Dentro dos limites deste estudo, selecionamos para a análise uma das ques- tões que se destacou na pesquisa, qual seja, a da mobilidade dos professores por meio do smartphone.
A comunicação móvel está no bojo das principais transformações ocor- ridas na sociedade nos últimos anos, e essa mobilidade foi intensificada com a miniaturização das tecnologias, a portabilidade, a convergência midiática e a conexão sem fio, promovendo o smartphone como principal referência quando se trata de comunicação e interação na rede via dispositivo móvel. (SILVA; COUTO, 2012)
Os professores enfatizaram que por meio do smartphone é possível man- ter-se constantemente conectado, viabilizando a agilidade no fluxo de co- municação e circulação de mensagens e informações, tornando esse proces- so mais dinâmico e instantâneo, por meio do acesso e compartilhamento em rede. Romper os limites temporais e espaciais e poder estar conectado em qualquer tempo e lugar são condições para viver integralmente a cultura digital.
O acesso ao ciberespaço, em qualquer lugar e horário, possibilita às pes- soas viverem na cultura da mobilidade, adquirindo novos hábitos de comu- nicação, de acesso à rede e de produção e compartilhamento de informações.
Não dá mais pra gente depender da rede com fio, ficar preso a um computador de mesa ou ao laboratório de informática da escola. Ai entra na rede, fica um tempo, faz umas coisinhas e sai. Não tem graça. A pessoa hoje precisa acessar a rede onde e quando quiser, o tempo que quiser, entendeu? Em casa, na rua ou na escola com meu smartphone eu estou sempre conectada. (ÉRICA)
Com isso, a mobilidade se destaca como uma das principais potencia- lidades do smartphone. Todos os entrevistados afirmaram ter adquirido o aparelho principalmente pela mobilidade. “Interagir e acessar a internet em
qualquer lugar e horário foi primordial, além de gostar de sempre acompanhar os avanços tecnológicos”. (CÁTIA)
Outra professora ressaltou:
O que acho bacana no smartphone é a mobilidade. Por mais que você tenha um note ou um net, você sempre vai ter o net e o celular nos seus pertences, e em algumas situações se tiver de escolher entre eles, sempre é melhor levar o smar- tphone, pois é mais leve e não precisa de tantas coisas para poder ligar, pois ele já está ali sempre ligado. (ÉRICA)
Se em outros tempos era preciso estar em determinado local, demarcado em um território fixo, para usar o telefone, computador ou ler jornal ou re- vista, agora é possível ter acesso ao ciberespaço, com infinitas possibilidades de comunicação e interação, até em movimento, ampliando e diversificando a forma das pessoas se comunicarem e obter informações. (SHIRKY, 2011) Foi a peculiaridade da tecnologia móvel que motivou Cátia a comprar seu
smartphone, pois “não tem que estar num lugar físico com o computador na sua frente para estar em contato com outras pessoas. Isso foi o que me motivou de ver- dade”.
A mobilidade trouxe novos hábitos de comunicação, que vão além da comunicação de voz. O uso da internet via smartphone já acontece entre os entrevistados. A prática de acessar o e-mail pelo dispositivo foi citada por todos os entrevistados como uma das ações, principalmente nos momentos de urgência, pela característica móvel do dispositivo estar sempre ao alcance das mãos. Como afirmou Érica:
Pode acontecer de estar num lugar que eu não tenha acesso nenhum à internet e o celular me propicia isso. Quando vou para outra cidade, que eu não levo o computador. E às vezes mesmo, como já aconteceu da internet em casa não fun- cionar e precisar enviar um e-mail de urgência, utilizei o smartphone.
