O século XIX ganhou contornos mais nítidos e modernos. A iluminação pública virou uma realidade, se espalhando pelo globo aos poucos. A indústria elétrica “é uma consequência direta das investigações cientificas” (ORTIZ, R., 1991). Para Ortiz, R. (1991) o que se viu anterior ao dezenove foi uma primeira modernidade, associada à Revolução Industrial, e houve uma segunda, com um novo sistema técnico, que se prolongou no século XX, com uma modernização mais intensa, como a criação do automóvel, das telecomunicações, do cinema e posteriormente do avião.
Com este pensamento Ortiz, R. (1991, p. 28) pontua que “o progresso econômico passa necessariamente pelo progresso técnico; o progresso técnico só pode ser a passagem de
um sistema técnico para outro sistema técnico”. Logo, a passagem de uma era moderna para uma segunda, evidencia as diversas mudanças estruturais na sociedade. Sobretudo no período entre 1880 e 1914, mais conhecido como “Belle Époque”, sobretudo na França.
Neste momento este país se consolidou como uma sociedade tipicamente moderna. Um dos fatores que mais são percebidos numa comunidade dita moderna é a questão do tempo (da percepção espacial e temporal das mudanças e movimentos ocorridos em um lugar) (ORTIZ, R., 1991). Como por exemplo, o próprio automóvel, que no fim do século XIX, modificou a noção de velocidade, e criou uma nova agitação urbana e social.
A vida se acelera, as fronteiras se diluem, o indivíduo ganha terreno. O pensamento dialético moderno ganha fôlego. A estrada para o progresso comporta a todos, não ir em frente significa “estar fora da marcha da civilização” (ORTIZ, R., 1991). Novos contornos surgem, as sensibilidades se inflamam e o homem moderno olha os detalhes, as fissuras que o tempo lhe detalham, deixando brechas para novos olhares:
A modernidade coloca em andamento o indivíduo. Por isso vamos encontrá-lo como ator político, consumidor, viajante. No imaginário dos homens modernos o indivíduo ocupa um lugar de reverência; ele é o fulcro da ideologia liberal, o núcleo das estratégias publicitarias, o centro do narcisismo das modas e do consumo” (ORTIZ, R., 1991, p. 264).
O Tempo muda as rotinas. Com a inserção da iluminação nas fábricas e nas ruas o serviço aumenta. O funcionário percebe o lado obscuro das transformações sociais, enquanto o proprietário lucra, ele trabalha mais horas diariamente, a jornada aumenta (ORTIZ, R., 1991). A tarefa infantil aumenta, a mulher tem função dupla, tipicamente são “donas de casa” e funcionárias exploradas e mal remuneradas, pois, o pensamento comum da época as tratavam como seres inferiores, assim como também faziam às crianças.
A individualidade da cidade grande para Simmel (2005) se dá pela intensificação da vida nervosa, devido às alterações da rapidez com que a vida moderna traz para seus moradores. Antes os fregueses conheciam o verdadeiro produtor, o contato era necessário, as relações eram interligadas, com a produção capitalista de produção, o mercado muda e assim, seus contornos e estruturas. Desse modo:
O reajustamento do indivíduo impõe-se com maior razão as autoridades, que, no interior do espaço público, passa pouco a pouco do anonimato para relações de interconhecimento. A multidão cada vez mais densa e silenciosa que cobre a rua e perde sua teatralidade; dissolve-se em um agregado de pessoas com o pensamento absorvido por seus interesses privados. Compreende-se que a partir daí se purifiquem os processos de identificação e o controle social torne-se preciso (CORBIN, 1995, p. 429).
A individualidade acaba se transformando com a vida moderna, com a vida corrida, a industrialização constrói o tempo pessoal. Mas esse momento como diria Corbin (1995, p. 430) “autoriza a elaboração de uma história individual, condição para a identificação e para a comunicação autônoma”. Fomentando assim uma dispersão individualista.
Essa dispersão individualista proporcionou com isso, o interesse de uma “objetividade impiedosa, seus egoísmos econômicos que calculam como entendimento, não tem a temer nenhuma dispersão devida aos imponderáveis das relações pessoais” (CORBIN, 2005, p. 579). Nessa nova cidade, emerge a necessidade de atividades e relações que configurem um controle tanto dos meios de produção, quanto pelo tempo imposto e com isso sua percepção no caminhar do dia comum de cada um.
O tempo não só afeta a percepção da atividade, mas também do lazer. Lazer antes visto pelo pensamento burguês, sobretudo no Antigo Regime, como forma negativa, como ócio de classes inferiores, mas que com a modernidade, esse traço antigo, da vida cortesã, estabelece novas relações, que se moldam no tempo, para assim, serem vistos como oportunidade para diversão (ORTIZ, R., 1991).
