quantitativos. As abordagens qualitativas oportunizam uma aproximação entre sujeito e objeto no campo da subjetividade e simbolismo, podendo envolver as intenções, motivos dos projetos dos atores investigados a partir de ações, estruturas e relações que são significativas. Com uma postura dialética, buscou-se compreender o movimento sócio-histórico da realidade estudada, as relações das atividades humanas com seus significados, conceitos e motivações, entendendo o contexto em que acontecem e porque acontecem. Considerando que o conhecimento científico seria a interpretação da realidade e dos processos sociais a partir de uma teoria (MINAYO; SANCHES, 1993).
A pesquisa qualitativa é um campo de investigação que possibilita um trabalho interpretativo na interligação de abordagens, dados, imagens, documentos, falas, símbolos, etnicidade, gênero, classe social e demais aspectos que fazem parte do cenário, sendo um campo interdisciplinar e transdisciplinar que perpassa as ciências sociais, físicas e as humanidades, com ênfase sobre a qualidade das entidades, dos processos e significados que não são medidos experimentalmente (DENZIN; LINCOLN, 2010).
Como instrumento de pesquisa utilizou-se entrevistas semiestruturadas (Apêndices A e B), com um roteiro de perguntas previamente formuladas e, ocasionalmente, outras de formato livre, que possibilitou incrementar novos diálogos e abordagens de acordo com o relato de cada ator social, para a busca de informações que fossem de encontro aos objetivos da pesquisa, bem como no sentido de um enriquecimento das informações sobre o tema e que permitissem o bem estar do ator entrevistado. Além dos aspectos qualitativos como principais pontos do roteiro de entrevistas, também se buscou dados quantitativos, para que a pesquisa pudesse contemplar uma análise mais oportuna dos processos sociais inovativos dos atores que se queria investigar.
Segundo Minayo (1999), a entrevista é o procedimento mais usual no trabalho de campo, pois se insere no meio de fatos e relatos podendo-se, por meio dela, obter informações contidas na fala, com dados objetivos e subjetivos. As entrevistas foram realizadas principalmente de forma individual, exceto para três agricultores em que participou o casal, e outras duas entrevistas de agricultores foram feitas com mãe e filho, por serem estes atores que coordenam conjuntamente a atividade do leite orgânico nas duas respectivas unidades de produção familiar. A pesquisa foi realizada com nove agricultores, nomeados como A1 a A9,
e para oito técnicos, nomeados como T1 a T8, pois os sujeitos não desejaram ser identificados, somando um público de 17 entrevistados diretamente.
As entrevistas foram dirigidas no sentido de captar a fala dos atores sociais mais relevantes nos processos sociais de produção das novidades em torno do leite orgânico na REOC, considerando-se as dimensões da produção, mercados e formas organizativas. Aconteceram no sentido de buscar do entrevistado o que ele considerava mais importante, aspectos mais relevantes na descrição da situação do tema, para procurar saber o que, como e por que as novidades foram construídas e geradas, corroborando com Richardson (2008) sobre conhecer a opinião do entrevistado, motivações, atitudes e comportamentos.
O público entrevistado foi selecionado por amostra intencional e direcionada para conseguir experiências mais consolidadas e que estivessem produzindo novidades nas dimensões produtivas e nos mercados do leite orgânico, o que foi oportunizado na fase exploratória da pesquisa, ou seja, identificar estes atores sociais. Outro motivo foi o fato de a pesquisadora estar inserida neste meio, sendo parte da configuração regional pelo vínculo institucional da bolsa de extensão vinculada ao CNPq pelo projeto executado pelo IFSC (Instituto Federal de Santa Catarina) campus de São Miguel do Oeste, do NEA (Núcleo de Estudos em Agroecologia e Produção Orgânica) do Extremo Oeste de SC que desenvolve trabalhos, assessorias e pesquisas em produção orgânica. E, anteriormente de 2014 a 2017, por ter atuado em chamada pública de assistência técnica e extensão rural para a “Sustentabilidade na Cadeia Produtiva do Leite”, executado em alguns municípios da região Oeste e Extremo Oeste de SC, que oportunizou conhecer as famílias e técnicos de instituições ligadas à produção mais sustentável.