Hábito desenvolvido por três entrevistadas depois de passarem a utilizar o smartphone para acessar a rede foi navegar em sites de banco: “Tenho feito
muita negociação pelo smartphone, pois muitas vezes precisava fazer alguma coisa no banco e não podia porque não tinha como fazer naquele horário. Agora com o smartphone acesso de qualquer lugar assim que tenho que fazer alguma coisa no
banco”. (SILVIA) O professor Dimas, que igualmente utiliza os serviços ban-
cários, informa que a ação é segura e prática:
[...] o banco cadastra seu número e isso dá uma segurança maior para a gente na hora de ver um extrato, fazer uma transferência ou pagar uma conta. Sem contar que não pago mais conta atrasada, pois com o smartphone posso pagar a conta em qualquer lugar, até mesmo quando estou trabalhando.
Os professores destacaram que o smartphone é um aparelho com muitas funções. E poder escolher o que fazer é mais um poder de sedução: “Se você
tem um smatphone todo dia encontra novidade. Tem mais gente conectada, têm os aplicativos, os jogos. Menina, é tanta coisa que a gente não desgruda”. (CÁTIA)
O uso de aplicativos foi citado pelos professores como um benefício ca- paz de baixar os custos elevados de acesso à rede, pois com os aplicativos instalados no aparelho é possível acessar conteúdo em muitos deles sem a necessidade de estar conectado. Observamos que só duas professoras utili- zam aplicativos, Cátia e Cláudia:
Já utilizei alguns aplicativos para a comunicação. Utilizei um que era através de mensagem, mas não era SMS, era um programa que você utiliza como se fosse MSN, só que ele abate da internet o valor, como se eu não estivesse usando a internet. E o outro que usava como se fosse radio, como é a Nextel hoje, tem um programa no smartphone que você faz esse mesmo tipo de comunicação, aperta o botãozinho, fala, a pessoa do outro lado ouve, te responde. (CLÁUDIA)
Os aplicativos inauguraram uma nova era para os celulares. De acordo com Matias (2011):
Vivemos uma era em que o celular não é mais só um aparelho para fazer ligações ou conectar-se à internet. Com programas específicos, ele se me- tamorfoseia em todo tipo de ferramenta. Há aplicativos para achar o car- ro no estacionamento, que traçam o percurso que você precisa percorrer para chegar a algum lugar, que diz quais constelações estão acima de sua cabeça, que convertem medidas e moedas, que permitem edição de fotos e vídeos, entre um sem-número de opções.
Os professores afirmaram que ainda estão aprendendo e desenvolvendo práticas de compartilhamento de informações. Alguns disseram que publi- cam pouco. Mas todos têm grandes expectativas em relação aos comentários que outras pessoas vão fazer sobre o que foi publicado. O prazer relatado
em ler os comentários também estimula cada um a comentar publicações de outras pessoas.
Toda informação que posta espera um comentário. Não é em vão deixar lá só por enfeite. A ideia não é essa, a ideia é que demonstre interesse, que as pessoas realmente entrem e compartilhem, que participem. E como gosto que comentem o que eu boto lá, eu também gosto de comentar o que os outros fazem.. (RUTI-
NALVA)
A cultura da participação, como destacou Shirky (2011), mescla motiva- ções pessoais e sociais, pois nossas redes de comunicação encorajam o com- partilhamento. Não por acaso, os hábitos de publicar e opinar, comentar, apreciar e dialogar com os outros se inserem animadamente em nossas vidas. De muitas maneiras, todos somos incentivados a expressar opiniões, expres- sar os nossos posicionamentos, gostos e preferências.
Os professores também relataram que usam o smartphone para trocar in- formações com colegas de trabalho, para discutir problemas da escola, se in- formar e organizar participação em assembleias de professores e participar de passeatas quando a categoria está em greve. “A gente usa o smartphone pra
mandar mensagens rápidas, fazer um comunicado ligeiro com os colegas. Se estou numa passeata, por exemplo, já vou logo tuitando pro povo ficar sabendo o que está acontecendo”. (DIMAS)
Mobilidade e organização social. Essas experiências se completam, pois na era da conexão permanente, temos, de acordo com Santaella (2007), duas palavras de ordem. A primeira é que tudo deve estar “disponível” em lingua- gem hipermidiática para ser acessado, modificado e distribuído. A segunda é que somos todos incentivados incessantemente a nos “expor”, por meio de infindáveis narrativas textuais, fotográficas e videográfica, as experiências individuais ou coletivas, pessoais ou pública que constroem a nossa vida nos agitos festivos das conexões.