O Lazer agora faz parte do cotidiano de fin-de-siècle. Com os transportes públicos, pode-se ir a lugares mais distantes. Com as lâmpadas elétricas nas ruas, surgem passeios noturnos. Essas modificações no lazer e na arte vão trazer, incorporar e modificar novas formas de entretenimento, fazendo surgir um público cada vez mais numeroso e interessado pelas novas atrações. Para Hobsbawm (2015) um fator importante para essas alterações foram as grandes migrações e um novo mercado gerado para lucrar sobre esse novo consumidor.
O teatro e os vaudevilles ganharam novos ares, o cinema, que surge nessa época, no final do século XIX, vai ganhando espaço e aos poucos toma o lugar de destaque, nada mais barra seu caminho, e se transforma na “invenção do século” (Hobsbawm, 2015). Observa-se uma alteração no público, a cultura erudita ganhou um novo oponente, a cultura popular, com criações artísticas originais, a indústria cultural surge no horizonte. Mais um aspecto importante é analisado por Rosenfeld (2002), ao declarar que:
Sob o prisma econômico e social, o cinema é um filho do capitalismo; foi este que ofereceu as condições necessárias para garantir o desenvolvimento cinematográfico nos seus aspectos materiais e, consequentemente, também artísticos; mas o mesmo sistema que tornou possível o filme como arte, impôs-lhe, simultaneamente, os seus métodos de produção (ROSENFELD, 2002, p. 64).
Para Bourdieu (1992), as produções dos intelectuais e artistas estavam controladas pela aristocracia e a igreja na Idade Média. Porém, houve um processo que permitiu uma autonomia por parte desses produtores. Dessas transformações se destaca a constituição de um público consumidor, que trouxe uma independência econômica, além da multiplicação e diversificação de instâncias que competiam por legitimidade cultural, como exemplo a academia e suas instâncias de propagação.
Pensamento esse, com rupturas entre o pensamento dos produtores “em liberar seus produtos de toda dependência social” (BOURDIEU, 1992, p. 101). Ou seja, “o processo para a constituição da arte enquanto tal”. Assim, a revolução industrial foi importante para a aceleração de uma afirmação de legitimidade artística, com as publicações impressas, pela literatura e o aumento do público, criando assim novas classes de leitores, também devido ao ensino elementar ser propagado em determinados locais, consequentemente gerando “o desenvolvimento do processo de produção de bens simbólicos” (BOURDIEU, 1992, p. 102).
Outro ponto importante é a quem se destinam esses bens simbólicos. Além desse desenvolvimento visto no decorrer dos anos, verifica-se o processo de quem irá consumir tais produtos, que tipo de público irar obter tal bem, ou seja, a formação das mercadorias e suas significações irá determinar o seu valor cultural. Ou seja:
No momento em que se constitui um mercado da obra de arte, os escritores e artistas tem a possibilidade de afirmar ao mesmo tempo, em suas práticas e nas representações que possuem de sua prática, a irredutibilidade da obra de arte ao estado simples de mercadoria, e também, a singularidade da condição intelectual e artística (BOURDIEU, 1992, p. 103).
Seu sentido e sua função são constituídos via de regra por um jogo pelo controle de bens simbólicos, quer sejam conscientes ou inconscientes para controlar a produção, reprodução e manipulação, bem como para se formar as tomadas de posição desses bens culturais (BOURDIEU, 1992).
Bens esses, oriundos da indústria cultural, que precisa de uma economia de mercado para se sustentar. Logo a indústria é produtora de uma cultura de massa. Essa reprodução em série, que se consolida no século XX, traz à tona um processo de reificação e alienação. Tudo acaba virando coisa, inclusive o próprio homem. Portanto “a cultura- feita em série, industrialmente, para o grande número – passa a ser vista não como instrumento de crítica e conhecimento, mas como produto trocável por dinheiro e que deve ser consumido como se consome qualquer outra coisa” (TEXEIRA, 1980, p. 11).
Nesta concepção a cultura se torna perecível, como um valor de troca, para quem a produziu. Produção essa consolidada com a mudança do capitalismo liberal para o monopolista, criando condições para a sociedade do consumo. Denota-se que todo produto acaba trazendo vestígios do sistema que o produziu, que no caso seria o capitalista, mas ficam invisíveis, só sendo descobertos ser forem submetidos a análises (TEXEIRA, 1980).
Logo, para que se possa analisar todo esse processo de dominação, legitimação, apropriação de bens simbólicos, suas relações e diferenças entre a cultura erudita e a tida como “média” ou popular, oriunda da indústria cultural, necessita-se de teorias, métodos e conceitos. Um debate amplo na qual não pretendo aprofundar, mas sim averiguar como esse processo de criação de um público de massa irá impactar no surgimento e na propagação do cinema.