Para a pesquisa, buscou-se agricultores com mais tempo de produção de leite orgânico ou em fase de transição, mas que fizessem parte de um grupo de agricultores orgânicos, formal ou informal de princípio organizativo para a certificação. Identificados na interação com os mesmos através da extensão rural, via chamada pública, ou pelas atividades do projeto do NEA e da participação desses agricultores em cooperativas familiares e da Rede Ecovida de Agroecologia. Os quais ficaram representados como A1 a A9 nos trechos de entrevistas citados ao longo da dissertação, utilizados como evidências empíricas dos processos sociais analisados, especialmente nos Capítulo 4 e 5.
Os técnicos selecionados foram os que têm atuação com o contexto do leite orgânico, ou inicialmente sustentável, conforme o entendimento deles, no sistema de produção, nas cooperativas familiares, de empresas de Ater e ONGs, quais sejam: Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de SC (EPAGRI); Centro de Apoio e Promoção da
Agroecologia (CAPA); Cooperativa de Produtos da Agricultura Familiar e Economia Solidária (COOPERFLOR); Cooperativa Central da Agricultura Familiar e Economia Solidária (COPERCENTRAL); Instituto Federal de SC, campus de São Miguel do Oeste; Rede Ecovida de Agroecologia e certificação participativa e técnicos autônomos, identificados como T1 a T8, para os quais houve autorização das entidades para concessão das entrevistas (no caso daqueles que estavam de alguma forma representando sua instituição). Contudo, a pesquisa buscou mais compreender as ações e motivações dos técnicos do que as institucionais.
O público total de 17 atores sociais foi entrevistado em diferentes roteiros por se tratar de categorias sociais diferenciadas, sendo um roteiro para agricultores (Apêndice A) e um para técnicos (Apêndice B). Como ferramenta de investigação qualitativa foi utilizada a saturação amostral, definida com a suspensão de inclusão de novos participantes quando os dados obtidos passaram a apresentar, na avaliação da pesquisadora, redundância ou repetição (FONTANELLA; RICAS; TURATO, 2008). Assim, o número de entrevistados foi em função das respostas começarem a se tornar repetitivas, não havendo mais necessidade, para o momento, de incluir mais atores para a pesquisa em questão.
As entrevistas foram previamente agendadas com cada ator social, sendo realizadas, para o grupo de agricultores familiares prioritariamente em suas respectivas unidades de produção familiar, o que possibilitou que a pesquisadora obtivesse mais riqueza de detalhes, ao estar no ambiente de produção do leite orgânico e de vida dessas famílias. Somente duas entrevistas de agricultores foram realizadas na sua cooperativa, por escolha deles, contudo, as unidades de produção são conhecidas pela pesquisadora, pelo trabalho de campo que executa com extensão rural via projeto do CNPq/IFSC. Os agricultores entrevistados foram dos municípios de Descanso, Anchieta, Guarujá do Sul, São José do Cedro e Dionísio Cerqueira.
Para o grupo de técnicos, cada um escolheu o melhor local para conceder a entrevista, variando entre o local de trabalho, com agendamento e permissão da entidade, bem como em suas residências. Nesse sentido, a pesquisadora se deslocou para cada local de acordo com a preferência de cada técnico entrevistado. Os locais de entrevistas dos técnicos foram nos municípios de São Miguel do Oeste, Guarujá do Sul, São José do Cedro, Saltinho e Tunápolis.
Como forma de registro, as entrevistas foram gravadas com gravador de voz, ao mesmo tempo em que, paralelamente, foram feitas anotações em caderno de campo, sobre aspectos não contidos na fala, ou de grande relevância para a pesquisa, priorizando aspectos principais, observando e anotando falas e comportamento subjetivos, exceto para a coleta de
dados quantitativos, que foi gravada em parte, devido ao tempo excessivo que levaria a entrevista (com agricultores). Muitos dos principais dados foram obtidos dos documentos antigos e atuais das famílias e nos registros mantidos pela Rede Ecovida de Agroecologia do Núcleo Vale do Rio Uruguai, assim como nos registros internos das cooperativas, os quais foram acessados em vários momentos, não sendo possível a gravação nessas situações.