Mesmo reconhecendo todas essas vantagens e tendo desenvolvidos esses hábitos, os entrevistados afirmaram que o uso do smartphone, com amplas possibilidades de comunicação, interação e acesso à rede, ainda é limitado. Os docentes que possuem maior habilidade para usar o dispositivo reconhe- cem que ainda estão interiorizando as vantagens da mobilidade e de todas as transformações promovidas na comunicação.
Esse uso é questão de cultura, não tem jeito. Mas assim como o torpedo que hoje já estamos habituados, um dia o smartphone também será mais bem utilizado, por exemplo, como vejo meus primos de 20 anos, eles praticamente não usam computadores, eles usam o smartphone. (ÉRICA)
A cultura da mobilidade desenvolve subjetividades, modos de ser. E tam- bém modifica a própria infraestrutura tecnológica, pois deixa pra trás apa- relhos que pouco tempo atrás eram considerados avançados. É o que escreve Matias (2011):
Houve um tempo em que dizia-se que o celular não era só um telefone móvel, mas também um dispositivo portátil de acesso à internet. Esse tempo já era. Estamos vivendo uma fase de transição que culmina com a extinção do computador pessoal. […] Fácil entender o porquê. Uma vez móvel, o aparelho ganhava qualidades impossíveis de serem aproveitadas num computador de mesa. Para começar, a mobilidade do aparelho per- mitia usar programas em que sua localização - e, portanto, de quem o usa - pudesse ter alguma utilidade. O mesmo pode ser dito aos sensores de movimento, que fazem o celular perceber se, por exemplo, você está o se- gurando com a tela na vertical ou horizontal. Una isso à câmera que filma e fotografa, microfone, sensores de luminosidade, a tela sensível ao toque e o fato de caber no bolso e, voilà, os programas de celular são muito me- lhores que seus companheiros dos velhos PCs.
Os professores também apontaram que a principal razão para os usos ainda limitados do smartphone é relacionada a um fator especial: a falta de tempo.
Parece simples, mas não é. Eu tenho acesso à internet a hora que quiser pelo smartphone, mas tem dias que nem consigo acessar. É muito trabalho, é muito cansaço. Às vezes não dá tempo ver e fazer nada. A tecnologia pode facilitar a vida, mas a vida é tão corrida que não dá tempo usar essa facilidade como eu gostaria. (CLAÚDIA)
Lidar com conteúdos em constante movimento de atualização, segundo Kenski (2013), é um desafio gigantesco para os docentes. É preciso tempo para a construção e organização de um tempo móvel, permeável, que ga- ranta a elasticidade para aprender o funcionamento dos dispositivos e suas muitas linguagens tecnológicas, assim como para experimentar e usar am- plamente seus diversos recursos. A autora defende que o tempo móvel do professor, quando usa a internet, se comunica com colegas ou alunos, des-
cobre materiais e prepara atividades pedagógicas, precisa ser considerado como atividade docente, deve entrar nos cálculos dos tempos do trabalho e da remuneração dos professores. Não pode ser um tempo a mais, aquele que supostamente corre por fora, porque todo o tempo móvel do docente acaba sendo meios e modos de preparação ou realização de trabalho. A cultura da mobilidade exige, portanto, uma profunda reformulação trabalhista. Não é mais possível considerar apenas as atividades de docência presencial quando vivemos cada vez mais conectados. A vida on-line pressupõe bem mais que a troca intensa de informações e saberes. Ela é, em si mesma, processos de ensino e aprendizagens, portanto, deve ser também “carga didática”.