Com a proclamação da República em 15 de novembro de 1989, o Rio de Janeiro se transformara em capital federal. No final do século, esta cidade era o principal porto de exportação e importação do Brasil, além de ser um dos mais importantes no continente americano, ficando atrás dos Estados Unidos e da Argentina. Era a vitrine do país para o mundo (SEVCENKO, 2012). Mas o Rio era assolado por doenças, devido ao pouco saneamento da cidade. Fora necessário fazer assim, algumas alterações para a sua reurbanização.
As principais modificações foram ampliar o porto, modernizá-lo nos moldes dos países desenvolvidos. Fazer um saneamento intenso na cidade e uma reforma urbana (SEVCENKO, 2012). Na época o então presidente Rodrigo Alves, deixou a cargo de três pessoas para resolver tais funções: Lauro Müller, engenheiro responsável pela reforma do porto; Oswaldo Cruz, sanitarista a cargo do saneamento e Pereira Passos, responsável pela reforma urbana, tendo visualizado as transformações ocorridas em Paris, iniciadas com o barão de Haussman. Segundo Sevcenko (2012), isso propiciou:
Um tempo mais acelerado, impulsionado por novos potenciais energéticos e tecnológicos, em que a exigência de acertar os ponteiros brasileiros com o relógio global suscitou a hegemonia de discursos técnicos, confiantes em representar a vitória inevitável do progresso e por isso dispostos a fazer valer a modernização „a qualquer custo‟ (SEVCENKO, 2012, p. 27).
Não só essas transformações foram sentidas como outras foram se sucedendo em pouco tempo. No começo do século XX, já se tinha notado o aumento nos padrões de consumo, uma ampliação da publicidade. Práticas esportivas, variado número de revistas, ilustrações, novas diversões, e segundo Sevcenko (2012) um dos acontecimentos mais importantes, “a popularização do cinema” (SEVCENKO, 2012, p. 37).
Outro ponto importante destacado por Sevcenko (2012) foi a de uma nova forma de estimulo sensorial ocasionado pelas imagens e da ampliação dos sons, devido aos aparelhos tecnológicos incluídos numa sociedade preponderantemente analfabeta. Logo, estas mudanças de forma intensa e rápida mexeram com o cotidiano das pessoas, as perturbaram,
confundiram, distorceram. A velocidade gerou possibilidades nunca antes vistas, o tempo já chegara aos passos da vida moderna, confuso e contraditório.
Nesses primeiros e rápidos passos da República a aceleração do tempo era vista em diversos lugares como, por exemplo, nos bondes. Para sua instalação eram necessárias várias obras de reurbanização, como ocorridas na Avenida Central, influenciadas pelos bulevares parisienses, oriundos da reforma urbana como já posto por Pereira Passos, sendo uma importante via do Rio de Janeiro. Para Sevcenko (2012):
A avenida, como se vê, operava como o principal índice simbólico da cidade, irradiando com suas fachadas de cristal e mármore, suas vitrines cintilantes, os modernos globos elétricos da iluminação pública, os faróis dos carros e o vestuário suntuoso dos transeuntes, mudanças profundas na estrutura da sociedade e cultura (SEVCENKO, 2012, p. 545).
Essa influência francesa não se dava só no sentido de modernizar e embelezar a cidade com fins progressistas, mas assim com o barão de Haussmann foi incumbido de fazer um projeto contrarrevolucionário, para dispersar bairros, protestos e reuniões da classe trabalhadora para com isso garantir a ordem e o progresso nos moldes elitistas. Com Pereira Passos isso também foi notado, já que com a busca pelo embelezamento, saúde e eficiência, a população afrodescendente e sua cultura eram vistos como ponto negativo para a modernização do Rio (NEEDELL, 1993). Logo, as dispersões para os morros ou subúrbios longe do centro se faziam necessárias e a força era indispensável. A mudança foi feita de forma autoritária e caótica.
Imagina como era para um transeunte passar por essas mudanças e perceber a agitação de uma cidade moderna? Diversos cronistas se puseram a tentar decifrar tais experiências, alguns tidos como os mais expressivos como Machado de Assis, João do Rio, Olavo Bilac, Lima Barreto e tantos outros. Alguns a favor dos ventos da modernidade, outros receosos. O principal lugar para suas opiniões era a crônica, herdeira do folhetim, um gênero literário cuja maior expressão era o registro de observações das transformações da cidade (PESAVENTO, 2002). Isso se deu graças ao desenvolvimento dos meios de comunicação que propiciaram o aumento do número de jornais e consequentemente deu maio espaço para crônicas e outras informações.
Logo, a cidade se torna o lugar de construção da modernidade. O Rio de Janeiro que já fora a capital do Reino Unido e passou a capital do império não era por acaso a porta de entrada de grande parte das ideias ou produtos que vinham da Europa. O pensamento de uma cidade ideal, moderna, foi totalmente influenciada pela França, uma cidade do desejo, que
seria Paris, e para se ter uma real era preciso copiar nos molde franceses. Assim quem iria para o Rio, durante a efervescência das mudanças, segundo Sevcenko (1989), ao chegar ao centro perceberia a vida agitada e “copiada” dos moldes franceses:
O importante na are central da cidade, era estar em dia com os menores detalhes do cotidiano do velho mundo e os navios europeus, principalmente franceses, não traziam apenas os figurinos, o mobiliário e as roupas, mas também as notícias sobre as peças e livros mais em voga, as escola filosóficas predominantes, o comportamento, o lazer, as estéticas e até doenças, tudo enfim que fosse consumível por uma sociedade altamente urbanizada e sedenta de modelos de prestigio (SEVCENKO, 1989, p. 36).
A modernização do Rio de Janeiro foi feita não só de forma a vislumbrar as inovações urbanísticas ou modernizar a vida na cidade, mas ocorreu de um jeito violento, para que se pudesse ser digna de ser vivida e vista, logo a pobreza, os cortiços e tudo que fosse visto como antiquado ou grotesco era posto a baixo (PESAVENTO, 2002). A elite carioca criou um processo de construção urbana e com ela a exclusão do povo majoritariamente miserável.
É nesse espirito de progresso e mudanças radicais contra os moldes tradicionais da velha sociedade, um embate forte e com várias controvérsias, que os primeiros aparelhos cinematográficos desembarcam de navios oriundos da Europa e chegam ao Brasil, e não por acaso no Rio de Janeiro. Nessa época o centro do país e lugar de grandes diversões e atrativos culturais como peças teatrais, operas, circos, jogatinas, presdigitadores4 e panoramas. Abre-se espaço para mais uma inovação tecnológica do tão encantado mundo moderno, o cinema.