Após a aplicação das entrevistas, foi feita sua transcrição em meio eletrônico, para análise do conteúdo do comportamento dinâmico de cada variável e indicador arrolado na metodologia de pesquisa ante campo empírico (Apêndice C). Também foram feitas fotografias como recursos de registro, das áreas de produção de pastagens, dos animais, da agroindústria legalizada e certificada para o leite orgânico e do alimento derivado, o queijo colonial orgânico. Segundo Minayo (1999) as fotografias podem oportunizar o registro de situações que ilustram o momento e os locais vivenciados, como as pessoas, moradias, estrutura, ambiente, entre outros, assumido papel complementar.
Por ser uma pesquisa qualitativa, a análise dos dados é feita nos próximos capítulos com uma interpretação e análise múltipla, dos aspectos que tem relação com o tema da pesquisa, tendo um compromisso com a perspectiva e compreensão interpretativa da experiência humana, ao mesmo tempo que se mistura com posturas éticas e políticas, ou de valores, crenças pessoais e culturais (DENZIN; LINCOLN, 2010). A análise dos dados quantitativos se refere principalmente aos aspectos da produção nas unidades familiares, diversidade e quantidade, para dar mais noções interpretativas na história dos atores, volumes produzidos e comercializados, renda e os diversos aspectos que envolvem os tipos de novidades multidimensionais do leite orgânico, valores de recursos mobilizados, que enriquecem as abordagens qualitativas.
Nesse sentido, a pesquisa também teve base em documentos de fontes secundárias como documentos dos próprios agricultores, sendo planos de manejo e cadernos de campo, principalmente para quantificar os alimentos. Atas dos grupos de produção orgânica, registros da COOPERFLOR e da COOPERCENTRAL no que se refere a projetos acessados e agricultores acompanhados na produção orgânica e comercialização, número de cooperativas envolvidas na REOC e as ações em torno do leite. Registros e documentos do NEA como fotos das ações e registro de reuniões, boletins informativos das cooperativas e demais documentos da EPAGRI, CAPA, Ecovida e IFSC, e ainda os registros de certificação participativa, desde o início do processo. Assim também utilizou-se de outras fontes secundárias como IBGE e CEPA.
Os preços e valores utilizados na pesquisa são os relatados pelas famílias, ressalta-se que os valores de renda bruta anual das experiências investigadas no sistema anterior ao orgânico e no sistema orgânico, foram calculadas a partir do relato dos preços recebidos e das quantidades comercializadas. Das quantidades comercializadas e valores recebidos no sistema não orgânico (moderno), o preço final foi inflacionado para trazer à atualidade (2017), considerando como ano referência no sistema moderno o ano de 2010, atualizando para o ano de 2017, no qual se deu a pesquisa. A inflação neste período foi obtida pelos dados do Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), calculando-se a inflação acumulada entre 2010 e 2017, a qual ficou em 62,76%. Desse modo foi aplicada esta infalação aos preços do sistema moderno, para avaliar em 2017 o ganho real na renda bruta das famílias da pesquisa.
As entrevistas foram feitas de forma intercalada com agricultores e técnicos, de junho a setembro de 2017, ao mesmo tempo em que eram transcritas. Essa metodologia permitiu investigar e analisar as novidades em torno do leite orgânico, sejam nas práticas de produção, de acordo com o manejo de cada agricultor entrevistado, nas formas que este comercializa o leite, ou ainda nas formas de organização dos atores sociais envolvidos, bem como as novidades na construção do conhecimento de cada ator social entrevistado e na sua percepção. Qual o significado e o porquê desta ação diferenciada em torno da viabilidade do leite orgânico para agricultores, técnicos e agroindústrias, como surgem e acontecem as novidades.
3 REFERENCIAIS TEÓRICOS PARA A INVESTIGAÇÃO DAS NOVIDADES NA AGRICULTURA FAMILIAR DO EXTREMO OESTE DE SANTA CATARINA